Crepúsculo dos Deuses

Dez encerramentos simbólicos do cinema clássico americano

O cinema clássico americano produziu uma infinidade de sequências memoráveis, que seguem povoando o imaginário popular. Abaixo, o blog pinçou dez encerramentos que sintetizam o espírito desse cinema, com simbolismo e diálogo com sua época. Dez são pouco, claro, mas dão ideia do poder dos mitos no cinema estadunidense. De Alma no Lodo a O Homem que Matou o Facínora, são imagens que fizeram história.

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Na sarjeta (Alma no Lodo)

O encerramento tem aqui dupla função: ao mesmo tempo em que resume o período da Grande Depressão, mostra a atitude moral do cinema da época quando retratava criminosos. “Mãe Misericórdia… Este é o fim de Rico?”, questiona o grande Edward G. Robinson, antes da morte. Ao lado, vê-se a propaganda de um espetáculo teatral

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As Muralhas de Jericó (Aconteceu Naquela Noite)

“Por que iam querer uma trombeta?”, questiona a senhora do hotel à beira da estrada, sobre a trombeta que soa antes da queda das “Muralhas de Jericó” – uma forma original encontrada pela grande comédia de Frank Capra para apresentar o sexo entre o casal desajustado.

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À tempestade (A Mocidade de Lincoln)

A tempestade que se aproxima, na obra-prima de John Ford, tem seu significado, ou significados: além de anunciar a morte de Lincoln (Henry Fonda), aponta às batalhas travadas pelo líder, como a Guerra Civil, além de anunciar a guerra que se aproximava na época do lançamento do filme, no fim dos anos 30, a Segunda Guerra Mundial.

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Do material que são feitos os sonhos (O Falcão Maltês)

“Essa estátua é o motivo de toda a confusão”, diz o detetive Sam Spade aos policiais, enquanto a companheira chora. “É pesado. Do que é feito?”, questiona um deles. “Do mesmo material com que são feitos os sonhos”, explica, antes de despachar a dama fatal.

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O começo de uma nova amizade (Casablanca)

O herói de Humphrey Bogart fica sem a mulher de sua vida. Para compensar, ganha um amigo, aqui vivido por Claude Rains. Há quem veja um final gay. É, sobretudo, uma união que aponta a dias melhores: a possibilidade de amizade em um mundo dividido e em guerra.

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A união, apesar de tudo (Os Melhores Anos de Nossas Vidas)

A ação transcorre no casamento de Wilma e Homer. “Podemos levar anos para chegar a algum lugar”, diz a personagem de Dana Andrews para Peggy (Teresa Wright), quando William Wyler, com o uso da profundidade de campo, apresenta duas situações no mesmo quadro.

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A imagem que perde o foco (Crepúsculo dos Deuses)

Cecil B. DeMille já era um veterano quando Billy Wilder chegou a Hollywood. O novo diretor sabia de sua mitologia, e o quanto seria perfeito que Norma Desmond clamasse por ele antes de se apagar. Eis a frase: “Tudo bem, senhor DeMille, estou pronta para meu close-up”.

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A despedida do pistoleiro (Os Brutos Também Amam)

“Não se volta à rotina depois de matar. Não dá para voltar atrás. Certo ou errado, é como uma marca que fica. Não há como voltar atrás”, diz Shane, antes de partir, para o garoto Joey. E os gritos do menino ecoaram pela eternidade, nesse grande faroeste de George Stevens.

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O enterro do melodrama (Imitação da Vida)

A obra de Douglas Sirk encena mais que o enterro da personagem da criada: é o próprio enterro de um tipo de cinema, à beira das mudanças dos anos 60. O ano é 1959, às portas das novas ondas, quando um mestre como Sirk e seu melodrama pareciam um pouco fora de moda.

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A última viagem do faroeste (O Homem que Matou o Facínora)

O encerramento desse grande faroeste de John Ford (mais um) dispensa palavras. O silencioso político de James Stewart, correto como eram os políticos de seu tempo, segue pela estrada de ferro. E, para alguns críticos, essa viagem marca o fim da era dos faroestes.

