cinema dinamarquês

As bruxas de Dreyer

Entre o bem e o mal, Dreyer coloca seus personagens numa zona intermediária. O ser maligno de Vampiro (1931-32) é ambíguo. Vive o martírio da realização de suas aspirações individuais, seu fatídico itinerário demonista. Da mesma forma, a mulher traidora de Dias de Ira (1943) é confundida com uma bruxa, que instala a desordem na casa do marido ao se apaixonar pelo enteado. Punida a adúltera, a ordem volta a reinar.

O esquematismo atribuído a Dreyer é um mito. Todos os seus personagens se movem em ambientes suprematistas, onde a indiferenciação predomina. A “bruxa” queimada por contestar a ocupação da França, em 1341, se transforma em “santa” pela mesma Igreja Católica Romana que a torturou. A trágica heroína de A Paixão de Joana d’Arc (1928) é uma variante de todas as mulheres que passam pelos filmes de Dreyer a caminho do sacrifício. Sacrifício, aliás, imposto por Dreyer à própria intérprete, Marie Falconetti, mandando raspar sua cabeça, trancando a atriz em quartos escuros e obrigando-a a usar correntes que cortavam sua pele.

Antonio Gonçalves Filho, jornalista e crítico, na Folha de S. Paulo (1º de novembro de 1991; o artigo está no livro A Palavra Náufraga; Cosac & Naify; pgs. 233 e 234). Abaixo, Falconetti em A Paixão de Joana d’Arc.

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Veja também:
A Fonte da Donzela, de Ingmar Bergman

Terra de Minas, de Martin Zandvliet

Os garotos tomam distância. São fechados, têm raiva e, como o militar dinamarquês que os guia, apenas lentamente deixam ver humanidade. A frieza liga-se ao momento: o fim da Segunda Guerra Mundial, quando os sobreviventes alemães tinham de trabalhar para os vitoriosos, a saber, o exército dinamarquês.

Serão tratados como escória em Terra de Minas. À câmera, com a distância necessária para não esbarrar no sentimentalismo. Outra justificativa: desempenham o pior trabalho do mundo ao desarmarem minas terrestres na costa da Dinamarca, à beira-mar.

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Cavam a areia com calma, rastejam o tempo todo. Deixam a marca de seus corpos, como faz questão de mostrar – de novo a distância – o diretor Martin Zandvliet. O que mais interessa a ele é esse meio-termo, o que pode ser dramático demais e deve ser evitado e o que precisa ser exposto para a perplexidade do espectador, o que se critica.

Pois é também uma crítica ao tratamento dos vencedores, responsáveis por contar a história ou ocultá-la, como em casos tristes como o retratado aqui. Os perdedores em cena são adolescentes que pouco viveram, certamente levados às fileiras de Hitler no desespero da derrota, quando todo e qualquer alemão servia de escudo.

Terra de Minas é sobre as consequências da guerra, sobre a guerra que continua mesmo após seu término. Os meninos são levados a viver em uma pequena casa de madeira próxima à praia na qual trabalham. A supervisionar aos gritos o trabalho executado e cobrar metas está o sisudo Roland Møller, como o sargento Carl Rasmussen.

Diferente de outros companheiros de pelotão, ele não busca revanchismo, mesmo com tamanha fúria expressa na abertura. Será capaz, nesse momento, de esmurrar um alemão que carrega a bandeira de seu país. É o que servirá para duvidar de Carl, ou para odiá-lo.

Pois o sargento, segundo o filme, deverá amolecer – ainda que não por completo. É também um filme sobre como lidar com o inimigo, como assumir a visão em que o perdedor tão odiado passa a ser mais que o inumano visto pelos conterrâneos.

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Os meninos frios são humanos demais e precisam de distância para atingirem, aos olhos do diretor, a tragédia que não termina com a guerra. Os resquícios dos problemas continuam a recair sobre os “culpados”, adolescentes sem a total ideia do que fazem.

