cinefilia

O tempo de Antonioni (e um pouco sobre as filmagens de A Aventura)

Eu odeio os mecanismos artificiais da narração cinematográfica convencional. A vida tem um ritmo completamente diferente, às vezes rápido, às vezes extremamente lento. Em uma história sobre sentimentos, como A Aventura, senti a necessidade de ligar sentimentos ao tempo. Seu próprio tempo. Quanto mais vezes vejo A Aventura, mais estou convencido de que encontrei o ritmo certo, não acho que poderia ter tido outro ritmo além do que tem.

(…)

Enquanto eu estava filmando, passei por cinco meses extraordinários. Extraordinários porque eram violentos, exaustivos, obsessivos, muitas vezes dramáticos, angustiantes, mas acima de tudo satisfatórios. E eu acho que no filme você percebe isso. O mais difícil para mim foi me desligar de todas as coisas que poderiam dar errado – e muitas coisas deram errado. Nós filmamos sem um produtor, sem dinheiro e sem comida, muitas vezes arriscando nossos pescoços no mar, nas tempestades. Tudo isso mudou as relações entre nós, sejam pessoais ou profissionais. Nós assistimos a incríveis e belos fenômenos naturais. A minha maior dificuldade, digo de novo, era me isolar de tudo o que estava acontecendo, de modo que apenas o essencial fosse filtrado para o filme – de modo que tivesse sua própria atmosfera, separado do que estávamos passando na vida real. Eu costumava levantar todos os dias às três da manhã só para ficar sozinho, em paz e conseguir refletir sobre o que estávamos fazendo.

Michelangelo Antonioni, diretor de A Aventura, em entrevista a François Maurin em setembro de 1960 (reproduzida no site Cinephilia & Beyond; leia aqui na íntegra e em inglês; a tradução é deste site).

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Trilogia dos Bichos, de Dario Argento

Beijos Proibidos, de François Truffaut

Gente apaixonada faz coisas extremas, parece louca. Em Beijos Proibidos, de François Truffaut, seu protagonista encara o espelho e diz palavras repetidas. Muito antes de Taxi Driver e seu “Você está falando comigo?”, o que motiva a repetição é o amor.

Outros tempos. No mundo de Truffaut, nem mesmo o Maio de 68 seria capaz de romper esse clima apaixonante: a certa altura, uma garota diz ao protagonista que sua amiga esteve em alguns protestos. Falam rapidamente, em mais um dos pequenos casos da fita, e tudo volta ao normal. Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) segue seu rumo.

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Nesses tempos apaixonados, tão próximos das mudanças, dos protestos, do amargor que sepultaria o clima libertário da nouvelle vague, Doinel tenta restituir o que realmente interessava a Truffaut: contar histórias apaixonantes, feitas à febre do momento.

Nem por isso ignorava o mundo real, a política das coisas, ou apenas as coisas políticas (ainda que menos importantes): seu filme abre com a imagem da Cinemateca Francesa fechada e é dedicado a Henri Langlois, seu fundador.

Filme de amor à cinefilia, aqui expressa na personagem central, Doinel, o jovem que parece dizer e fazer tudo o que deseja, sem freios, a quem a vida sempre termina em amores e diversão, sem que as coisas precisem ser sérias o tempo todo.

A terceira aventura de Doinel mostra-o, no início, deixando o serviço militar. Não se adaptou à instituição, às suas ordens, e sequer precisa explicar os motivos. Quem viu Os Incompreendidos entenderá, sem dúvida, essas motivações.

E Truffaut lida com sua volta à sociedade, depois o novo emprego como detetive. Como um cineasta ou apenas um voyeur, um cinéfilo, o detetive invade a vida dos outros. Como um repórter, mais tarde ligará à empresa para repassar os detalhes de suas ações.

Pela rua, não passa despercebido: destrambelhado como personagem de filme mudo, Doinel não consegue seguir suas presas sem que estas vejam seus passos: é cinematográfico demais para não ser notado. A mulher chama a polícia, ele corre.

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Em sua agência, um rico homem de negócios (Michael Lonsdale), dono de uma loja de sapatos, não tem qualquer problema aparente. Ao contratar os serviços do detetive, ele deseja saber mais sobre si mesmo, por que os outros não gostam dele.

De um lado há Doinel, que não consegue viver sem paixão e, por isso, não consegue tomar distância; de outro, o empresário cuja distância em relação a todos não o deixa ver as próprias imperfeições, ou o ponto de vista daqueles que o cercam.

