Crash – Estranhos Prazeres

12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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Veja também:
Seis filmes contundentes que abordam a pedofilia
Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Dez filmes que questionam regras sociais e religiosas

Ao longo de sua ainda curta história, o cinema sempre explorou alguns temas tabus. E após décadas de seus lançamentos, alguns filmes ainda incomodam ao colocar o dedo na ferida, ao questionar as regras impostas pela sociedade, também pela Igreja – e por todos os patrocinadores dos bons modos, em nome “de Deus e da família”, para não se esquecer de discursos recentes. É cinema em sua função: causar questionamentos.

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Os filmes abaixo foram escolhidos pela temática, não pela estética – ainda que ambas estejam quase sempre relacionadas. A ideia é ampliar o debate e, claro, fazer pensar.

Meu Passado me Condena, de Basil Dearden

Homossexualidade – Os homossexuais demoraram a conquistar direitos ao redor do mundo (e ainda hoje a prática é crime em alguns países). Nesse grande drama de Dearden, um promissor advogado é chantageado por ser homossexual. O filme foi lançado em 1961, quando relações com pessoas do mesmo sexo ainda eram crime na Inglaterra. O assunto seria retomado mais tarde em O Jogo da Imitação.

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Esse Mundo é dos Loucos, de Philippe de Broca

Antibelicismo – Outros filmes trataram da questão como comédia, entre eles o incrível Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick. Mas o que torna o filme de Philippe de Broca tão original é o fato de ser protagonizado por personagens saídas de um hospício. Situa-se na Primeira Guerra Mundial, em uma pequena cidade francesa recém-desabitada. Libertados, os loucos ficam por ali, interpretando papéis nessa nova sociedade. E quando os alemães invadem o local, a obra questiona quem são os loucos da história.

esse mundo é dos loucos

Sopro no Coração, de Louis Malle

Incesto – O diretor francês trata a questão com delicadeza e dá vida a um filme inesquecível. Ao descobrir que seu filho tem sopro no coração, uma mãe isola-se com o menino em um clube de campo. Na fase adolescente, o garoto faz as primeiras descobertas sexuais, ao mesmo tempo em que observa a beleza da mãe – uma estonteante Lea Massari. A exemplo de Amor Estranho Amor, de Walter Hugo Khouri, a mãe é a porta para a descoberta sexual do filho.

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O Medo Devora a Alma, de Rainer Werner Fassbinder

Relação inter-racial – Outra questão tabu em tempos não tão distantes. A obra de Fassbinder explora a relação entre um imigrante negro marroquino (El Hedi ben Salem) e uma viúva alemã de 60 anos (Brigitte Mira). O casal terá de enfrentar o preconceito da sociedade. É uma homenagem do cineasta a Tudo o que o Céu Permite, de Douglas Sirk, sobre o relacionamento de um jardineiro com uma mulher mais velha.

o medo devora a alma

Crash – Estranhos Prazeres, de David Cronenberg

A tecnologia e a deformação como fetiches – As personagens de Cronenberg sentem prazer ao reconstituir famosos acidentes de carro. Algumas fazem sexo nesses veículos enquanto correm riscos. O diretor, a partir do livro de J.G. Ballard, discute a adoração à máquina, também às deformações do corpo – temas recorrentes em sua filmografia. O desejo pela deformação é também abordado em A Tortura do Medo.

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Os Idiotas, de Lars von Trier

Comportamento e organização social – Um grupo de amigos resolve se isolar em uma casa e dar vez ao “idiota” interno de cada um. Para tanto, essas personagens vivem momentos de liberdade intensa, sem as amarras e os bons modos da sociedade. O diretor von Trier constrói um filme forte dentro do movimento Dogma, com improvisação e aparente registro documental. Cumpre, em muitos momentos, sua principal função: incomodar o espectador.

os idiotas

O Lenhador, de Nicole Kassell

O lado humano do pedófilo – Não é fácil digerir o protagonista desse drama, um pedófilo (Kevin Bacon) que acabou de deixar a prisão. Trata de seu difícil retorno à sociedade e, pior, de seu olhar compartilhado com o espectador: a maneira como se sente atraído por uma menina, ou a repulsa que sente por si próprio ao ver as ações de outro pedófilo, na escola infantil em frente ao pequeno apartamento em que passa a morar.