Algumas situações particulares desenham-se como vultos, nem sempre por completo. Outra opção acertada: o drama avoluma-se aos cantos, sem que haja algo maior que o trabalho ali exposto, sem que seja necessário gritar à câmera o que é implícito.

Poderia servir de exemplo a outro filme de guerra recente, o pífio Até o Último Homem, de Mel Gibson. Enquanto o dinamarquês prefere o drama que confia na capacidade de absorção do espectador, que não entrega tudo para deixar ver a grandeza dos detalhes, o americano lança de bandeja o espetáculo em seu pior formato.

O dinamarquês é difícil porque trata seus seres – a começar pelos meninos – como o pior resultado da guerra, no espaço em que a religiosidade mal penetra – e, quando penetra, serve para unir personagens aparentemente distantes. No pesado trabalho de Gibson, a religião e todos os males da guerra vêm enlatados e, por isso mesmo, sem deixar ver as contradições e o que torna a guerra um verdadeiro inferno.

(Under sandet, Martin Zandvliet, 2015)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Até o Último Homem, de Mel Gibson

A Comunidade, de Thomas Vinterberg

Os dramas da grande casa não escapam à observação da adolescente Freja (Martha Sofie Wallstrøm Hansen). No decorrer de A Comunidade, a menina limita-se a observar a intimidade dos outros, quase nunca a participar por completo desse meio.

Curioso, portanto, que reste a ela uma importante escolha final. Ao mesmo tempo nesse núcleo e fora dele, a jovem vai buscar suas descobertas na rua, fora dali, e parece não ver problema algum em dividir a grande casa com os pais e os amigos destes.

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O filme de Thomas Vinterberg aborda a convivência entre diferentes pessoas sob o mesmo teto, em uma comunidade na qual as decisões são tomadas pelo voto. Questiona o formato da família tradicional e se alinha assim à época que aborda, os anos 70, período de libertação e de contestação das regras vigentes.

Ao adotar uma coadjuvante observadora, silenciosa, às bordas, Vinterberg oferece a possibilidade de não se misturar. Será Freja, a certa altura, a primeira a descobrir a traição do pai, Erik (Ulrich Thomsen), que passa a sair com uma de suas alunas.

Sua mãe, Anna (Trine Dyrholm), é a dona da ideia de trazer outras pessoas à grande casa, de estabelecer uma comunidade, e passa a sofrer com a intimidade revelada, do dia para noite, aos membros do grupo. E, para não perder o marido, ela permite que este leve a nova companheira ao local, ao suposto meio de liberdade e aceitação.

É o preço que se paga ao se deixar tudo às claras: nessa comunidade em que se estabelecem escolhas pelo voto, na qual não se esconde o problema e se coloca o drama à mesa, Anna será a primeira vítima. Despenca aos olhos de todos, inclusive da filha.

Esse desejo de tudo ver, de se lançar à claridade, é evidenciado pelos momentos em que a própria Anna mexe as mãos entre a luz. Primeiro em seu quarto, após o sexo com o marido; depois no estúdio de televisão, pouco antes de entrar no ar, em seu programa.

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Jornalista, ela despe-se ao espectador nesses dois momentos – primeiro com o sexo, depois com as lágrimas. Sucumbe antes ao prazer, aos sentimentos, e logo o espectador entende o impacto da vida a dois, dessa ligação, dessa intimidade.

Com a vida em grupo, na grande casa, ela não será a única a perder: o marido, ainda no início, dá a entender que talvez aquele modelo não seja o melhor. Há sinais de que Erik gostaria de mais atenção da mulher, enquanto ela divide-se entre os outros.

Ao passo que a comunidade não lhe oferece o que esperava (e talvez não tenha mesmo por que oferecer), Erik descobre na jovem aluna uma fuga. Passa então a se encontrar com ela, em momentos de pouca intensidade, de poucos gestos íntimos.

