cinema clássico americano

Atire a Primeira Pedra, de George Marshall

Enquanto os homens só sabem beber e brigar, a personagem de Marlene Dietrich é a verdadeira especialista em tudo e em todos: a cada verso cantado, ou a cada grito à maneira do velho oeste, ela mostra conhecer o enredo que se impõe.

É viciada naquilo, e faz com liberdade, com espírito livre. E talvez seja por isso que seu sacrifício, ao fim, não seja o ponto forte de Atire a Primeira Pedra, de George Marshall: seu jeito natural serve melhor à comédia do que ao faroeste.

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Do outro lado há James Stewart, o assistente de xerife, o oposto, alguém que parece não saber nada e aos poucos surpreende. O novo herói sugere ordem, sugere que a pequena cidade funcione não pela lei da bala e das trapaças. No fundo, esse modo de viver afeta mais a personagem de Dietrich que os beberrões e briguentos ao redor.

O faroeste cômico de Marshall é lançado em 1939, momento de mutação: os filmes americanos beiram a Grande Guerra e, sem demora, parecem ficar mais sérios, perdem a malícia e a liberdade típica dos anos 30.

Atire a Primeira Pedra sintetiza isso à perfeição, ao passo que se transforma. O espectador percebe que as balas atiradas para todos os lados podem matar, e acabam matando. E descobre que há consciência por trás da mulher de Dietrich.

A personagem de Stewart chega à pequena cidade quando outro xerife assume o posto. Torna-se assistente porque é filho de um velho xerife que já esteve por ali. Tom Destry Jr. é ótimo atirador. Contudo, prefere não usar armas nem os punhos, e não se aproxima do tipo idiota de Bob Hope, como se veria em O Valente Treme-Treme.

O herói é astuto, pensa enquanto quase ninguém o faz – talvez à exceção da mulher, a Frenchy de cabelos encaracolados, o anjo de Dietrich. Ela encontra nele o opositor à altura, alguém a abalar seu meio e a lançá-la, como se verá no encerramento, ao lado das mulheres, não mais de beberrões assanhados.

O ambiente principal é a casa de espetáculos onde todos se encontram: abaixo, à beira do bar, vê-se a maioria, clientes que se acotovelam para beber e dançar; acima, em uma sala escura, alguns têm entrada garantida para jogar cartas.

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A dama Dietrich pode transitar entre os dois lados: em um deles, canta, passa entre os convidados como a rainha admirada por seus súditos. Há quem ouse tocá-la. No alto, ela serve de isca para fazer alguém perder o jogo, aceita compor um golpe.

A vítima é um velho senhor bêbado, feliz, que diz nunca ter ganhado dinheiro tão fácil na vida. O vilão Kent (Brian Donlevy) trapaceia com a ajuda da mulher e fica com o rancho do outro. Depois, quando decide resolver a situação, um xerife é assassinado.

Por ser um ambiente no qual a lei apenas se insinua, homens como Kent tripudiam, operam às sombras, enquanto, no mesmo salão, o prefeito brinca sozinho com seu jogo de damas. Resume o que quase ninguém vê: tudo não passa de um tabuleiro.

Tom e Frenchy, não há dúvida, nutrem atração um pelo outro. Ao fim, ele precisa tomar armas para combater os inimigos e ela resolve mudar de lado. O filme fica um pouco mais chato, mais sério, no caminho que o próprio cinema parecia seguir.

