Claude Rains

A História de uma Mulher, de David Lean

O marido traído está sozinho, mais de uma vez, de olho na mulher que ama outro homem. É sua mulher, mais jovem, bela, a quem ele refere-se como uma pessoa que escolheu o conforto, não a paixão. Ela não nega. Vivido por Claude Rains, esse coadjuvante quase vira protagonista em A História de uma Mulher, de David Lean.

Em sua estrutura, regada a lembranças e alguns instantes, é um filme triste, sobre perdedores, a exemplo do anterior Desencanto. Podem ser considerados filmes irmãos: ambos tratam de histórias de amor irrealizadas sob a ótica feminina, sobre personagens que viveram dias de amor e se viram, ao fim, de cara com a realidade. Ou com a morte.

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A dureza desse encontro final, do retorno à chamada “vida real”, é simbolizada pela linha do trem ou do metrô, pelo espaço ao qual talvez as mulheres possam se lançar, na opção pelo suicídio. E se continuam, isso diz muito sobre o caminho pelo qual Lean optou: o mundo pós-guerra, no cinema, é o da realidade, da aversão à paixão e ao sonho.

Não deixa de ser indicativo que alguns dias de paixão do casal central tenham se passado antes da guerra. Quando voltam a se encontrar, são pessoas diferentes, sobretudo no caso dele, que se casou, teve filhos. Ela continuou a viver a vida que viveu, do lado do homem que escolheu trair, mas do qual não se despregou.

Lean não chega a penetrar tanto no que move essas pessoas – ainda que a narração dela, a sustentar o todo, possa dar uma ideia de seu interior. O que resta, na verdade, são mais sentimentos e movimento do que explicações sobre o que ela chama de destino e o que o próprio cineasta não fará parecer obra do acaso.

A história pertence à loura Mary Justin (Ann Todd), até certo ponto assexuada, um pouco como Grace Kelly. Esconde-se no próprio estilo, forjando uma curiosa distância que a faz impensável à mesma “vida real”. Ao contrário, portanto, da Celia Johnson de Desencanto, que insiste em parecer a companhia possível para uma viagem de trem.

O diretor chega a lançar sua personagem a um passeio de barco real na companhia do amado, o mesmo Trevor Howard do filme anterior e já citado. Tocada pela água, à forma realista do momento, ela quase convence que pode ser uma mulher “comum”, ao efeito dos problemas comuns de damas que insistem em amar demais.

Entre dois tempos, dois homens, ela vê-se perdida: deve amar incondicionalmente o outro (esse mundo de paixão, anterior à guerra) sem renunciar ao conforto e aos vencedores que ainda a retiram da zona mórbida em que se encontra ao fim, à beira do trilho do metrô (o mundo novo que renasce, o dos investidores financeiros).

Isso explica também por que a personagem de Rains, se comparada à de Howard, é mais palpável. O marido sempre tem algo real a oferecer, aquele estado corriqueiro, de repetição, que se opõe à graça e à eterna novidade do outro, como as fotos de sua vida, os espaços de sua casa, os cantos possíveis de uma trajetória aparentemente desconhecida.

O marido sofre, é duro, chega a se separar da mulher. Chega mesmo à semelhança do vilão. Lean recua, dá-lhe voz, fragiliza-o para o espectador entender, no encerramento, que ambos – marido e mulher – caminham inevitavelmente ao fim do romantismo (não o de ambos, que talvez nunca tenha existido, mas o de um mundo que ficou para trás).

Em seus primeiros filmes, baseados nas obras de Noël Coward, Lean mostrava a transformação dos britânicos, do estado de paixão tomado pelo momento da guerra e seu patriotismo em Nosso Barco, Nossa Alma àquela pancada final de Celia Johnson, frente ao vazio, à impotência, à beira da linha do trem em Desencanto. Do livro de H.G. Wells, Lean alinha-se outra vez à ideia de que os românticos deverão aprender a viver outros tempos.

(The Passionate Friends, David Lean, 1949)

Nota: ★★★★☆

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Quem é Richard Blaine?

