Confidências à Meia-Noite

Doris Day (1922–2019)

Entre 1959 e 1962, depois de uma carreira que já tivera grandes momentos, Doris rodara uma série de filmes – Confidências à Meia-Noite, Volta Meu Amor, Carícias de Luxo e outros – que a estabeleceram, para surpresa geral, como a bilheteria número 1 do mundo. Não que os filmes fossem grande coisa. Eram comédias urbanas, contemporâneas, em que, por um desses paradoxos que então floresciam em Hollywood, a graça estava em Doris resistir às investidas do galã (quase sempre Rock Hudson) contra a sua virgindade – a qual só era justiçada no último rolo do filme e, mesmo assim, depois do casamento. Talvez parecesse mais engraçado porque, ao fazer aqueles papéis de virgem, ela já tivesse quase quarenta anos. Os filmes eram banais, divertidos e inofensivos, donde o enorme sucesso, mas os críticos foram soezes. Eles não julgavam os filmes – julgavam Doris Day.

Ruy Castro, jornalista e escritor, em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras; pg. 50).

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Dez grandes erros do Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas já errou muito. Em alguns casos, quem deveria ganhar ou não se torna parte de um debate, e sobram pontos de vista. Em outros, contudo, constata-se que algo de errado realmente ocorreu e quase ninguém tem dúvidas: o Oscar errou.

Para a lista abaixo, foram levadas em conta apenas obras que chegaram ao prêmio. A Academia esnobou grandes filmes em diferentes ocasiões, estes sequer indicados. Muitos diretores importantes foram legados à categoria de filme estrangeiro. À lista.

10) Melhor filme e diretor (John Ford) para Como Era Verde Meu Vale (1942)

Quem deveria vencer: Cidadão Kane e seu diretor, Orson Welles.

Talvez seja o erro mais conhecido e lembrado, pois houve uma campanha, à época, para que o filme de Orson Welles não ganhasse nada – já que sua obra-prima é baseada na vida de William Randolph Hearst. Ainda assim teve diversas indicações e saiu com o prêmio de roteiro.

como era verde meu vale

9) Melhor filme e diretor (Kevin Costner) para Dança com Lobos (1991)

Quem deveria vencer: Os Bons Companheiros e seu diretor, Martin Scorsese.

Em alguns momentos, o Oscar se deixa levar pela empolgação e concede todos os seus prêmios a um único filme. É o caso da obra de Kevin Costner, bela, mas inferior ao filme de máfia de Scorsese. Outra injustiça com o diretor ítalo-americano.

dança com lobos

8) Melhor filme e diretor (Tony Richardson) para As Aventuras de Tom Jones (1964)

Quem deveria vencer: Terra de um Sonho Distante e, como diretor, Elia Kazan (pelo mesmo filme) ou Federico Fellini por Oito e Meio.

Richardson fez alguns filmes importantes na Inglaterra, no movimento de renovação do cinema britânico, o free cinema. Contudo, coroá-lo melhor diretor por um filme hoje pouco lembrado foi um tremendo exagero. E o filme de Fellini ficou de fora da categoria principal.

albert finney & diane cilento - tom jones 1963

7) Melhor filme e diretor (John G. Avildsen) para Rocky – Um Lutador (1977)

Quem deveria vencer: qualquer um dos outros filmes concorrentes é melhor. Taxi Driver e Rede de Intrigas destacam-se entre eles; para diretor, Sidney Lumet

Stallone chegou a ser apontado, à época, como “novo Marlon Brando”. A história do boxeador fracassado que dá a volta por cima conquistou os Estados Unidos, mas era o pior dos cinco filmes indicados naquela ocasião. E rendeu várias continuações. Creed está aí para provar.

rocky

6) Melhor filme e diretor (Carol Reed) para Oliver! (1969)

Quem deveria vencer: Leão no Inverno e, na categoria de direção, Stanley Kubrick, por 2001: Uma Odisseia no Espaço, ou Gillo Pontecorvo, por A Batalha de Argel – duas obras-primas não indicadas para melhor filme.

O diretor britânico realizou o maravilhoso O Terceiro Homem e fez muito sucesso com o musical baseado na obra de Dickens. Na mesma época, pouca gente embarcou na ficção de Kubrick ou no filme político com toques documentais de Pontecorvo.

oliver

5) Melhor filme e ator (Russell Crowe) para Gladiador (2001)

Quem deveria vencer: O Tigre e o Dragão ou Traffic; como ator, Tom Hanks em Náufrago e Javier Bardem em Antes do Anoitecer estão superiores.

Teve gente que comparou o épico de Ridley Scott a Spartacus. Exageros em massa: o filme não tem o brilho dos dois competidores citados. É pouco mais que uma aventura previsível. E Scott prova, com o também fraco Perdido em Marte, que a Academia gosta dele.

gladiador

4) Melhor filme e diretor (Robert Benton) para Kramer vs. Kramer (1980)

Quem deveria vencer: Apocalypse Now e seu diretor, Francis Ford Coppola.

Um ano depois de premiar um filme sobre o Vietnã, O Franco Atirador, talvez a Academia tenha achado demais dar a estatueta à obra-prima de Coppola (a quarta em apenas uma década). Tanta ousadia – e após alguns anos de produção e problemas – não coube no Oscar.

kramer vs kramer

3) Melhor filme para Crash – No Limite (2006)

Quem deveria vencer: O Segredo de Brokeback Mountain ou Boa Noite e Boa Sorte

Mais um caso em que a Academia premiou o pior entre os indicados à categoria principal, prova de que a politicagem corre solta em Hollywood (o que seria visto mais tarde, de novo, com a vitória de 12 Anos de Escravidão). O drama de Ang Lee ganhou os prêmios de roteiro e direção, curiosamente não o de melhor filme. Dá para entender?

crash

2) Melhor roteiro para Confidências à Meia-Noite (1960)

Quem deveria vencer: Os Incompreendidos, Intriga Internacional ou Morangos Silvestres.

Nem mesmo a Academia escapou à onda dos filmes dos queridinhos Rock Hudson e Doris Day. Logo o cinema americano passaria por mudanças: viria a contracultura, a Nova Hollywood. Poderiam ter premiado um Bergman ou um Truffaut. Preferiram o óbvio. Perdeu o cinema.

confidências à meia-noite

1) Melhor filme e diretor (Robert Redford) para Gente como a Gente

Quem deveria vencer: Touro Indomável e Martin Scorsese.

A maior vergonha da História do Oscar, quando um drama menor, família, sobre a chegada da classe média ao divã, abocanhou os prêmios da incontestável obra-prima de Martin Scorsese – cruel demais àquela América que buscava deixar o passado amargo para trás. Uma onda de dramas familiares – como Kramer vs. Kramer e Laços de Ternura – definiu a época.

gente como a gente

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