cinema político italiano

Vittorio Taviani (1929–2018)

Nunca pensamos que para falar da realidade que nos cerca seja obrigatório realizar obras ancoradas no presente. Não é preciso estar no contexto da crônica diária para refletir sobre a realidade. O equívoco surge da confusão que muitas vezes se faz entre a trama e o sentido de um filme. Não é na trama e em sua ambientação – uma série de acontecimentos que move uma série de personagens – que encontramos a verdade de um filme: a verdade está no sentido, nos sentimentos, nas reações que aqueles acontecimentos provocam no espectador: enfim, está justamente naquela lasca de sentido que um autor procura extrair do caos da vida que experimenta na convivência com os demais.

Vittorio Taviani, cineasta, em entrevista contida no livro Cinema Político Italiano – anos 60 e 70, de Angela Prudenzi e Elisa Resegotti (pg. 112; Cosac Naify). Com o irmão Paolo, Vittorio realizou grandes filmes como Pai Patrão, A Noite de São Lourenço e Kaos. Abaixo, à direita, ao lado de Paolo, nas filmagens de César Deve Morrer.

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Seis grandes filmes que discutem moradia e urbanização

A terra, a casa, o espaço das memórias. A especulação, as ações políticas, o Estado que não dá oportunidade àqueles que não possuem um teto. Os filmes da lista abaixo – de tempos, países e cineastas diversos – tratam, entre outras coisas, de todas essas questões. Grandes filmes que não perderam o fôlego e continuam atuais.

Vinhas da Ira, de John Ford

Clássico que valeu a Ford seu segundo Oscar (ele ainda ganharia mais dois). É sobre a saga de uma família que perdeu a fazenda em vivia e teve de cair na estrada, em busca de outro local para morar. À frente da caravana há inimigos e exploradores da mão de obra alheia. Em atuação sincera e marcante, Henry Fonda encabeça o drama.

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

Um daqueles filmes fundamentais para compreender o cinema político italianos dos anos 60. Rosi evoca a história de um político sem escrúpulos interpretado à perfeição por Rod Steiger, que usa seu poder para demarcar a cidade a favor da especulação imobiliária. No entanto, seu reinado vê-se abalado após um acidente com vítimas.

Cathy Come Home, de Ken Loach

O diretor britânico sempre foi favorável às minorias. Aqui, em um de seus primeiros trabalhos, realizado para a televisão, ele apresenta a saga de uma família em busca de moradia e suas dificuldades. Filmado com grande realismo, possui sequências cortantes e momentos de raro humanismo, com câmera livre e à beira do documentário.

O Quarto da Vanda, de Pedro Costa

Às aparências, o português Pedro Costa está mais interessado em ouvir relatos do que tratar de questões como a moradia. Por outro lado, esta não escapa ao universo em foco: surge ao fundo, nas paredes que resistem, ou na imagem de tratores que destróem as casas em que viviam algumas pessoas, em uma favela, Vanda entre elas.

Aquarius, de Kleber Mendonça Filho

Em um tempo em que políticos brasileiros são descobertos em maracutaias envolvendo prédios embargados, Aquarius comprova sua atualidade, sua urgência. Na tela, Sonia Braga brilha como a resistente dona de um apartamento de frente para o mar, cobiçado por especuladores imobiliários com outros planos para o local.

Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé

O Brasil, de novo. E de novo com um exemplar de cinema potente, político e atual. Discute-se dessa vez a ocupação de prédios privados antes sem utilização. O trabalho de Caffé, apesar de tomar lado, não pretende dar uma resposta fácil sobre certos e errados nesse filme de momentos fortes, em uma mistura de ficção e realidade.

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15 grandes filmes que sintetizam o clima político dos anos 60

Os movimentos de renovação do cinema, nos anos 60, trouxeram também uma forte abordagem política. Alguns cineastas deixaram ideologias às claras em obras extraordinárias e contestadoras, sem que renunciassem ao grande cinema em nome do panfleto. A lista abaixo traz 15 filmes que captam o espírito da época, com temas ainda atuais. Comunismo, anarquismo, maoísmo e outras correntes podem ser vistas em fitas de autores como Rosi, Bertolucci, Godard e Saraceni.

