cinema iraniano

Todos Já Sabem, de Asghar Farhadi

O diretor Asghar Farhadi, com frequência comedido, apoia-se no título, na ideia de que todos – à exceção do espectador – já sabem alguns segredos. O que vem em seguida são as revelações, histórias que correm de boca em boca. Fala-se muito, explica-se em excesso. Os humanos perdem espaço para a trama de suspense, o sequestro.

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O jogo foi explorado muitas vezes: alguém some à medida que outros se revelam. Na pequena cidade em que o filme passa-se, na Espanha de terra seca e olhares constantes a qualquer movimentação diferente, os assuntos correm rápido, resistem ao tempo, como se cada segredo fosse compartilhado sem que se precise erguer o tom.

Enraizado, portanto, o que corre na casa ou na quadra do lado: quem namorou quem, quem amou quem, quem pode ser o pai de uma criança que foi embora com a mãe, para viver com outro homem em outro continente. Prato cheio para o silêncio aqui evitado. Farhadi põe casos em explicações, amputa o mistério.

Em viagem a essa Espanha provinciana está a bela Laura (Penélope Cruz), na companhia dos filhos, uma adolescente e uma criança, para o casamento da irmã. Seu marido, Alejandro (Ricardo Darín), ficou na Argentina, onde a família vive. Com a volta da mulher, alguns pequenos fantasmas ligados ao amor e à terra retornam.

Antes de cruzar o Oceano Atlântico, Laura vendeu um terreno para Paco (Javier Bardem). A relação de ambos será ligada ao sequestro da filha da protagonista, a certa altura, durante a festa de casamento da irmã: entre danças e juramentos, a luz apaga. No quarto, um pouco desacordada, a menina some. Tem início a busca por ela.

Paco envolve-se com o caso, tenta ajudar, aos poucos descobre seu papel na motivação do sequestro. O passado vem à tona: ele e Laura já foram namorados, escreveram suas iniciais no interior da torre da igreja, ao lado do sino e do relógio que indicam o tempo da cidade. O espaço é velho. Pombos escapam pelo vidro quebrado.

Nessa terra em que todos sabem um pouco sobre todos, especulações não faltam. Como em filmes anteriores, Farhadi explora o poder das palavras erradas nos ambientes errados. É a palavra que move o grande A Separação, ou sua dificuldade em uma sociedade fechada e, como essa Espanha um pouco distante, que ainda crê no silêncio, ou na “boca pequena” que espalha o que todos – ou quase todos – já sabem.

O desaparecimento foi abordado antes pelo diretor iraniano em Procurando Elly, no qual o sumiço de uma mulher lança luz aos problemas daqueles que procuram por ela, à sociedade machista viva por trás do grupo em questão. O que vem depois, entre tanto palavreado, não significa explicar, mas dizer o que é necessário – ou não dizer.

Com Todos Já Sabem, o mistério apequena-se, o íntimo das personagens é escancarado a ponto de o público não ter dúvida, no fim, de que todos têm boas intenções, de que os vilões, revelados, serão punidos. Um cinema para dar respostas, sem confiar no inaudível, nas expressões, no que todos talvez saibam sem que precisem dizer.

Chega-se à religião com a personagem de Darín, o pai que acredita em um Deus grande o suficiente para devolver sua filha. O mesmo homem que, falido, desempregado, não tem dinheiro para pagar o resgate. Farhadi injeta uma dose de ceticismo: será o dinheiro, o de Paco, a passagem de volta para a menina sequestrada.

A religião, segundo o cineasta iraniano, não combina com as relações humanas. Nessa mistura, algo se desestabiliza. Em A Separação, uma mulher conta uma mentira e é obrigada a jurar sobre o Alcorão, o que a faz declinar. Em Todos Já Sabem, uma cidade cheia de figuras defeituosas é fundada ao pé de uma igreja, a mesma cuja torre serve de esconderijo aos amantes – aos jovens do passado e aos do presente.

(Todos lo saben, Asghar Farhadi, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

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O Apartamento, de Asghar Farhadi

Momentos de violência ou grande tensão são evitados pelo cineasta Asghar Farhadi. É o caso da sequência em que uma mulher é atropelada em A Separação, ou quando outra é agredida por um invasor, no banheiro, a certa altura de O Apartamento.

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O diretor iraniano volta-se aos efeitos, não ao ato. Prefere a forma como as personagens lutam para juntar os cacos, para restituir o que parece impossível. No encerramento de A Separação, a distância entre seres, em um mesmo plano, parece dar conta da resposta: a união é impossível. Os cacos seguem ali.

