Cristian Mungiu

Bacalaureat, de Cristian Mungiu

O poder cede espaço à impotência o tempo todo. Em cena, um pai que pouco a pouco percebe não ter controle sobre a filha, tampouco sobre outros seres e situações que o rodeiam. Bacalaureat, do romeno Cristian Mungiu, elege essa personagem para todas as suas cenas: um homem com humanidade e imperfeições, batalhador e às vezes corrupto.

Para a filha, Romeo (Adrian Titieni) deseja os acertos a seus próprios erros. A história passada – no caso, a sua – pouco a pouco ganha destaque. Na companhia da mulher, ele retornou à Romênia no início dos anos 90, após o fim do regime socialista e a morte de Nicolae Ceaușescu. A promessa do renascimento da nação, ao que parece, ruiu.

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Para a filha, portanto, Romeo deseja uma universidade na Inglaterra, a ascensão que a menina merece. Mungiu põe em questão o olhar do pai, do qual não se duvida quando se trata de boas intenções: é o velho gesto de lançar ao herdeiro tudo o que não conseguiu conquistar, ainda que o rebento nem sempre queira para si os planos já traçados.

No caso de Romeo, fica claro que nem tudo o que pretende à bela e silenciosa filha, Eliza (Maria-Victoria Dragus), deverá se concretizar. O filme é sobre um homem contra diversos obstáculos, em poucos dias, e que descobre não ter poder para mudar o rumo das coisas.

O talentoso Mungiu volta a insuflar o tempo a favor da incerteza, ou mesmo do pavor. O resultado chega às raias do desespero perante os minutos ou horas seguintes. Tudo é uma questão de tempo, à medida que ao espectador é dado o homem preso a seu cotidiano, às pequenas ou grandes falcatruas, tão cheio de amor que gera pena.

Personagem difícil que tem contra si a filha indiferente, pouco seduzida pela ideia de viver em outro país, na companhia de um jovem em sua moto, um convite à aventura adolescente; ou a mulher (Lia Bugnar) que sofre no cômodo ao lado, de quem já se vê separado, e que ameaça ir embora com a menina e começar nova vida.

Há ainda a amante (Malina Manovici) e seu filho pequeno. Outra vida possível – ainda que pouco diferente – ao protagonista, médico acima do peso que enfrenta dias decisivos: a novidade na bela mulher que, no fundo, não representa novidade alguma. Nesse conjunto de provas e tropeços, Romeo termina desmascarado.

E não se trata de encontrar o diferente, a surpresa, mas de evidenciar a perturbação que o primeiro quadro antecipa: a pedra que quebra o vidro da casa, logo pela manhã, como representação de um universo que encontra seu rompimento à base de um pai que tenta acertar em tudo – corrompendo-se para tanto – e termina sem sucesso.

A exemplo de outros filmes romenos recentes, como Instinto Materno, em Bacalaureat as personagens apelam à corrupção cotidiana para resolver seus problemas. Apelam não raro ao dinheiro, enquanto pequenas situações, instantes alongados ao máximo, insuportáveis, deixam ver humanismo apesar de tantas distorções.

Romeo adere a favores e acertos com gente poderosa para que a filha, vítima de uma tentativa de estupro, consiga ser aprovada em um teste e ganhe a sonhada bolsa (ao pai) para estudar fora do país. O sonho de estar fora, de ascender socialmente, depende das ações que se voltam àquele país de aspecto antigo, no qual a vida de todos – sobretudo a de Romeo, guia ao espectador – pouco ou nada parece ter mudado.

(Idem, Cristian Mungiu, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Dez grandes filmes (há dez anos)

Alguns grandes filmes chegavam às telas do Brasil e do mundo há aproximadamente 10 anos. Inegável que 2007 foi um ano desigual ao cinema moderno, levando em conta o número de trabalhos memoráveis. Os dez preferidos do blog seguem abaixo, em ranking, para recordar a frase que virou clichê: “parece que foi ontem”. À lista.

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10) Sol Secreto, de Lee Chang-dong

Após perder o filho pequeno, mulher descobre a bondade da religião, mas confronta Deus ao perceber que o criminoso recebeu a absolvição divina. O diretor coreano é um dos mais talentosos de sua geração e, sem concessões, revela nos filmes o cotidiano de pessoas que tentam encontrar alguma fuga e invariavelmente fracassam.