(Destry Rides Again, George Marshall, 1939)

Nota: ★★★★☆

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Marlon Brando é um rapaz engraçado, enérgico, egocêntrico, de 27 anos, nariz chato e cabeça redonda, braços e ombros enormes, e ainda dá a impressão de ser um estudante magrinho de Greenwich Village. É muito nervoso, resmunga suas falas e ensaia sozinho o dia inteiro. Muito respeitoso comigo, me arrastou para gravar dois discursos de Antônio em seu aparelho, onde ele escuta a própria voz e estuda gravações de Larry, Barrymore, Maurice Evans etc. para treinar a dicção. Creio que sua sinceridade pode levá-lo a uma atuação interessante? – seu inglês não é de todo mau e ele é obviamente muito ambicioso e inteligente. Contou-me que tem uma fazenda de gado e que, depois de mais dois anos filmando, vai estar completamente seguro financeiramente!! Faz parte de um teatro de estudantes em Nova York e é desesperadoramente sério a respeito de representar, mas acho que tem muito pouco humor e parece muito alheio a tudo, exceto ao desenvolvimento do próprio e evidente talento. Será bastante divertido observá-lo.

(…)

Agora estamos em nossos três últimos dias de filmagem, estou deixando a barba crescer e ficarei parecendo um assaltante, ou o 13º apóstolo. A cena da tenda ficou muito boa, embora eu ainda pisque e me remexa nas tomadas em close, e meus olhos vagueiem para os lados, como se procurassem um policial que estivesse vindo para me prender. James Mason é tão seguro e claro em sua representação facial que chego a ter inveja. Ele fez uma interpretação muito boa de Brutus e, quero crer, fará um grande sucesso nesse papel tão difícil. Se fizerem os cortes com argúcia, creio que eu consiga passar incólume, mas espero que não pensem que eu tenha feito uma interpretação teatral e veemente demais. Não vi nada das cenas de Brando, mas dizem que sua cena no Fórum ficou excelente.

John Gielgud, ator, em cartas para sua mãe, em 1952, sobre as filmagens de Júlio César, a versão de 1953 dirigida por Joseph L. Mankiewicz (“Reflexos do palco”, Revista Piauí, julho de 2010; leia aqui texto completo). No filme, Gielgud interpreta Cassius. Abaixo, Deborah Kerr, Marlon Brando e Greer Garson, todos do mesmo elenco.

julio césar

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John Ford, anos 30

Antes de revolucionar o faroeste com No Tempo das Diligências e se tornar sinônimo do gênero, John Ford realizou algumas das melhores aventuras dos anos 30. Passou pelos filmes de guerra, pelo subgênero “catástrofe” e, às beiradas, até mesmo pelo cinema político.

A década prova que Ford está além do faroeste. E, à época, era um realizador confiável aos estúdios, que havia aprendido tudo sobre o ofício ao lado de mestres como D. W. Griffith. Em O Nascimento de uma Nação, Ford fez uma ponta como ator.

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no tempo das diligencias

Seus filmes dos anos 30 têm em comum a agilidade, histórias simples – no bom sentido do termo – e grandes sequências de ação. É o cinema clássico em plena atividade, com o diretor lançando até três filmes por ano, como em 1935, com O Homem que Nunca Pecou, Nas Águas do Rio e O Delator. O último lhe valeu seu primeiro Oscar.

A guerra é tema constante em sua obra. Sob as Ondas, de 1931, chama a atenção pela leveza e distância como trata as personagens, sem grande peso dramático. É sobre um grupo de marinheiros americanos contra um imbatível submarino alemão. Sua sequência final, com bombardeios e soldados escondidos em um barco, é poderosa.

O mesmo se vê no desfecho de A Patrulha Perdida, de 1934: do mar aberto, Ford passa ao deserto, com estranhos soldados em conflito, do grandalhão Victor McLaglen ao sempre sinistro Boris Karloff. E o último, famoso por interpretar o monstro de Frankenstein, é o fanático que pode colocar tudo a perder.

McLaglen, colaborador frequente de Ford, imortalizado pelo Judas em busca do perdão em O Delator (foto abaixo), é o último dos homens nesse grande filme de guerra. Se o ator deixa certezas sobre seu heroísmo em A Patrulha Perdida, no outro ele investe na face do perdedor que entrega o melhor amigo, revolucionário irlandês, às autoridades.

o delator

Ao lado de A Mocidade de Lincoln, O Delator é o drama mais famoso de Ford da década de 30. No entanto, e à contramão de boa parte dos filmes americanos desse momento, aposta em uma personagem difícil, amarga, verdadeira derrotada.

