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Bastidores: Kramer vs. Kramer

A direção de [Robert] Benton deve primeiro ser elogiada por sua escolha de atores e sua colaboração com eles. Este é seu primeiro filme sério: anteriormente ele dirigiu Má Companhia e A Última Investigação, ambos fortemente cômicos. Aqui ele está lidando com mágoa, mesmo que seja vista através de um temperamento de comédia rápida, e sua mão é justa e correta. Ele se dá bem com o interior das cenas, o movimento dos atores e da câmera, os cortes internos. Minha única briga é com a edição geral, a junção de sequências. Sempre estou consciente de que ele está cortando as lacunas do tempo, começando com uma inserção precoce de caminhões de lixo – depois que Streep sai – para nos dizer que a noite passou. E muitas vezes, no final da seqüência, Benton corta ou desvanece para o preto. Este dispositivo, uma vez comum, é agora relativamente raro e deve permanecer raro. Ninguém quer ser sacudido para a consciência da própria tela enquanto assiste a um filme, a menos que aquele momento de preto, aquela consciência da existência da tela, seja ela própria parte do filme, como às vezes tem sido em Bergman.

Stanley Kauffmann, crítico de cinema, no site da revista The New Republic (a crítica é de dezembro de 1979 e pode ser lida aqui; a tradução é deste site). Abaixo, Dustin Hoffman e Meryl Streep durante as filmagens.

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Pequeno Segredo, de David Schurmann

No mundo real, parece incompreensível que crianças nasçam com o HIV, que baleias terminem encalhadas na areia e se tornem vítimas de suas próprias toneladas, em algum erro de difícil compreensão ao olhar alheio. A natureza é implacável.

Os salvadores fazem o que está ao alcance: a mãe não diz a verdade para a filha doente e, com esse segredo, prefere que ela continue vivendo bem; os banhistas, frente ao leviatã encalhado, correm com seus baldes, jogando água sobre o monstro que sofre.

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A mãe biológica da menina aproveita para ajudar a jogar água na baleia. Um instinto natural ressaltado em Pequeno Segredo, de David Schurmann: o desejo de ajudar, de salvar, de fazer a vida correr – ainda que difícil quando se trata de tanto peso.

Não recorresse tanto ao excesso de bondade, com personagens quase sempre perfeitas, talvez o filme de Schurmann sair-se-ia melhor. Como está, a acrescentar outros erros, termina em um drama de mensagens gastas, cercado por belas imagens. Nem mesmo a economia do roteiro em algumas passagens evita o fracasso da empreitada.

O exemplo que o cinema não cansa de dar, e não raro como se pensa: não bastam belas imagens e sequências bem estruturadas para se ter um bom filme. Pequeno Segredo erra ao se render à palavra confortadora, a saber, que a compensação à morte de uma criança é a possibilidade de fazer nascer uma borboleta, um anjo, ou algo que transcenda a realidade que se impõe – ou nem se chega a isso.

Pois realidade não é o forte da obra. E talvez nem queira ser. O filme de Schurmann estrutura-se em um conhecido confronto entre os problemas inerentes às pessoas, no inexplicável que tanto as maltrata (a natureza é implacável), e a vontade de fazer o oposto, de nadar contra as toneladas do leviatã encalhado, ou lutar com o invisível.

Pois as pessoas, aqui, quase sempre surgem com mensagens prontas, com diálogos conhecidos, além da pré-adolescente que recorre a seu diário para descrever seus desejos – e, claro, partir o coração do espectador que sabe de seus problemas.

E não se trata de dizer que a essência é responsável pelo resultado final. Nunca é. Talvez falte distanciamento. Schurmann sabe como chegar à beleza, mas não como construir personagens de maneira satisfatória ou como estruturar suas relações.

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O resultado é um drama atrapalhado entre dois tempos, uma narrativa de relações entre pais e filhos, continentes, entre pessoas que quase sempre se entendem contra uma natureza que insiste em atrapalhá-las, em colocar baleias ou doenças no caminho.