9) Desejo e Perigo, de Ang Lee

As cenas de sexo são impactantes, ainda que o filme ultrapasse o limite do prazer. As personagens sentem algo a mais. E o fundo político ajuda no resultado, quando a China via-se sob dominação japonesa. Na trama, uma jovem revolucionária (Wei Tang) infiltra-se no universo de prazeres do “inimigo”, um político poderoso.

8) Zodíaco, de David Fincher

Quem esperar por respostas e pela revelação do assassino pode se frustar. O resultado é o melhor filme do cineasta, com condução segura, elenco afiado e ótima reprodução de época. Aborda a paranoia, a dificuldade de um cartunista (Jake Gyllenhaal) em se afastar da teia de assassinatos ligada ao tal Zodíaco.

7) O Escafandro e a Borboleta, de Julian Schnabel

Preso ao próprio corpo, Jean-Dominique Bauby (Mathieu Amalric) revisita sua vida, a de um homem mulherengo tomado pelo desejo de liberdade, até o dia que se vê imóvel. Sua forma de comunicação resume-se a uma pálpebra, forma que encontra para dizer o que sente, para escapar daquele escafandro ao qual foi confinado.

6) Santiago, de João Moreira Salles

A história do mordomo Santiago, que trabalhou por 30 anos para a família do cineasta e que, na grande casa em que viveram, viu desfilar figuras importantes da história. Também o retorno, pelos olhos do mesmo, ao cinema, de Fred Astaire a Yasujiro Ozu. Obra de redescoberta, verdadeiro tesouro que quase se perdeu.

5) Luz Silenciosa, de Carlos Reygadas

A abertura, com sua calmaria rumo à luz, explica um pouco do que vem pela frente. Em cena está um homem da comunidade menonita mexicana. Vive isolada com a família, com pouco contato com o mundo externo, a recusar o progresso. Tudo muda quando ele envolve-se com outra mulher. Belo filme com ecos de Dreyer.

4) Jogo de Cena, de Eduardo Coutinho

O diretor brasileiro leva diferentes atrizes e mulheres à frente da câmera para uma entrevista, enquanto deixa ver o difícil ato de ouvir, de dialogar. Não se trata, é verdade, de uma verdadeira entrevista, e nem tudo é real como se imagina. A certa altura, mulheres podem ser atrizes, atrizes podem estar falando de si mesmas.

3) Onde os Fracos Não Têm Vez, de Joel e Ethan Coen

Longe do filme policial esperado, ou do faroeste de fronteira regado a combates entre mocinhos e bandidos, índios e brancos. O caminho é imprevisível, sobretudo, a partir da metade: alguns homens correm atrás de uma mala cheia de dinheiro enquanto um xerife, perto de se aposentar, lamenta a mudança dos tempos.

2) 4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias, de Cristian Mungiu

A contagem regressiva do título traduz a corrida contra o tempo de duas moças na Romênia ainda à sombra de Nicolae Ceaușescu e da Cortina de Ferro. Uma delas recorre ao aborto clandestino, a outra decide ajudar a amiga. O cinema romeno chega à sua consagração, com a Palma de Ouro em Cannes, com esse drama feminino e poderoso.

1) Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson

O título nacional refere-se ao petróleo. O original é também instigante: Haverá Sangue. Em cena, a cobiça de um homem, o vilão interpretado por Daniel Day-Lewis, a quem nada é mais importante que o poder, nem mesmo o filho pequeno. Com fotografia em tons escuros, o americano Paul Thomas Anderson realiza seu melhor trabalho.

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12 bons filmes recentes que criticam diferentes religiões

As religiões e seus abusos não saem da mira do cinema. Filmes sobre o estado do mundo sob o extremismo religioso são lançados todos os anos. Ainda que alguns voltem ao passado, continuam tristemente atuais. Abaixo, um apanhado recente com diretores variados e talentosos como Michael Haneke e Pablo Larraín.

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O Pecado de Hadewijch, de Bruno Dumont

Dumont não costuma fazer concessões. Seu filme é forte, sobre uma personagem que vive em extremos, estudante de teologia que ama Deus e a quem é dado o passe para viver fora do convento. Ao conhecer rapazes muçulmanos, na França, ela envolve-se em uma teia perigosa.

A Fita Branca, de Michael Haneke

Passa-se em uma vila, uma sociedade fechada, sob a extraordinária fotografia em preto e branco. Nos dias que antecedem a Primeira Guerra Mundial, tudo remete à maldade – não a de um, mas a do grupo. O vilão é o próprio mal nesse filme que termina no interior de uma igreja.