o lenhador

Mar Adentro, de Alejandro Amenábar

A opção pela eutanásia – Ainda que utilize alguns efeitos para dramatizar – como o voo da personagem, em sua imaginação, até o mar –, o filme de Amenábar consegue bons resultados ao discutir a eutanásia. Em cena, a luta de Ramón Sampedro (Javier Bardem): após sofrer um acidente e ficar tetraplégico, ele deseja conquistar na Justiça o direto de morrer. Isso lhe traz problemas com a igreja e com a sociedade em geral.

mar adentro

Tomboy, de Céline Sciamma

Identidade de gênero – O que define um homem ou uma mulher? Trata-se apenas de uma questão anatômica? É o que pretende discutir esse belo drama da cineasta Sciamma, sobre uma menina de dez anos, Laure (Zoé Héran), que passa a se apresentar aos vizinhos como Michaël. Questão que se impõe: já que a personagem identifica-se como menino, não seria correto evitar o termo “menina” na sinopse? A obra vai muito além da rasteira dualidade religiosa.

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Olmo e a Gaivota, de Petra Costa e Lea Glob

Negação da maternidade – A atriz ao centro (Olivia Corsini) passa de seu papel anterior, na peça A Gaivota, de Tchekhov, a um novo e difícil papel: ser mãe. E o filme de Costa e Glob confronta a ideia de que a maternidade é sempre um momento de felicidade plena. Não há registro de outro filme que encare a questão dessa maneira – não, pelo menos, fora do gênero terror, como em O Bebê de Rosemary, de Roman Polanski. Ao trabalhar em registro documental, em um apartamento que serve como prisão, torna a experiência ainda mais interessante.

olmo e a gaivota

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Os dez melhores filmes de David Cronenberg

Com a aproximação da estreia do ótimo Mapa para as Estrelas, vale relembrar os melhores filmes de um cineasta genial, David Cronenberg. Das estranhezas da primeira fase, sempre mesclando carne e máquina, à brilhante visão da loucura americana em Marcas da Violência, sua carreira tem mais altos do que baixos. Ou talvez nenhum baixo digno de nota. O melhor dele, na visão do blogueiro, segue abaixo.

10) Scanners – Sua Mente Pode Destruir

Obra cheia de caminhos, sobre cabeças que explodem e sobre um homem em busca da verdade em sua sociedade vigiada, o que o diretor voltaria a abordar.

scanners

9) Senhores do Crime

Basta a sequência da luta na sauna para ter ideia da grandeza da obra, que dá a Viggo Mortensen talvez sua melhor atuação no cinema.

senhores do crime

8) eXistenZ

O jogo dentro do jogo, sem dar pistas sobre o que é real e o que não é. O objeto que faz jogar é feito de carne, move-se, e invade a mente dos jogadores.

eXistenZ

7) A Mosca

Sucesso de bilheteria, o filme colocou Cronenberg às portas do cinemão, com Jeff Goldblum fazendo um físico que se transforma em monstrengo.

a mosca

6) Um Método Perigoso

Freud e Jung têm seus momentos tensos, também de admiração, nessa obra apaixonante: o encontro de grandes pensadores em um mundo à beira do colapso.

2011, A DANGEROUS METHOD

5) Marcas da Violência

A vida interiorana, perdida, não durará muito: o homem, aqui, sempre é aterrorizado pelos demônios que retornam, e tem de revelar sua verdadeira identidade.

marcas da violência

4) Gêmeos – Mórbida Semelhança

Envolve medicina, sexo, diferentes personalidades, com um mergulho poderoso na relação dos irmãos vividos por Jeremy Irons.

gêmeos

3) Mistérios e Paixões

O vendedor pode ser um agente secreto, e tem em sua máquina um monstro que lhe entrega as missões. Poderosa adaptação da obra de Burroughs.

mistérios e paixões

2) Videodrome – A Síndrome Do Vídeo

Mais do que sobre a era do vídeo, é sobre a televisão. Sobre manipulação, com as doses de sexo típicas do diretor, e, de quebra, com as insinuações de Deborah Harry.

videodrome

1) Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima dos anos 90, sobre um grupo de pessoas que recria famosos acidentes de carro e se deixa envolver em relações perigosas.