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Stroheim segundo Billy Wilder

Naturalmente, fiquei constrangido quando estive pela primeira vez diante do grande e admirado cineasta da época do filme mudo. Para driblar esse constrangimento, que resultava também do fato de que, como principiante, eu ousava oferecer um papel ao grande diretor de Ouro e Maldição, Maridos Cegos, A Viúva Alegre e Marcha Nupcial, disse a ele: “Com seus filmes, o senhor estava dez anos além de sua época”. Stroheim olhou-me por um instante e corrigiu-me: “Vinte anos”.

Billy Wilder, cineasta, em declaração ao seu biógrafo Hellmuth Karasek, em Billy Wilder: E o Resto é Loucura (Editora DBA; pg. 257). O cineasta referia-se ao momento em que escalou Stroheim para interpretar um oficial alemão em Cinco Covas no Egito. Eles voltariam a trabalhar juntos em Crepúsculo dos Deuses, de 1950.

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Cinco Covas no Egito, de Billy Wilder

Minha Rainha, de Erich von Stroheim

O sorriso de Gloria Swanson tem algo vampiresco, assustador. Serve melhor à face da mulher malvada, da rainha má, não à Branca de Neve às lágrimas, decidida a se suicidar a certa altura do monumental Minha Rainha, de Erich von Stroheim.

Como boa parte do filme foi perdida, e outra sequer foi filmada, o que restou oferece Swanson como a menina sonhadora, religiosa, que se apaixona pelo príncipe, o noivo da rainha, e mais tarde é obrigada a casar com um daqueles monstros típicos de Stroheim – homem manco saído de um filme expressionista alemão, demônio inegável.

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O material é típico do diretor, e os contornos da história já foram vistos em A Viúva Alegre e Marcha Nupcial. A protagonista, ninguém duvida, tornar-se-á a rainha. A plebeia que se serve da religiosidade, dos sonhos, depois do trono.

No momento em que conhece o príncipe fanfarrão (Walter Byron), em uma estrada pela qual caminha com outras internas de um colégio de freiras, a moça é vítima do riso alheio, incluindo o do príncipe. Uma peça de sua roupa íntima cai sobre seus sapatos. A gargalhada geral faz com que ela, furiosa, lance a mesma peça contra o futuro amante.

A primeira camada que Stroheim deixa ver ao chão é o indicativo de outras que cairão ao longo de seu filme inacabado. É o pedaço da moça supostamente puritana, aqui revelada, sob o riso e a falsa ideia de que o adereço condena-lhe, quando é o oposto.

De novo, Stroheim lança seus pecadores, próximos à metamorfose, aos efeitos da religião: debatem-se à frente de grandes crucifixos, pedem ajuda a Deus, à medida que os atos sempre confrontam os votos. À beira do altar, em oração, Kitty Kelly (Swanson) é recoberta de velas pela mise-en-scène do diretor: envolve-a no pecado, no calor das chamas, nesse intenso redemoinho ao qual já foi condenada.

É justamente o momento que a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses assiste na companhia do amante, o gigolô interpretado por William Holden, em sua grande mansão habitada por macacos, “bonecos de cera”, com o estofado de décadas anteriores e mordomo que a abastece com cartas (escritas por ele mesmo) a alimentar seu mito – mordomo, nunca é demais lembrar, interpretado pelo próprio Stroheim.

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Billy Wilder, discípulo de Lubitsch e Hawks, nunca escondeu sua admiração por Stroheim. Crepúsculo dos Deuses aborda o velho templo da Hollywood em sua era muda – com Swanson a servir de dama embalsamada, a recordar Minha Rainha, e com o próprio filme para atestar o poder de congelamento do cinema.

Pois Swanson, ou Desmond, incinera o moderno ao qual Wilder, em sua reverberação do passado, parecia apontar: ela explica ao gigolô e roteirista de Holden que os rostos sobreviveram às palavras. “Não precisávamos de diálogos. Tínhamos expressão”, diz.

Algumas fontes indicam que Minha Rainha foi destruído pelo próprio cinema falado. Que Stroheim não teria como refazer tudo em nova estrutura, devido à quantidade de filme já utilizada. Talvez não quisesse erigir outra coisa senão aquilo que conhecia tão bem, a estrutura que lhe serviu. Foi a última demonstração de extravagância do homem que a indústria “amava odiar”, o que se tornou jargão.