O mesmo se vê na parte final de O Apartamento, cujas personagens separam-se em planos diferentes, voltadas a seus espelhos, sendo maquiadas para uma apresentação teatral: homem e mulher em seus respectivos papéis, impassíveis, distantes.

Pois o papel que vivem, nesse ponto, não lhes permite o diálogo. Impõe distância. No belo filme de Farhadi, eles talvez só consigam se despir de suas limitações nos limites do palco, quando a ficção permite exposições do drama a dois (ou de mais seres), em uma adaptação de A Morte do Caixeiro Viajante, de Arthur Miller.

Filme sobre papéis, dentro e fora do teatro. A mulher violentada é Rana (Taraneh Alidoosti). O agressor teria ido ao local atrás de outra mulher, considerada pelos vizinhos como “promíscua”, talvez uma prostituta. Mas Rana, ao lado do marido Emad (Shahab Hosseini), alugou o apartamento e, por isso, terminou agredida.

O momento é ocultado. Ela deixa a porta aberta ao imaginar que o marido estava chegando. Termina com um corte na cabeça, traumatizada, impedida de ficar sozinha no mesmo local pelos próximos dias. Seu marido tenta descobrir quem é o responsável.

É Emad a personagem central. Ele cogita ir à polícia, mas não deseja que todos saibam que sua mulher foi violentada. Em uma sequência exemplar, ao encontro do que trata o filme, Emad retorna para casa, em um táxi, quando uma senhora ao lado pede para mudar de banco, pois o homem estaria encostando demais em seu corpo.

A repressão é silenciosa. Vive antes nessas personagens, atores em outro palco, no espaço real do apartamento – ou dos apartamentos – cuja luz, perto do fim, remete justamente às dimensões do teatro: a luz artificial sobre sofás, em um espaço vazio.

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Ainda nos primeiros instantes emerge o palco. Emad e Rana dividem a mesma peça. Situações da obra de Miller encontram estranho eco na vida real de Farhadi, ainda que se evite toda a exposição. O homem quer saber a verdade (a identidade do agressor) por conta própria: torna-se um vigilante, seguindo o veículo do criminoso.

E quando a identidade vem à tona, o mesmo Emad percebe que seguir em frente não será como em uma típica história de suspense e vingança. Retorna, nesse ponto, o velho apartamento em que vivia o casal, com paredes e vidros rachados. Espaço um pouco fantasmagórico do qual o espectador torce para escapar mais e mais.

Emad também é professor. A certa altura, ele toma o celular de um aluno que o fotografava, em uma sessão de cinema, enquanto dormia. Farhadi não deixa ver o que há no celular. Há a impressão de que garoto esconde segredos. Todos têm os seus.

Faz pensar, de novo, em A Separação: como o anterior, O Apartamento é sobre seres destinados a confrontar o que há sob a superfície, a aparência de tranquilidade que parece reinar nesse apartamento, nesse palco (o texto controlado) e em outros espaços nos quais rostos comuns emitem instintos de desconfiança, medo e vergonha.

(Forushande, Asghar Farhadi, 2016)

Nota: ★★★★☆

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Abbas Kiarostami (1940–2016)

A primeira impressão é de que nada ocorre nos filmes de Abbas Kiarostami. Em seus trabalhos, ele questiona a ideia do tempo e faz ver o que está além do quadro.

Close-Up (foto abaixo) tem uma cena exemplar: uma lata de aerossol rola pela rua enquanto a câmera acompanha seu movimento. Algo semelhante em O Vento Nos Levará, de 1999: uma maça rola pelo telhado e não escapa ao enquadramento em todo seu trajeto.

O cineasta explora o cotidiano, o diálogo às vezes banal, pequeno, o que fica aos cantos, o que serve aos bastidores – como Através das Oliveiras não deixa mentir.

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close-up

Em seus filmes, a vida brota em um pequeno espetáculo, da locomoção das personagens por áreas rurais e distantes. E permite, inclusive, embutir o mistério, como se vê em Cópia Fiel. O casal está unido há anos ou acaba de se conhecer?

A morte de Kiarostami deixa um vazio. Difícil preenchê-lo. Não chega a ser um típico filho do neorrealismo, tampouco lança mão de algumas técnicas depois convertidas em vícios com o cinema moderno, na rabeira das novas ondas dos anos 60.