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Os Companheiros, de Mario Monicelli

O cotidiano dos trabalhadores de uma pequena cidade muda com a chegada de um professor terno e idealista, interpretado na medida por Marcello Mastroianni. Obra-prima de Monicelli, que se firmou como um dos principais cineastas do chamado cinema político italiano, sempre entre o tom cômico e o trágico.

os companheiros

As Mãos Sobre a Cidade, de Francesco Rosi

O cineasta havia realizado, antes, o extraordinário O Bandido Giuliano. Em seguida, com As Mãos Sobre a Cidade, mantém pleno diálogo com seu tempo, ao abordar as tramoias de um político corrupto em prol da especulação imobiliária. Há grandes sequências de embates e manipulação. Continua tristemente atual.

as mãos sobre a cidade

Antes da Revolução, de Bernardo Bertolucci

Perfeito retrato do jovem que vive um impasse político: tenta se distanciar da burguesia ao mesmo tempo em que vê com receio os comunistas de então. Primeiro filme importante de Bertolucci, após o interessante A Morte. Para alguns estudiosos, antecipa a discussão e o clima que tomaria conta do mundo com o Maio de 68, na França.

antes da revolução

O Desafio, de Paulo César Saraceni

Obra fundamental do cinema novo brasileiro. Como Antes da Revolução, apresenta o impasse de um jornalista, impotente devido ao golpe de 1964. À época, alguns diálogos foram censurados pela Ditadura e, mais tarde, com a abertura política, tais trechos tiveram de ser dublados, evocando as frases originais que constavam no roteiro.

o desafio

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo

A independência da Argélia ainda era recente quando o filme estreou. Muitas das pessoas que participaram da obra, não-atores, viveram o evento real. Não por acaso, esbarra no documentário, com imagens granuladas e interpretações naturalistas. Um documento sobre a resistência do povo argelino contra as forças francesas.

a batalha de argel

Despedida de Ontem, de Alexander Kluge

Ao lado de O Jovem Törless, de Volker Schlöndorff, é um dos filmes que deu origem ao conhecido novo cinema alemão. Nesse caso, a abordagem política não se desprega do passo a passo da protagonista, uma moça que vai da Alemanha Oriental para a Ocidental e encontra obstáculos, terminando sempre como vítima de todos à sua volta.

despedida de ontem

A Chinesa, de Jean-Luc Godard

Talvez o principal filme a retratar o espírito de 68 – e que curiosamente o antecede. Com sua música “Mao Mao”, de Gérard Guégan, com seus jovens de discursos constantes – e cortantes – empunhando o Livro Vermelho, ao mesmo tempo com um clima de improvisação e liberdade. Importante para entender a radicalidade da época.

a chinesa

A China Está Próxima, de Marco Bellocchio

O título, de novo, faz referência ao regime chinês. Na história, ele sai de uma pichação na parede da sede do Partido Comunista. Ao centro há um rapaz que assessora um homem milionário de carreira política e seu irmão, ligado ao grupo maoísta. Alguns momentos aproximam-se da comédia. Um grande Bellocchio.

a china está próxima

Terra em Transe, de Glauber Rocha

Com Eldorado, o país fictício em que se desenrola uma trama política manjada, Rocha faz um claro paralelo com o Brasil. O enredo é conhecido: o político populista é colocado a escanteio, ao passo que o poder termina na mão do líder autoritário e recheado de símbolos da Igreja. O protagonista assiste à transformação e depois adere às armas.

terra em transe

Partner, de Bernardo Bertolucci

As filmagens da obra de Bertolucci ocorreram na mesma época dos atos de Maio de 68. Membros de seu elenco e equipe aproveitavam as horas vagas para viajar à França e se engajar nas fileiras dos protestos. A obra bebe na fonte de Godard e é inspirada em O Duplo, de Dostoievski. Em cena, o enfant terrible Pierre Clémenti.

partner

Memórias do Subdesenvolvimento, de Tomás Gutiérrez Alea

Considerado o maior filme cubano já feito. Reflexão sobre um homem que se divide entre ir embora da ilha, quando estoura a revolução, ou continuar por ali e assimilar as mudanças. Realizado sob o regime de Fidel Castro, ainda assim consegue ser crítico. O protagonista vê-se sozinho depois que a família migra para os Estados Unidos.

memórias do subdesenvolvimento

Se…, de Lindsay Anderson

Em 1968, devido aos protestos políticos, o Festival de Cannes foi cancelado. No ano seguinte, a Palma de Ouro terminou nas mãos de Anderson. Em um colégio interno conservador, um grupo de alunos rebela-se contra seus superiores e, ao fim, promove um ataque contra o poder, representado principalmente pela Igreja.

se...

