cinema de Taiwan

Uma Confusão Confuciana, de Edward Yang

As personagens de Uma Confusão Confuciana tentam ser mais que cópias. Tentam ser autênticas na cidade grande em que tudo é um pouco parecido, na qual impera a moda, a busca pelo amor constante – e rápido – por ruas cheias e restaurantes iluminados.

Vida um pouco padronizada. Mulheres semelhantes, homens idem. A impressão é a de se andar muito sem sair do lugar. Um filme brilhante em que o melhor está nas pequenas reações, na constatação de que o foco é a natureza humana, seus tropeços e jogos de aparência. O diretor Edward Yang não leva a um enredo definido.

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Alguns grandes cineastas ousaram filmar a sociedade, o grupo, a forma aparentemente comportada dos relacionamentos, dos encontros e desencontros, em palavras que logo são negadas. Vem à mente Robert Altman e seu incrível Short Cuts – Cenas da Vida.

É às cenas da vida que Yang desloca-se: personagens que declaram amor a outras e que logo estão em novas companhias, em busca de novidades nessa grande Taipei em que quase tudo parece fruto de acidentes, em que tudo depende do inesperado.

O roteiro é livre. Yang não julga as personagens e trabalha com segurança no campo da comédia, sem apelar ao riso fácil. Leva à graça de um jogo em que os adultos parecem crianças, de um lado para outro, noites em claro, sem saber o que fazer.

E esses adultos representam um estágio final na sociedade apresentada por Yang em diferentes filmes – em filmografia pequena, porém sólida. Diferentes dos amantes de Os Terroristas, ou dos jovens apaixonados e engajados de Um Dia Quente de Verão.

Uma personagem, ainda nos primeiros minutos, tem uma frase interessante para definir o espírito do filme e de seus seres: “A emoção não apenas se tornou uma desculpa, ela pode ser falsificada”. Em outro momento, outra observação esclarecedora: “A emoção é um investimento, talvez um produto, e o amor é seu retorno”.

O que todos buscam, ou vivem, é a emoção. Uma Confusão Confuciana apresenta esse jogo de corridas e retornos, o cruzamento entre todas as personagens. Há, por exemplo, a bela Qiqi (Shiang-chyi Chen), que namora Ming (Wei-Ming Wang) e, mais tarde, que termina se aproximando de um escritor recluso recém-separado da irmã de Molly (Shu-Chun Ni), que vem a ser a chefe de Qiqi e que, em outro momento, perto do fim, tem uma relação rápida com Ming.

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A primeira frase, após a citação de um diálogo entre Confúcio e seus súditos, dá ideia do que trata esse filme curioso: “Entre a vida e o teatro, qual a diferença?”, questiona o artista Birdy (Ye-Ming Wang), andando de patins em um de seus cenários.

O meio taiwanês apresentado é o da modernidade, das misturas, do artista que pretende fazer teatro popular para chegar à grande massa: a arte, diz ele, deve ser um pouco como a política em seu poder de comunicação – pois talvez não haja grande diferença entre o artista e o político nessa sociedade supostamente democrática.

Ao passo que tentam instituir o fim das diferenças e a emoção como produto necessário, curiosamente essas personagens ainda seguem vítimas de seus instintos, pouco ou nada resolvidas no plano pessoal. Vivem de relações fast-food.

Yang estabelece um contraponto entre contradições sociais e relacionamentos velozes, entre o fundo – nos grandes prédios, nas famílias separadas, no trabalho, no trânsito – e a frente – as várias personagens que formam esse painel.

A protagonista possível é Qiqi, moça sensível e que, na última cena, retorna para lembrar o outro cinema de Yang: o momento em que se vê o afeto, algo raro em um filme sobre o vazio dos relacionamentos na grande cidade, na vida moderna.

(Du li shi dai, Edward Yang, 1994)

Nota: ★★★★☆

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In Our Time (quatro diretores)

As quatro partes de In Our Time tratam de histórias distintas, da infância ao início da vida a dois. Entre esses dois tempos, quatro cineastas de Taiwan apostam em instantes, em pequenos momentos.

A aparência de algo maior, como a descoberta do primeiro amor, do desejo, do sexo, é recoberta pelo pequeno detalhe, pelo gesto passageiro, pela música. Aos olhos das personagens, o mesmo mundo torna-se estranho e impessoal. As quatro histórias ainda permitem ligações, mesmo com personagens com quase nada em comum.

