crime

Garota Exemplar, de David Fincher

A frieza de Nick Dunne é o primeiro obstáculo ao espectador de Garota Exemplar. Sua maneira de lidar com a situação, ao não se emocionar, ao aparentar suposta indiferença: o espectador tem, até certo ponto, motivos para desconfiar dele. Do outro lado, as lembranças de sua mulher desaparecida oferecem o oposto: a impressão de se conhecê-la.

Outro engano nesse grande filme de David Fincher. Por sinal, um engano maior: Amy Dunne – molde para uma personagem infantil chamada “Incrível Amy” – declara, aos poucos, suas dores, medos, receios ao espectador. E este, ainda ingênuo, acredita que sabe muito sobre ela. Crê que pode, ao contrário de Nick, abrir seu crânio para sacar seu íntimo.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Há filmes em que os espectadores sabem mais que as personagens. Há também aqueles em que ambos estão no mesmo ponto, ou seja, nos quais as descobertas são compartilhadas. Garota Exemplar coloca-se em um terceiro grupo, talvez mais raro: um filme em que suas personagens sabem mais que o espectador.

Nesse terceiro reino vê-se o inesperado, espaço perfeito para vilões ou anti-heróis, para esconderijos e uma falsa sociedade bela. Chega-se, por sua vez, à ideia de Fincher a partir do roteiro de Gillian Flynn, do seu próprio livro: uma sociedade moralista feita de belas meninas “incríveis”, seres graciosos que nasceram como personagens infantis.

Chega-se igualmente à sociedade de aparências, à praga da celebrização instantânea e das mudanças de papéis de acordo com o script ditado pela opinião pública: Nick pode passar do marido assassino ao pai formado, obrigado a declarar, em cadeia nacional, à lente da câmera, que será pai de um filho, que ama sua mulher. Serve à imagem e sobrevive.

Em um dia aparentemente tranquilo, Nick (Ben Affleck) retorna para casa e encontra móveis revirados. Amy (Rosamund Pike), sua mulher, desapareceu. Ele procura a polícia, revela uma série de imperfeições. Torna-se – inclusive ao espectador – o suspeito número um. O caso é perfeito para a imprensa sensacionalista. Câmeras tentam seguir cada novo capítulo dessa história. Nick não é confiável. Amy tampouco será a tal “garota exemplar”.

As camadas de falsidade começam pelo visual, depois pelas personagens. A fotografia de Jeff Cronenweth deixa ver a verdade, o simples, a cidade e os tipos comuns nos primeiros minutos: o homem que levanta cedo para colocar o lixo para fora, que observa o nada, comum e até banal. Fica entre o azul e o cinza; em ambientes fechados, em vários momentos, vê-se envolto por tons amarelados, algo frio, sem intensidade.

A pequena marca de sangue deixada por Amy, marca de sua suposta morte, chama a atenção: o vermelho serve aqui como peça rara. À frente, na sequência do assassinato, a cor não apenas explode com o excesso de sangue como também é despejada sobre o branco das roupas íntimas da moça e das roupas de sua nova vítima. É quando se entende que a violência pode, sim, ser justificada: Fincher tem a saída ideal ao exagero.

Quem engana, antes, são as cores: o universo de Garota Exemplar, aparentemente frio e sem vida, não parece dar conta de tantas histórias, tantas reviravoltas, a abrigar um dos vilões mais interessantes dos últimos anos. Amy, a tal “garota exemplar”, projeta o demônio possível à vida ordinária: é quem recorre à imagem acima de todas as coisas, que cabe às mesmas cores que parecem não indicar nada além da quietude.

Não estranha que Fincher, com a volta dela aos braços do marido, retorne ao plano geral da fachada da casa. A típica casa perfeita, grande, à qual, dirá a mídia, falta uma criança. Não se chega a tanto, nem poderia. Imaginar uma criança por ali é o que faz o filme doloroso em seu encerramento, com as lamentações do pai, Nick, que não poderá escapar mais à falsidade criada pela mulher, a “vítima perfeita”, a Amy nascida da ficção, dos livros infantis, talhada para seguir nesse meio em que tudo parte de um enredo.

Garota Exemplar é sobre a necessidade de criar outra história para essa sociedade – ao mesmo tempo em que o fundo deixa ver outros monstros, a história não oficial, o conto que não serve à mídia sensacionalista que vive da audiência do segundo seguinte e pouco inclinada às contradições da vida a dois, ou apenas à aproximação.