Valoriza o plano, o movimento, as janelas pelas quais as personagens conversam e convidam outras a invadirem um universo, ou a descobri-las – com a calma do verdadeiro artesão. No encerramento de Um Alguém Apaixonado, a pedra quebra a janela, atinge a personagem central e o filme termina menos como uma indagação, mais como a certeza do rompimento à força.

O filme todo explora a dificuldade de se chegar ao outro lado, de se invadir. Impera a incomunicabilidade, os desencontros da voz, o difícil contato.

Gosto de Cereja, que valeu ao diretor a Palma de Ouro, é outro que utiliza a janela do veículo para o contato entre diferentes: por pequenas estradas, ou mesmo pela área urbana, um homem decide morrer e convida pessoas para enterrar seu corpo.

através das oliveiras

Grandes autores sempre parecem se repetir. Outra impressão deixada pelo mestre iraniano. Brotam, de novo, questionamentos de um motorista e seu filho, pelas estradas, em busca de notícias de um jovem ator que protagonizou Onde Fica a Casa de Meu Amigo? – o ponto de partida de A Vida e Nada Mais. Kiarostami dirigiu ambos.

Onde Fica é a primeira parte de uma trilogia. Um garoto, por pequenas ruas de uma pequena vila, procura a casa do amigo de classe, para quem precisa devolver seu caderno. A Vida e Nada Mais é sobre um diretor de cinema à procura do mesmo garoto do outro filme, o ator, em uma região devastada por um terremoto.

Em todos restam odisseias, viagens de descobrimento. O que há pelo caminho é o que importa. A última parte da trilogia, Através das Oliveiras (foto acima), conta o drama de um rapaz, outro ator, que tenta se aproximar da mulher amada. Sua única oportunidade ocorre durante a filmagem, pois ela interpreta sua companheira e tem de interagir com ele.

A ficção tem seus milagres, diz Kiarostami, enquanto ainda ficam detalhes dessa estranha relação – ou a relação fictícia, que só existe no filme dentro filme. Bastaria Através das Oliveiras para colocar o nome do cineasta entre os grandes. É sua obra-prima. Mas há muito mais. Sua filmografia é cheia de pequenos grandes momentos.

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13 grandes filmes sobre personagens em viagens existenciais

O caminho de diferentes personagens não se limita ao simples deslocamento. Como se vê nos filmes da lista abaixo, são viagens de significados profundos. De descobrimento. A estrada pode assumir sua forma conhecida, de terra ou asfalto, ou mesmo a inimaginável, quando o homem sai em busca de outros planetas e dimensões. A lista traz obras de diferentes diretores, de Ingmar Bergman a Andrey Zvyagintsev.

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Morangos Silvestres, de Ingmar Bergman

Um velho professor viaja para receber uma homenagem. É o que lhe resta para coroar a vida, enquanto, na mesma viagem, assiste ao passado, às lembranças, tomado de assalto. A aparente vida pacata toma outro rumo. Ao mesmo tempo, tem de conviver com jovens que cruzam seu caminho na bela obra de Bergman, autor de mais filmes sobre viagens existenciais, como Monika e o Desejo e O Sétimo Selo. O protagonista é interpretado pelo cineasta Victor Sjöström.

morangos silvestres

Édipo Rei, de Pier Paolo Pasolini

Nem sempre fica entre os mais lembrados do controvertido italiano. É parte daquela galeria mítica do cineasta, à qual se lança para explorar diferentes autores. Com Édipo, tem-se o homem luta contra o próprio destino. Ao longo de sua jornada, matará o pai e se casará com a mãe. Pasolini também investiu tempo e esforços em outras histórias sobre viagens existenciais, como em Gaviões e Passarinhos, e sua própria jornada tornar-se-ia, depois, outra jornada existencial pelas mãos de Abel Ferrara.

édipo rei

2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

Na aurora do homem, o macaco lança o osso ao alto e, milênios à frente, este dá vez à nave espacial. O salto de séculos, diz Kubrick, é a maior jornada possível: é a consagração máxima da elipse no cinema, o poder do corte, a amostra de que a máxima tecnologia é fruto da violência. Depois, no futuro, o homem toma outra jornada. Lutará contra sua própria máquina – sem aparência nítida, com voz humana – enquanto assiste ao nascimento de outro mundo. Possivelmente o melhor filme do diretor.