Habemus Papam, de Nanni Moretti

Bela comédia sobre o homem por trás do grande líder religioso da Igreja Católica, o papa. Aqui, o novo homem a desempenhar o papel, a acenar à multidão, não deseja o ofício. Para descobrir a si mesmo, ele sai às ruas da Itália e se vê enredado, de novo, pelo teatro. Brilhante e engraçado.

Fora de Satã, de Bruno Dumont

Dumont, de novo. O cineasta gosta dos ambientes rurais, de “outra” França. A menina em questão é Alexandra Lemâtre, um pouco masculina, na companhia de um rapaz mais velho. Nessa jornada, eles cometem crimes enquanto tentam se aproximar de Deus.

Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

O romeno Mungiu leva ao ambiente frio, isolado, onde está um monastério. Duas meninas, uma relação estranha que inclui o desejo físico. Uma delas está presa ao local, a outra tenta libertá-la. Dor, silêncios, o sentimento da passagem do tempo.

Calvário, de John Michael McDonagh

Brendan Gleeson brilha no papel de um padre ameaçado de morte durante uma confissão. Enquanto ele vaga entre os fiéis de seu rebanho, descobre mais sobre a sociedade ao redor. Não se trata de um filme sobre revelar o assassino, mas sobre lidar com o mal.

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Filme pesado sobre uma menina que se desintegra pouco a pouco, em 14 atos em que se vê tomada pela religiosidade. Em cena, a pequena Maria (Lea van Acken) reproduz os passos de Cristo. O diretor Brüggemann executa seus 14 atos com longos planos-sequência, sem cortes.

O Novíssimo Testamento, de Jaco Van Dormael

Deus é um homem mau e desleixado que agride a mulher e maltrata a humanidade. Certo dia, sua filha escapa ao mundo real e passa a convocar novos apóstolos. É quando o mesmo Deus (Benoît Poelvoorde) sai em sua busca e tenta fazer com que tudo volte a ser como antes.

O Clube, de Pablo Larraín

Esse grande filme de Larraín mostra o cotidiano de alguns padres excluídos da vida social, em um “clube” à beira-mar. São padres pedófilos que ainda convivem sob os ecos de seus pecados, com seus próprios conflitos, ora ou outra perseguidos pelos erros do passado.

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

O título refere-se à cidade do Mali, na qual extremistas islâmicos tomam o poder e impõem suas próprias regras. Impedem as pessoas de ouvir música, de se casar com quem desejam, além da vigia constante. Sissako traça um panorama triste do extremismo que resiste na África.

Spotlight, de Tom McCarthy

Outro filme recente sobre pedofilia. Os padres, criminosos, pouco são vistos. O que interessa à câmera de McCarthy é o trabalho dos jornalistas do Boston Globe, que descobrem as histórias obscuras envolvendo os líderes religiosos – e a força da igreja para tentar escondê-las.

Agnus Dei, de Anne Fontaine

Após o fim da Segunda Guerra Mundial, uma jovem médica (Lou de Laâge) da Cruz Vermelha termina em um convento no qual as freiras estão grávidas, após serem abusadas por nazistas e soviéticos. O problema é que nem todas desejam revelar os crimes.

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20 grandes filmes que abordam a religiosidade

No cinema, a fé nem sempre move montanhas. Há casos em que ela só traz desgraças, ainda mais em filmes com tom crítico, sobre fanatismo e intolerância. Por outro lado, a fé pode levar diferentes personagens, em diferentes séculos, a estranhas descobertas, à constatação de que o mundo é maior – e mais material – do que parece.

Sem dúvida, mundo estranho, a abarcar diferentes posições religiosas, toneladas de incompreensão e, felizmente, a arte como resposta, como reflexão sobre esses diferentes olhares – aos quais a lista abaixo, com filmes variados, pretende apontar.