Um filme em que ninguém – nem Nick, nem Amy, nem aqueles que lucraram com o caso na mídia – escapa à dúvida. Não como benefício, mas como salvaguarda. Para confirmar o que se pensa dela, vale recordar uma frase dita para ele, no fim: “[Você] Me conhece até a medula”, diz, em mais uma de suas mentiras. Ela sabe jogar. Ele sabe que ela mente. Ambos seguem assim, nesse jogo, presos à redoma que criaram a si próprios.

(Gone Girl, David Fincher, 2014)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
100 grandes vilões do cinema

Bom Comportamento, de Benny e Josh Safdie

A opção da personagem de Robert Pattinson pelo cabelo louro deixa claro do que trata Bom Comportamento, de Benny e Josh Safdie: a artificialidade. Sem esquecer o aspecto barato, o que casa à perfeição ao tipo do pequeno bandido, alguém que erra mais do que acerta, preso às poucas horas entre o dia sem sol e a noite banhada por luzes artificiais.

Os irmãos Safdie não perdem tempo: a segurança na direção é tão grande que renunciam às explicações verbais. Apostam no movimento, no tropeço, ou mesmo no suor. Ou ainda no sofrimento, na situação em que o pequeno criminoso deixa ver, e que ainda resta à contramão de tantos sinais paralelos: a bondade entre irmãos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A fraternidade sobrevive. O irmão corre contra o tempo, de local em local, em uma única noite, para tentar libertar o outro, preso após roubar um banco. Nessa tentativa de conseguir dinheiro, o primeiro chega a um parque de diversão, na madrugada, para retirar dali não mais que um frasco com ácido. Uma aventura que só não chega ao absurdo porque em momento algum se vê algo cômico. Suas personagens mantêm seriedade.

O protagonista é Connie (Pattinson). Rapaz esperto que guia o irmão, Nick (Benny Safdie), para o assalto a banco, crime silencioso no qual apenas trocam um recado, em papel, com a caixa. É simples: dizem que querem todo o dinheiro, que estão armados, o que logo surte efeito: a mulher devolve a mala de ambos com a bolada em seu interior.

O que parece fácil lança a dupla ao oposto: eles são obrigados a esconder o dinheiro, depois a fugir da polícia quando Nick não sabe lidar com momentos de tensão. Ele corre, o que obriga Connie a correr também; depois é preso ao bater em uma porta de vidro, o que faz com que o outro procure por mais dinheiro para libertá-lo – além da quantia roubada.

O filme lança o público aos espaços sórdidos em que tudo parece estar à venda, em que tudo é fácil, tocado ao menor gesto de avanço: o filme define-se como uma jornada delirante, porém realista, no interior da noite que só termina com uma briga pelo mesmo frasco de ácido perdido no citado parque de diversão. É quando se percebe que retirar o irmão da cadeia não é o mais importante ao roteiro. O filme prefere o imprevisível.

A jornada perde o rumo, o filme curiosamente cresce. A narrativa crava-se nas horas, nos instantes, nas pequenas besteiras e quedas. Surgem novas personagens. O problema de Connie é maior do que se imaginava. Na pele dessa figura difícil de definir, Pattinson tem talvez a melhor interpretação de sua carreira, alguém que, à exceção do irmão, seu último elo com a emoção verdadeira, não se liga a nada e a ninguém.

O que assusta nesse trabalho dos Safdie é justamente a indiferença das personagens, forma quase sempre desleal de se buscar alguma vantagem – à medida que as luzes neon conferem um aspecto irreal, futurista, somado às vidas aos cantos, de pessoas que não se tocam, separadas pelas paredes dos pequenos comércios que vendem comida rápida.

Não se torce por Connie nem por ninguém. O que está em jogo é o tempo, a espera, o absurdo que leva o público a uma nova manobra, a se perder – de novo. Perder-se é a regra dos Safdie nessa obra de intensidade, de garotos que se julgam grandes bandidos, de policiais distantes, de doentes em camas de hospital, sozinhos, à luz da televisão ligada.

A primeira imagem do filme, de tão deslocada, é quase uma publicidade de Nova York: um grande prédio visto de fora e do alto. O corte leva à face, ao elo fraco da jornada, o irmão com aparente deficiência mental, Nick. O psicólogo faz perguntas simples. Ele tem dificuldade para respondê-las. O prédio de estrutura aparentemente inabalável dá vez à face humana, ao rapaz que não resiste aos golpes desse espaço. Fica-se com a realidade.

