David Cronenberg

Marcas da Violência, de David Cronenberg

O retorno de Tom Stall a Joey Cusack demora para se concretizar, ainda que, a certa altura de Marcas da Violência, fique claro que o primeiro já foi o segundo. Fala-se de retorno, mas talvez seja uma transformação: após tanto tempo na pele de Tom, pacato homem de família de uma pequena cidade americana, não há motivos para crer ser mais ninguém.

O que simboliza o retorno, ou a aceitação de suas raízes, está em uma das sequências finais do filme de David Cronenberg. É o momento em que o protagonista fica cara a cara com o irmão, o mafioso Richie Cusack (William Hurt), e encosta – não sem certa trava – a cabeça no outro, como se houvesse ali uma eterna ligação.

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O mero toque dá conta de resumir o que o público precisa saber sobre Tom, para encerrar de vez o mistério desse homem fechado, camaleônico: Joey é um demônio que o pai de família em questão tentou trancar em um porão, do qual diz ter se livrado após algum tempo no deserto, para depois vestir a máscara disponível, a de Tom.

Não tem jeito: em Cronenberg tudo retorna à carne, ao contato físico, ainda que o máquina seja aqui menos importante do que em outros filmes passados do diretor. Os carros e as armas estão por ali, mas incapazes de emergir com peso nessa pequena cidade americana, espaço que Tom escolheu para “matar” Joey, ainda que tenha falhado.

O outro retorna em momento-chave, quando Tom ataca dois criminosos que assaltam sua lanchonete, hora em que o comércio era fechado. Recorre, em reflexo, a Joey: golpeia a face de um bandido com a jarra de café, toma sua arma e atira no comparsa. Salva todos que estão por ali, funcionários e dois clientes. Torna-se herói.

A exposição à mídia faz com que os demônios de Tom retornem, a começar por Joey. Na mesma lanchonete, um mafioso de face desfigurada (Ed Harris) passa a chamá-lo pelo antigo nome. Falam em um “Joey louco”, alguém que gostava de matar. A lenda ataca o espectador, que assiste à súbita violência desse mesmo homem comum.

Em suma, os monstros retornam, como preconiza a filha do protagonista em sua primeira aparição, momento em que o público é lançado ao interior do lar da família: a menina de cachos louros acorda assustada e diz ter visto monstros em seu quarto. O pai é o primeiro a acolhê-la. Logo vem o outro filho (Ashton Holmes), também a mãe (Maria Bello).

A pequena cidade tem seu jeito acolhedor, seu policial velha guarda, seus garotos desbocados que vestem jaquetas do time de beisebol local. Tem a avenida na qual os jovens encontram-se para fazer coisa alguma, beber e tal. O filme reforça, sobretudo em ambientes fechados, o quanto essa velha América é idealizada: as luzes amarelas e o calor que transmitem oferecem um espaço quase irreal, contraponto à violência que vive da surpresa.

Pois antes de ser atacado pelos monstros do passado, Tom será pressionado pelo medo real, pela vida real que bate à porta de qualquer local, qualquer ponto de sua nação: não há uma cidade para se ver livre de tudo isso, dos criminosos, de suas armas, dessas pessoas que, diferentes de Tom, ou de Joey, não encontraram consciência alguma pelo deserto.

Marcas da Violência é um grande filme sobre aceitar o passado, as raízes, e perceber o quanto tudo isso, ora ou outra, expele o tampão sob o qual permaneceu guardado por algum tempo. Filme em que o desespero do homem ao revisitar seu monstro leva, em cena importante, ao sexo com a mulher na escada. A violência não está apenas do lado de fora, mas também na esfera íntima, na relação de amor entre o casal central.

Como Tom, ou Joey, ou ambos, Viggo Mortensen tem um grande momento. Sua insistência em negar o homem que deixou – que acreditava ter matado – não chega a ser mentira. Na verdade, tem a ver com crença. Ele apostou alto no lado bom das pessoas, na vida melhor, na paz, até o instante em que dois assassinos cruzam a porta de sua lanchonete.

(A History of Violence, David Cronenberg, 2005)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
A inspiração de Cronenberg

O Amante Duplo, de François Ozon

Sabe-se que do olhar da protagonista vem algo incerto, labiríntico, obscuro, e que do ventre que dói poderá nascer alguma coisa que não pareça humana em O Amante Duplo. Uma vida, é certo, será expelida, como a de um alienígena ou um monstro.

