cinema polonês

Vida e política, segundo Kieslowski

Pertenço a uma geração que teve esperanças. Nasci durante a Segunda Guerra, e a seguir passei a vida sob o regime comunista. Mas tivemos esperanças algumas vezes, em 55, quando Stalin morreu, depois em 68, em 70, um pouco em 76 e em 80, acreditamos que a política poderia mudar nossa vida. E sobretudo em 89/90, quando o comunismo acabou. Mas não é verdade, a vida não muda por causa da política. Acho que as pessoas podem mudar suas vidas individualmente, mas não adianta esperar que alguém vá mudar por elas. Não gosto dos políticos, não acredito em nenhum deles.

(..) não acredito que as pessoas do mundo estejam especialmente interessadas na história polonesa, nos seus problemas políticos, isso é para os jornais e para a televisão. Assim, não mostro uma determinada nacionalidade no meu cinema, mas o que há de semelhante entre as pessoas. É verdade que você não usa a minha língua e mora em outro país com cultura diferente. Mas sua dor de garganta é igual à minha. Quero fazer filmes sobre a dor de garganta.

Krzysztof Kieslowski, cineasta, em entrevista para Lúcia Nagib, na Folha de S. Paulo (“Kieslowski, diretor de Não Amarás, diz que quer filmar dores universais”, em 18 de dezembro de 1991). Abaixo, Kieslowski durante as filmagens de Não Matarás.

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A escalada ao rosto – e aos sentimentos – de Romy Schneider

A arte é um exercício de dor e, nos filmes do  diretor Andrzej Zulawski, não existe sem entrega, sem explosão. Suas personagens sofrem, choram, algumas aproximam-se da convulsão. A regra é sempre a entrega à aparente loucura, ao histerismo. Mesmo seus atos mais comportados devem algo ao horror, ao desespero.

Desde o título, o que está em jogo em O Importante é Amar é a capacidade de se entregar à arte e se deixar consumir pela mesma. É a possibilidade – a dificuldade, ainda mais – de ser real, de ser o mesmo, enfim, de ser. Estar na personagem por inteiro – ou na foto, ou na câmera. Desde o início, é o que aflige a personagem de Romy Schneider.

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À mulher talvez seja difícil ser ela própria. Seu passado retorna aos poucos, suas dores também. Uma mulher salva por um homem, um cinéfilo, e que vive à sombra de outros que a circulam. Em seu caso, a arte é praticamente um mal: oferece-lhe o espelho que tanto nega, o olhar ao interior, o choro verdadeiro, sincero, enquanto se sente bloqueada.

Mas se a arte só existe com entrega, o que fazer? Talvez seja este o verdadeiro drama dessa atriz, o que capta a câmera da personagem de Fabio Testi. É na abertura que o filme inteiro se resume, no cruzamento de olhares, de artes – encontro ao “acaso” celebrado pelo cinema, no momento da filmagem, no filme dentro de outro.

O que se vê primeiro é Schneider de corpo todo. É apenas o começo de uma escalada que terminará em seu rosto, em sua dor, enquanto a cineasta do filme dentro de outro pede que ela diga as palavras mais conhecidas das histórias de amor: “eu te amo”. As palavras remetem a algo forte, não se desligam da mulher verdadeira.

O corpo inteiro, em plano médio, fita a câmera de Zulawski. Antes a câmera verdadeira, a do filme, e depois a do filme como parte da ficção. O corredor convida à passagem, deixa ver, porta a porta, suas camadas, suas membranas, à medida que a atriz dirige-se ao fundo, ao sangue, ao homem que sua personagem ama e deve ir em socorro.

As personagens centrais serão apresentadas logo no primeiro plano e em outros, seguintes, que se desenrolam durante a filmagem. De tão forte, essa abertura faz a conexão entre o casal central funcionar, e tudo o que vem pela frente não precisará de preliminares: ambos já estão tão conectados que o filme todo corre sem esforço.

E toda a violência de Zulawski – suas “chicotadas”, suas figuras gritantes, que não raro apelam à palhaçada, ao excêntrico – funciona à base dessa abertura que dispensa palavras “reais”, que prefere a suposta encenação, ou o olhar trocado entre o casal. Ele, um intruso no set de filmagem, fotografa-a em momento-chave, justamente quando a atriz precisa ser verdadeira, quando é cobrada para dar tudo e dizer “eu te amo”.

“Não posso fazer isso”, diz a atriz de Schneider. “Você é paga para isso”, rebate a diretora. Ao mesmo tempo, Servais (Testi) posiciona-se para arrancar o close-up da bela mulher – um dos mais tristes da História do Cinema. “Não faça fotos, por favor. Sou uma atriz. Sei fazer bem as coisas. Faço-o para poder comer. Não tire fotos.”