O protagonista torna-se o detetive do outro, investiga sua vida. Terminará próximo de sua mulher, Fabienne (Delphine Seyrig). Quando não sabe o que fazer com o amor e a estranheza deste lhe foge às mãos, o jeito é renunciar – parecendo ainda mais louco.

Em comparação com os filmes anteriores sobre Doinel, Os Incompreendidos e Antoine e Colette, Beijos Proibidos assume tom cômico. A velocidade está a favor da comédia, e as atitudes apaixonadas do protagonista não exageram quando próximas à loucura.

Ao contrário, são aceitáveis, como se um velho mundo estivesse ainda vivo: as paixões não foram intoxicadas pela política ou pelos tempos atômicos. O detetive, ao fim, é apenas alguém apaixonado, a se proclamar, que diz conhecer bem a vida. Evidentemente ingênuo, perfeito à comédia mágica de Truffaut.

(Baisers volés, François Truffaut, 1968)

Nota: ★★★★★

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Dez beldades em dez grandes aparições na tela

Como enfurecer um cinéfilo

A boa e cômica lembrança é roubada de François Truffaut, de seu artigo para o livro Orson Welles, de André Bazin. Como lembra o cineasta, era comum, no Natal de 1973, as pessoas trocarem um cartoon dos Peanuts, de Charles Schulz, publicado pelo Los Angeles Times. A tirinha mostra o poder de Cidadão Kane no imaginário popular.

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Entrevista: José Geraldo Couto

Abaixo de cada comentário feito no blog de José Geraldo Couto, no site do Instituto Moreira Salles, estão mensagens que indicam a atenção e a sutileza do autor dos textos. Em quase todas, começa com “caro” ou “cara”, ao se dirigir aos seus leitores. Está no terreno do diálogo, do debate, o da crítica de cinema, o que José Geraldo – ou apenas Zé – encarna tão bem.

Seus textos revelam amor pelo cinema, críticas sobre obras em cartaz nas grandes salas que lutam para sobreviver. Ou mesmo sobre cineastas contemporâneos, dos mais variados nomes, nacionalidades e momentos históricos. Quem acompanha sua coluna na revista Carta Capital, entende que o leque de referências que o autor traz à tona é variado.

No começo de 2011, Zé celebrou o lançamento de A Mãe e a Puta em DVD, filme de um tal Jean Eustache. “Jean quem?”, deverá perguntar o leitor desavisado, ou o digno membro de um grupo (cada vez maior) que não se interessa pelo passado, por aquilo que há de bom no cinema – e que Zé, como outros (talvez poucos), tenta recuperar. É um pouco do que diz na entrevista abaixo, exclusiva ao Cinema Velho. “Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente.”

O crítico de cinema nasceu em Jaú, em 1957, mas nunca morou lá. Viveu em São Paulo até o final de 1999, quando se mudou para Florianópolis. Tem um filho de 21 anos.

“Sempre gostei de escrever, desde o jornalzinho do colégio, mas só me tornei jornalista profissional com 27 anos, depois de ter até um livro publicado”, conta ele, que diz não ter um filme de cabeceira, “nem tampouco um livro”. Trabalhou para a Folha de S. Paulo por mais de 20 anos, também na revista Set entre 1987 e 1990. Colabora regularmente com as revistas Carta Capital e Bravo!, além de manter a coluna de cinema no blog do IMS. Não bastasse, faz também tradução de livros, especialmente para as editoras Companhia das Letras e Carta Capital e de artigos e ensaios para as revistas Serrote, Piauí e Zum. Confira abaixo a entrevista completa com o craque.

Sabemos que no cinema sempre há um conflito sobre o que é filme “de arte” e o que é entretenimento. E se uma determinada obra pode ser as duas coisas. Existe alguma contradição entre os dois lados? Um filme de Bergman como, por exemplo, Persona, pode ser também entretenimento ou é puramente arte?

