Closer

13 filmes sobre relacionamentos em crise

Nem sempre existe amor perfeito no cinema. É o que se vê nos dez filmes abaixo: um amontoado de idas e vindas e sentimentos verdadeiros – tudo em meio a discussões e conflitos. Também um oceano de dores, de descobertas. Há obras que mostram casais unidos após anos, confrontando problemas; outras, como A Mãe e a Puta, lidam com amantes jovens, com suas dificuldades em ter algo sério ou simplesmente viver o momento.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Aurora, de F.W. Murnau

O homem tem uma amante da cidade e, após pensar em matar a mulher, tenta reconquistá-la. O título original dessa obra-prima fala sobre uma “canção de dois humanos”.

aurora

Viagem à Itália, de Roberto Rossellini

Provavelmente o melhor de Rossellini, o filme apresenta a crise de um casal que viaja pela Itália e passa pelo solo de vulcões e velhos cadáveres conservados.

viagem à itália

A Noite, de Michelangelo Antonioni

Na segunda parte da Trilogia da Incomunicabilidade, Mastroianni e Jeanne Moreau caminham sem rumo: pela cidade, por hospitais e festas. Pela manhã, precisam se confrontar.

a noite

Nós Não Envelheceremos Juntos, de Maurice Pialat

O grande Pialat mostra um relacionamento conturbado entre um bruto cineasta e sua mulher, que sempre o aceita de volta. Isso, claro, poderá mudar.

nós não envelheceremos juntos

A Mãe e a Puta, de Jean Eustache

Em cena, nessa obra-prima de Eustache, não estão pessoas casadas. São amantes livres, em Paris, ainda com questionamentos sobre o tempo passado, o Maio de 68.

a mãe e a puta1

Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman

O filme de Bergman também deu origem a uma minissérie e está entre os melhores exemplares sobre conflitos amorosos na tela. Passa do casamento à separação, depois ao adultério.

cenas de um casamento

Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

O diretor fez esse filme em homenagem à sua musa, Diane Keaton, e traz a história de um comediante em dúvida sobre seus relacionamentos. Oscar de melhor filme.

noivo neurótico

O Fundo do Coração, de Francis Ford Coppola

O extravagante musical de Coppola apresenta um casal em fim de relacionamento. Pela noite, eles conhecem outras pessoas e uma nova jornada cheia de cores.

o fundo do coração

Noites de Lua Cheia, de Eric Rohmer

Ela não quer viver com ele, deseja ser independente. Ele não a entende, mas aceita. Nessas idas e vindas, ambos descobrem que amor e liberdade nem sempre são compatíveis.

noites de lua cheia

Closer, de Mike Nichols

Quatro peças distribuem-se em um jogo complicado: o jornalista ama a stripper e talvez não saiba, a fotógrafa prefere a segurança do médico e demora a descobrir isso.

closer

Cópia Fiel, de Abbas Kiarostami

O casal, até certa altura, parece ter acabado de se conhecer. Mais tarde o passado vem à tona nesse filme maravilhoso, no qual Kiarostami questiona o que é verdadeiro e o que é cópia.

cópia fiel

Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater

Eles estiveram juntos em filmes passados, separaram-se e voltaram a se encontrar. Agora estão casados: vivem aquele ponto em que tudo parece se dissolver.

antes da meia-noite1

Meu Rei, de Maïwenn

Mulher acredita ter encontrado o homem de sua vida. Depois, grávida, ela passa a enfrentar os obstáculos dessa relação a dois, entre idas e vindas e doses de drama.

meu rei

Veja também:
Dez filmes recentes com relacionamento gay

Fotógrafos (em dez filmes)

Os fotógrafos do cinema quase sempre entram em alguma enrascada: às vezes fotografam algo que não podiam, e às vezes, como em Blow-Up, fotografam um crime mesmo sem saber. E talvez esse crime sequer tenha ocorrido.

O dilema do filme de Antonioni ecoaria em outros, não necessariamente sobre a arte do fotógrafo. É o caso de um Tiro na Noite, de De Palma, que, mais tarde, faria Femme Fatale, sobre um fotógrafo que se envolve com uma mulher perigosa.

Viciados em trabalho, esses fotógrafos usam suas câmeras como armas, ou como forma de denúncia – caso da protagonista de Mil Vezes Boa Noite, tendo de encarar o dilema de viver em zonas de guerra ou estar com a família, longe do trabalho.

E há, por sua vez, o instante mágico, explorado por Mike Nichols em Closer. A fotógrafa Anna capta a lágrima de Alice (Natalie Portman). Momento revelador, no qual o espectador também descobre que a segunda sabe sobre o relacionamento adúltero entre seu companheiro e Anna, em uma das várias reviravoltas do filme.