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Narciso Negro, de Michael Powell e Emeric Pressburger

Em ambiente afastado, à beira do abismo, freiras confrontam outra cultura e seus próprios desejos nessa obra-prima feita com a mágica fotografia de Jack Cardiff.

narciso negro

Domínio de Bárbaros, de John Ford

A personagem de Henry Fonda é o padre perseguido por um totalitário governo mexicano, enquanto Ford extrai grandes sequências e os sinais da absolvição do herói.

domínio de bárbaros

O Diário de Pároco da Aldeia, de Robert Bresson

Quanto mais próximo das pessoas, mais o padre ao centro do filme de Bresson levanta questões sobre a existência e até mesmo sobre sua própria vocação.

diário de um pároco da aldeia

A Palavra, de Carl Theodor Dreyer

Um dos membros de uma família do campo acredita ser Cristo e, para o susto de seus irmãos e pai, diz palavras fortes e talvez veja o inimaginável na obra de Dreyer.

a palavra

A Harpa da Birmânia, de Kon Ichikawa

Após não convencer um grupo de soldados sobre a derrota do Japão na Segunda Guerra, harpista do exército vê a morte e converte-se em monge nesse belo drama.

a harpa da birmania

Léon Morin, o Padre, de Jean-Pierre Melville

Em tempos de guerra, o padre de Belmondo atrai o olhar das mulheres. Uma delas, ateia, não encontra respostas na Igreja e passa a se encontrar com esse padre.

leon morin

Luz de Inverno, de Ingmar Bergman

Os tempos de incerteza, de bombas nucleares, não deixam respostas: o pastor de uma igreja entra em crise de fé ao não conseguir reconfortar um fiel de seu rebanho.

luz de inverno

O Evangelho Segundo São Mateus, de Pier Paolo Pasolini

O melhor filme já feito sobre Cristo. Pasolini, ateu e homossexual, dizia não ser religioso e que a tônica de sua obra estava mais na poesia do que na busca da realidade.

o evangelho segundo são mateus

Simão do Deserto, de Luis Buñuel

Outra crítica do diretor espanhol – autor do “Sou ateu, graças a Deus” – à Igreja, ao abordar a história de um eremita tentado pelo Diabo e suas formas inesperadas.

simon do deserto

Andrei Rublev, de Andrei Tarkovski

É sobre o famoso pintor do século 15 e suas andanças pelo mundo, suas dúvidas sobre a religiosidade e seus encontros com situações impensadas. Grande obra de Tarkovski.

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A Grande Testemunha, de Robert Bresson

Todo filme de Bresson toca a religiosidade. Nesse caso, acompanha-se o burrinho, animal inocente que cruza a vida de diferentes pessoas, do nascimento à morte.

a grande testemunha

O Homem que Não Vendeu Sua Alma, de Fred Zinnemann

Inglaterra, século 16. Sem abandonar seus princípios religiosos, o pensador Thomas More não aceita o novo casamento do rei Henrique 8º, o que o leva à prisão.

o homem que não vendeu sua alma

Irmão Sol, Irmã Lua, de Franco Zeffirelli

A história de São Francisco de Assis, que passa da vida rica à condição de pobreza, depois ao encontro com o papa. Um dos filmes mais famosos de Zeffirelli.

irmão sol irmã lua

Sob o Sol de Satã, de Maurice Pialat

O vencedor da Palma de Ouro de Pialat inclui o caminhar de um padre que, no desfecho, chega a tentar o milagre para salvar a vida de uma criança.

sob o sol de satã

Ondas do Destino, de Lars Von Trier

A busca por satisfazer os desejos do marido inválido transforma uma mulher ingênua e religiosa em vítima dos ortodoxos de sua igreja nesse belo filme de Von Trier.

ondas do destino

Maria, de Abel Ferrara

Um homem que trabalha em um canal de televisão não consegue se comunicar com Deus; em paralelo, uma atriz interpreta Maria, mãe de Cristo, e se transforma.

maria

A Fita Branca, de Michael Haneke

À beira da Primeira Guerra Mundial, pequena comunidade religiosa passa a sofrer com estranhos casos de violência enquanto alguns se questionam sobre a origem do mal.

a fita branca

Homens e Deuses, de Xavier Beauvois

Caso real passado na Argélia, sobre o massacre de monges franceses que tentaram resistir à presença de grupos armados que ameaçavam atacar a região.

homens e deuses

Além das Montanhas, de Cristian Mungiu

Amigas reencontram-se na Romênia, onde uma delas vive a clausura de um monastério. Tudo muda quando o padre local acredita que uma das moças está possuída.

além das montanhas

14 Estações de Maria, de Dietrich Brüggemann

Em 14 episódios, a via-crúcis de uma garota: os ensinamentos do padre, a intolerância da mãe, a culpa por desejar um garoto e a “crucificação” para salvar o outro.

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