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Entrevista: José Geraldo Couto

Abaixo de cada comentário feito no blog de José Geraldo Couto, no site do Instituto Moreira Salles, estão mensagens que indicam a atenção e a sutileza do autor dos textos. Em quase todas, começa com “caro” ou “cara”, ao se dirigir aos seus leitores. Está no terreno do diálogo, do debate, o da crítica de cinema, o que José Geraldo – ou apenas Zé – encarna tão bem.

Seus textos revelam amor pelo cinema, críticas sobre obras em cartaz nas grandes salas que lutam para sobreviver. Ou mesmo sobre cineastas contemporâneos, dos mais variados nomes, nacionalidades e momentos históricos. Quem acompanha sua coluna na revista Carta Capital, entende que o leque de referências que o autor traz à tona é variado.

No começo de 2011, Zé celebrou o lançamento de A Mãe e a Puta em DVD, filme de um tal Jean Eustache. “Jean quem?”, deverá perguntar o leitor desavisado, ou o digno membro de um grupo (cada vez maior) que não se interessa pelo passado, por aquilo que há de bom no cinema – e que Zé, como outros (talvez poucos), tenta recuperar. É um pouco do que diz na entrevista abaixo, exclusiva ao Cinema Velho. “Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente.”

O crítico de cinema nasceu em Jaú, em 1957, mas nunca morou lá. Viveu em São Paulo até o final de 1999, quando se mudou para Florianópolis. Tem um filho de 21 anos.

“Sempre gostei de escrever, desde o jornalzinho do colégio, mas só me tornei jornalista profissional com 27 anos, depois de ter até um livro publicado”, conta ele, que diz não ter um filme de cabeceira, “nem tampouco um livro”. Trabalhou para a Folha de S. Paulo por mais de 20 anos, também na revista Set entre 1987 e 1990. Colabora regularmente com as revistas Carta Capital e Bravo!, além de manter a coluna de cinema no blog do IMS. Não bastasse, faz também tradução de livros, especialmente para as editoras Companhia das Letras e Carta Capital e de artigos e ensaios para as revistas Serrote, Piauí e Zum. Confira abaixo a entrevista completa com o craque.

Sabemos que no cinema sempre há um conflito sobre o que é filme “de arte” e o que é entretenimento. E se uma determinada obra pode ser as duas coisas. Existe alguma contradição entre os dois lados? Um filme de Bergman como, por exemplo, Persona, pode ser também entretenimento ou é puramente arte?

Não existe, em princípio, uma contradição entre arte e entretenimento. Mas é evidente que certos filmes esteticamente mais exigentes e sem concessões ao gosto corrente terão mais dificuldade de entreter um público amplo. Alguns cineastas altamente originais e de valor artístico inegável, como por exemplo Hitchcock, Kurosawa e Fellini (para citar três muito diferentes entre si) conquistaram grandes plateias com seu cinema. Outros, como Jean-Marie Straub ou Agnès Varda, ou ainda o brasileiro Julio Bressane, optaram por linguagens mais áridas do ponto de vista do chamado “espectador comum”. Mas quem é esse espectador? Hoje prevalece a ideia de que não existe um único “público”, essa entidade abstrata, mas diferentes plateias, ou antes diferentes espectadores, cada um com seus próprios gostos e preferências. Quanto mais amplo for o repertório cultural desse espectador, provavelmente também será maior a sua exigência em termos de sofisticação de linguagem, de seriedade de tratamento etc. Seu entretenimento será diferente daquele de um espectador mais ingênuo, desinformado ou imaturo.

Por falar em nessa diferença, fico com a impressão de que a maior parte dos filmes em listas de críticos são os ditos “de arte”, enquanto o público que vai ao cinema em shoppings quer mesmo, em sua maior parte, entretenimento. Não acha que crítica e público caminham em diferentes sintonias?

