Damián Szifrón

13 filmes que demolem os bons modos da sociedade

Trágicos e, em alguns casos, cômicos, os filmes abaixo descortinam – para emprestar a metáfora visual de Buñuel em O Discreto Charme da Burguesia – o palco no qual vivem os seres em questão, humanos aparentemente bondosos e educados. Aos poucos, eles revelam-se malvados, desbocados, selvagens e acabam quebrando o decoro que rege o meio. São 13, mas poderiam ser mais. Muito mais.

Amantes, de Louis Malle

Na época o filme causou certo escândalo, fez de sua heroína, Jeanne Moreau, um dos símbolos da libertação sexual da década de 50, ao lado de musas como Brigitte Bardot. Ela, uma mulher rica em um casamento entediante, decide embarcar em aventuras sexuais. Aos poucos, Malle desmonta certa imagem intocada dos ricaços em questão.

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A Presa, de Nagisa Oshima

O cineasta japonês fez uma dezena de filmes cruéis sobre personagens no limite, entre crimes, estupros e suicídios. Neste caso, um trabalho ambientado na época da Segunda Guerra, quando os moradores de um vilarejo tornam um homem negro e estrangeiro refém. Precisam então decidir o que fazer com ele, à medida que a selvageria aflora.

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O Anjo Exterminador, de Luis Buñuel

Os criados vão embora antes do início do jantar. Deixam os patrões sozinhos com seus convidados. O que deveria durar pouco se estende: os ricos convidados dessa celebração não conseguem escapar do castelo. Aos poucos se convertem à animalidade antes estranha e precisam apelar às mais diversas situações para sobreviver e talvez escapar.

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A Caça, de Carlos Saura

O que deveria ser um dia de caça como qualquer outro se transforma em um inferno. O ambiente árido é palco para a viagem de quatro amigos, que foram ao local caçar coelhos. Não se dão conta do perigo de portar armas e da possibilidade de dispararem contra o próximo. É sobre o desejo de poder, em plena Espanha de Franco.

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Teorema, de Pier Paolo Pasolini

De olhar enigmático, Terence Stamp é o anjo sedutor que passa a viver entre uma família aparentemente perfeita e, aos poucos, seduz seus membros: o pai, a mãe e os filhos. Interessante notar que talvez essa personagem não seja má nem boa. Oferece apenas a transformação. É um dos trabalhos mais famosos do polêmico diretor.

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O Conformista, de Bernardo Bertolucci

Um fascista sem alma é convocado pelo regime de Mussolini para matar seu antigo professor, que está em Paris na companhia de sua bela (e livre) mulher. Ele não apenas se vê impotente como incapaz de lidar com seus desejos. Obra-prima do diretor italiano, a partir do livro de Moravia, sobre um homem levado pela multidão.

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O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Buñuel

Por ter se dedicado a demolir os bons modos da sociedade, sobretudo a burguesa e religiosa, o mestre espanhol merece mais um filme nesta lista. Aqui, mostra como um grupo de pessoas da alta sociedade sempre fracassa ao tentar concretizar uma refeição. Fica entre o cômico e o absurdo, e às vezes até mesmo com toques de horror.

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Filme Demência, de Carlos Reichenbach

O protagonista é Fausto, aqui em versão nacional, em uma viagem externa e interna entre seus sonhos e a metrópole imunda, São Paulo. Empresário falido que perdeu a fábrica de cigarros que era de seu pai, homem sem esperança que procura entre as mulheres algum alívio e é guiado pelo demônio – justamente ele – ao paraíso.

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Na Companhia de Homens, de Neil LaBute

Dois executivos, em viagem a trabalho, querem machucar alguém. Ambos perderam as namoradas e resolvem maltratar o sexo oposto. Não se trata de uma vingança contra qualquer mulher, mas contra todas. Representantes da classe de engravatados dos anos 90, eles escolhem uma datilógrafa bela e muda para seduzirem e depois descartarem.

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Felicidade, de Todd Solondz

Um grupo composto por diferentes tipos: o pedófilo à frente de uma família supostamente feliz, o rapaz que faz estranhas ligações telefônicas e busca sexo passageiro, a escritora que deseja ser estuprada para entender o crime, a vizinha solitária que se revela assassina. Toda uma sociedade “bela” pouco a pouco demolida.

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Festa de Família, de Thomas Vinterberg

O cineasta já se dedicou outras vezes ao mal-estar na sociedade, como em Submarino e em A Caça, mas nunca de maneira tão mordaz quanto em Festa de Família, ainda seu melhor longa-metragem. O cenário não poderia ser mais conveniente: a festa para celebrar um patriarca, na qual verdades sobre seu passado vêm à tona – e à mesa.