Em um filme sobre um irmão rejeitado, também sobre o conflito de irmãos, essa vida estranha que brota do ventre, que perfura a carne, será a representação perfeita do outro que renasce para ocupar seu lugar de direito. Da delicada Chloé vem o outro que não nasceu porque foi devorado por ela quando ambos dividiam o ventre da mãe.

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As camadas são representadas por reflexos. Espelhos surgem a todo momento. A moça multiplica-se, à medida que seu escolhido amante – depois namorado, depois futuro marido – ganha um irmão gêmeo. Dois homens diferentes sob a forma de um só: um deles é psiquiatra, o outro psicanalista, cada um em seu espaço, com suas manias, enquanto a protagonista – em visita a eles – busca a resposta para sua dor no ventre.

O primeiro é Paul, o segundo é Louis. Ambos são interpretados por Jérémie Renier. O primeiro usa óculos, tem o cabelo lançado à testa, apaixona-se pela menina que deveria tratar. Quebra a conduta ética que sua profissão exige, mas antes diz à mesma que não pode continuar com as sessões de terapia frente a frente, olho no olho.

De Paul ela retira um caso de amor, o sexo sem emoção tingido às sombras, nas noites em que encara seu gato ao mesmo tempo em que o amante deita-se sobre seu corpo. O olhar da protagonista diz muito sobre sua situação, seu íntimo: ao que parece, não sente prazer; ao que parece, aguarda o outro, o gêmeo que possa levá-la ao gozo, romper sua frigidez.

O outro, claro, é Louis, o gêmeo sedutor sem óculos, de cabelo ao alto, moderninho, que agarra a moça por trás e desliza uma das mãos – sem sensibilidade – à sua vagina, à cata de algo um pouco animal. Desenha-se o outro lado do homem que pode – e deve ser – o outro lado da menina: o duplo do amante, Louis, nada mais é que o seu duplo, irmã ou irmão que perdeu e que agora aflora em seu corpo, que no ventre bate à porta.

Talvez seja um irmão, o que explica a opção pelo cabelo curto (em uma sociedade que explora sinais para diferenciar seus gêneros). E, na contramão do sexo comportado que antes praticava com Paul, ela resolve assumir, na relação, papel ativo, usando um vibrador para satisfazer o mesmo amante, que por sinal se deixa levar.

Para matar o outro que tenta tomar seu lugar, irmão que carrega no ventre, Chloé precisa matar um de seus amantes. Um fornece-lhe a relação esperada, o outro o sexo selvagem, o inesperado. Sem surpresas, boa parte do filme de François Ozon, a partir do livro de Joyce Carol Oates, é a representação do que ocorre na mente da protagonista, seus delírios e desejos. Suas passagens pelas exposições de arte, no museu em que trabalha, resumem seus estados, como os pilares brancos que se metamorfoseiam em troncos de árvore.

O filme de Ozon, já se disse, tem algo de Gêmeos – Mórbida Semelhança, de Cronenberg, no qual as personagens entram em processo de fusão. Em O Amante Duplo, a protagonista interpretada pela bela Marine Vacth procura uma médica para tentar se curar das dores no ventre. Em sequência curiosa, a imagem de sua vagina funde-se à de seu olho, movimento entre a invasão e a expulsão, entre o interno e o externo.

Vacth é misteriosa, um pouco frágil, nunca dominadora em excesso. Dá mais pistas do que no filme que fez antes com Ozon, Jovem e Bela, no qual interpretava uma prostituta. Ela encara seu gato ou a projeção do gêmeo do companheiro enquanto faz sexo. Seu olhar penetrante reproduz medo, incerteza, espera: é a causadora e a vítima dessa intriga, menina atacada pela gêmea(o) que ainda carrega, que a segue, que não se reduz ao feto.

(L’amant double, François Ozon, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Jovem e Bela, de François Ozon

Os 100 melhores filmes dos anos 90

Há um filme ou mesmo uma cena capaz de definir uma década? Nos anos 90, há Pulp Fiction e a sequência de dança de John Travolta e Uma Thurman. Ou uma cadeira de rodas em chamas, a circular o Cristo invertido, em plena Guerra da Bósnia, em Underground – Mentiras de Guerra. Ou a chuva sobre Tim Robbins, enfim livre, em Um Sonho de Liberdade. Ou um homem com a perna levantada, prestes a dar um passo, ultrapassar uma fronteira, em O Passo Suspenso da Cegonha.