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Na primeira, Cabeça de Dinossauro, tem-se o universo inocente das crianças, com o garoto incompreendido pelos pais, lançado de canto a canto, apenas na companhia de seu dinossauro de plástico. A segunda, Expectativas, é sobre uma garota durante a puberdade, com olhares curiosos ao peito nu de seu novo inquilino, um estudante.

O Pulo do Sapo, a terceira, leva o filme ao campo da comédia. O rapaz ao centro não é levado a sério pelos amigos e, como o menino da primeira história, corre entre os estudantes para não deixar a bela menina escapar ao seu campo de visão.

A quarta é a mais engraçada, a mais livre, toda calcada em instantes, nas poucas horas em que um homem fica preso para fora de seu apartamento. Recém-casado, ele tem apenas uma toalha para esconder o corpo – e contra ele há o cachorro do vizinho e os estranhos das ruas movimentadas de Taipei, repletas de prédios e veículos.

Os cineastas Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang fazem parte do chamado cinema novo de Taiwan, com histórias livres e clima realista. Dos quatro, o nome mais conhecido é Yang, que se tornaria famoso fora do país com obras como As Coisas Simples da Vida e à frente do segundo segmento de In Our Time.

Esse cinema de renovação teve influência externa, depois que as autoridades taiwanesas da época, do Partido Nacionalista Chinês, permitiram que seus artistas retratassem o cotidiano comum da nação – o que trouxe reflexos primeiro à literatura, depois ao cinema. A ideia era buscar prestígio internacional e abrir novas relações diplomáticas.

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Dois grandes nomes brotam desse período: o já citado Edward Yang e o genial Hou Hsiao-hsien. Ironicamente, a abertura governamental para a exposição da verdadeira vida em Taiwan permitiu que esses realizadores criassem um cinema de traços particulares, migrando sem muita demora da narrativa aparentemente clássica e ocidental a uma estrutura rigorosa no tratamento do tempo e das personagens.

In Our Time, com quatro histórias despretensiosas, representa o marco inicial desse cinema, com odisseias, relações entre adultos e crianças e a exposição da nova vida urbana taiwanesa feita de toques cômicos.

Em Expectativas, por exemplo, a menina deixa-se compreender pelo olhar voltado ao espelho, pela busca de suas formas (a puberdade), ou mesmo pelas perguntas feitas à irmã mais velha, que não responde. Maneira de Yang revelar – como no primeiro episódio, de Te-chen – o isolamento. O olhar da juventude é central: são seres cheios de emoção, com poucas palavras, cujos pais não dão a mínima a seus anseios.

O mesmo se vê na terceira parte, igualmente sobre um rapaz cheio de sensibilidade que ora ou outra é confrontado pelo mundo bruto. A sequência na qual retira a flor presa na porta do elevador resume a obra; é alguém a caminhar por trás dos outros, que precisa saltar entre eles para entrar em cena, para ser visto, um invisível a ser descoberto.

(Guang yin de gu shi, Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang, 1982)

Nota: ★★★☆☆

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O cinema novo taiwanês

Se houvesse duas, e apenas duas, palavras para definir a existência desse cinema, essas duas palavras teriam de ser “excelência” e “paradoxalidade”, pois o cinema que apareceu em Taiwan a partir dos anos 1980 é, ao mesmo tempo, decisivo e influente na cinematografia mundial e praticamente desconhecido fora do circuito dos festivais internacionais; é um conjunto de filmes mais conhecido e debatido ao redor do mundo do que dentro dos limites de seu próprio país; e, por fim, é um cinema de relativamente poucos filmes, de circulação bastante restrita, jamais transformando-se numa indústria sólida, ao passo que as décadas anteriores tinham uma produção enorme em termos quantitativos, mas sem muita projeção internacional, notoriedade ou reconhecimento crítico. O cinema novo de Taiwan é a história de uma aventura que já teve seu começo, seu meio e seu fim, mas que conseguiu consolidar definitivamente três nomes entre os principais autores do cinema contemporâneo: Hou Hsiao-hsien, Edward Yang e Tsai Ming-liang.

Ruy Gardnier, professor, pesquisador e crítico de cinema, em uma análise publicada no livro Cinema Mundial Contemporâneo (Taiwan: Nascimento Cinematográfico de uma Nação, Papirus Editora; organização de Mauro Baptista e Fernando Mascarello; pgs. 305 e 306). Abaixo, imagem de In Our Time, um dos filmes desse período, em quatro capítulos assinados por Tao Te-chen, Edward Yang, Ko I-Chen e Yi Chang.

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