clássicos do cinema

16 grandes duplas indicadas ao Oscar na mesma categoria

Ao longo de décadas, atores de um mesmo filme disputaram diversas vezes entre si a sonhada estatueta do Oscar. São confrontos memoráveis. Com tamanho peso, nenhum deles terminou como coadjuvante (ainda que Barry Fitzgerald, em 1945, seja exceção, indicado como ator e ator coadjuvante pelo mesmo papel, ganhando na segunda categoria).

Duplas excelentes, grandes interpretações. Tais casos, no entanto, são cada vez mais incomuns: a última vez em que uma dupla dividiu a mesma categoria ocorreu em 1992. Desde então, os estúdios têm optado em indicar atores com peso de protagonista como coadjuvantes. A intenção é faturar mais prêmios. Ou alguém acredita que Jake Gyllenhaal, em O Segredo de Brokeback Mountain, e Rooney Mara, em Carol, são coadjuvantes?

Barry Fitzgerald e Bing Crosby em O Bom Pastor (1944)

Quem venceu? Bing Crosby

o bom pastor

Anne Baxter e Bette Davis em A Malvada (1950)

Quem venceu? Judy Holliday em Nascida Ontem

a malvada

Burt Lancaster e Montgomery Clift em A Um Passo da Eternidade (1953)

Quem venceu? William Holden em O Inferno Nº 17

a um passo da eternidade

James Dean e Rock Hudson em Assim Caminha a Humanidade (1956)

Quem venceu? Yul Brynner em O Rei e Eu

assim caminha a humanidade

Sidney Poitier e Tony Curtis em Acorrentados (1958)

Quem venceu? David Niven em Vidas Separadas

acorrentados

Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn e De Repente, No Último Verão (1959)

Quem venceu? Simone Signoret em Almas em Leilão

de repente no último verão

Maximilian Schell e Spencer Tracy em Julgamento em Nuremberg (1961)

Quem venceu? Maximilian Schell

o julgamento de nuremberg

Peter O’Toole e Richard Burton em Becket, O Favorito do Rei (1964)

Quem venceu? Rex Harrison em Minha Bela Dama

Becket

Dustin Hoffman e Jon Voight em Perdidos na Noite (1969)

Quem venceu? John Wayne em Bravura Indômita

perdidos na noite

Laurence Olivier e Michael Caine em Jogo Mortal (1972)

Quem venceu? Marlon Brando em O Poderoso Chefão

jogo mortal1

Peter Finch e William Holden em Rede de Intrigas (1976)

Quem venceu? Peter Finch

rede de intrigas

Anne Bancroft e Shirley MacLaine em Momento de Decisão (1977)

Quem venceu? Diane Keaton em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa

momento de decisão

Albert Finney e Tom Courtenay em O Fiel Camareiro (1983)

Quem venceu? Robert Duvall em A Força do Carinho

o fiel camareiro

Debra Winger e Shirley MacLaine em Laços de Ternura (1983)

Quem venceu? Shirley MacLaine

laços de ternura1

F. Murray Abraham e Tom Hulce em Amadeus (1984)

Quem venceu? F. Murray Abraham

amadeus

Geena Davis e Susan Sarandon em Thelma & Louise (1991)

Quem venceu? Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes

thelma e louise

Para lembrar: Franchot Tone, Charles Laughton e Clark Gable em O Grande Motim (1935)

Caso único na história do Oscar, com três atores indicados na mesma categoria principal. Em 1936, a Academia ainda não havia criado as categorias de coadjuvante.

Quem venceu? Victor McLaglen em O Delator

o grande motim

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perdidos na noite

20 frases inesquecíveis de 20 ganhadores do Oscar

Basta pensar em algumas frases e os filmes vêm logo à cabeça: “Eu sou o rei do mundo!”, dita por Leonardo DiCaprio em Titanic, por exemplo, ou “A vida é como uma caixa de chocolates…”, de Tom Hanks em Forrest Gump. São textos que todos conhecem e talvez sem o mesmo poder se retirados de seus contextos.