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Beleza Americana, de Sam Mendes

Homem traído pela mulher resolve mudar de vida: larga o emprego para viver como vivia em sua juventude, volta a malhar e compra o carro de seus sonhos – quando era jovem. Mas o custo da “bela vida” logo bate à porta: o vizinho militar e homofóbico e, sobretudo, seu filho, que vende drogas e passa a namorar a filha do protagonista.

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Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

São seis relatos, ou contos, que expõem o ser humano no limite, justamente à beira da selvageria. O avião que é guiado por um louco, a garçonete que decide se vingar de seu cliente, a noiva que descobre – no dia do casamento – a traição do noivo, entre outros. Mais um caso em que os bons modos são demolidos em tom abertamente cômico.

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As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

Por muito tempo, comédias têm sido associadas apenas a filmes que fazem rir. Ou que fazem rir em excesso a partir de gestos físicos e piadas fáceis. Há também a ideia de que a comédia não pertence ao plano real: vale rir de tudo, claro, pois tudo é assumidamente falso. Tais ideias, em certa medida, ligam-se à forma americana de fazer comédia, que legou o pastelão, a screwball, a comédia física que não se faz mais.

Mas a comédia vai além: a constatação do absurdo, até o espectador corar, também é fazer comédia. Absurdo que tem inegável dívida com a realidade, e que pode ser tão cruel, tão estranhamente atual, que o espectador não tem gargalhadas, mas o leve sorriso de canto de boca. A constatação do sarcasmo. E talvez deixe o cinema até um pouco triste, em alguns casos com a certeza de ter assistido a um gênero nobre. (Observação: a lista abaixo é puramente pessoal.)

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50) Frank, de Lenny Abrahamson

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49) Trapaça, de David O. Russell

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48) O que Resta do Tempo, de Elia Suleiman

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47) Meia-Noite em Paris, de Woody Allen

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46) O Palácio Francês, de Bertrand Tavernier

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45) Além do Arco-Íris, de Agnès Jaoui

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44) Casamento Silencioso, de Horatiu Malaele

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43) Soul Kitchen, de Fatih Akin

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42) Minhas Tardes com Margueritte, de Jean Becker

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41) Contos da Era Dourada, de vários diretores

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40) Tangerina, de Sean Baker

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39) Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, de Helena Ignez e Ícaro C. Martins

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38) Mistress America, de Noah Baumbach

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37) Moonrise Kingdom, de Wes Anderson

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36) Tudo Pode dar Certo, de Woody Allen

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35) Eu, Mamãe e os Meninos, de Guillaume Gallienne

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34) Vocês, os Vivos, de Roy Andersson

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33) Nebraska, de Alexander Payne

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32) Rainha & País, de John Boorman

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31) Dois Caras Legais, de Shane Black

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30) Um Conto Chinês, de Sebastián Borensztein

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29) Marguerite, de Xavier Giannoli

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28) Na Mira do Chefe, de Martin McDonagh

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27) Café Society, de Woody Allen

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26) Queime Depois de Ler, de Ethan Coen e Joel Coen

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25) O Lagosta, de Yorgos Lanthimos

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24) O Grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson

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23) Ela, de Spike Jonze

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22) Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

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21) Vício Inerente, de Paul Thomas Anderson

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20) O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

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19) A Grande Aposta, de Adam McKay

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18) O Porto, de Aki Kaurismäki

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17) Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

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16) Em Outro País, de Hong Sang-soo

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15) Frances Ha, de Noah Baumbach

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14) Blue Jasmine, de Woody Allen

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13) Amor & Amizade, de Whit Stillman

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12) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

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11) Ervas Daninhas, de Alain Resnais

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10) O Artista, de Michel Hazanavicius

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9) Força Maior, de Ruben Östlund

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8) Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência, de Roy Andersson

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7) Toni Erdmann, de Maren Ade

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6) Chatô, O Rei do Brasil, de Guilherme Fontes

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5) O Pequeno Quinquin, de Bruno Dumont

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4) O Homem ao Lado, de Mariano Cohn e Gastón Duprat

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3) Sieranevada, de Cristi Puiu

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2) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

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1) Habemus Papam, de Nanni Moretti

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Os 20 melhores filmes de 2014

Fazer listas é sempre uma dificuldade. Ver todos os filmes que estrearam no Brasil, em 2014, ainda mais. Ou simplesmente impossível. Fontes indicam que estrearam mais de 300 filmes, quase sete por semana. Claro que alguns são descartáveis, e outros sumiram tão rápido quanto chegaram. O fato é que, para ver um número relevante deles, é necessário peregrinar, escolher bem. No fim, valeu a pena.