Não existe, em princípio, uma contradição entre arte e entretenimento. Mas é evidente que certos filmes esteticamente mais exigentes e sem concessões ao gosto corrente terão mais dificuldade de entreter um público amplo. Alguns cineastas altamente originais e de valor artístico inegável, como por exemplo Hitchcock, Kurosawa e Fellini (para citar três muito diferentes entre si) conquistaram grandes plateias com seu cinema. Outros, como Jean-Marie Straub ou Agnès Varda, ou ainda o brasileiro Julio Bressane, optaram por linguagens mais áridas do ponto de vista do chamado “espectador comum”. Mas quem é esse espectador? Hoje prevalece a ideia de que não existe um único “público”, essa entidade abstrata, mas diferentes plateias, ou antes diferentes espectadores, cada um com seus próprios gostos e preferências. Quanto mais amplo for o repertório cultural desse espectador, provavelmente também será maior a sua exigência em termos de sofisticação de linguagem, de seriedade de tratamento etc. Seu entretenimento será diferente daquele de um espectador mais ingênuo, desinformado ou imaturo.

Por falar em nessa diferença, fico com a impressão de que a maior parte dos filmes em listas de críticos são os ditos “de arte”, enquanto o público que vai ao cinema em shoppings quer mesmo, em sua maior parte, entretenimento. Não acha que crítica e público caminham em diferentes sintonias?

Esse aparente descompasso está, de certa forma, ligado ao que foi dito na resposta anterior. O crítico em geral tem, ou deveria ter, um olhar educado, aguçado, que lhe permite ver o que passa batido por um espectador que não tem a mesma formação e o mesmo treinamento. Seu papel, a meu ver, é o de fornecer subsídios ao espectador para que este também tenha uma percepção mais ampla e profunda dos filmes. O crítico não deve, por um lado, ignorar seu interlocutor, o leitor/espectador, mas também não deve de modo algum, por outro lado, fazer média com ele, tentar agradá-lo, tentar antecipar-se a seu gosto e dizer aquilo que julga que ele quer ouvir. Há leitores/espectadores que se fecham a qualquer informação ou opinião que vá contra seu gosto ou suas ideias estabelecidas. Prefere o conforto do que já pensa e sente. Mas há também os que gostam de ser instigados, provocados, desafiados. É para estes últimos, em última instância, que o crítico escreve. É com eles que procura conversar. Pois com os outros, os acomodados, ele não tem muito o que dizer. Eles continuarão a gostar das mesmas coisas e a resistir às mesmas coisas.

Há também uma impressão de que, no terreno do cinema clássico, um filme pode ser “arte” e entretenimento ao mesmo tempo – como no caso dos filmes dos Irmãos Marx e mesmo de Chaplin. Não acha que, com o surgimento do cinema moderno, as coisas ficaram um pouco mais polarizadas?

É possível que sim. Houve também, impossível negar, uma massificação extrema do gosto e um rebaixamento do repertório cultural e da atitude crítica, o que ajudou a aumentar a cisão entre a fruição descompromissada dos filmes e o pensamento em torno deles. Isso não aconteceu só com o cinema, mas também com a música popular, por exemplo. Houve um tempo em que uma produção de enorme qualidade artística (por exemplo, Luiz Gonzaga, Noel Rosa ou Dorival Caymmi) alcançava grande popularidade. Hoje os artistas de maior apelo comercial são de uma pobreza atroz (nem é necessário citar nomes). O papel da crítica não é “se adaptar aos tempos”, dizendo que Michel Teló é genial, e sim talvez tentar entender por que ele faz tanto sucesso – e tentar ajudar o ouvinte a perceber que existe coisa melhor, muito melhor.

Antes de começar a escrever sobre cinema você já era um cinéfilo? Como foi sua formação como crítico e qual os filmes que, digamos assim, o “iluminaram”?

Sempre gostei de cinema, desde a infância, mas digamos que me tornei cinéfilo no final do colégio e início da faculdade, ou na passagem da adolescência para a idade adulta. Não estudei cinema, e sim História e, depois, Jornalismo. Só passei a escrever profissionalmente sobre cinema tardiamente, por volta dos 25, 26 anos, primeiro como free lancer, depois na revista Set, quando esta estava começando, e finalmente na Folha de S. Paulo, já nos anos 90. Mas desde a época da faculdade de História eu procurava ver tudo o que havia de disponível (em cineclubes e mesmo no circuito comercial, que era bem mais generoso), fossem filmes importantes para a história do cinema ou apenas divertidos. Comecei a ler também sobre história do cinema, sobre cineastas, correntes estéticas, interpretações, interpenetrações do cinema com outros meios e disciplinas. Foi tudo muito assistemático, mas feito com muita paixão. Aliás, esse aprendizado continua até hoje.