A Piada, de Jaromil Jires

Pequena obra brilhante da Nová Vlna (a nouvelle vague tcheca), que não passou despercebida ao olhar dos censores soviéticos. Por muito tempo não constou na filmografia de seu diretor. Entre passado e presente, aborda a história de um homem expulso do Partido Comunista Tcheco e condenado a “serviços militares” forçados.

a piada

Dias de Fogo, de Haskell Wexler

Mais conhecido pelos seus trabalhos como diretor de fotografia, Wexler foi um artista politicamente engajado e chegou a realizar um documentário sobre o golpe de 64 no Brasil, lançado em 1971. Seu Dias de Fogo capta o momento de transformações nos Estados Unidos, em 68, entre as primárias do Partido Democrata e a ebulição das ruas.

dias de fogo

Z, de Costa-Gavras

Mescla o tom de documentário ao suspense policial. Ganhador do Oscar de filme estrangeiro, trata do caso Lambrakis, o político liberal assassinado na Grécia no início dos anos 60. Os poderosos trataram o caso como acidente, ainda que a morte tenha ocorrido em meio a uma multidão. Filme de resistência, poderoso do início ao fim.

z costa-gavras

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Ettore Scola (1931–2016)

A comédia pode ter traços grotescos, fazer rir do horrível. E o drama profundo deixa espaço para momentos de graça. O cinema de Ettore Scola é um pouco assim: lida com o inverso, pois não quer ser real em excesso – apesar de político, de social.

O fascismo está ali, contido, inseparável, como se vê em Um Dia Muito Especial. E a graça ocupa parte considerável do dia de um homem e uma mulher que acabam de se encontrar, um professor homossexual e uma dona de casa desanimada.

ettore scola

História bela que ultrapassa a política: é sobre o amor impossível entre seres desesperados, cada um deles com seus problemas para resolver, ou para esquecer.

Scola promove o encontro entre o universal e o particular. Como outros contemporâneos, move-se entre a comédia e a tragédia, no cinema político italiano dos anos 60, que também trouxe nomes importantes como Marco Bellocchio e Elio Petri.

No entanto, Scola mostrava características de cineastas da safra anterior. Ao maior deles, Federico Fellini, ele dedica seu último filme, Que Estranho Chamar-se Federico, homenagem de gigante para gigante, entre a ficção (a farsa) e o documentário (o real).

feios, sujos e malvados

Há na tela o encontro com o Federico jovem, do jornal humorístico Marco Aurelio, no qual o próprio Scola trabalharia mais tarde. Tal como algumas personagens de seu mestre, no cinema de Scola os seres têm leveza e malícia. Um filme como Nós que Nos Amávamos Tanto deve muito, inegavelmente, a Fellini – e o próprio aparece na tela.

Com Feios, Sujos e Malvados (foto acima), tem-se o grotesco para rir. A comédia que incomoda, sem deixar escapar o real pelas bordas: estão por ali a favela, os explorados, os malandros que desejam alguma vantagem, o glutão e repulsivo Nino Manfredi.

Outros atores serviram bem a Scola, como Alberto Sordi e, claro, Vittorio Gassman. Tipos perfeitos para o cineasta e sua comédia particular, suas reuniões de tanta gente, em família, com traços tipicamente italianos. Gente próxima e verdadeira.

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Que Estranho Chamar-Se Federico, de Ettore Scola

Caos de uma geração

De Punhos Cerrados foi engrandecido por sua presença, porque Lou Castel é um extraordinário ator não-ator. O seu corpo é o filme. Durante as filmagens, ele carregou fisicamente todas as tensões, as contradições, os sofrimentos que formam a tessitura do filme. Mas não é só isso, Castel acabou personificando as ânsias, as expectativas, o caos interior de uma geração inteira. Em certo sentido, foi o corpo daquela revolução que eclodiria em pouco tempo. Não por acaso, ele se tornou uma espécie de ícone da contestação.

Marco Bellocchio, sobre o ator e protagonista de sua obra-prima De Punhos Cerrados. A declaração foi dada em entrevista para Angela Prudenzi e Elisa Resegotti e está publicada no livro Cinema Político Italiano (Cosac Naify).

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