As formas do rosto de Swanson foram conservadas: em sua primeira aparição em Crepúsculo dos Deuses, o espectador logo deverá identificar a moça enclausurada entre freiras da obra de Stroheim. Ainda é a mesma, uma escultura da Hollywood clássica.

(Queen Kelly, Erich von Stroheim, 1929)

Nota: ★★★★☆

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Tiros na Broadway, de Woody Allen

As linhas finais poderiam ser: “Eu não sou um artista”. Mas, em Tiros na Broadway, Woody Allen decide seguir em frente, apenas mais um pouco, e insere uma pergunta: “Quer se casar comigo?”. A moça aceita.

Quem pergunta é o artista, ou aquele que acreditou ser um, o escritor e diretor teatral David Shayne (John Cusack). Suas primeiras palavras, nas linhas iniciais, remontam sua crença, depois derrubada: “Eu sou um artista”. Mais tarde, descobre o oposto.

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tiros na broadway

As afirmações mostram o quanto se leva a arte a sério. No fundo, é disso que fala o filme de Allen: pessoas que vivem mergulhadas em outra realidade, embriagadas pelo gigantismo do universo em que quase tudo vale, no qual se sentem reis, deuses.

O mundo real é diferente. David deixa o teatro e retorna a ele – ao casamento com a mulher simples, à sua pequena cidade – porque descobre que a vida é mais importante que a arte. Outra personagem, o mafioso vivido por Chazz Palminteri, acredita que a arte é mais importante que a vida – e, não por acaso, termina morto.

Suposto homem das artes, David encontra sua saída no lado mundano, nas coisas simples, à medida que se aproxima do mafioso Cheech (Palminteri). Para ter sua peça produzida, David precisa aceitar no elenco uma atriz sem qualquer qualidade, Olive (Jennifer Tilly), companheira de um poderoso chefe do crime.

É o universo dos anos 20, das proibições, bebidas escondidas em ternos caros, óleo sobre o cabelo e rajadas de metralhadora que resultam da guerra entre gangues.

De voz indefinível, com dificuldade para decorar falas, Olive coloca tudo a perder. Ela vai aos ensaios na companhia de Cheech, seu guarda-costas. A cada pequena discussão, o capanga encontra motivos para se intrometer, dar opiniões sobre a peça de David, as quais se mostram, veja só, proveitosas. Aos poucos, torna-se coautor.

Aos poucos, David invade o universo de Cheech: o meio em que as coisas se resolvem à base da violência, o mundo verdadeiro do qual o autor acreditava fazer parte. Allen, com ambos, explora o dilema sobre arte e vida, questiona qual é mais importante.

No fundo, David é fraco, é humano. O capanga e matador é alguém frio, mas cujo desfecho cede às falas, ou ao jeito, de um ator. Os lados invertem-se: David precisa da vida comum para sobreviver; seus instintos não o permitem que vá até o fim, ou que morra pela arte, ou que – como Cheech – consiga gestos teatrais na despedida.

tiros na broadway

Justamente por ser livre e verdadeiro, Cheech é quem deverá terminar morto – fiel à sua arte, à sua vida. O verdadeiro artista produz sua própria moral, diz o filme.

Outras personagens têm destaque. Entre elas, a de Dianne Wiest, a diva Helen Sinclair. À beira da escada, com o cigarro na boca, é como a Norma Desmond de Crepúsculo dos Deuses. Tem necessidade de grandeza, como tinham outras personagens do cinema levadas aos palcos, a exemplo do Jeffrey Cordova de A Roda da Fortuna.

Sobretudo, fornece a essência da distância, onde repousa o mito, a irrealidade, e também, não raro, conduz à afetação e aos excessos, àquilo que enjoa com facilidade.

Tiros na Broadway serve-se de estereótipos, com a leveza de Allen para mergulhar nos piores tipos, o que certamente inclui o pequeno escritor. O cineasta escapa ao encerramento esperado, ao “fecho perfeito”, ao incluir o pedido de casamento. Ação simples se comparada às afirmações do artista, cheio de certezas.