O encerramento já se sabe. As imagens da abertura, com personagens à beira-mar, não escondem o ritual. E as imagens da mãe e da filha, em outra praia, sob o pôr do sol, igualmente limitam o filme à mensagem de amor, ao melaço conhecido.

Para que nem tudo pareça esquemático, elege-se a vilã, a personagem de Fionnula Flanagan, com o olhar colonizador europeu, que não cansa de apontar os brasileiros como selvagens. Mãe possessiva, ela não aceita a união do filho (Erroll Shand) com uma brasileira (Maria Flor), nem o fato da neta ser adotada por outro casal latino, da família Schurmann, interpretado por Júlia Lemmertz e Marcello Antony.

Barbara (Flanagan) surge nessa história ao lado de belas flores e, mais tarde, as mesmas estão secas e sem vida. Mas nem ela resistirá à bondade e ao açúcar que recobre o filme.

(Idem, David Schurmann, 2016)

Nota: ★☆☆☆☆

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A Caça, de Thomas Vinterberg

As crianças não mentem, acreditam os adultos de uma pequena cidade em A Caça, de Thomas Vinterberg. Não, pelo menos, com a intenção de prejudicar alguém ou com a consciência do que pode acontecer depois.

As crianças criam suas próprias histórias. Ao que parece, passam a acreditar nelas. A criança em questão, no filme de Vinterberg, diz à diretora da pequena escola que um de seus funcionários mostrou-lhe as partes íntimas.

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A diretora choca-se: crê cegamente que as crianças não mentem. E, mais tarde, as crianças ajudam a entender o motivo dessa crença: elas estão no altar de uma igreja, quando a vida do suposto culpado, Lucas (Mads Mikkelsen), já foi destruída.

São como anjos. O pobre adulto é o diabo entre todos. A igreja, então, assume posição de destaque no filme, que vai além do suposto caso de pedofilia. As pessoas da cidade são intolerantes, não querem tentar ouvir ou entender o acusado. Seus anjos não poderiam dizer nada que escape à verdade.

Não se trata de culpar a criança. Os culpados não são vistos com facilidade, como mostra a sequência final: quem puxa o gatilho contra Lucas não é uma pessoa, mas toda a sociedade. Todos são tomados pelo ódio fácil: expulsam Lucas de espaços públicos, matam seu cão, não sentam ao seu lado na igreja.

É no interior dela, por sinal, que ele precisa encarar seu melhor amigo, o pai da menina que o acusou de abuso. Ele revolta-se, levanta, pede que o amigo encare-o. Pelo olhar, e menos pelas palavras, deseja que os outros vejam a verdade.

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Ainda assim, as opções de Vinterberg são curiosas. O olhar de Lucas, mais tarde, retorna para cruzar com o da menina. O que pensam? O que sabem que todos parecem não saber? Ao espectador, melhor acreditar na inocência quando há dúvida. Melhor do que simplesmente se deixar tomar pelo ódio precipitado, como todos os outros.

O protagonista tem esse mistério. Questiona o espectador. Sua explosão demora a ocorrer. Ao mesmo tempo, é humano demais, homem simples que brinca todos os dias com as crianças da escola, comporta-se como pessoa exemplar.

O título refere-se à caça aos cervos, na floresta, também à caça ao protagonista. Ou mais: refere-se a essa sociedade acostumada a caçar, que precisa ter sua vítima e seu opressor, que não pode ver nada entre anjos e demônios, entre inocentes e culpados.

O tiro ao fim serve de aviso. As pessoas ao redor continuam a observar e a culpar o protagonista. O que prevalece está oculto sob as luzes do crepúsculo – mais do que a inocência ou a culpa. Ou atrás do olhar de diferentes homens, no momento em que o filho de Lucas ganha seu primeiro rifle, seu direito à caça.

(Jagten, Thomas Vinterberg, 2012)

Nota: ★★★★☆

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