(Good Time, Benny Safdie, Josh Safdie, 2017)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
The Square, de Ruben Östlund

O Homem sem Passado, de Aki Kaurismäki

Expressões frias, de pouca ou nenhuma emoção, têm espaço no cinema de Aki Kaurismäki. Suas personagens estão petrificadas, e apenas aos poucos conduzem aos sentimentos. A dificuldade de dizer algo, de expressar, de dar um passo, nesses seres limitados aos ambientes de aparência antiga, à velha Europa, à comédia em tom menor.

Kaurismäki sempre se manteve fiel a esse cinema de rostos assustados, de poucas e necessárias palavras. Em O Homem sem Passado, mais que perder a memória, seu protagonista parece ter voltado no tempo: termina, entre tombos e descobertas, à beira do oceano, a viver em um container alugado, junto a outros excluídos.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O homem ao centro é M (Markku Peltola), espancado por três criminosos e dado como morto no hospital. Revive, perde a memória e é obrigado a encarar um mundo que revela outro tipo de violência, a do Estado. Nesse meio, menos que se reinventar, o homem precisa nascer, inventar-se, ser algo novo, nada do que sempre foi, ser o que não conhece.

Como uma criança que nasce e vem ao mundo sem pedir, no espaço de regras prontas, de poderosos com mãos de ferro, em uma nação em que é preciso existir com um nome, não necessariamente como humano. É a mensagem desse belo filme de Kaurismäki: o Estado implacável exige identificação, marca, carimbo, ainda que não reconheça o homem – em sua casa metálica, um pouco miserável – por trás de sua documentação.

“O Estado protege os negócios. O Estado não peca”, observa o segurança que aluga containers para maltrapilhos que, como M, não têm onde dormir. No fim, diz Kaurismäki, tudo se resume a negócios, a cifras, o que torna natural a ida ao banco, a certa altura, quando o mesmo protagonista precisa abrir uma conta para ter emprego.

A Finlândia não é a Suíça, explica a bancária: é preciso ter nome para ter conta. Em seguida, surge um homem armado, velho senhor que um dia teve o próprio negócio e se viu vítima da especulação bancária. História que se repete: perdeu os bens para o banco, perdeu o negócio e, de quebra, ficou devendo uma boa quantia de dinheiro para seus funcionários.

É o dia em que resolve tomar o que é seu, o que está guardado no cofre do banco. O dia em que M, herói sem emoção do qual nada escapa, nessa jornada de descobrimento, também passava por ali. O tom irreal nunca é negado por Kaurismäki: seu filme é uma deliciosa jornada cômica por um país de exploração e desumanidade.

Nem a memória – como diz a música cantada no restaurante, ao fim – resta à personagem. Seu universo resume-se aos pedaços que é obrigado a colher do chão, diariamente, enquanto só pode contar com algumas pessoas. Nem tudo está perdido. E mesmo o ladrão do banco, descobrirá M, não é tão mau assim: é apenas uma das várias vítimas desse sistema injusto, do qual o herói é a primeira. Seu crime? Não ter um nome, não ser ninguém.

É necessário ter nome para ser fichado, para inflar o banco de dados, para servir ao sistema estatal. M quase é preso por um crime que não cometeu. O jornal, no dia seguinte, estampa seu rosto com a seguinte manchete: “Ladrão de banco se recusa a dar o nome”. Dupla mentira: M não é ladrão de banco e não pode recusar a dar algo que sequer possui.

Sem identificação, resta a ele o que supera as palavras. Também o que o filme, sabiamente, procura evocar sem dramalhão. M descobre o amor por uma mulher solitária, um pouco como ele e como todos: silenciosa, de movimentos aparentemente automáticos, capaz, ora ou outra, de soltar uma frase inesperada. Não menos lúcida. “A compaixão de Deus reina no céu, mas aqui na Terra você tem que se virar”, ela declara ao companheiro. A frase resume o filme de Kaurismäki, entre a aspereza e a comédia.

(Mies vailla menneisyyttä, Aki Kaurismäki, 2002)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
As 50 melhores comédias do cinema nos últimos dez anos

8 Mulheres, de François Ozon

A tamanha artificialidade de 8 Mulheres quase não deixa ver o que há de real. Como no cinema clássico, embrenha-se nas cores, nas gracinhas, na aparência indolor – a despeito da realidade que se impõe na invasão das belas casas e das famílias aparentemente perfeitas, com dramas pouco a pouco revelados.