Esse aparente descompasso está, de certa forma, ligado ao que foi dito na resposta anterior. O crítico em geral tem, ou deveria ter, um olhar educado, aguçado, que lhe permite ver o que passa batido por um espectador que não tem a mesma formação e o mesmo treinamento. Seu papel, a meu ver, é o de fornecer subsídios ao espectador para que este também tenha uma percepção mais ampla e profunda dos filmes. O crítico não deve, por um lado, ignorar seu interlocutor, o leitor/espectador, mas também não deve de modo algum, por outro lado, fazer média com ele, tentar agradá-lo, tentar antecipar-se a seu gosto e dizer aquilo que julga que ele quer ouvir. Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente. Mas há também os que gostam de ser instigados, provocados, desafiados. É para estes últimos, em última instância, que o crítico escreve. É com eles que procura conversar. Pois com os outros, os acomodados, ele não tem muito o que dizer. Eles continuarão a gostar das mesmas coisas e a resistir às mesmas coisas.

Há também uma impressão de que, no terreno do cinema clássico, um filme pode ser “arte” e entretenimento ao mesmo tempo – como no caso dos filmes dos Irmãos Marx e mesmo de Chaplin. Não acha que, com o surgimento do cinema moderno, as coisas ficaram um pouco mais polarizadas?

É possível que sim. Houve também, impossível negar, uma massificação extrema do gosto e um rebaixamento do repertório cultural e da atitude crítica, o que ajudou a aumentar a cisão entre a fruição descompromissada dos filmes e o pensamento em torno deles. Isso não aconteceu só com o cinema, mas também com a música popular, por exemplo. Houve um tempo em que uma produção de enorme qualidade artística (por exemplo, Luiz Gonzaga, Noel Rosa ou Dorival Caymmi) alcançava grande popularidade. Hoje os artistas de maior apelo comercial são de uma pobreza atroz (nem é necessário citar nomes). O papel da crítica não é “se adaptar aos tempos”, dizendo que Michel Teló é genial, e sim talvez tentar entender por que ele faz tanto sucesso – e tentar ajudar o ouvinte a perceber que existe coisa melhor, muito melhor.

Antes de começar a escrever sobre cinema você já era um cinéfilo? Como foi sua formação como crítico e qual os filmes que, digamos assim, o “iluminaram”?

Sempre gostei de cinema, desde a infância, mas digamos que me tornei cinéfilo no final do colégio e início da faculdade, ou na passagem da adolescência para a idade adulta. Não estudei cinema, e sim História e, depois, Jornalismo. Só passei a escrever profissionalmente sobre cinema tardiamente, por volta dos 25, 26 anos, primeiro como free lancer, depois na revista Set, quando esta estava começando, e finalmente na Folha de S. Paulo, já nos anos 90. Mas desde a época da faculdade de História eu procurava ver tudo o que havia de disponível (em cineclubes e mesmo no circuito comercial, que era bem mais generoso), fossem filmes importantes para a história do cinema ou apenas divertidos. Comecei a ler também sobre história do cinema, sobre cineastas, correntes estéticas, interpretações, interpenetrações do cinema com outros meios e disciplinas. Foi tudo muito assistemático, mas feito com muita paixão. Aliás, esse aprendizado continua até hoje.

Em uma lista que você publicou sobre seus filmes prediletos da última década consta A Fita Branca, do Haneke. Por que está cada vez mais difícil surgir cineastas com certo traço e atitude como é o caso de Haneke?

Difícil dizer. Talvez porque a pressão da indústria seja maior, ou porque o mercado esteja mais fechado a experiências radicais de expressão. Veja que mesmo cineastas que já mostraram grande vigor inventivo no passado (como Resnais, ou Coppola) hoje estão mais acomodados ou, no mínimo, menos inquietos e audaciosos.

Com a facilidade das câmeras leves e do compartilhamento pela internet, é possível que a forma de recepção de filmes mude e que as salas de cinema deixem de existir em um futuro não muito distante?