L.B. Jefferies (James Stewart), em Janela Indiscreta

janela indiscreta

Thomas (David Hemmings), em Blow-Up – Depois Daquele Beijo

blow-up

Laura Mars (Faye Dunaway), em Os Olhos de Laura Mars

os olhos de laura mars

Bellocq (Keith Carradine), em Menina Bonita

menina bonita

Tereza (Juliette Binoche), em A Insustentável Leveza do Ser

a insustentável leveza do ser

Robert Kincaid (Clint Eastwood), em As Pontes de Madison

pontes de madison

Buscapé (Alexandre Rodrigues), em Cidade de Deus

cidade de deus

Nicolas Bardo (Antonio Banderas), em Femme Fatale

femme fatale

Anna (Julia Roberts), em Closer: Perto Demais

closer

Rebecca (Juliette Binoche), em Mil Vezes Boa Noite

mil vezes boa noite

Closer – Perto Demais, de Mike Nichols

Em diferentes momentos de Closer – Perto Demais, todos dizem “eu te amo”: Dan para Anna, Alice para Dan, Larry para Alice, Anna para Larry. Há algo de banal e passageiro, como se tudo tivesse certa validade. Nada é para sempre.

O filme é irônico, quase nada romântico. É cheio de voltas, episódico, trágico em seus diálogos cortantes, na ausência do sexo, ou no sexo como palavra – meio em que termina, sem ir além. Closer, de 2004, é centrado no texto, ainda que a direção de Mike Nichols valorize a posição das peças, os pequenos gestos.

closer1

A impressão é que as personagens têm profundos sentimentos. Talvez, em algum momento, tiveram. É a história de como perderam tudo, reinventaram-se para parecerem as mesmas. E terminaram – cada uma à sua forma – de outro jeito.

É um filme sobre estranhos, o que faz o título irônico. Estranhos não estão próximos. Até mesmo naquela exposição fotográfica – cujo nome é “estranhos” – há apenas uma leve impressão de proximidade, com os rostos a explodir, à frente, como se pudessem ser tocados. Entre eles, o de Alice (Natalie Portman), com lágrimas pela face.

Essa menina é um mistério, a personagem-chave. Ao mesmo tempo uma estranha, dona de uma identidade secreta, é quem parece revelar tudo: a stripper que se despe apenas às aparências em um filme sobre aparências, sobre a ideia de que se pode tocar.

Não por acaso, a primeira frase do filme é dela, direto aos olhos de Dan (Jude Law): “Olá, estranho”. É simples, e é sobre tudo o que virá pela frente. Levado por seus encantos, Dan escreverá um livro sobre ela, como se a compreendesse.

closer2

O espectador, mais tarde, lamenta-se: aquelas pessoas, ao contrário do que aponta o título, não podem ser tocadas. São estranhas. Vivem anos lado a lado e não sabem suas verdadeiras identidades. Quando, ao fim, Dan pede para Alice dizer a verdade, ela simplesmente deixa de amá-lo. Ele afirma a necessidade de jogar limpo, pois isso os torna diferentes dos animais. Para ela, a interpretação é inerente aos seres humanos.

Primeiro, surge com o cabelo vermelho e curto. Depois, preto e curto, também com algumas perucas ao longo do filme – quando “se despe” naquela casa noturna, com brilho, música eletrônica, mulheres de pouca roupa. Entrega-se para não se entregar e deixa que Larry (Clive Owen) veja o menor detalhe de sua parte íntima sem que ele nada veja, pois sequer pode acreditar nela. O dinheiro dele é neutro.

Aos poucos, ele ganha espaço: é o troglodita, o homem que ama Anna (Julia Roberts) com profundidade e, ao mesmo tempo, capaz de traí-la com uma prostituta em uma de suas viagens. É sincero: confessa sua traição e ainda assim diz amar sua mulher.

Ele confessa justamente porque ama, ao contrário dela, que confessa seu pecado justamente por amar outro, Dan. Não dá para saber se ela teria forças para confessar caso ele – o troglodita – não tivesse confessado antes sua escapada.

closer

Entre todos, Larry é o mais grotesco, o mais fácil de odiar, também o mais real. Outra ironia. Contudo, fácil é amar o jeito leve com que Alice utiliza seu sexo para fazer os homens caírem a seus pés, quando sua aparente pequenez não leva a pensar na força de seus momentos finais, em sua caminhada por Nova York.

O mais triste em Closer é perceber o quanto as personagens tentam se tocar, o quanto tentam não ser estranhas e se entender. E, ainda assim, são seres impossibilitados de chegar ao outro. A aproximação dá-se pela pele, não pela compreensão.

Dan, por exemplo, é craque em eufemismo para criar seus obituários. Ou seja, escreve de uma forma para parecer outra. Joga com a falsidade. Anna acredita ter a capacidade de capturar os outros com sua câmera, mas não pode entender as lágrimas de Alice.

E o que pode fazer Larry em sua busca por sexo pela internet? Nada mais do que se deparar com o acaso, ou seja, com Anna. E se o acaso aqui interfere, talvez seja necessário pensar que as coisas – todas elas – começam assim: um pouco ao acaso, até ganharem densidade, até mostrarem que continuam distantes apesar da aparente aproximação. Estranhos também dizem “eu te amo”.