(Bullets Over Broadway, Woody Allen, 1994)

Nota: ★★★★☆

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Atores vivendo atores (em seis filmes recentes)

Atores convivem com conflitos e demônios. Alguns são excêntricos, vivem interpretando, como Norma Desmond no clássico Crepúsculo dos Deuses. Nesse filme de 1950, Billy Wilder parece ter criado o estereótipo da estrela em crise. A sensação de proximidade à loucura é constante.

Nos anos seguintes, atores interpretaram atores de maneiras diversas no universo da sétima arte, em personagens do teatro, do cinema ou mesmo da televisão. Seis exemplos recentes, na lista abaixo, mostram atores que se aventuram entre o real e a ficção.

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Sinédoque, Nova York, de Charlie Kaufman

O protagonista, diretor de teatro interpretado por Philip Seymour Hoffman, perde a mulher, a filha e ganha um prêmio em dinheiro. Com ele, investe em seu próximo trabalho: a montagem de sua própria vida. Ali, pessoas que antes ocupavam seu dia a dia são levadas ao palco, ou ao grande galpão no qual Nova York é diminuída. Em seu primeiro filme na direção, Kaufman explora o desejo pelo controle em um universo às vezes em miniatura, às vezes gigante.

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Vocês Ainda Não Viram Nada, de Alain Resnais

Outra incursão entre vida e arte, ou no ponto em que tudo é parte de um único jogo, um único truque. Passa-se em um castelo, no qual um grupo de atores é convidado por um dramaturgo a assistir um filme, a montagem do espetáculo em que todos atuaram no passado. Resnais coloca esses atores novamente frente a frente, obrigados a reviver suas personagens. Fusão interessante entre teatro e cinema, em outro trabalho original do criador de O Ano Passado em Marienbad.

vocês ainda não viram nada

A Pele de Vênus, de Roman Polanski

Um diretor de teatro sem muita paciência (Mathieu Amalric) cede seu tempo à candidata a personagem central de uma adaptação de A Vênus das Peles. Ela (Emmanuelle Seigner) pouco a pouco o domina. Transforma-o em objeto, enquanto Polanski explora a interessante batalha entre sexos: a certa altura, a mulher bela e predadora passa então a conduzir a leitura da peça e chega a sugerir uma nova cena. Ele não resiste e é dominado.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Gerou amor e ódio entre a crítica brasileira: há quem tenha visto um trabalho original sobre o teatro e com críticas ao cinema; outros enxergaram puro espetáculo vazio. Famoso pelo papel do super-herói Birdman nos cinemas, Riggan (Michael Keaton) tenta a volta por cima a partir de uma adaptação de Raymond Carver. Entre palco e bastidores, delírios e golpes de realidade, ele reencontra o estranho caminho do sucesso, não sem reencontrar sua velha personagem.

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Acima das Nuvens, de Olivier Assayas

A atriz interpretada por Juliette Binoche, Maria Enders, confronta a passagem do tempo quando morre um de seus amigos, famoso dramaturgo. Na esteira desse drama, Maria deverá retornar à antiga peça que lhe deu fama, dessa vez em outra personagem. O papel que antes a projetou cai agora no colo de uma jovem atriz em ascensão, com os traços que Hollywood adora, interpretada por Chloë Grace Moretz (em ascensão na vida real). A preparação para o trabalho exigirá de Maria um pouco de confinamento, na companhia da secretária, a jovem Valentine (Kristen Stewart).

acima das nuvens

Um Amor a Cada Esquina, de Peter Bogdanovich

Após décadas entre altos e baixos, Bogdanovich revisita a comédia screwball, o cinema de Hawks (como não lembrar Suprema Conquista?) e o mundo excêntrico dos artistas. A atriz em ascensão, nesse caso, é uma ex-prostituta (Imogen Poots). Ela conta suas memórias – sua versão – para uma jornalista. Em um de seus trabalhos noturnos, teria recebido ajuda de um diretor de teatro e, mais tarde, em um teste, conquista todos com sua naturalidade – para o desespero do mesmo diretor. Ninguém esconde a farsa, todos interpretam.

um amor a cada esquina

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