Com a aproximação da festa do Oscar, o blog relembra frases marcantes de antigos vencedores da principal estatueta da noite: melhor filme. A lista passa por décadas da história da festa – e do cinema – para mostrar o quanto algumas falas sobrevivem ao tempo. E o quanto algumas, um pouco esquecidas, merecem agora devido destaque.

“Eu quero ficar só.”

Greta Garbo em Grande Hotel (1932)

grande hotel

“Contemple os muros de Jericó, não tão espessos como aquele que Josué derrubou com a corneta, porém mais seguros. Não tenho corneta, mas como tenho bom coração, você vai receber o melhor pijama.”

Clark Gable, dividindo o quarto com Claudette Colbert, em Aconteceu Naquela Noite (1934)

aconteceu naquela noite

“Vovô diz que hoje a maioria das pessoas é movida pelo medo. Medo do que comem, medo do que bebem, medo de perder o emprego, medo do futuro, medo de perder a saúde, medo de guardar dinheiro, medo de gastá-lo. Sabe o que o vovô mais odeia? Aqueles que lucram explorando o medo. Assustado, você compra aquilo de que não precisa.”

Jean Arthur, para James Stewart, em Do Mundo Nada se Leva (1938)

do mundo nada se leva

“Tara! Lar. Eu vou voltar para casa. E pensarei em alguma maneira de trazê-lo de volta. Afinal, amanhã é outro dia.”

Vivien Leigh no encerramento de E o Vento Levou (1939)

e o vento levou

“De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar logo no meu?”

Humphrey Bogart em Casablanca (1942)

casablanca

“É engraçada a carreira de uma mulher; pense nas coisas de que você tem que se livrar, quando está no topo da escada, para ter mais liberdade de movimento. Mas quando faz isso esquece que vai precisar delas quando voltar a ser uma mulher. Há uma carreira que todas as mulheres têm em comum, gostem ou não, por serem mulheres. E mais cedo ou mais tarde, temos que exercê-la.”

Bette Davis em A Malvada (1950)

a malvada

“Você não entende! Eu poderia ter classe. Podia ter sido um competidor. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.”

Marlon Brando, para Rod Steiger, em Sindicato de Ladrões.

sindicato de ladrões

“As pessoas que dizem que fazem amor o tempo todo são mentirosas.”

Louis Jourdan em Gigi (1958)

gigi

“Pode haver honra entre ladrões, mas não entre políticos.”

Peter O’Toole em Lawrence da Arábia (1962)

lawrence da arábia

“Eu vendi flores. Não me vendi. Agora que você me transformou em uma dama, não consigo vender mais nada.”

Audrey Hepburn, para Rex Harrison, em Minha Bela Dama (1964)

ÒMy Fair LadyÓ and ÒThe Great RaceÓ will screen at the Academy of Motion Picture Arts and SciencesÕ Linwood Dunn Theater in Hollywood on Friday, March 27, and Saturday, March 28, respectively. Screenings will begin at 8 p.m. The programs are presented by the AcademyÕs Science and Technology Council in conjunction with its ÒDressed in Color: The CostumesÓ exhibition, which includes costumes from both films. Pictured: Audrey Hepburn and Rex Harrison as they appear in MY FAIR LADY, 1964.

“O povo me segue porque segue tudo o que se move.”

Robert Shaw, como Henrique 8º, em O Homem que Não Vendeu Sua Alma (1966)

o homem que não vendeu sua alma

“Eu amo a guerra, que Deus me ajude, amo de verdade. Mais do que minha vida.”

George C. Scott em Patton – Rebelde ou Herói?

patton

“Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, mais perto ainda.”

Al Pacino em O Poderoso Chefão – Parte 2 (1974)

o poderoso chefão2

“Eu sinto que a vida se divide entre o horrível e o miserável.”

Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

noivo neurótico

“Podem torturar meu corpo, quebrar meus ossos, podem até me matar. Eles terão meu cadáver, mas não a minha obediência.”

Ben Kingsley em Gandhi (1982)

gandhi

“O progresso baseia-se mais no fracasso do que no sucesso.”

