cinema clássico

Bastidores: Marnie, Confissões de uma Ladra

Eu gostava sobretudo da ideia de mostrar um amor fetichista. Um homem quer dormir com uma ladra porque ela é uma ladra, como outros têm vontade de dormir com uma chinesa ou com uma negra. Infelizmente esse amor fetichista não foi tão bem transposto para a tela como o de Jimmy Stewart por Kim Novak em Um Corpo que Cai. Para falar cruamente, seria preciso mostrar Sean Connery flagrando a ladra diante do cofre-forte e tendo vontade de pular em cima dela e violentá-la ali mesmo.

Alfred Hitchcock, cineasta, em entrevista a François Truffaut, no livro Hitchcock Truffaut (Companhia das Letras; pg. 303). Abaixo, o diretor e os atores Tippi Hedren e Sean Connery durante as filmagens.

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A Floresta Petrificada, de Archie L. Mayo

Durante uma pequena parte de A Floresta Petrificada, o protagonista de Leslie Howard age como se estivesse em outro lugar, com outras pessoas: fala em se imortalizar, em buscar um significado para a vida após a morte.

É um escritor e, como todos, está em um pequeno restaurante no meio do deserto americano. Andarilho, não tem destino, tampouco parece ter raízes ou algum futuro a agarrar. À altura em que fala sobre se imortalizar, está na mira da arma de um bandido e, como outros que circundam, é mantido refém naquela local esquecido.

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O espectador atento não demora a questionar o que realmente aborda o filme de Archie L. Mayo. Certamente não é uma fita de gângster, ainda que pareça. E também não é um drama sobre vítimas em horas de desespero.

A começar pelo título, é sobre o desejo de se tornar lenda, ou apenas deixar uma marca para além do estado de isolamento, do sentimento de nada, no meio do nada: algo que corrói alguns homens e os faz pensar na posteridade. Desejam, em algum ponto, tornarem-se pedras, contra o ambiente inóspito, no fim do mundo.

Isso explica por que o herói toca no assunto, enquanto parece não ter medo da morte; é assim que confronta o vilão, e o faz entender que pode, com seu sacrifício, tornar-se uma lenda maior que o outro. Do lado oposto está o bandido Duke Mantee, implacável, de olhos flamejantes, imortalizado por um certo Humphrey Bogart.

A começar pelo tipo dos atores, brota o abismo. Howard é calculado até na forma como levanta o copo para brindar à morte: maneira que encontra – pelas palavras, pela consciência – para confrontar Mantee. O vilão de cabelos espetados é estranhamente real, pertence àquela prisão ou gaiola cercada por areia, alguém que não dá a mínima às questões que moldam o desafiante com cérebro.

Essa diferença é apenas o pico do iceberg: um filme sobre pessoas encurraladas por si próprias, em local infernal. No deserto, Mantee surge para corroborar o estado das coisas: esses seres estão à beira da morte, ou às portas do novo começo.

Entre tantas personagens interessantes, há a Gabrielle de Bette Davis, moça de fala livre, juvenil, a abraçar o que pode ser um amor passageiro. Beija outro homem por diversão, ou simplesmente porque suas opções esgotaram-se. E quando vê o viajante e pensador, alguém a falar sobre a natureza humana – sobre tudo o que parece se mover em um local petrificado, de vento e areia –, deixa-se levar.

A direção aposta no pequeno ambiente, aprisiona cada vez mais. Quando Alan Squier (Howard) encara Gabrielle e revela seu amor, a câmera aproxima-se de ambos. Eles continuam sob a mira dos bandidos, ainda assim com tempo para declarações.

As vidas presas àquelas horas não têm começo ou fim, mas tem profundidade. Eis a grandeza do texto, da peça de Robert E. Sherwood: deixar saber muito a partir de representações. Estão por ali o casal burguês, o velho beberrão, a menina sonhadora, o americano infantil, soldados, bandidos e o intelectual.

A mistura de tudo leva ao impensável: todos têm algo em comum quando se veem em risco. A natureza humana – o medo, a ansiedade, a percepção de estar tão perto da morte quanto do esquecimento, no meio do deserto – expressa-se em cada um.

(The Petrified Forest, Archie Mayo, 1936)

Nota: ★★★★☆

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Homem de si mesmo

Na época, o rei da bandidagem na Warner era Edward G. Robinson, com vastas lapelas, parecidas com as asas lanceoladas de um jato. Bogart, magro e faminto, era o Cássio para esse César. Torcíamos para Bogart porque, embora fosse subordinado, jamais dizia “sim, chefe” de modo subserviente. Não era homem de ninguém, exceto de si mesmo. E isso se estendia para sua relação com a plateia. Era preciso aceitá-lo em seus próprios termos. Ele jamais cedia a insinuações e, embora sua intimidação fosse sedosa, era também gelada. Na terminologia moderna, ele era “dirigido por força interior”, guiado por uma bússola privada que não dava atenção aos sinais de tempestade externos. Além disso, se a agulha o conduzia (como de costume) para uma saraivada de balas, morria com um dar de ombros: nenhuma queixa, nenhuma desculpa, nenhum ressentimento. Com efeito, raramente exibia sentimentos fortes de qualquer tipo. E isso, numa época em que se supunha que os astros e as estrelas deviam emocionar e ser vibrantes, era outra coisa que admirávamos. Era algo que refletia, em parte, o tato emocional de um homem que parecia genuinamente avesso ao sentimentalismo e, por outro lado, a segurança profissional de um ator que sabia muito bem que não precisava daquilo para fazer sucesso. De qualquer modo, era revolucionário e nós adorávamos.

Kenneth Tynan, crítico e escritor inglês, em ensaio sobre Humphrey Bogart publicado na revista Playboy em junho de 1966 e reproduzido no livro A Vida como Performance (Companhia das Letras; pgs. 213 e 214).

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