contato com espíritos

Personal Shopper, de Olivier Assayas

Ser uma personal shopper significa estar à sombra de alguém. No caso de Maureen Cartwright (Kristen Stewart), significa quase nunca encontrar seu pagador e, ao mesmo tempo, servi-lo como substituto: comprar as roupas que ele não tem tempo para comprar, estar em alguns lugares apenas para marcar seu espaço.

É o que ocorre, a certa altura, quando Maureen é obrigada a servir de modelo fotográfica, ao marcar os locais em que sua contratante, a celebridade, deveria estar. A isso, em Personal Shopper, de Olivier Assayas, acrescentam-se o dom paranormal e o drama pessoal da protagonista.

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Maureen tem o poder de se comunicar com os mortos. Seu irmão gêmeo, Lewis, morreu há pouco tempo, depois de sofrer um ataque cardíaco. A moça vive com receio de morrer da mesma causa e está à sombra de um fantasma que quase nunca se revela. Maureen é condenada a viver à margem dos demais, em busca de um espírito, ao mesmo tempo como peça sem vida para uma celebridade.

Assayas restitui o clima de seu filme anterior, Acima das Nuvens, com mal-estar semelhante: as mulheres em cena eram sujeitadas a personagens substitutas (no palco, na vida) e buscavam refúgio em um local distante. Havia o contato entre a celebridade, a pequena celebridade e a assistente da primeira (a própria Stewart), em uma relação de dependência e dor, sob os sinais da passagem do tempo.

Em Personal Shopper, Assayas mergulha ainda mais na apreensão da personagem feminina solitária. Ela perdeu o irmão, às vezes se encontra com a namorada do falecido (que já tem novo namorado) e conversa com um amigo pelo computador. De um lado para outro, percorre lojas caras, até mesmo entre países, para vestir a chefe que quase nunca encontra, tão artificial quanto o espírito que persegue.

É de um mundo às sombras que Assayas fala aqui, em um filme que não escapa nunca à frieza e aos ambientes quadrados, sem vida. Os fantasmas – verdadeiros ou em carne – tentam, com algum esforço, aparecer para Maureen, condenada ao vazio.

Não por acaso, a relação dela com algo desemboca no celular. A moça passa a receber mensagens estranhas, de alguém ou alguma coisa que não se apresenta. Para Assayas, é o próprio mundo moderno e sua impessoalidade que brotam daquele aparelho cujo som repetitivo aflige o espectador: no fundo, diz o cineasta, as pessoas não suportam ouvir os mesmos sons cotidianos, os mesmos sinais, mas ainda continuam presas a eles, vítimas desses estímulos aparentemente banais.

Apesar dos fantasmas e de seus sinais, o que mais interessa em Personal Shopper são os fantasmas de carne e osso, em uma vida material – e sexualmente distante, como na sequência em que Maureen veste a roupa da patroa para se masturbar – que leva invariavelmente ao nada, ou ao movimento que busca, talvez em vão, um significado.

Paris é uma cidade fria, um pouco aterrorizante. Seu terror, contudo, não está ligado aos códigos do gênero. Em certo sentido, o filme de Assayas é mais dramático que assustador: seus espíritos, verdadeiros ou não, oferecem o terror como sinal último de uma existência, como se algo perdido (o irmão, uma vida comum) flertasse com a moça desanimada, sofrendo com frequência, levada a teclar com o desconhecido em um aparelho sem vida, sob os mesmos sons e estímulos.

(Idem, Olivier Assayas, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Body, de Malgorzata Szumowska

Os espíritos mandam recados aos humanos. Eles deixam janelas e torneiras abertas, apontando assim à libertação, ao alívio – ao mesmo tempo em que seres de carne e osso estão presos a um apartamento e aos seus próprios problemas.

Em Body vê-se um pai que pouco liga para a filha, que perdeu a mulher há poucos anos, que tenta ser indiferente aos detalhes de seu trabalho como investigador de polícia: às vezes se depara com cadáveres de suicidas, às vezes com crianças assassinadas.

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Sua filha não o suporta após perder a mãe. Não há comunicação entre eles, qualquer afeto. A certa altura, a menina revela sofrer de bulimia e é internada em uma clínica. Em um meio aparentemente físico, fantasmas não precisam dar as caras, ou passam quase despercebidos.

A diretora Malgorzata Szumowska utiliza os fantasmas como representação da necessidade de aproximação entre esses seres, a busca pelo afeto que desemboca na crença, o que os tornam mais unidos.

Ainda assim não se duvida dos fantasmas. Eles estão por ali. Eles mostram aos humanos que é necessário gritar, colocar para fora. Body está longe de um filme de terror, ou mesmo do drama sobre pessoas que não se tocam. É difícil de classificar.

A beleza da indefinição leva à alternância de situações, ao mesmo tempo com a sensibilidade da terapeuta espírita, com o riso do pai ou com os momentos em que a filha expressa, em terapia, sua dor contida. Mais uma vez, sobra o lado físico.

A terapeuta (Maja Ostaszewska) perdeu um filho bebê. A morte, ela diz, não tem explicação: segundo especialistas, muitas crianças são abatidas por morte subida. A falta de respostas leva a mulher a descobri-las. Torna-se médium.

Talvez mais valha viver com tal esperança, com o suposto contato espiritual, do que se render à pura materialidade. É o que parece dizer a cineasta, enquanto mostra o difícil trabalho do policial (Janusz Gajos) e a situação de sua filha (Justyna Suwala).

Em sessões de terapia com o uso do corpo, a médium pede que as meninas – todas magras, provavelmente vítimas de bulimia – gritem. A ideia é colocar a dor para fora. A certa altura, em sonho, o policial fará o mesmo, e depois acordará assustado.

O belo trabalho de Szumowska mostra a busca pelo afeto em uma Polônia fria, vítima da falta de comunicação, de ambientes fechados, sem cores, quase como prisões. É sobre a teia que une seres tão diferentes, sobre algum segredo – ou algum sinal – que pode estar contido no ranger das janelas, no vazamento da água.

(Cialo, Malgorzata Szumowska, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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