Kevin Costner em Dança com Lobos (1990)

dança com lobos

“Gostaria de conversar com você, mas tenho um velho amigo para jantar.”

Anthony Hopkins, para Jodie Foster, no encerramento de O Silêncio dos Inocentes (1991)

silêncio dos inocentes

“É uma coisa infernal matar um homem. Você tira tudo o que ele tem e tudo o que ele poderia ter um dia.”

Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (1992)

imperdoáveis

“Poder é quando temos justificativa para matar e não matamos.”

Liam Neeson, para Ralph Fiennes, em A Lista de Schindler (1993)

a lista de schindler

“Só conheci um homem com o qual não queria lutar. Quando eu o conheci, ele já era o melhor “cut man” do ramo. Começou treinando e empresariando nos anos 60, mas nunca perdeu o dom.”

Morgan Freeman, sobre Clint Eastwood, na abertura de Menina de Ouro (2004)

menina de ouro1

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Entrevista: Cássio Starling Carlos

O Douglas Sirk abordado por Cássio Starling Carlos em sua aula no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil), dentro da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama, ainda se chamava Detlef Sierck. Ainda não era um “príncipe”, como indica, com justiça, o evento. Em algumas cenas apresentadas pelo especialista, de filmes da pouco conhecida fase alemã, é possível ver a clara inclinação de Sirk – ou Sierck – ao estilo pelo qual ficaria marcado.

Coube a Cássio resgatar e dar uma ideia sobre essa fase pouco conhecida, das passagens do cinema ligado ao nazismo à vida pacata nos Estados Unidos – e, mais tarde, ao sistema de estúdios de maior alcance do mundo. Ao lado de grandes estrelas, com os corrosivos subtextos que adorava abordar. O que, vale dizer, não é uma exclusividade de sua fase americana. Nos filmes alemães é possível ver algumas representações que mais tarde serão levadas a Hollywood.

Uma delas é comentada por Cássio, na entrevista abaixo: a importância da mulher na filmografia de Sirk, a ponte de ligação entre a Europa e a América. Além disso, Cássio aborda a dificuldade dessa fase alemã em chegar ao Brasil, das relações do melodrama com o cinema brasileiro e aquele filme que considera um tesouro dentro da mostra dedicada ao grande Sirk (que segue até 10 de junho, em São Paulo, e ainda vai para Brasília e Rio de Janeiro).

Cássio tem 48 anos, formação em filosofia e trabalha como crítico e pesquisador na área do audiovisual desde 1982. Nascido em Belo Horizonte, atualmente está em São Paulo, onde escreve semanalmente à Folha de S. Paulo. Curador da mostra sobre Sirk ao lado de Pedro Maciel Guimarães, ele é também um dos responsáveis pelo material textual da coleção Folha Cine Europeu. Em uma conversa descontraída, após sua aula no CCBB, ele não esconde suas emoções com os filmes e diz que chega a chorar na sala escura – principalmente quando, em tela, está uma obra de Sirk – ou Sierck.

Quando pensamos em Douglas Sirk, logo vem o melodrama na cabeça. A mostra se refere a ele como “príncipe”. Por que “príncipe” e não o “rei do melodrama”?

Pegamos uma expressão que era usada pelos franceses nos anos 1950 e achei curioso, porque vi isso em vários textos. E pensei: ele é o “príncipe”, e quem será o “rei”? Mas acho que a ideia é um pouco essa, a de destacar a realeza, seja “príncipe” ou “rei”. A expressão traz delicadeza, faz pensar no melodrama como uma forma que, para muitos, é óbvia, e ele (Sirk) introduz sutilezas.

Geralmente, quando se trata de Sirk, temos mais acesso à fase americana, com alguns filmes lançados em DVD. Em relação à fase alemã, que você tratou em sua aula no CCBB, tem algum motivo específico de não ter chegado, com tanta força, ao Brasil?