Difícil, também, é chegar a 20 e perceber que muitos filmes ficaram para trás. Vale lembrar alguns: Jersey Boys: Em Busca da Música, Dias de Pesca, A Imagem que Falta, Uma Família em Tóquio, Amar, Beber e Cantar, Uma Relação Delicada, entre outros. Em todo caso, prevaleceu a sétima arte. E que venha 2015!

20) O Congresso Futurista, de Ari Folman

O futuro do cinema como nunca antes se viu, pelo diretor de Valsa com Bashir. Mescla atores à animação e o resultado é poderoso.

o congresso futurista

19) Oslo, 31 de Agosto, de Joachim Trier

Caminhada difícil, cheia de reflexão, de desejo de desistir ou mesmo de aceitar ser o que é, sem máscaras. O protagonista aceita tudo isso. E encontra seu alívio.

oslo 31 de agosto

18) Garota Exemplar, de David Fincher

Mais do que o conflito entre homem e mulher, é sobre a sociedade de aparências, sobre o culto à menina desejável, à esposa perfeita.

garota exemplar

17) Bem-Vindo a Nova York, de Abel Ferrara

Ferrara gosta de incomodar. A história, claro, remete ao caso Strauss-Kahn. Em cena, Depardieu está à vontade: sem roupa, um verdadeiro animal em ternos caros.

bem-vindo a nova york

16) Ela, de Spike Jonze

Apesar do futuro, das estranhezas, não deixa de ser sobre gente comum, como se Theodore fosse não o futuro de todos, mas o presente próximo.

ela

15) Saint Laurent, de Bertrand Bonello

Não é sobre a vida do famoso estilista, do nascimento à morte. É sobre exageros, com uma das cenas insuportáveis do ano, quando um cão morre após ingerir remédios.

saint laurent

14) Vidas ao Vento, de Hayao Miyazaki

Ao abordar os males do progresso, Miyazaki revisita o difícil período do Japão durante a guerra – além dos amores prováveis e do desejo em sobreviver à natureza.

vidas ao vento

13) Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

A acidez do roteiro, com personagens que quase não se importam em parecer selvagens, deu vez a um dos filmes mais divertidos dos últimos anos.

relatos selvagens

12) O Gebo e a Sombra, de Manoel de Oliveira

A câmera não se movimenta em mais um incrível trabalho do centenário Oliveira. Em cena, as opções contrárias de pai e filho, mundos que se confrontam.

o gebo e a sombra

11) Sob a Pele, de Jonathan Glazer

A humanidade e seus vícios, suas besteiras e animalidades pelos olhos de uma alienígena. Aqui, Scarlett Johansson tem talvez a melhor interpretação de sua carreira.

sob a pele

10) O Abutre, de Dan Gilroy

Com características de Kirk Douglas em A Montanha dos Sete Abutres, Jake Gyllenhaal é capaz de tudo para conseguir suas imagens: mover corpos, esconder evidências, matar.

o abutre

9) O Lobo Atrás da Porta, de Fernando Coimbra

Nesse filme de periferia, de “gente comum”, nada é o que parece. O pai desesperado talvez seja um lobo, a megera talvez seja uma vítima. Embaralham-se.

o lobo atrás da porta

8) Instinto Materno, de Calin Peter Netzer

Mais uma prova de que o cinema romeno está entre os melhores do mundo na atualidade. E, de quebra, com a atuação espetacular de Luminita Gheorghiu.

instinto materno

7) Inside Llewyn Davis – Balada de um Homem Comum, de Ethan e Joel Coen

O músico pouco conhecido dos Coen vaga pelo frio, ao lado de seres estranhos, e com um gato – ou mais – nesse filme magnífico.

Inside Llewyn Davis

6) Ventos de Agosto, de Gabriel Mascaro

A dificuldade de se aproximar – e amar – esse cinema faz pensar na relação com a obra de Weerasethakul. Não à toa, gerou opiniões extremas entre a crítica.

ventos

5) Boyhood – Da Infância à Juventude, de Richard Linklater

O cinema como registro da vida, da formação, sem se preocupar com grandes firulas dramáticas, tampouco sendo documentário (no sentido claro do gênero).