Para todos, apenas Rick, o cínico dono de um famoso bar em Casablanca, a rota dos refugiados, recanto dos perdidos. A personagem central do “clássico dos clássicos” tem pouco a entregar sobre o passado. Não traz à tona histórias de sua origem, mas apenas a história de seu relacionamento com Ilsa Lund (Ingrid Bergman), a companheira do revolucionário Victor Laszlo (Paul Henreid).

Um dos mistérios de Casablanca, de Michael Curtiz, está no homem que não se revela, trancado, ao mesmo tempo distante dos problemas do mundo e, quem diria, um sentimental. Um amigo tem dúvidas e quer saber: Rick pode ajudar Laszlo a fugir e se mostrar um sentimental como todos imaginam? Rick – até a volta de Ilsa – parece desprezar a todos, desiludido e ranzinza.

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Algumas características, abaixo, ajudam a entender e a imaginar o passado de Richard Blaine, imortalizado por Humphrey Bogart.

Jogo e negócios

Antes mesmo de expor a face, Rick é mostrado em seus costumes. Está sozinho, em uma mesa separada, no interior do cassino – área reserva apenas a alguns clientes do Rick’s Café, em Casablanca. Antes, sua mão, um tabuleiro de xadrez, um documento para assinar e a bebida. A assinatura deixa evidente que se trata de um homem de negócios. O xadrez evidencia o apostador, o jogador, o homem do mundo. Para acompanhar, a bebida e o cigarro. Enfim, Rick.

O terno branco

O protagonista veste branco. A cor, em tempos de guerra, dá uma ideia de neutralidade, como se ele, àquela altura, não se envolvesse com os problemas do mundo. Como se verá mais tarde, Rick teve experiências ruins com o amor e não deixa espaço para sentimentos: é um negociante e recebe clientes, não amigos ou companheiros.

O passado

Aos poucos, algumas citações sobre o passado de Rick vêm à tona. Em uma delas, o capitão Louis Renault (Claude Rains) fala sobre o currículo do protagonista. “Em 1935, vendeu armas à Etiópia. Em 1936, lutou na Espanha contra os fascistas”, recorda Renault. “E fui bem pago ambas as vezes”, Rick salienta. “O lado vitorioso teria pago muito mais a você”, retruca o chefe de polícia, tão cínico quanto o herói.

Mais tarde, ao se encontrar com o major alemão Heinrich Strasser (Conrad Veidt), a personagem de Bogart descobre que existe um dossiê sobre ele. Os alemães sabem muito e desconfiam que o herói possa ajudar Laszlo a fugir. Rick saca as anotações de Strasser e as lê. “Meus olhos são castanhos?”, questiona, em evidente ironia.

A amante

O coração de Rick tem dona: Ilsa Lund. O filme, contudo, sugere uma mulher a mais na vida do protagonista, uma bela à beira do balcão bar, desiludida, que o questiona se ainda há alguma chance para ambos e quando isso deverá ocorrer. Sempre durão, Rick percebe sua embriaguez e pede que um táxi leve-a embora.

O bar

Personagem à parte é o próprio bar de Rick, um ponto de encontro. Por ele, Curtiz movimenta a câmera de mesa em mesa, com Sam (Dooley Wilson) ao centro, a alegrar a turma toda. É o espaço utilizado para negociações e movimentos escusos, tal como para reencontros – onde política, velhos amores e dinheiro misturam-se ao som das taças e ao cheiro de bebida barata. É palco, também, para o confronto entre alemães e franceses, quando se evoca a Marselhesa.

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Ilsa

A redenção de Rick, seu passado, seu meio de transformação. “De todos os bares do mundo”, esbraveja ele, às sombras, “ela tinha que entrar justo no meu.” Com o retorno de Ilsa, fica claro: Rick é, no fundo, um sentimental, um herói, não mais o homem cínico ao qual havia se convertido nos primeiros instantes, à espera do tempo e do nada. Ilsa ama-o; do outro lado, o gesto é recíproco. Mas os problemas do mundo estão acima desses sentimentos. Ilsa vai embora. Antes, contudo, deixa um homem transformado – sem passado ou futuro.