Em uma lista que você publicou sobre seus filmes prediletos da última década consta A Fita Branca, do Haneke. Por que está cada vez mais difícil surgir cineastas com certo traço e atitude como é o caso de Haneke?

Difícil dizer. Talvez porque a pressão da indústria seja maior, ou porque o mercado esteja mais fechado a experiências radicais de expressão. Veja que mesmo cineastas que já mostraram grande vigor inventivo no passado (como Resnais, ou Coppola) hoje estão mais acomodados ou, no mínimo, menos inquietos e audaciosos.

Com a facilidade das câmeras leves e do compartilhamento pela internet, é possível que a forma de recepção de filmes mude e que as salas de cinema deixem de existir em um futuro não muito distante?

Essa mudança já é visível a olho nu. Mas acredito que as salas de cinema continuarão a existir por um bom tempo, seja apelando para o 3-D ou simplesmente para o mero atrativo do ritual de ver filmes na sala escura, acompanhado de uma massa anônima. Talvez, com o tempo, esse ritual se torne uma coisa de uma minoria nostálgica, uma atividade de igrejinhas, uma excentricidade semelhante aos dos colecionadores de antiguidades. Mas não sei. Sou péssimo para fazer previsões.

Abro um parêntese para citar duas suposições: você vai assistir um filme em um dia ruim, em um dia em que está com problemas, dores de cabeça, etc. E, um dia depois, vai assistir outro filme, mas no qual a história fala de algo que lhe é comum, ou que viveu na sua vida. Não acha que, em qualquer um dos dois casos, você pode não ser tão isento como deveria em sua análise da obra e deixar as coisas partirem até mesmo para um lado pessoal? Ou acha que o crítico tem total direito de deixar que seu estado no dia da análise interfira no resultado dela?

Você tem toda razão Citou casos extremos, mas mesmo em condições mais “normais”, o crítico nunca está totalmente isento. Penso que o melhor que ele tem a fazer é identificar justamente os pontos em que a questão pessoal possa aflorar e, na medida do possível, deixar isso claro para o leitor. Acima de tudo, acho saudável que o crítico deixe claro que sua apreciação de um filme é instável e provisória e que ele não pretende dar conta da totalidade do filme em questão.

Lembra de um filme que, por tratar de algo próximo a você, fez com que gostasse dele ou mesmo sentisse repulsa? Ou mesmo de uma cena que tem a ver com sua vida ou sua forma de ver o mundo?

As situações são tantas que seria impossível citá-las. Vou me limitar a um único caso: como perdi meu pai quando tinha 7 anos de idade, sei que sou particularmente vulnerável a filmes sobre orfandade precoce, sobre relação pai-filho etc.

Tem uma frase famosa de Luis Buñuel em que ele diz que “o acaso é o senhor de todas as coisas”. Acha que um grande filme pode ser obra do acaso?

Há alguns exemplos de acasos felizes que ajudaram na realização e no resultado final de certos filmes. Mas um grande filme nunca será simplesmente obra do acaso, pois sua grandeza depende da confluência de talentos e competências de uma porção de gente.

Nos últimos tempos você tem mudado bastante de endereço virtual. Primeiro, era blogueiro da Folha, depois esteve em um endereço pessoal e, agora, no site do Instituto Moreira Salles. Há algum motivo para tantas mudanças?

Os motivos foram alheios à minha vontade. Eu tinha um blog na Folha On-line porque trabalhava para a Folha de S. Paulo (o jornal impresso) e me convidaram para ter um blog. Quando fui demitido da Folha, saí também da Folha On-line e mantive meu blog de modo independente, até ser convidado pelo Instituto Moreira Salles para fazer uma coluna de cinema no blog deles, que aliás eu considero muito bom.

Você chegou a dizer, na Folha, que o filme Crash, de David Cronenberg, representava a “tara de uma época”. Se tivesse de citar um filme que representa a “tara” de nossa época, qual citaria?

Puxa, que pergunta difícil. Do ponto de vista do “conteúdo” explícito, penso que A Rede Social é um filme totalmente sintonizado com nosso tempo, por tratar de um universo cada vez mais predominante em nossas vidas, o universo da internet. Mas não sei. Teria que pensar melhor no assunto.

E, por falar em Cronenberg, em seu último filme, Um Método Perigoso, ele mudou um pouco o estilo e deixou a violência extremada e as transformações do corpo de lado. Essas mudanças de estilo e temas que alguns cineastas resolvem experimentar não lhe incomodam?