2001 uma odisseia no espaço

Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

À medida que tenta se incluir, a personagem de Jack Nicholson termina sempre em explosão. E a certa altura fica clara sua renúncia: simplesmente deixa tudo, o mundo para trás, e embarca para lugar algum. Robert Eroica Dupea não quer mais jogar o jogo. Quer encontrar uma saída, um caminho, talvez um amor no meio de toda sua baderna interna e externa. Nicholson chega ao âmago de uma geração com sua personagem niilista.

cada um vive como quer

A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

O ponto de partida dessa viagem é o conflito entre a civilização e o mundo selvagem. Após o suicídio do pai, dois irmãos ficam perdidos no deserto australiano e, com a ajuda de um jovem aborígene, tentam encontrar o caminho para casa. O mesmo caminho levará a diferentes descobertas. O diretor Nicolas Roeg vinha de outra “viagem” ousada em Performance, e ainda faria outra, logo depois, com o magistral Um Inverno de Sangue em Veneza.

a longa caminhada

Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

O jornalista, ao ter de capturar a vida alheia, talvez nunca esteja totalmente inserido em um meio. A personagem central do filme de Antonioni é interpretada por Nicholson, em outro momento sublime, como o jornalista que muda de vida ao trocar de identidade com um homem morto. A mudança ocorre em um hotel distante, na África, continente ao qual é enviado para sua nova reportagem. O protagonista, Locke, passa a se chamar Robertson e busca assim outro caminho para sua existência.

profissão repórter

Stalker, de Andrei Tarkovski

Outro cineasta que se dedicou a diferentes “viagens existenciais”, com suas personagens percorrendo caminhos físicos e íntimos ao mesmo tempo. Vale lembrar outros de seus filmes – ou de quase todos – que cabem no tema: A Infância de Ivan, Andrei Rublev, Solaris, O Espelho e Nostalgia. Mas Stalker talvez simbolize melhor a busca pelo desconhecido, em um clima selvagem e ao mesmo tempo futurista, quando alguns homens – os stalkers – tentam alcançar um lugar mítico chamado Zona.

stalker

Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

A ideia de levar No Coração das Trevas às telas é antiga. Foi levada em conta por Orson Welles, que sequer conseguiu finalizar outra importante jornada da sétima arte, seu É Tudo Verdade. Na versão de Coppola, gestada por anos, encontram-se a composição perfeita, as personagens imperfeitas, o provável discípulo em busca do mestre – talvez para matá-lo e tomar seu posto. Martin Sheen é tão sombrio quanto Brando. Outra figura repulsiva é o Kilgore de Robert Duvall, capaz de destruir uma aldeia para poder surfar.

apocalypse now

Sem Teto, Nem Lei, de Agnès Varda

Os filmes anteriores de Varda são carregados de dor. É o caso de La Pointe-Courte, que antecipa a nouvelle vague, e o incrível As Duas Faces da Felicidade. Nos anos 80, com Sem Teto, Nem Lei, ela mergulha na jornada de uma jovem pela estrada. Chama-se Mona Bergeron (Sandrine Bonnaire), cuja imagem não é suavizada. A partir de histórias de pessoas que cruzaram com ela, essa viagem não a revela por completo, o que fica evidente desde o início.

sem teto nem lei

Paisagem na Neblina, de Theodoros Angelopoulos

Com crianças à frente, o filme de Angelopoulos ganha uma forma especial: cada pequeno trecho percorrido tem sentido de descobrimento maior. Quando se chega ao plano final, com a paisagem sob a neblina, percebe-se que nem tudo pode ser visto. Nessa jornada de descobrimento, as crianças desejam encontrar o pai que nunca conheceram, em viagem da Grécia para a Alemanha, ao passo que são obrigadas a amadurecer.

paisagem na neblina

Naked, de Mike Leigh

O melhor filme de Leigh acompanha o deslocado Johnny (David Thewlis), que furta um carro e foge após violentar uma mulher – nos primeiros e conturbados instantes da obra. Contra todos, a arma do protagonista é a palavra: fala sem parar, como uma metralhadora, e chega a enlouquecer lançado ao chão. Ao procurar uma velha amiga, esse anti-herói termina perdido pelas ruas de Londres e se encontra, ao acaso, com os mais diferentes tipos. Filmaço.

naked

Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami

Viagens e janelas são constantes nos filmes de Kiarostami. Em um de seus últimos trabalhos, Um Alguém Apaixonado, as personagens andam muito de carro e falam através das janelas. A obra, por sinal, termina com o rompimento de uma. Em Gosto de Cereja, feito antes, tem-se um homem a bordo de seu carro, que pede aos outros que lhe façam companhia no momento da própria morte. Ele desistiu de viver e precisa que alguém o enterre.