É importante lembrar que, como nos filmes clássicos, o visual está distante do realismo. Ao contrário, é falso a todo o momento. 8 Mulheres é embrulhado como casa de bonecas, com mulheres irretocáveis, criadas belas e sorridentes. O que há de real esconde-se justamente no falso: uma vida oculta sob o véu do sonho.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

A começar, sendo a primeira em cena, há Virginie Ledoyen, a menina bela, a filha que veste rosa, o sonho de qualquer pai e mãe. Mais tarde vêm à tona algumas revelações: ela está grávida, seu pai não é seu pai e o pai de seu filho é justamente o homem que a criou – agora morto, na cama, com uma faca cravada nas costas.

O filme gravita em torno desse crime. Em cena, a moça de figurino rosa é uma possível assassina. Há outras sete. Todas têm seus motivos para ter matado o homem sem rosto, que aparece apenas de costas. Logo vem a mãe da menina (Catherine Deneuve), misteriosa e cujas lágrimas não convencem; a avó (Danielle Darrieux), que de repente levanta da cadeira de rodas e começa a andar; a tia (Isabelle Huppert), que talvez goste mais de romances do que aparenta.

As personagens começam a se despir, pouco a pouco, à medida que o diretor François Ozon insere números musicais que, de propósito, convocam o espectador para outro universo: a contrapor o assassinato e as mentiras, o cineasta oferece o espetáculo quase hollywoodiano, forçando sempre a ver o brilho e a maquiagem, o indesejado.

A música chega a ser indigesta: de tão irônica, não fornece mais do que fuga passageira. Não produz qualquer sentimento, talvez por falar de sonhos, de amores, de tudo o que poderia ocupar aquele espaço – as cores estão prontas! – não fosse um espaço de crime e investigação, de mentiras e máscaras variadas.

Há também as criadas (Firmine Richard e Emmanuelle Béart), a irmã do homem morto (Fanny Ardant), que chega mais tarde, e sua filha (Ludivine Sagnier), uma adolescente que serve ao papel da típica coadjuvante curiosa, que faz perguntas e gosta de romances policiais. Como se verá mais tarde, ela oferecerá respostas.

A teia de situações é abertamente frágil. O filme é cômico. As mulheres – uma verdadeira coleção de estrelas do cinema francês, das mais velhas às mais jovens – brincam com o jeito feminino e não se importam em reverberar certo preconceito sobre um meio ocupado apenas por elas: a vontade de destruir as concorrentes.

A realidade, ainda que distante, ecoa no espectador, incomoda. Sob a embalagem colorida, na aparência da camada branca perfeita que recobre o carro do lado de fora, esse filme de estúdio tem mais a revelar do que se imagina. É uma brincadeira que, com algum esforço, pode ser levada a sério. Como um bom filme clássico feito de belas casas, belas mulheres, belas crianças, além de revelações incômodas.

(8 femmes, François Ozon, 2002)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Ato Final, de Jerzy Skolimowski

Trilogia dos Bichos, de Dario Argento

Ainda no início de O Pássaro das Plumas de Cristal, o protagonista encontra-se preso a uma vitrine, cercado por vidros, enquanto uma mulher esfaqueada agoniza, do lado de dentro, sem que ele possa fazer algo. Apenas assiste à dor dela, em desespero.

Esse sentimento de impotência percorre a Trilogia dos Bichos, formada pelos três primeiros filmes de Dario Argento na direção. O Pássaro, sobre um escritor americano que investiga o assassinato de mulheres na Itália, é o primeiro deles; em seguida são lançados O Gato de Nove Caudas e Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Todos tratam de histórias sobre crimes, de personagens “enjauladas”. Além da situação já citada, há outras, nos filmes seguintes, que aprisionam pessoas a ambientes diversos, como o jornalista preso à cripta em O Gato e a criada do protagonista, pouco antes de ser assassinada, presa em um parque em Quatro Moscas.

Os vilões têm um olhar quase onipresente ao longo desses filmes: observam o jogo do alto, voltados a um tabuleiro. Os heróis viram-se como podem para descobrir suas identidades. Enxergam mal. São vítimas do olhar, da incerteza, das muitas figuras que podem guardar o criminoso, da memória que retorna distorcida, gerando dúvida.

Argento segue os passos de Alfred Hitchcock. Não tem medo de soar excessivo e, segundo declarou, com O Pássaro descobriu o talento para o suspense. Aprendeu ainda cedo a usar as ferramentas do cinema para a imobilização do espectador: a câmera subjetiva, os closes de desespero, os planos detalhe, a vertigem, até mesmo as pequenas situações que compõem o medo, como a sequência em que o protagonista de O Gato está na cadeira do barbeiro e teme ser degolado pela navalha.