Originalmente, temos esse problema de pertencimento. Ou seja, é uma produção que nem mesmo dos arquivos alemães tiveram investimento, no sentido de preservação e circulação, porque é sempre associada ao período que a própria Alemanha tende a querer esquecer (o cinema dos anos 1930, no período nazista). Esse é um dos aspectos. Esses filmes entraram em circulação nos últimos cinco anos porque dois deles foram restaurados e saíram em cópias em DVD na Alemanha. Se não estou enganado, dois deles entraram em uma edição que a Carlotta, que é uma editora de DVDs na França, fez há um ou dois anos. Basicamente, Recomeçar a Vida e La Habanera, considerados clássicos. Então o que temos é um pouco isso: uma autocensura em relação a um repertório, mas que é um repertório que considero essencial. Ele ilumina a própria época e ilumina a fase posterior de sua carreira.

Em sua aula, você cita bem a questão da presença da mulher nos filmes de Sirk. Em um dos filmes que você mostrou (Nona Sinfonia, de 1936), ficou clara essa oposição entre mulheres. Há a mundana, na Alemanha, e aquela que está na América, uma coitada que está sofrendo. Em Desejo Atroz, já na fase americana, tenho a impressão que ele une as duas características na personagem de Barbara Stanwyck. Você concorda com a leitura?

Concordo. Acho que nas duas personagens de Stanwyck, na obra de Sirk, estão incorporadas essas duas mulheres. No Chamas que Não se Apagam temos a mulher mundana e vítima também. Acho que ele (Sirk) traduz isso quando encontra a Barbara Stanwyck, e a imagem dela atualiza essa duplicidade para seu repertório de estrelas do cinema americano. Depois, talvez, a Dorothy Malone em determinados momentos de Palavras ao Vento. Ela é essa mulher ninfomaníaca, devoradora, destruidora, e em determinado momento fica vítima de si mesma.

Sobre os atores nos filmes de Sirk, quando pensamos em homens, logo pensamos em Rock Hudson. Em outro terreno, qual atriz, para você, fica mais marcada dentro do cinema do diretor?

É difícil dizer uma. No caso de Rock Hudson, há um predecessor que é o George Sanders…

No caso, em Emboscada?

Não apenas este, mas também O que Matou por Amor é com ele, e o Vidocq também. No caso das mulheres, acho que Sirk se adapta às questões de estúdio, porque você tem aquela figura do pertencimento ao estúdio. Então ele se encaixava com o que estava disponível naquele momento, à medida da disponibilidade da estrela. É a Jane Wyman, é a Barbara Stanwyck, a Lana Turner, a Dorothy Malone, também, nessas duplicidades. Faz dois ou três filmes com a mesma estrela. Uma coisa muito interessante no Sirk é inverter o tipo de personagem. É curioso. Coloca uma mulher, em um primeiro momento, como forte e, em um segundo, como vítima. Quer dizer, é um pouco do que ele faz com os espelhos: pega eles e vai duplicando as imagens. Então você não tem uma imagem fixa, que é muito a característica da ideia da estrela do cinema americano. O repertório da estrela é muito associado a uma característica. Ele (Sirk) pega essa personalidade e vai um pouco refratando ela em vários aspectos. Acho que isso, talvez, seja o mais interessante. A gente pode ler a Barbara Stanwyck como o próprio avesso da Jane Wyman nos filmes e, depois, a Malone como o avesso de outra. É um pouco como uma personagem que roda. E vai focalizando isso de acordo com a disponibilidade do ator naquele momento.

A grande ponte de ligação entre a fase alemã e a americana, na obra de Sirk, então, é a figura feminina?

É essa figura que faz a ponte. Ela que nos permite identificar como o diretor pensa essa figura feminina como eixo de uma sociedade repressiva. Seja em uma sociedade autoritária, como no nazismo dos anos 1930, seja uma sociedade de valores morais muito arraigados como a do Eisenhower nos Estados Unidos dos anos 1950. A ideia é ver como essa mulher serve para retratar essa sociedade. E nesse caso, acrescentando, acho que é o grande vínculo com a obra do Fassbinder, que vai identificar nelas a personagem do fascismo remanescente. Como essa mulher representa a vítima de um fascismo, mesmo que Hitler e Goebbels já tenham ido para a tragédia da história. Fica por ali um espírito que Sirk representa, que captou na América dos anos 1950 e que o Fassbinder captou na Alemanha dos anos 1970.