Há, ao longo de dez anos, uma coleção de momentos marcantes. Nos anos 90 não é diferente: é a década de Tarantino, do retorno triunfal de Robert Altman e Terrence Malick, da revelação do cinema iraniano ao mundo todo, como também a do mestre polonês Kieslowski (que logo morreria). A década do movimento Dogma 95 e da revelação dos orientais Tsai Ming-liang, Jia Zhangke e Naomi Kawase. Não restam dúvidas sobre a grandeza da década, como confirma a lista abaixo.

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100) Temporada de Caça, de Paul Schrader

99) Amateur, de Hal Hartley

98) Contato, de Robert Zemeckis

97) O Paciente Inglês, de Anthony Minghella

96) Uma Garota Solitária, de Benoît Jacquot

95) Despedida em Las Vegas, de Mike Figgis

94) Além da Linha Vermelha, de Terrence Malick

93) Depois da Vida, de Hirokazu Kore-eda

92) Bom Trabalho, de Claire Denis

91) Magnólia, de Paul Thomas Anderson

90) Baraka, de Ron Fricke

89) Ghost in the Shell: O Fantasma do Futuro, de Mamoru Oshii

88) E a Vida Continua, de Abbas Kiarostami

87) Medo e Delírio, de Terry Gilliam

86) Dois Córregos – Verdades Submersas no Tempo, de Carlos Reichenbach

85) Xiao Wu – Um Artista Batedor de Carteira, de Jia Zhangke

84) A Estrada Perdida, de David Lynch

83) O Ferrão da Morte, de Kôhei Oguri

82) Quando Tudo Começa, de Bertrand Tavernier

81) Cidade das Sombras, de Alex Proyas

80) Maridos e Esposas, de Woody Allen

79) O Passo Suspenso da Cegonha, de Theodoros Angelopoulos

78) Mal do Século, de Todd Haynes

77) Videogramas de uma Revolução, de Harun Farocki e Andrei Ujica

76) Exótica, de Atom Egoyan

75) A Isca, de Bertrand Tavernier

74) Leolo, de Jean-Claude Lauzon

73) O Sucesso a Qualquer Preço, de James Foley

72) eXistenZ, de David Cronenberg

71) O Vício, de Abel Ferrara

70) Festa de Família, de Thomas Vinterberg

69) Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

68) Fogo Contra Fogo, de Michael Mann

67) A Igualdade é Branca, de Krzysztof Kieslowski

66) Felicidade, de Todd Solondz

65) Violência Gratuita, de Michael Haneke

64) Vive L’Amour, de Tsai Ming-liang

63) Violento e Profano, de Gary Oldman

62) Sonatine, de Takeshi Kitano

61) De Olhos Bem Fechados, de Stanley Kubrick

60) Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

59) Um Homem Com Duas Vidas, de Jaco Van Dormael

58) Mistérios e Paixões, de David Cronenberg

57) Suzaku, de Naomi Kawase

56) Central do Brasil, de Walter Salles

55) À Beira da Loucura, de John Carpenter

54) Conto de Inverno, de Eric Rohmer

53) Alma Corsária, de Carlos Reichenbach

52) Forrest Gump – O Contador de Histórias, de Robert Zemeckis

51) Todas as Coisas São Belas, de Bo Widerberg

50) A Eternidade e um Dia, de Theodoros Angelopoulos

49) Segredos e Mentiras, de Mike Leigh

48) JFK – A Pergunta que Não Quer Calar, de Oliver Stone

47) Água Fria, de Olivier Assayas

46) Tudo Sobre Minha Mãe, de Pedro Almodóvar

45) Vale Abraão, de Manoel de Oliveira

44) O Processo do Desejo, de Marco Bellocchio

43) O Espelho, de Jafar Panahi

42) O Pagamento Final, de Brian De Palma

41) Felizes Juntos, de Wong Kar-Wai

40) Los Angeles – Cidade Proibida, de Curtis Hanson

39) A Garota da Fábrica de Caixas de Fósforo, de Aki Kaurismäki

38) Corvos, de Dorota Kedzierzawska

37) Flores de Xangai, de Hou Hsiao-Hsien

36) Rosetta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne

35) Mulheres Diabólicas, de Claude Chabrol

34) O Sonho Azul, de Tian Zhuangzhuang

33) Os Imorais, de Stephen Frears

32) Lanternas Vermelhas, de Zhang Yimou

31) Um Sonho de Liberdade, de Frank Darabont

30) O Rei de Nova York, de Abel Ferrara

29) Fargo, de Joel Coen

28) Ondas do Destino, de Lars Von Trier

27) Adeus ao Sul, de Hou Hsiao-Hsien

26) Vício Frenético, de Abel Ferrara

25) Basquete Blues, de Steve James

24) A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski

23) A Lista de Schindler, de Steven Spielberg

22) Sátántangó, de Béla Tarr

21) O Tempo Redescoberto, de Raoul Ruiz

20) Um Olhar a Cada Dia, de Theodoros Angelopoulos

19) Naked, de Mike Leigh

18) A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

17) O Fim de um Longo Dia, de Terence Davies

16) Amores Expressos, de Wong Kar-Wai

15) Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

14) O Jogador, de Robert Altman

13) Van Gogh, de Maurice Pialat

12) O Piano, de Jane Campion

11) Os Imperdoáveis, de Clint Eastwood

10) O Silêncio dos Inocentes, de Jonathan Demme

A jovem Clarice Starling é colocada para investigar os ataques de um assassino em série e, para solucionar o caso, vê-se envolvida com outro assassino, o temido Hannibal Lecter. Assustador e hipnótico, quase não deixa retomar o fôlego. Vencedor de cinco Oscar.

9) Close-Up, de Abbas Kiarostami

Homem passa-se por um diretor de cinema, o conhecido Mohsen Makhmalbaf, em história baseada em caso real. O mestre Kiarostami convida o verdadeiro impostor a reviver o caso, em mais um grande filme iraniano que retorna o foco para o próprio cinema.

8) Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino

Cães de Aluguel foi apenas a antessala para esse filme explosivo e original, que valeu a seu jovem diretor – cuja trajetória mítica ora ou outra aponta ao balconista de vídeo-locadora – a Palma de Ouro no Festival de Cannes. Violento, rápido e embalado por uma narrativa não linear.

7) A Fraternidade é Vermelha, de Krzysztof Kieslowski

A terceira e melhor parte da incrível Trilogia das Cores. É também o último filme de seu diretor, que morreria pouco depois. Na trama, uma modelo atropela um cão. Em sua busca pelo dono, ela termina na casa de um juiz ranzinza que tem o hábito de espionar os próprios vizinhos.

6) Os Bons Companheiros, de Martin Scorsese

Talvez seja a última obra-prima de Scorsese. Um de seus filmes mais completos, no qual se lança em terreno que conhece bem: a máfia. Tem Ray Liotta no papel do jovem apaixonado pelo mundo do crime, De Niro à vontade como um chefão e assassino, além do demoníaco Joe Pesci.

5) Um Dia Quente de Verão, de Edward Yang

Um filme sobre a memória, sobre um grupo de jovens envolvidos com gangues, mas também descobrindo o primeiro amor. Yang faz um belo retrato da juventude sem esquecer as dores familiares. Um dos pontos altos é a sequência da chacina noturna, filmada com pouca luz.

4) A Bela Intrigante, de Jacques Rivette

O que procura todo artista? A obra perfeita? A necessidade de dividi-la com o público? Rivette questiona tudo isso na relação de um pintor com sua musa. É também um filme sobre o corpo, sobre a criação artística, com longas cenas nas quais a câmera limita-se a captar o tempo.

3) Short Cuts – Cenas da Vida, de Robert Altman

Mais uma vez debruçado sobre uma penca de personagens, Altman entrega um filme com vidas cruzadas. Começa com helicópteros fazendo uma pulverização sobre Los Angeles e termina com um terremoto. Mistura comédia à tragédia a partir das histórias de Raymond Carver.

2) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

O terceiro filme de uma trilogia iniciada com Onde Fica a Casa do Meu Amigo? e cuja parte do meio é E a Vida Continua. Em cena, um rapaz tenta se declarar e se aproximar da mulher que ama durante a realização de um filme. É a única oportunidade para revelar seus sentimentos.

1) Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

Pode-se esperar qualquer coisa de Cronenberg, menos um universo de pessoas normais, ou próximas a isso. Em Crash, sua obra-prima, ele une com perfeição o universo do desejo carnal à tara pela velocidade, pelo risco, pela morte. Em cena, um rapaz vê-se enredado a um grupo que tem como prazer a reconstituição de famosos acidentes de carro e o risco que oferecem. Carne e máquina, ao gosto de Cronenberg.

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Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

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O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

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O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

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O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

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Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

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Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

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O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

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Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

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Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

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Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

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Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

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Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

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Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

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A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

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Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

clube da luta

Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

cidade dos sonhos

Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

adaptação

O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

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O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

viva a liberdade

O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

birdman

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