Não, muito pelo contrário. Desde que não sejam frutos de viradas oportunistas, para aderir a alguma moda ou tendência, e sim buscas pessoais, essas mudanças são saudáveis e estimulantes. O próprio Cronenberg já havia explorado as entranhas da mente em Spider. Estou curiosíssimo para ver como ele aborda essa relação de Freud e Jung com os paradoxos humanos e científicos da psicanálise (na ocasião da entrevista, o filme de Cronenberg ainda não havia estreado no Brasil).

Leia aqui a crítica de A Mãe e a Puta, por José Geraldo Couto

Rafael Amaral (11/04/2012)

Entrevista: Fábio Rockenbach

Há alguma forma de resumir a paixão pelo cinema em seus mais de 100 anos de vida? Para o professor, jornalista e crítico de cinema Fábio Rockenbach, uma famosa sequência de E o Vento Levou resume tudo. Ou chega perto de dar conta. Nessa toada, o profissional – desde cedo, nos anos 1980, apaixonado por cinema – não esconde sua preferência pelos épicos e pelo produto americano. O que, por outro lado, não o impede de elogiar alguns mestres desconhecidos para além das terras de John Ford. Homens como Carl Dreyer e Satyajit Ray, entre outros.

Em entrevista, Fábio não se limita em nadar contra a corrente comum (“Não sou um grande fã de Godard, Antonioni, Pasolini”) e abre interessantes questionamentos (“Como convencer um amante de filmes de terror que o filme do Kiarostami é uma obra-prima?”). Na entrevista abaixo, ele fala sobre suas preferências, a função da crítica e o cinema na sala de aula. Morador de Passo Fundo, ele já escreveu sobre cinema no grupo Diário da Manhã, de 2007 a 2011, e foi editor do caderno cultural BLITZ de 2009 a 2011. Atualmente, é professor de jornalismo na Universidade de Passo Fundo. Em 2007, criou o site Cinefilia e, atualmente, começa a levar à frente um site pessoal, já no ar, chamado Festim Cinéfilo. Confira a entrevista abaixo.

O cinema atual, ao que parece, passa por alguns problemas estruturais. Muitos deles, relacionados à indústria e aos formatos de distribuição. Como você um futuro possível ao cinema? As salas como conhecemos hoje vão acabar? A internet é a saída?

Não acho que elas venham a acabar, mas acho que elas precisam oferecer algo a mais para sustentar o preço que cobram. Existe um charme a mais em assistir a um filme no cinema. Você sai de casa para ir ao cinema, estaciona o carro em um shopping, faz um lanche antes, é um cerimonial em outros moldes, mas no mesmo espírito do que era antigamente. A diferença é que você seleciona mais esses momentos. Antes, o preço era atraente e você podia ir com frequência. A internet não vai ser a saída porque ela está associada a uma ideia de liberdade, e não de pagamento por serviço. Os exibidores terão que achar alternativas para que a pessoa faça um programa mais completo dentro daquilo que estão pagando, que não é pouco. Apostar nos colecionadores pode ser uma saída.

Muita gente desaprova o compartilhamento de arquivos, os conhecidos downloads. O Megaupload, por exemplo, foi fechado recentemente. No entanto, muitos filmes clássicos, difíceis de encontrar, chegaram aos cinéfilos apenas com a internet. Não acha que as leis para compartilhamento deveriam ser mais flexíveis?

Há filmes e diretores que o mercado simplesmente não tem interesse em investir aqui no Brasil. E o que faria o público, mesmo que pequeno, interessado neles? Hoje vejo gente com 16, 17 anos, comentando filmes de Mizoguchi, Jorodowsky e Jancsó. Quando eu tinha essa idade, Mizoguchi era assunto de livro apenas. Não havia filmes dele em VHS nas locadoras onde eu ia. Muitos filmes passam ao largo do circuito de exibição também. Há um abismo entre o interior e as capitais, e, mesmo nas capitais, muitos filmes não têm chance. Tio Boonmee jamais passaria em um raio de 300 km de onde eu moro. Quanto a mudar leis de compartilhamento, acho complicado até mesmo querer tecer leis para isso. Talvez quanto tivermos no Brasil conexões com velocidade dez vezes maiores que a maior que temos hoje – como no Japão – se possa pensar em uma cobrança para que você assista o que quiser em tempo real. Acho que o investimento na qualidade deve superar a busca por punições. O blu-ray é um exemplo. É incomparável a qualidade de um blu-ray e poder ter sua coleção em casa, como as antigas bibliotecas, que hoje infelizmente são cada vez mais raras em casa.