O Gypo Nolan de McLaglen deseja mudar: ele encontra a amada em vida degradante, entregue à prostituição. Precisa de dinheiro para mudar. Precisa controlar seus vícios, ou simplesmente suas emoções: deixa ver ainda mais sua culpa a cada movimento rumo às pessoas que traiu. Entrega-se com pouco, enquanto o ator tem grande atuação.

Como Ford, McLaglen ganhou um Oscar. Desbancou três atores que concorriam por O Grande Motim – entre eles Charles Laughton, como o inesquecível capitão Bligh.

Os tipos errantes de Ford fazem a diferença. São coadjuvantes que roubam a cena, talvez por mostrarem mais realidade, ao contrário dos heróis. É o caso do também grande Thomas Mitchell, como o médico beberrão que precisa fazer um parto em meio à catástrofe que coloca fim a O Furacão (foto abaixo), de 1937.

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As mesmas “imperfeições”, depois, com o mesmo ator: em No Tempo das Diligências, Mitchell é o embriagado e falador Josiah Boone, dessa vez em uma caravana que sintetiza os Estados Unidos, com a “terra de John Ford” ao fundo.

Por outro lado, há algum excesso de perfeição, ou a necessidade de heroísmo nesses dois filmes – nos anos de idealização de certo tipo imbatível, anterior à guerra que se avizinha. São estampados no Terangi de John Hall e no Ringo Kid de John Wayne.

A melhor coisa de Quatro Homens e uma Prece, por sinal, é outro tipo engraçado, o mulherengo vivido por David Niven, que cria sons inesquecíveis para se comunicar com um garçom latino, em um barco cheio de bandidos, em filme pouco marcante.

Outra figura de destaque nos filmes de Ford dos anos 30 é o ator Will Rogers. Era sempre o mesmo, com filmes na medida: o bom americano honesto e caipira. Duas belas obras mostram essa face: Juiz Priest (foto abaixo) e Nas Águas do Rio.

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No primeiro, Rogers é o juiz interiorano disposto a combater a força dos cínicos que desejam tomar seu tribunal. Ele rejeita a seriedade vista, mais tarde, no jovem Lincoln, em 1939. Ao contrário, torna o tribunal um local tranquilo e alegre.

Mágico sem qualquer esforço, Priest resolve questões por acaso: é o tipo que se debruça no túmulo da mulher, à noite, para lhe fazer companhia. Não requer quase nada. Vive para unir os outros, os mais jovens. Protagonista do filme, mas coadjuvante daquele universo. O mesmo ocorre a ele em Nas Águas do Rio.

Em mais uma parceria entre Ford e Rogers, o ator é John Pearly, comandante de um navio e na companhia de uma bela menina simples. Ambos desejam salvar o companheiro dela, injustamente condenado à morte. Os Estados Unidos sulistas de Ford incluem religião, fanatismo e homens dispostos a fazer sua própria Justiça.

Dois homens em um, em Edward G. Robinson, podem ser vistos no ótimo O Homem que Nunca Pecou (foto abaixo). O ator de Alma no Lodo interpreta duas personagens, ao mesmo tempo o profissional exemplar de um grande escritório e um temido criminoso.

o homem que nunca pecou

Robinson pode ser as duas coisas com igual excelência, enquanto Ford brinca com as excentricidades de seu país, enquanto homens engravatados adiantam-se para cuspir fogo, e enquanto Jean Arthur – imortalizada graças às personagens dos filmes de Frank Capra – deixa tudo ainda mais descompromissado.

Mais tarde, com No Tempo das Diligências e A Mocidade de Lincoln, ambos de 1939, o cinema de Ford chega a outro patamar. Faria novas obras-primas em décadas seguintes. Os anos 30, para ele, sinalizam um diretor em perfeita sintonia com o sistema de estúdios, com características esperadas para seu tempo, e outras nem tanto.

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