Claudia Cardinale

O encontro de Claudia Cardinale com Luchino Visconti

Conheci Luchino logo que cheguei à Itália, tinha um contrato com a produtora que produziu o filme Noites Brancas. Encontrava-o com frequência, mas aterrorizava-me a ideia de trabalhar com ele. Era no início da minha carreira, em 1959, e eu ainda tinha trabalhado pouco, acabava de concluir as filmagens de Os Eternos Desconhecidos. O início do meu trabalho com ele foi para mim muito comovente. A primeira cena em que apareci [em Rocco e Seus Irmãos] era um exterior, à saída de uma sala de boxe, e havia uma luta. Eu estava lá no meio, um pouco assustada, e ouvi Luchino gritar pelo microfone: “Não magoem a Cardinale”. Compreendi então que ele me tinha adotado.

Foi sempre gentil comigo, e, após esse dia, passei a visitá-lo com muita frequência. As nossas relações não eram meramente profissionais. Mas, mais tarde, quando preparou O Leopardo, pediu-me para desempenhar o papel de Angelica.

Claudia Cardinale, atriz, em entrevista no livro Luchino Visconti, de Alain Sanzio e Paul-Louis Thirard (Publicações Dom Quixote; pg. 193). Abaixo, Alain Delon, Visconti e Cardinale nas filmagens de O Leopardo.

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Rocco e Seus Irmãos, de Luchino Visconti

Quando Explode a Vingança, de Sergio Leone

O bandido mexicano Juan Miranda (Rod Steiger) torna-se guerrilheiro por acidente. Tenta escapar da Revolução Mexicana, dos escudeiros maltrapilhos de Pancho Villa, e termina saudado, carregado pela multidão armada e não tão diferente dele.

Convertido em herói pela ótica do cineasta Sergio Leone, em Quando Explode a Vingança ele será o responsável por resumir o que é uma revolução. Como lembra, trata-se de homens que sabem ler guiando pobres a uma suposta liberdade. Depois, os homens que sabem ler engordam, enquanto os pobres continuam como antes.

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A visão amarga tem sua consequência: o parceiro e melhor amigo de Juan, John (James Coburn), joga na lama um livro sobre patriotismo. Especialista em bombas, o companheiro irlandês também tem seus motivos para desconfiar do conflito.

A revolução de Leone dá voz a esses seres amargos, desiludidos, que sorriem enquanto dizimam um pelotão de soldados mexicanos. A música de Ennio Morricone completa a ideia: o melódico encontra um estranho e possível casamento com a violência extrema.

O resto é resto, Leone faz o público acreditar. A vida, nessa revolução, ou guerra, não vale nada: homens são encurralados e mortos em buracos, enquanto o trem, ao fundo, emite a imagem da modernidade. O trem é a representação do progresso.

Não por acaso, o filme anterior do genial cineasta abordava justamente a construção da linha férrea. Progresso e modernidade – ao olhar da prostituta interpretada por Claudia Cardinale – vêm acompanhados de sangue, de conflitos, de homens sujos.

Com Era Uma Vez no Oeste e, mais tarde, Era Uma Vez na América, Quando Explode a Vingança forma uma trilogia curiosa. É a parte do meio, lançada em 1971, na transição de gêneros: começa como faroeste, termina como filme de guerra.

Os maltrapilhos – incluindo a família de Juan – queriam roubar diligências e bancos. São bandidos assumidos, divertem-se com seus instintos animais. É o que permite, até certo ponto, ver o faroeste: eles desejam apenas o conflito local, o ouro do banco, enquanto oram à beira de um altar improvisado, em busca de riquezas.

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Terminar na revolução é inevitável: é o momento em que o filme ganha conotação política. É, por isso, o passo seguinte da colonização apresentada em Era Uma Vez no Oeste: não é mais um conflito limitado a uma região, muito menos movido por vingança pessoal. Era Uma Vez na América, depois, expõe a criminalidade como instituição: é sobre a transformação de jovens amigos em mafiosos.

No caso de Juan, sobra um rosto triste, sem quase nada senão a revolução em curso: sem a família, sem o melhor amigo. É a última das mutações em Quando Explode a Vingança, em seu plano final. Deixa espaço ao filme seguinte, mais frio, com o mafioso que recorre ao ópio para lembrar – ou criar – a história de sua vida.

São filmes feitos pela força da direção. Às vezes o roteiro nem mesmo convence. Em Quando Explode a Vingança, algumas passagens encurtam distâncias, soam inverossímeis. A comédia encontra assim seu espaço: no momento em que Juan solta seu sorriso, atirando sem parar, o espectador entende do que é feito esse terreno.

Tem todas as características de Leone, seu gosto pela grandiosidade. Nada soa pequeno ou banal. Homens são enfileirados, mortos e empilhados. A carnificina poucas vezes encontrou grandeza semelhante e música tão bela para lhe amparar.

(Giù la testa, Sergio Leone, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Dez beldades em dez grandes aparições na tela

As aparições abaixo dão ideia do poder feminino na tela. É a capacidade do cinema em mitificar seres – que, como se vê aqui, à primeira vista não vão além do olhar, do pequeno gesto. São mulheres apaixonantes que podem até destruir seus companheiros.