As palavras ao fotógrafo explicam muito sobre a mulher: a tentativa de se distanciar da personagem, de desvincular a vida da ficção, pois tudo aquilo é “apenas um trabalho”. O filme todo é a jornada da atriz à sua descoberta, às suas entregas, aos seus desejos. E a abertura será a escalada – do plano-sequência do corredor, durante os créditos, às sequências passadas em outra sala, enquanto a atriz é dirigida – ao rosto, ao close-up.

Vida e interpretação confundem-se naquela face. Difícil saber quem chora de verdade. A personagem que sofre com o amante morto nos braços ou a atriz que não quer mergulhar na personagem que lhe foi dada? Fora desse espaço, Nadine (Schneider) tem uma vida, ou tentou construir uma. É casada com Jacques (Jacques Dutronc).

O filme de Zulawski, a partir da obra de Christopher Frank, pode ser compreendido como uma nova versão de O Desprezo, de Jean-Luc Godard, longa admirado pelo polonês. Nesse sentido, a personagem de Schneider corresponde à de Brigitte Bardot, mulher entre dois homens, duas vidas; a de Dutronc à de Michel Piccoli, o marido ligado à arte e que, a certa altura, vê-se deixado pela companheira, “desprezado”, como ele próprio diz; e a de Testi, com claras diferenças, à do repugnante produtor de Jack Palance.

Todas essas personagens reconhecem seus estados de falsidade, as camadas que precisam atravessar; todas fazem um exercício para o reconhecimento de seus sentimentos, de suas fraquezas, do desprezo, da falta de amor, no ponto em que arte e vida são uma só coisa. Nadine olha para a câmera na abertura; Jacques olha à mesma, mais tarde, antes de se suicidar. Clamam por cumplicidade, expõem verdade, a alma, o ser.

(L’important c’est d’aimer, Andrzej Zulawski, 1975)

Nota: ★★★★☆

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Body, de Malgorzata Szumowska

Os espíritos mandam recados aos humanos. Eles deixam janelas e torneiras abertas, apontando assim à libertação, ao alívio – ao mesmo tempo em que seres de carne e osso estão presos a um apartamento e aos seus próprios problemas.

Em Body vê-se um pai que pouco liga para a filha, que perdeu a mulher há poucos anos, que tenta ser indiferente aos detalhes de seu trabalho como investigador de polícia: às vezes se depara com cadáveres de suicidas, às vezes com crianças assassinadas.

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Sua filha não o suporta após perder a mãe. Não há comunicação entre eles, qualquer afeto. A certa altura, a menina revela sofrer de bulimia e é internada em uma clínica. Em um meio aparentemente físico, fantasmas não precisam dar as caras, ou passam quase despercebidos.

A diretora Malgorzata Szumowska utiliza os fantasmas como representação da necessidade de aproximação entre esses seres, a busca pelo afeto que desemboca na crença, o que os tornam mais unidos.

Ainda assim não se duvida dos fantasmas. Eles estão por ali. Eles mostram aos humanos que é necessário gritar, colocar para fora. Body está longe de um filme de terror, ou mesmo do drama sobre pessoas que não se tocam. É difícil de classificar.

A beleza da indefinição leva à alternância de situações, ao mesmo tempo com a sensibilidade da terapeuta espírita, com o riso do pai ou com os momentos em que a filha expressa, em terapia, sua dor contida. Mais uma vez, sobra o lado físico.

A terapeuta (Maja Ostaszewska) perdeu um filho bebê. A morte, ela diz, não tem explicação: segundo especialistas, muitas crianças são abatidas por morte subida. A falta de respostas leva a mulher a descobri-las. Torna-se médium.

Talvez mais valha viver com tal esperança, com o suposto contato espiritual, do que se render à pura materialidade. É o que parece dizer a cineasta, enquanto mostra o difícil trabalho do policial (Janusz Gajos) e a situação de sua filha (Justyna Suwala).

Em sessões de terapia com o uso do corpo, a médium pede que as meninas – todas magras, provavelmente vítimas de bulimia – gritem. A ideia é colocar a dor para fora. A certa altura, em sonho, o policial fará o mesmo, e depois acordará assustado.

O belo trabalho de Szumowska mostra a busca pelo afeto em uma Polônia fria, vítima da falta de comunicação, de ambientes fechados, sem cores, quase como prisões. É sobre a teia que une seres tão diferentes, sobre algum segredo – ou algum sinal – que pode estar contido no ranger das janelas, no vazamento da água.