Por que decidiu começar a escrever sobre cinema? Você é um daqueles que, como eu, adora ver um filme com um caderninho de anotações ao lado?

Nos anos 90 havia uma revista chamada VideoNews que lançava, de tempos em tempos, um Guia de Vídeo, com pequenos verbetes e uma cotação dos filmes lançados em um determinado período. Normalmente, era o (Rubens) Ewald Filho que escrevia. Eram verbetes que nem de longe podem ser chamadas de crítica. Alguns tinham fotos do filme. Lembro que veio um desses guias numa troca de Gibis. Eu já gostava de filmes. Tinha uns 9 ou 10 anos. Achei um verbete de Guerra nas Estrelas com um pôster do filme. Li e comecei a lembrar do filme. Fiquei com vontade de assistir. Continuei lendo e encontrei outros filmes que eu conhecia, e comecei a bater o que eu achava do filme com o que estava escrito. Comecei a brincar com uma remington antiga que eu tinha em casa e foi o que bastou: gastava um calhamaço de folhas sulfite toda semana. Na época a Band era a melhor emissora para assistir filmes clássicos legendados, enquanto que a Globo costumava exibir clássicos nas madrugadas, no Corujão. Houve uma época em que, nas férias, ela organizou um festival de clássicos em horário nobre, depois da novela. E tome Quo Vadis, Ben-Hur, E o Vento Levou, Doutor Jivago, A Ponte do Rio Kway, Lawrence da Arábia e outros filmes passando na TV às 22h. Você não vê mais isso, eram outros tempos. Eu não tinha videocassete, foi minha frustração de infância. Mas fazia meus “guias”. Recortava e colava fotos e grampeava esses guias improvisados. Foi o embrião da minha paixão pelo jornalismo. Cheguei a enveredar por outro lado, mas voltei à profissão e atuei por quatro anos escrevendo sobre cinema em jornal, antes de começar a dar aula na faculdade. Na internet, escrevo desde 1998 ou 1999. Dei pitacos em sites que já nem existem mais, nos primeiros tempos da internet… Sempre estive envolvido com alguma coisa. Muitos projetos não foram para frente, talvez porque nunca me associei em nada comercial. Já tive uma meia dúzia de blogs pessoais, que eu sempre acabo deixando de lado e voltando. Criei o Cinefilia em 1997, e o site já deixou de existir, voltou, passou por quatro layouts diferentes, mas nunca pensei em tornar aquele espaço algo comercial, ou traçar estratégias para buscar visitantes e trocar anúncios. Hoje, quero me dedicar ao projeto do Festim Cinéfilo, meu próprio site para artigos e críticas de cinema. Quero colocar ali conteúdo sobre teoria e história também. O caderninho? Tenho uma memória bandida, então costumo ter um bloco e uma caneta perto da estante. Ali rabisco algumas impressões, cenas ou falas que vão me ajudar depois a tecer um raciocínio. Sempre fiz assim… E quando posso escrevo ouvindo trilhas sonoras, tenho mais de dez mil no meu HD.

Como aplicar o cinema em sala de aula? Seus alunos levam dicas para casa ou mesmo assistem aos filmes em sala, para futuras discussões?

Minha monografia no curso de jornalismo foi uma análise das representações que o cinema fez do jornalista ao longo do século 20. Assisti mais de 100 filmes para escolher 15 e fazer a análise em cima deles. Ou seja: na minha área, há centenas de filmes que podem ser usados para discussão, acho que o cinema é um veículo poderoso para ser usado em sala de aula. Algumas áreas, como a história, são mais beneficiadas, mas o cinema é um veículo de temas universais. Acho interessante a proposta, mas muitos alunos acabam confundindo isso com uma oportunidade de ficar em casa ou sair mais cedo. Na disciplina de História Contemporânea, quando era aluno, assistimos a Outubro, do Eisenstein, para falar da Revolução Russa. Não se trata apenas do que está na tela, mas do que está por trás do filme também. Só que isso de pouco adiantou, a maioria olhava para fora e suspirava de tédio. Então é questão de adaptar a técnica ao seu público.

Já experimentou sair do campo das letras e ir à ação? Ou seja, dirigir ou trabalhar em um filme efetivamente?