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4) O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer

A verdade é contata por linhas tortas, estranhas: as atrocidades cometidas no passado, na Indonésia, são revividas nos filmes dentro do filme. Porrada.

o ato de matar

3) O Lobo de Wall Street, de Martin Scorsese

O melhor Scorsese desde Os Bons Companheiros. E isso não é pouco. Aqui, ele conta a história de um homem capaz de tudo para enriquecer, enquanto ri até do espectador.

o lobo de wall street

2) Ida, de Pawel Pawlikowski

O fim também leva ao começo: a noviça segue seu caminho, após descobrir algumas coisas da vida nesse extraordinário filme de Pawlikowski.

ida

1) Era Uma Vez em Nova York, de James Gray

Em uma carreira de cinco filmes, James Gray consagrou-se autor. Suas obras abordam relações de estrangeiros na América – ou estrangeiros em seus próprios países, mafiosos, homens da lei. Nelas, os extremos tocam-se. Os maus nem sempre são o que parecem. Pais e filhos têm seus problemas, homens sofrem de amor. É como se o cinema sempre olhasse ao passado, sem medo de se repetir, ao mesmo tempo íntimo e épico.

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Não encontrou seu filme favorito de 2014? Não se preocupe: listas são sempre pessoais e, aos olhos alheios, sempre imperfeitas. Deixe seu recado, com seu filme favorito do ano que acabou de acabar.

Relatos Selvagens, de Damián Szifrón

As seis histórias de Relatos Selvagens evocam situações vistas em outros filmes: um grupo de pessoas com um inimigo em comum, o reencontro da vítima com o algoz, a briga de homens no trânsito, a difícil luta contra o sistema, o rapaz rico que atropela inocentes e a festa de casamento que se transforma em confusão.

Cada uma das partes, contudo, subverte o esperado. E, em cada uma, as personagens apelam sempre à violência, forma como as pessoas resolvem seus problemas em tempos de civilidade como propaganda.

relatos selvagens

Os créditos mostram animais. Ainda antes, no primeiro episódio, uma bela mulher lê uma revista com a foto de animais selvagens.

O diretor Damián Szifrón expõe esse universo no qual os bons modos dão vez à suposta selvageria. O que se vê são relatos, pequenas partes, momentos decisivos: aquele ponto em que brotam as atitudes extremas ou o mal calculado.

Para cada parte, vale ressaltar, há objetos do mundo moderno, sinais que tranquilizam e geram conforto. Contudo, ora ou outra deixam de ser: o avião não é mais seguro, o grande e blindado veículo não pode salvar o executivo, tampouco o casamento parece ser o ritual que prova o amor entre duas pessoas.

Nesse terreno de belas pessoas com a selvageria aflorada, sobressai-se mais o cálculo que o instinto. Não são apenas animais. E o filme cresce, sobretudo, quando se vê – às vezes de forma apressada – a elaboração da vingança.

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Planeja-se, por exemplo, a morte de pessoas em um avião, a morte de um mafioso por envenenamento em um restaurante, uma explosão em um estacionamento de guinchos, a liberdade para o jovem criminoso que atropelou inocentes – no primeiro, segundo, quarto e quinto episódios, respectivamente.

Para Szifrón, a situação esperada é apenas o ponto de partida para os calculistas revelarem-se: o motor do mal neste indigerível mundo moderno.

Ainda assim, banhado ao humor negro, é difícil não rir da comédia ácida: a todo o momento, o espectador é testado, o que prova quase sempre o poder do texto, também o da direção. O primeiro episódio, por exemplo, tem toques de Buñuel.

No episódio do atropelamento, o pai deseja pagar 500 mil dólares para que seu caseiro assuma a culpa do filho pela morte de uma mulher grávida – situação parecida àquela explorada no drama 3 Macacos, de Ceylan.

A certa altura, outros envolvidos nesse plano também começam a cobrar o preço para ocultar o crime, incluindo o fiel advogado da família. O pai e pagador, então, percebe que tudo ficará caro demais – e até mesmo o simples caseiro, homem de aparência modesta, aparece para cobrar um pouco mais.

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Nesse caso, tudo está à venda. O animal revelado é da pior espécie: o predador que sobrevive em seu terno e gravata, que não aceita se despir com facilidade, cuja mulher também está disposta a qualquer coisa para proteger o filho criminoso.

O mais irônico é que talvez nem todo o dinheiro do mundo esteja disponível para salvar aquele filho inconsequente. A negociação toma outro rumo: o pai e pagador muda as regras do jogo, e seus “capangas” terão de se contentar com a quantia menor.

Após episódios incríveis e outros menos inspirados, o capítulo final é talvez o mais engraçado, em uma festa de casamento em que nada dá certo. Ou na qual nada pode dar certo para que o casal encontre seu jeito de se acertar. Em Relatos Selvagens, esse episódio destoa: seu encerramento é feito de sexo, não de violência.

Aos animais, dois traços definidores. O público, ao fim, fica com os pedaços do bolo, entre sujeira e sangue: o rastro de descontrole de gente supostamente civilizada.

Nota: ★★★★☆