(Cialo, Malgorzata Szumowska, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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Seis grandes filmes que discutem a origem da vida e do universo

A origem da vida não deu trabalho apenas a cientistas e religiosos. O cinema abordou essa aurora – como o fim do mundo – em diferentes filmes e épocas. No entanto, apenas alguns longas conseguiram ser mais que apenas científicos ou religiosos, distantes daqueles típicos documentários feitos para a televisão. É o caso das seis obras da lista abaixo. São trabalhos complexos para pensar nas origens e no papel do homem no mundo ao redor – sem respostas fáceis.

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

A estrela-feto, ao fim, dá uma ideia da ambição de Kubrick: um filme que vai da aurora do homem – com a violência – ao crepúsculo, com os cenários do interior de grandes naves, esculturas alienígenas, um robô enlouquecido e o homem rumo ao renascimento.

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Fata Morgana, de Werner Herzog

O diretor alemão empenhou-se em questionar o lugar do homem no mundo e sua relação com a natureza. Fata Morgana (nome que remete a uma miragem) tem um pouco de ficção científica, com os mais variados locais ao redor do globo, entre criação e destruição.

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Globo de Prata, de Andrzej Zulawski

Astronautas caem em um planeta que pode ser a Terra, renunciam à ciência e, mais tarde, aderem ao misticismo. O grande diretor polonês mostra o caminhar da civilização ao contrário: do moderno ao primitivo, passando pela guerra e por outro homem crucificado.

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Baraka, de Ron Fricke

Não é um documentário convencional. Não há qualquer narração. O que vem à tona é o mundo em imagens extraordinárias, de pontos diferentes do planeta: culturas distantes, animais exóticos, paisagens assustadoras. Um resumo da vida e de suas estranhas particularidades.

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Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán

Os astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, buscam explicações para a origem da vida a partir das estrelas. Nesse mesmo deserto, mulheres buscam os restos mortais de vítimas da ditadura. Tipos diferentes de morte questionam essas pessoas.

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A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Uma típica família americana divide a cena com a origem do universo, passando do cosmos à água, dos primeiros e pequenos seres aos dinossauros. Sinais religiosos não faltam. A obra de Malick é ousada, carregada de belas imagens, inúmeras simbologias.

a árvore da vida

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Os cinco melhores filmes de Andrzej Zulawski

Na onda de liberdade dos cinemas novos, ou mesmo no fim dela, nos anos 70, o nome de Andrzej Zulawski agita a sétima arte. Faz filmes violentos, desafiadores, nos quais o sagrado e o profano sempre dividem os mesmos espaços.

Como outros realizadores poloneses, teve problemas para financiar seus filmes. A carreira tem sucessos lembrados, como Possessão, e grandes obras quase esquecidas, como Szamanka – no qual volta a abordar o xamanismo, presente em O Globo de Prata. Antes de se tornar diretor, Zulawski foi assistente de Wajda em Samson, a Força Contra o Ódio e em um episódio de Amor aos 20 Anos. Aprendeu com um mestre.

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5) A Terça Parte da Noite (1971)

Passado na Segunda Guerra Mundial, o filme inclui um dos temas favoritos de Zulawski e presente em outros de seus filmes: a origem dos duplos. Nesse caso, um jovem ainda sofre com a morte da mulher e ajuda outra, quase idêntica à anterior, a ter seu filho. Ao mesmo tempo, empresta o corpo como cobaia para a produção de vacinas.

a terça parte da noite2

4) O Importante é Amar (1975)

Ainda na abertura, a atriz tem dificuldades de chegar à “verdade” desejada pela diretora, durante a realização de um filme. Ao mesmo tempo, ela é fotografada por um rapaz com quem manterá um caso. Nessa obra incrível, Zulawski mescla o ambiente do teatro ao do cinema pornográfico, com Romy Schneider em grande interpretação.

o importante é amar

3) O Globo de Prata (1988)

A obra mais ambiciosa do diretor teve sua produção interrompida pelo governo polonês ainda nos anos 70. Mais tarde, o cineasta retomou a história e remontou o material, preenchendo as partes que faltavam com narrações e imagens da vida cotidiana. O filme conta a origem do planeta – ou a formação de outro – com a chegada dos astronautas.

o globo de prata

2) Diabel (1973)

Em termos de violência e sangue, talvez seja o filme mais forte do diretor, ao lado de Possessão. Aqui, um jovem é salvo da prisão por um estranho e seguido de perto por uma freira. Passa-se durante a invasão prussiana à Polônia, com o caos por todos os lados, atores ambulantes e a mãe que vive em um prostíbulo.

diabel2

1) A Revolta do Amor (1985)

Nessa obra-prima, Zulawski trabalha com sua companheira Sophie Marceau, com quem ficou por anos. Segue certa tendência ao erotismo, como também se viu no anterior A Mulher Pública e explora a corrida de um ladrão de bancos para resgatar sua namorada (Marceau), ao mesmo tempo em que conhece um homem sonhador.

a revolta do amor

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