A ideia de um mundo revelado, “sem paredes”, é dada pela fotografia de Jesper Tøffner, pela explosão da claridade, ao mesmo tempo pelo toque de sonho. Não há comunidade perfeita, descobrirá o público. A harmonia é aos poucos quebrada: a antes equilibrada Anna deixa-se ver, deixa escorrer uma lágrima, ao vivo, na televisão.

Sua estrutura vem abaixo. E Dyrholm oferece uma interpretação poderosa, de mutações, a mulher que tenta, até certo ponto, ocultar sentimentos, depois afrontada por eles. Sabe-se muito sobre ela, pouco sobre a filha silenciosa e quase intrusa. A forma como lidam com suas vidas particulares está ao centro do trabalho de Vinterberg.

(Kollektivet, Thomas Vinterberg, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Longe Deste Insensato Mundo, de Thomas Vinterberg

Dez grandes filmes sobre amor obsessivo

O amor tem diferentes faces. No cinema, há ternura e loucura, com pertencimento ou repelência. Em exagero, o amor pode ser destrutivo. Alguns amantes, como se vê nos filmes abaixo, estão dispostos a morrer pelo outro, ou mesmo a amar um espírito. Estão à beira da loucura, às vezes sem caminho, às vezes sem respostas. Abaixo, dez exemplos de grandes filmes nos quais o amor é colocado de cabeça para baixo. Contudo, continua por ali, ainda que difícil de enxergar.

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O Morro dos Ventos Uivantes, de William Wyler

Apesar de tanto amor, o filme de Wyler tem pitadas de vingança – com Laurence Olivier como o pobretão que retorna rico para tomar seu grande amor. Um clássico sobre amores e fantasmas, sobre eternidade.

o morro dos ventos uivantes

O Retrato de Jennie, de William Dieterle

Mais do que sobre amor, é sobre um homem obcecado pela beleza, pela mulher de outro tempo que aparece para ele e por quem se vê apaixonado. De encerramento delirante, foi elogiado por Luis Buñuel.

o retrato de jennie

Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

A história de uma mulher obcecada por um quadro, de um homem obcecado por ela e pelo medo de altura. Os caminhos inusitados dão vez a uma grande história de amor. Com a linda Kim Novak.

um corpo que cai

Lolita, de Stanley Kubrick

O homem mais velho faz de tudo para estar perto da adolescente, antes sua enteada e depois sua amante. À época, no começo dos anos 60, Kubrick tratou o romance até com certa leveza para driblar a censura.

lolita

A História de Adèle H., de François Truffaut

O amor em suas últimas consequências. A personagem-título, filha do escritor Victor Hugo, sai da Europa e vai para o Canadá tentar encontrar seu grande amor. É quando começa a jornada de sofrimento.

a história de adèle h

O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima

Considerado pornográfico, é um dos filmes mais corajosos e controversos da história do cinema. Oshima funde amor à loucura e leva os amantes à tragédia, forma de possuir o outro por inteiro.

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Esse Obscuro Objeto de Desejo, de Luis Buñuel

Como no poderoso e anterior O Alucinado, o diretor narra a vida de um homem impotente, em desespero e dominado por uma mulher. Buñuel utiliza duas atrizes diferentes para a mesma personagem.

esse obscuro objeto de desejo

A Garota de Trieste, de Pasquale Festa Campanile

Pintor solitário presencia o resgate de uma garota, retirada da água quase morta. Mais tarde obcecado, ele passa a perseguir a jovem (a bela Ornella Mutti) que, com frequência, mostra-se descontrolada.

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Ondas do Destino, de Lars Von Trier

Uma mulher aceita sair com outros homens apenas para satisfazer os desejos do marido tetraplégico, que depois ouve seus relatos. Os limites do amor e a hipocrisia religiosa fazem parte desse grande filme.

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Fale com Ela, de Pedro Almodóvar

Enfermeiro efeminado e amante da arte apaixona-se por sua paciente. O problema é que ela encontra-se presa a uma cama, em coma. Isso não o impede de lhe contar histórias. O melhor filme de Almodóvar.

fale com ela

Veja também:
Dez filmes sobre a descoberta da sexualidade