gosto de cereja

O Retorno, de Andrey Zvyagintsev

Antes do sucesso de Leviatã, o diretor russo realizou esse filme forte, ganhador do Leão de Ouro no Festival de Veneza. Em cena, a trajetória de dois irmãos com o pai desconhecido. Até então, o único contato com o homem havia se dado por uma foto. Nessa viagem, eles descobrirão outra face do lado paterno, em diversos conflitos. A fotografia gélida ajuda a dar o tom. Zvyagintsev dirigiria depois o poderoso Elena, sobre uma mulher que luta para ter a herança do companheiro.

o retorno

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Entrevista: Ivonete Pinto

Em uma viagem ao Irã, Ivonete Pinto teve a oportunidade, em um auditório lotado, de fazer uma pergunta ao cineasta Abbas Kiarostami. O conteúdo da questão dizia respeito a um conterrâneo do diretor de Cópia Fiel, Jafar Panahi, em prisão domiciliar a mando do regime de Mahmoud Ahmadinejad. Ivonete perguntou “o que ele, com toda sua força, iria fazer para tentar tirar Panahi da prisão”. E o público respondeu à sua maneira: aplaudiu não apenas a resposta de Kiarostami, que disse que jamais havia visto uma situação como aquela em seu país, mas também a pergunta da brasileira.

Do outro lado da trincheira, como entrevistada, a professora adjunta do curso de cinema e audiovisual da Universidade Federal de Pelotas e editora da revista Teorema não faz muitos rodeios para responder às perguntas da entrevista abaixo, concedida ao Cinema Velho.

Ler as entrevistas feitas com diversos cineastas e pensadores por Ivonete, na Teorema, é como embarcar em suas viagens, em questões que a mesma já definiu como “aula de cinema”. Em uma delas, com o também iraniano Mohsen Makhmalbaf, a jornalista passa por filmes que o mestre viu na infância, como Fahrenheit 451, de François Truffaut (justamente sobre uma ditadura que queima livros), ou mesmo por experiências vividas pelo diretor na realização de Close-Up, de Kiarostami, e no qual aparece como ele próprio.

Ivonete nasceu em Canela, no Rio Grande do Sul. Fez cinema como atriz e dirigiu dois médias em super oito. É jornalista, mestre em Comunicação pela PUC-RS e doutora em Cinema pela USP. Foi uma das fundadoras e a primeira presidente da Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Além de compor o grupo de fundadores, atualmente ela é vice-presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema). Sobre seus filmes “de cabeceira”, a professora diz que não tem. “Mas tem filmes que sinto enorme prazer cada vez que revejo em sala de aula, com os alunos, como Os incompreendidos, O Desprezo e Deus e o Diabo na Terra dos Sol.”

Antes da entrevista, vale um pequeno parêntese sobre a Teorema, na qual ela atua como uma das editoras. Trata-se de uma rara publicação (ou seria única?) impressa no país dedicada totalmente ao cinema fora do eixo comercial, com análises e ensaios de profundidade. Perto de sua vigésima edição, a revista não é lá muito fácil de encontrar, mas vale a procura. Pelas páginas estão interessantes entrevistas feitas por Ivonete e artigos de críticos variados, sobre produções de cantos diferentes do mundo. Um bom exemplo, por isso, àqueles que perderam suas esperanças quanto ao nascimento de uma publicação de cinema de qualidade no Brasil.

Como surgiu a paixão pelo cinema? Alguma influência familiar ou próxima?

Nenhuma influência familiar. Talvez tenha surgido desde criança, pois acompanho o Festival de Gramado. Sou de Canela, vizinha de Gramado, e comecei a ver filmes muito cedo. Aos 17 anos, ao entrar na faculdade, comecei a fazer teatro com um grupo que logo começou a fazer cinema, ainda no super 8. Pessoas como o Werner Schünemann (ator e cineasta gaúcho) e o Rudi Lagemann (ator, cineasta e roteirista gaúcho) faziam parte do grupo.

Vivemos em um país onde está cada vez mais raro ver pessoas que realmente pensam e interpretam o cinema com brilhantismo nos veículos de comunicação e na internet. Ou mesmo que param para viver e interpretar artes em geral. Em contrapartida, o país nunca ofereceu tantas possibilidades de cursos e graduações. Existe algum paradoxo entre o ensino e a produção cultural?