Com exceção de uma, todas têm algo em comum: são para os homens em cena objetos de desejo. Outro dado importante deve ser ressaltado: algumas fisgaram o coração de seus diretores. Por isso, suas primeiras imagens são também imagens de amor. À lista.

Lauren Bacall em Uma Aventura na Martinica

É famosa a história de que o diretor Howard Hawks teria se apaixonado por Bacall, cuja primeira aparição, à porta do quarto do herói, inclui o pedido por fogo.

uma aventura na martinica

Rita Hayworth em Gilda

O marido e vilão apresenta Gilda ao seu capanga. Ela lança o cabelo para trás e responde a ele, em cena que seria homenageada em Um Sonho de Liberdade.

gilda

Silvana Mangano em Arroz Amargo

A beldade dança enquanto troca olhares com o bandido vivido por Vittorio Gassman. Eles voltam a se encontrar em plantações de arroz nesse grande filme italiano.

arroz amargo

Grace Kelly em Janela Indiscreta

Como sonho, Kelly aparece ao protagonista que então dormia e que talvez tenha descoberto um crime. E talvez seja este o close mais belo da história do cinema.

janela indiscreta

Sue Lyon em Lolita

Depois de ver Lolita, o professor interpretado por James Mason não pode fazer mais nada: rende-se à pequena beldade e até aceita casar com sua mãe possessiva para estar perto dela.

lolita

Claudia Cardinale em O Leopardo

Mais de um homem percebe o magnetismo da bela que cruza o salão e que, depois, sorri em excesso entre os convidados do jantar – de acordo com as mudanças que pairam por ali.

o leopardo

Anna Karina em Alphaville

Como Bacall, ela pede por fogo nesse filme de Godard, que retira algo do cinema noir, e talvez por isso próximo de Hawks. Karina era a musa do diretor e sua companheira.

alphaville

Claude Jade em Beijos Proibidos

A bela ainda retornaria em Domicílio Conjugal e Amor em Fuga. É por essa bela comédia romântica, contudo, que ficaria eternizada: a companheira perfeita para Antoine Doinel.

beijos proibidos

Candice Bergen em Ânsia de Amar

Após os créditos, quando os rapazes falam de sexo, surge a personagem de Bergen, entre sombras, na primeira imagem do filme (sob a fotografia do mestre Giuseppe Rotunno).

ânsia de amar

Barbara Hershey em Hannah e Suas Irmãs

“Ela é linda”, diz a personagem de Michael Caine ao se deparar Hershey, à porta, na abertura do filme de Woody Allen. O público não deverá discordar.

hannah e suas irmãs

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Mario Monicelli, 100 anos

Na comédia à italiana, Mario Monicelli tem um papel fundamental. Fez rir da tragédia, com suas personagens sentimentais e exageradas, às vezes levadas ao trambique, ao caminho mais fácil. Esse espírito pode ser visto em Os Eternos Desconhecidos.

Vittorio Gassman, o belo malandro, divide a tela com os ainda jovens Claudia Cardinale e Marcello Mastroianni, também com o veterano Totò. A obra resume sua forma de fazer cinema, o que perduraria em trabalhos seguintes, como A Grande Guerra.

Seu melhor talvez esteja em Os Companheiros (foto abaixo), com Mastroianni. Ao lado de um bando de trabalhadores, ele tenta guiar a massa, entre a consciência e o sentimentalismo: leva inevitavelmente ao confronto entre patrões e empregados.

A forma de Monicelli encarar o mundo estava ali: após a morte de um inocente, ao fim de Os Companheiros, a única coisa a fazer é seguir em frente, não se render. E seu suicídio, em novembro de 2010, pode ser também uma forma de não se render: aos 95 anos, o grande diretor despedia-se de forma brutal, indisposto a esperar pelo pior.

os companheiros

Dez beldades em dez grandes filmes italianos

Em alguns filmes italianos, belas mulheres brotam da miséria. Do período neorrealista à renovação italiana, passando pelos episódios de gente burguesa e vazia em A Doce Vida e A Aventura, ou mesmo pelas deliciosas comédias como Seduzida e Abandonada, essas damas estiveram ao centro das histórias e retiraram alguns homens do sério. Abaixo, uma lista com dez beldades que merecem ser apreciadas.

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Clara Calamai em Obsessão (1942)

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Silvana Mangano em Arroz Amargo (1949)

arroz amargo

Ingrid Bergman em Stromboli (1950)

stromboli

Alida Valli em Sedução da Carne (1954)

senso

Anita Ekberg em A Doce Vida (1960)

a doce vida

Monica Vitti em A Aventura (1960)

a aventura

Annie Girardot em Rocco e Seus Irmãos (1960)

rocco e seus irmãos

Claudia Cardinale em A Moça com a Valise (1961)

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Sophia Loren em Duas Mulheres (1961)

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Stefania Sandrelli em Seduzida e Abandonada (1964)

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