O cinema brasileiro atual tem algum preconceito com o melodrama? Ao que parece, não se aborda o melodrama como se aborda nas novelas, ou como se abordava na obra do Sirk.

O melodrama é associado ao repertório da telenovela. Vimos, lemos, assistimos centenas de diálogos, centenas de cenas e situações em que sabemos de onde vem. A outra questão é que existe um preconceito com o significado e com as possibilidades do melodrama. Não quis dizer isso na aula, pois achei que seria um pouco pedante, mas, por exemplo, quem faz melodrama e que utiliza o mesmo recurso de fazer a trama se desenvolver a partir da situação musical é o Karim (Karim Aïnouz, cineasta brasileiro). Na estrutura da personagem da Hermila Guedes em O Céu de Suely, por exemplo, todas as situações que ela vive ou gostaria de viver são cantadas nas músicas que circulam por ali. A ideia do melodrama em passar pela questão musical está colada à ideia geral do melodrama. A outra é que o conceito de melodrama é bastante elástico. Não precisamos mais trabalhar apenas com esses repertórios ligados às vítimas da etnia, desse tipo de preconceito que está muito associado a uma mentalidade dos anos 1950. Mas também, no caso do Karim, encontramos esses personagens que sonham outra vida. O filme (O Céu de Suely) é um pouco essa possibilidade de criar essa outra vida…

E a própria Hermila é vítima dessa sociedade…

Sim, é uma vítima do homem que a deixa, uma vítima por ser uma mãe que não sabe se encaixar naquele mundo. E, aí, há o processo de criar outra vida no momento em ela para na bilheteria e pergunta quanto custa a passagem para o lugar mais longe. Inventar um personagem. Isso é uma lógica do melodrama.

Ainda sobre o melodrama, temos a impressão de que, nele, não há um vilão de carne e osso. É possível afirmar que a sociedade é o vilão do melodrama?

São duas questões, acho. Existe a ideia de retratar essa sociedade como mal, como aquilo que faz mal – mais do que como o mal clássico. Porque o mal na trama dramática, geralmente, é punido. Você mostra onde a sociedade comete o mal. E tem outra questão, vendo os filmes do Sirk, agora, em continuidade: seja mal, seja bom, seja vítima, seja apenas um passante, todos os personagens têm carne e osso. Têm uma ossatura que dá uma espécie de vitalidade mesmo quando têm pouco tempo em cena. É uma coisa muito impressionante do cinema do Sirk: não tem aquela hierarquia tradicional do cinema clássico. Há o protagonista e aqueles que lhe servem de escada. Aqui, mesmo aqueles com um mero diálogo, um momento em que aparece em cena, estão totalmente incorporados como uma função que não é meramente dramática.

Qual o filme que você considera o tesouro escondido da mostra?

Bem, a Mostra Douglas Sirk é um “tesouro de Ali Babá” (risos). Vou dizer do filme que, em tela, ficou ainda mais impactante. Havia visto ele na televisão e não está entre os grandes do diretor. Quando vi, chorei muito e, no cinema, fico muito sentimental com o personagem. É Chamas que Não se Apagam, um dos filmes de maior crueldade da obra. Esteticamente há outros mais impactantes, como é o caso de Palavras ao Vento, mas Chamas que Não se Apagam é um filme em que toda essa questão em pensar o Sirk como uma imagem – technicolor, flamejante – está escondida, porque é um filme preto e branco. A figura central é um homem, ou seja, descola um pouco da ideia da mulher como a vítima e aí você vê todo o retrato da sociedade como espécie de máquina de moer liberdades.

Veja a programação completa da Mostra Douglas Sirk, o Príncipe do Melodrama

Rafael Amaral (31/05/2012)