Sim, é um paradoxo, mas por outro lado nunca se teve tanto acesso a tantos diferentes meios de veiculação de produtos audiovisuais. O crescimento do número de escolas de cinema é o reflexo deste novo cenário.

Parece cada vez mais difícil, também, surgir uma revista de peso e circulação nacional, com venda em bancas. Acha que existe alguma chance de uma revista nos moldes da Cahiers, por exemplo, dar certo no Brasil em circulação nacional?

Não sei. Não sei quem bancaria tal aposta. A Teorema, mal comparando, é uma revista que vende pouco, para um publico super segmentado, e sabemos que as pessoas esperam hoje encontrar tudo na internet, não querem gastar.

Procurei e não encontrei. A Teorema não está na internet? Acha que uma versão on-line não chegaria a mais pessoas?

Certamente chegaria, mas seria ainda outro esforço nosso. Nós, os seis editores, já bancamos a publicação, e colocar na internet requer outro investimento. Além do mais, temos nosso publico fiel, que tem, talvez, o fetiche do papel: gosta de guardar os exemplares para consultar depois ou simplesmente ter ali, à disposição.

O público da Teorema é formado apenas por críticos e cineastas ou existem outros públicos que estão descobrindo a revista? Como ela se mantém financeiramente?

No inicio, há 10 anos, tentamos viabilizá-la comercialmente, mas não valeu o esforço. Preferimos agora dividir os custos entre os editores e produzi-la como gostamos, sem nenhuma concessão a um público que não nos interessa. Além dos leitores que você citou, temos cinéfilos e estudantes de cinema e outras áreas afins.

Você chamou a entrevista que fez com o professor Michel Marie de “aula de cinema”. O que você aprende em conversas com esses grandes mestres? Poderia citar outros nomes com os quais teve o privilegio de conversar ou entrevistar e dizer o que eles pensam, em geral, do cinema brasileiro?

Dizer o que eles pensam daria um pouco de trabalho, não é… Melhor consultar as 19 edições. Claro que sempre aprendemos com nossos entrevistados, caso contrario não teria sentido. Destaco a entrevista com o professor Ismail Xavier (professor da ECA), com o Manoel de Oliveira (cineasta português), Ruy Guerra (cineasta), Amos Gitai (cineasta israelense) e Giba Assis Brasil (cineasta gaúcho).

O título da revista na qual você escreve serve também a um famoso filme de Pasolini, dos anos 1960. O que a obra significa para você? Os títulos (do filme e da revista) têm alguma ligação?

Sim, é uma homenagem ao clássico do Pasolini. Significa que é um filme que não envelheceu. Ao contrario, aquela figura estranha (personagem de Terence Stamp, que invade a vida de uma família e, aos poucos, destrói a todos) que chega e modifica tudo é sempre uma figura moderna no cinema.

Ainda sobre a época do filme de Pasolini, havia grande efervescência cultural, política e contestadora. Na França, os episódios de 1968 são muito conhecidos. Não acha que um pouco de contestação, como nessa época, ajuda na realização de filmes de protesto e de boa qualidade? Ou acha que política e arte não devem se misturar?

Não sei. A arte é sempre política de uma certa forma, não se pode reduzir o sentido de “política”. A questão é: tem quem sabe e quem não sabe “misturar”. Cinema panfletário é um horror, cinema político é outra coisa…

Consegue lembrar de algum filme político que transcendeu o tempo – e a política – sem soar panfletário?

A Batalha de Argel, de Gillo Pontecorvo.

Quem melhor representa a crítica de cinema hoje no Brasil e que você costuma ler para enriquecer seu conhecimento?

Sempre que Ismail e Jean-Claude Bernardet (teórico e pensador) escrevem, é algo muito acima da média. Gosto do Inácio Araújo (crítico de cinema da Folha de São Paulo), do meu presidente Luiz Zanin (presidente da Abraccine, a Associação Brasileira de Críticos de Cinema, e crítico do jornal O Estado de São Paulo). Do meu colega da Teorema, Éneas de Souza, do meu colega da Abraccine João Nunes (crítico do jornal Correio Popular). Os outros são críticos já mortos, que admiro.

Os grandes mestres do cinema, na atualidade, estão concentrados nos países orientais? Ou é difícil, ainda, fazer tal colocação?

Difícil…

Leia aqui a entrevista de Ivonete com Mohsen Makhmalbaf.

Rafael Amaral (28/03/2012)