Essa mudança já é visível a olho nu. Mas acredito que as salas de cinema continuarão a existir por um bom tempo, seja apelando para o 3-D ou simplesmente para o mero atrativo do ritual de ver filmes na sala escura, acompanhado de uma massa anônima. Talvez, com o tempo, esse ritual se torne uma coisa de uma minoria nostálgica, uma atividade de igrejinhas, uma excentricidade semelhante aos dos colecionadores de antiguidades. Mas não sei. Sou péssimo para fazer previsões.

Abro um parêntese para citar duas suposições: você vai assistir um filme em um dia ruim, em um dia em que está com problemas, dores de cabeça, etc. E, um dia depois, vai assistir outro filme, mas no qual a história fala de algo que lhe é comum, ou que viveu na sua vida. Não acha que, em qualquer um dos dois casos, você pode não ser tão isento como deveria em sua análise da obra e deixar as coisas partirem até mesmo para um lado pessoal? Ou acha que o crítico tem total direito de deixar que seu estado no dia da análise interfira no resultado dela?

Você tem toda razão Citou casos extremos, mas mesmo em condições mais “normais”, o crítico nunca está totalmente isento. Penso que o melhor que ele tem a fazer é identificar justamente os pontos em que a questão pessoal possa aflorar e, na medida do possível, deixar isso claro para o leitor. Acima de tudo, acho saudável que o crítico deixe claro que sua apreciação de um filme é instável e provisória e que ele não pretende dar conta da totalidade do filme em questão.

Lembra de um filme que, por tratar de algo próximo a você, fez com que gostasse dele ou mesmo sentisse repulsa? Ou mesmo de uma cena que tem a ver com sua vida ou sua forma de ver o mundo?

As situações são tantas que seria impossível citá-las. Vou me limitar a um único caso: como perdi meu pai quando tinha 7 anos de idade, sei que sou particularmente vulnerável a filmes sobre orfandade precoce, sobre relação pai-filho etc.

Tem uma frase famosa de Luis Buñuel em que ele diz que “o acaso é o senhor de todas as coisas”. Acha que um grande filme pode ser obra do acaso?

Há alguns exemplos de acasos felizes que ajudaram na realização e no resultado final de certos filmes. Mas um grande filme nunca será simplesmente obra do acaso, pois sua grandeza depende da confluência de talentos e competências de uma porção de gente.

Nos últimos tempos você tem mudado bastante de endereço virtual. Primeiro, era blogueiro da Folha, depois esteve em um endereço pessoal e, agora, no site do Instituto Moreira Salles. Há algum motivo para tantas mudanças?

Os motivos foram alheios à minha vontade. Eu tinha um blog na Folha On-line porque trabalhava para a Folha de S. Paulo (o jornal impresso) e me convidaram para ter um blog. Quando fui demitido da Folha, saí também da Folha On-line e mantive meu blog de modo independente, até ser convidado pelo Instituto Moreira Salles para fazer uma coluna de cinema no blog deles, que aliás eu considero muito bom.

Você chegou a dizer, na Folha, que o filme Crash, de David Cronenberg, representava a “tara de uma época”. Se tivesse de citar um filme que representa a “tara” de nossa época, qual citaria?

Puxa, que pergunta difícil. Do ponto de vista do “conteúdo” explícito, penso que A Rede Social é um filme totalmente sintonizado com nosso tempo, por tratar de um universo cada vez mais predominante em nossas vidas, o universo da internet. Mas não sei. Teria que pensar melhor no assunto.

E, por falar em Cronenberg, em seu último filme, Um Método Perigoso, ele mudou um pouco o estilo e deixou a violência extremada e as transformações do corpo de lado. Essas mudanças de estilo e temas que alguns cineastas resolvem experimentar não lhe incomodam?

Não, muito pelo contrário. Desde que não sejam frutos de viradas oportunistas, para aderir a alguma moda ou tendência, e sim buscas pessoais, essas mudanças são saudáveis e estimulantes. O próprio Cronenberg já havia explorado as entranhas da mente em Spider. Estou curiosíssimo para ver como ele aborda essa relação de Freud e Jung com os paradoxos humanos e científicos da psicanálise (na ocasião da entrevista, o filme de Cronenberg ainda não havia estreado no Brasil).

Leia aqui a crítica de A Mãe e a Puta, por José Geraldo Couto

Rafael Amaral (11/04/2012)