Nos dois primeiros filmes da trilogia, os protagonistas precisam aprender a ver. Ou a lidar com o que viram. Em O Pássaro, o escritor Sam Dalmas (Tony Musante) acredita ter visto uma mulher perseguida e esfaqueada, ainda no início, mas talvez tenha sido ela que investiu contra o algoz. A imagem passa a atormentar o protagonista.

Em O Gato, o jornalista e seu amigo fotógrafo deixam escapar aos olhos um importante detalhe de uma fotografia. Há nela o momento em que um homem é lançado na frente de um trem, sendo morto em seguida. Com o olhar atento à mesma imagem – como no grande Blow-Up, de Michelangelo Antonioni –, eles descobrem um assassinato.

O jornalista interpretado por James Franciscus pouco convence como amante desejável ou herói possível; mais de uma vez será visto cometendo crimes para obter informações, levará para a cama a mulher mais estranha em cena (quase robótica, à forma de Antonioni) e seguirá os conselhos de um homem cego (Karl Malden) para conseguir deter o assassino, ou apenas para “enxergar melhor”. Irônico, sem dúvida.

Argento entrega ao público a ação dos criminosos. O ponto de vista, as mãos, os trajes, os movimentos – menos suas faces. O jogo do cineasta é conhecido, é feito de lances errados, caminhos falsos, de assassinos que talvez sejam assassinas. Em cena, a obsessão de um cineasta que não teme os exageros, tampouco o cinema de gênero.

Em um momento genial de O Pássaro, um travesti é colocado entre os suspeitos a serem reconhecidos por Dalmas. É quando o policial avisa que ele está no grupo errado de suspeitos. É também a indicação de que o verdadeiro criminoso aproxima-se de outro sexo. Ao longo da trilogia, os protagonistas serão acossados por homossexuais.

Em selva de seres distintos, Argento leva seus heróis acidentais a uma reunião de pugilistas aposentados, à casa de um escritor que se alimenta de gatos, a um laboratório que desenvolve pesquisas com pessoas que possuem um cromossomo a mais e ao estudo do olho, em Quatro Moscas, quando os policiais tentam descobrir a última imagem vista por uma mulher assassinada e talvez descobrir a identidade do criminoso.

Se em O Pássaro e O Gato a imagem podia gerar dúvidas – a do ataque à mulher em sua galeria de arte, a do homem lançado na frente do trem –, na terceira parte da trilogia ela é fruto de uma montagem teatral: é a imagem escancarada de um crime falso, mas um crime que o protagonista, tão pequeno, acredita ter cometido.

Seu significado – sob a impressão de que tudo está à vista, inclusive a farsa – reduz-se, ao fim, à mentira. Não por acaso, toda a encenação ocorrerá em um teatro vazio, enquanto o músico Roberto (Michael Brandon) segue um homem que antes o seguia, já envolvido o suficiente nesse jogo de interpretação. O vilão mascarado lança luzes no palco e fotografa o momento em que ele teria matado o outro homem.

A obsessão pelo olhar atinge seu ápice em Quatro Moscas: a morte converte-se em teatro e alimenta a imagem falsa; a operação do olho revela não a face do criminoso, mas um novo enigma: a última imagem vista por uma das vítimas do assassino não é o rosto do mesmo, mas quatro moscas. E talvez não sejam quatro, nem mesmo uma. Talvez seja apenas a forma de uma mosca. O olhar é sempre traidor.

Em seus primeiros filmes, Argento evoca seres cuja monstruosidade está relacionada ao sangue, à criação familiar, seres que ora ou outra se revelam animais à frente de cenários extravagantes, pessoas belas com conflitos passados. Um escritor, personagem coadjuvante de Quatro Moscas, conta uma versão curiosa da história de Frankenstein, na qual o impulso assassino do monstro é explicado pela frustração da libido.

Vale, talvez, traçar um paralelo entre essa pequena história e a trilogia de Argento, e pensar em seus belos monstros adeptos aos crimes em série para suprir um prazer inatingível. São animais sob a imagem do globo ocular, ou sob a câmera subjetiva de Argento – amostra de sua obsessão, de seu cinema grandioso.

(L’uccello dalle piume di cristallo, Dario Argento, 1970)
(Il gatto a nove code, Dario Argento, 1971)
(4 mosche di velluto grigio, Dario Argento, 1971)

Notas:
O Pássaro das Plumas de Cristal: ★★★★☆
O Gato de Nove Caudas: ★★★★☆
Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza: ★★★★☆

Foto 1: O Pássaro das Plumas de Cristal
Foto 2: O Gato de Nove Caudas
Foto 3: Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza

Veja também:
A Trilogia do Ser Humano, de Roy Andersson