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Oito grandes filmes que terminam com portas fechando

De dentro para fora ou o oposto, para se sentir preso ou para ver a prisão dos outros. São assim as cenas da lista abaixo, de filmes variados, dirigidos por gênios da sétima arte. Certamente há milhares de obras com encerramentos semelhantes. A lista é apenas um apanhado rápido, de grandes filmes que seguem na memória do cinéfilo.

O Testamento do Dr. Mabuse, de Fritz Lang

Lang teve tempo de dirigir essa grande produção antes de fugir da Alemanha nazista. Seu filme mostra muitos problemas da época: como o nazismo e seu líder, Mabuse é onipresente. Suas forças agem como um vírus, um fantasma perseguidor, e o final mostra que a loucura segue viva em outro homem enclausurado.

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Interlúdio, de Alfred Hitchcock

O mestre do suspense, ao fim de Interlúdio, seu melhor filme dos anos 40, não precisa mostrar a morte do vilão. Prefere a sutiliza da porta fechada e, pouco antes, o caminhar do nazista (Claude Rains) ao covil dos comparsas, na bela mansão. O herói (Cary Grant) não lhe deu espaço em seu carro ao salvar a amada indefesa (Ingrid Bergman).

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Rastros de Ódio, de John Ford

Para alguns, o maior filme de Ford. Começa com a imagem da porta que se abre, do homem (John Wayne) que retorna da Guerra Civil e é recebido pela família. Mais tarde, ele encontra nova tragédia: os índios matam e raptam seus parentes. Ele sai em busca de justiça, da pequena sobrinha (transformada em índia) e, ao fim, volta ao isolamento.

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Estranho Acidente, de Joseph Losey

O mestre Losey volta a trabalhar com um roteiro de Harold Pinter depois do magistral O Criado e explora um curioso jogo de desejos e relacionamentos sob o verniz de belos ambientes. O encerramento leva ao esconderijo: o pai de família (Dirk Bogarde) retorna para sua mansão e o espectador ainda ouve o som do acidente de carro.

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Os Rapazes da Banda, de William Friedkin

Antes de alcançar fama mundial com Operação França e O Exorcista, Friedkin dirigiu esse drama intimista sobre um grupo de amigos gays que se reúne para comemorar o aniversário de um deles. Após muitas discussões, jogos e velhas histórias, Michael (Kenneth Nelson) pede que seu companheiro apague a luz antes de sair.

os rapazes da banda

O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola

É o momento em que, ao olhar da mulher (Diane Keaton), o marido (Al Pacino) assume o posto de chefão da máfia, da família, e recebe os comparsas para ter a mão beijada. Leva à escuridão e à não menos genial música de Nino Rota, além de confirmar a ideia geral de Coppola: uma obra sobre salas fechadas, apenas para alguns convidados.

o poderoso chefão

Kramer vs. Kramer, de Robert Benton

Drama belo e sincero, às vezes feito apenas de olhares, como no momento em que Ted (Dustin Hoffman) conta com a ajuda do pequeno filho Billy (Justin Henry) para fazer o café da manhã. Eles aguardam a chegada da mãe, que deverá levar o menino embora. Após um diálogo revelador, o elevador fecha-se e a obra chega ao fim.

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O Jogador, de Robert Altman

No reino de Hollywood, os criminosos saem pela porta da frente. Aqui, o protagonista (Tim Robbins) é um produtor de cinema perseguido por um roteirista vingativo, alguém que precisa se salvar. Na cena final, antes de caminhar para sua mansão, ele confere a barriga da mulher grávida e anuncia assim a chegada do herdeiro. Ele venceu.

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Interlúdio, de Alfred Hitchcock

Enquanto Cary Grant tem todas as repostas, todas as certezas, Ingrid Bergman é pura inexatidão em Interlúdio, de Alfred Hitchcock. Ele é o agente do lado certo, de terno impecável, que não se abala com a bebida e tampouco com o jeito irresistível dela.

Como Alicia, Bergman surge descontrolada, perdida: é a forma que Hitchcock encontrou, a partir do texto de Ben Hecht, para convencer o espectador de que a dama não é uma traidora. Os vilões nazistas não mostravam tamanha inconstância.

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Ao contrário, eles parecem ter certeza de tudo, menos de que ela – filha de um nazista condenado à prisão no início do filme – poderia estar ao lado de heróis como Grant.

O filme passa-se em um Brasil de mentira, todo feito em estúdios, e tem talvez o beijo mais famoso da história do cinema – ao lado daquele de Elizabeth Taylor e Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol, lançado anos depois.

É para a América Latina que Alicia vai, na companhia de Devlin (Grant). Ao questionar por que ela deveria aceitar a proposta de se infiltrar entre os nazistas, o herói pacato tem a resposta certeira: “patriotismo”. Poderia soar exagerado, afinal ela terá de ir longe demais para descobrir a verdade, inclusive casar com o vilão.

Por outro lado, o roteiro de Hecht leva em conta o calor da época, pouco após a Segunda Guerra, momento em que os crimes nazistas ganhavam clareza e repercutiam mundo afora. Os vilões estavam espalhados pelo mundo.

E se o filme parece ser sobre essa garota que se entrega, surge outro engano: ele é também sobre o agente apaixonado que sofre ao vê-la cumprir a missão. Vive esse dilema: para livrar o mundo do mal nazista, deve entregar a mulher que acabou de conhecer, a garota descontrolada, amorosa, por quem se apaixonou.

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Em entrevista a Peter Bogdanovich, Hitchcock define a obra: “O velho tema do amor e do dever”. E continua: “A tarefa de Grant é fazer com que Bergman vá para a cama com Rains, o outro homem”. Fala de Claude Rains, que vive o nazista Alexander Sebastian, cuja mãe sempre está ao lado, vigilante, vivida por Leopoldine Konstantin.

O roteiro de Hecht deixa para Hitchcock a possibilidade de esculpir um mundo feito de proximidade: a do beijo, a dos olhares, a da desconfiança, a do medo. O controle do diretor é extremo, sempre mostrando com a câmera as mudanças das personagens, sem abusar das palavras, como o momento em que Devlin é observado de cabeça para baixo, quando a câmera inverte a imagem. Ela passa a vê-lo de outra forma.

Por outro lado, essa proximidade nem sempre é definida com certezas: quanto mais perto desses espiões e agentes – em festas, em cavalgadas ou em restaurantes caros –, menos é possível saber algo sobre todos.

Vestem-se com o melhor figurino e fingem a felicidade do pós-guerra, como se ainda fosse possível rir, aliviar-se com paz – enquanto, ao fundo, os planos são arquitetados sem maquiagem. O urânio, por exemplo, está escondido justamente no interior das bebidas que regam as festas de Alicia e Alexander.

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Ao casar com o vilão, ela entrega-se a essa proximidade: rompe o que antes a separava do mal. Da garota tomada pela bebedeira à mulher apaixonada, Alicia tem de interpretar um papel para ser justamente Alicia: a filha de um nazista condenado.

Tal papel é o que esperam dela, nem menos ou mais. Devlin, por outro lado, quase não deixa ver seus sentimentos, e quase nunca faz outro papel além do dele – quase nunca deixa de ser Cary Grant. Sua segurança está em sua gênese: é sua sofisticação que faz com que seja sempre o mesmo homem, apaixonado ou não.

Interlúdio explica-se pelo olhar de Alicia: se é ela – como o expectador – que não tem todas as certezas, suas descobertas – expressas pelas reações, pela face – apontam o caminho ao espectador. Em sua inconstância, ela tem curiosidades, enxerga o mal: está sempre descobrindo e, por isso, é a alma desse filme extraordinário.

Em suma, ela descobre o que Devlin e os outros parecem ter vivido. Ela torna-se a vítima perfeita, encurralada por mãe e filho assassinos, pelos homens em suas reuniões, pelas portas, venenos e todas as tramas de um mundo confuso. Não é o lugar mais esperado para tal história de amor.

Nota: ★★★★★