Cheguei a escrever roteiros para curtas e médias-metragens, comecei a me envolver em um projeto em Santa Maria, que é uma cidade com uma tradição em Cineclube e 8mm, mas nunca me empenhei muito. Na verdade, sempre tive mais interesse em assistir do que em botar a mão na massa.

Pelos seus textos, no Cinefilia, dá para perceber a paixão pelos clássicos. Inclusive por gêneros americanos, como o faroeste e os filmes de guerra. Como aprendeu a apreciá-los?

A Segunda Guerra é uma fixação que eu não explico. Sempre me fascinou, principalmente o teatro europeu. Aquelas histórias de missões em tempo de guerra, fugas de campo de concentração, incursões em cidades no interior da Europa, semidestruídas, o combate ao nazismo. Tenho livros e DVDs sobre o assunto. E uns 200 filmes só sobre o tema, dos mais diversos. Já o faroeste começou com sessões que havia na Globo na minha infância, nos sábados à tarde. Passei um tempo desligado, até que alguns anos atrás voltei a assistir alguns filmes de Ford, Hawks, Mann e Boetticher, num lampejo. Vi quantas camadas existem nesse gênero essencial, e que muita gente minimiza como simples bangue-bangue. Não é à toa que Bazin e o pessoal da Cahiers endeusava o gênero. Eu sempre fui fascinado pelo cinema americano, é algo que vem da infância. Quem ama cinema não sabe explicar o que é essa sensação de realização ao começar a assistir um clássico e contemplar cenas que entraram para a história.

Nessa era da estética da telenovela, não acha que falta educação ao olhar? Não acha que escolas e faculdades deveriam investir mais em cursos como História da Arte, por exemplo?

Falta. Falta senso crítico, para combater o senso comum. Quando o visual se torna muito corriqueiro, as pessoas deixam de pensar e passam a apenas absorver. Daí que muita porcaria acaba sendo endeusado pelas pessoas. E o curioso é que, hoje, há muito mais opções para essa educação ao olhar, mas as pessoas não buscam. É o que se discute no curso de jornalismo sobre os jovens. Justamente por ter uma quantidade imensurável de informação e possibilidades de se educar é que eles se perdem, porque é informação demais. Acabam se restringindo ao básico, ao fútil, ao rápido, àquilo que exige menos raciocínio. Vejo uma dificuldade muito grande de estudantes universitários conseguirem escrever e argumentar de forma lógica e com argumentos sólidos. E na apreciação de um filme há muito disso, de entender o subliminar, de fazer ligações, relações com outros filmes, de entender significados por trás de uma cena, de enxergar o que está acontecendo, perceber aquele movimento de câmera diferente ou porque ele foi feito. Isso não se adquire da noite para o dia, faz parte de uma construção cultural feita até em conversas à mesa, ou entre amigos. É uma qualidade de apreciação que não pode ser comprada.

Este cinema nacional atual, de grandes bilheterias como Tropa de Elite, anima você?

Eu sempre via nosso cinema dependente de mesmos temas e estilos, sem falar nos problemas técnicas e de recurso. Sou cria do cinema americano, não via uma variação de temas minimamente aceitável no cinema nacional, mas muito disso passava por recursos. A Vera Cruz nos anos 50 foi um bom exemplo de uma tentativa sólida, mas ela começou na época em que o sistema de estúdios, lá fora, já era decadente. E me parece que a TV no Brasil atrasou o desenvolvimento do nosso cinema, isso sem falar na invasão estrangeira. O cinema novo não me atrai. Acho Glauber Rocha um porre, com exceção dos primeiros filmes, Deus e o Diabo e O Dragão da Maldade. Terra em Transe é uma chatice. Talento, nós sempre tivemos, o Sganzerla, Nelson, Coutinho, Cacá. Mas nosso mercado sempre enfrentou uma concorrência desleal. Aqui, no interior, um filme nacional só chega ao cinema se for um projeto abraçado por uma distribuidora americana ou for badalado, como os filmes da Globo Filmes, ou um Tropa de Elite.

Obras nacionais se tornaram estouros. Filmes brasileiros agora fazem tanto dinheiro quanto nos anos 1970, quando as salas representavam melhor o cinema como cultura popular e de massa. Por outro lado, algo mudou. Não falta mais atitude aos cineastas atuais, como se viu em movimentos como o cinema novo, o marginal ou mesmo naquele cenário paulista dos anos 1960 e 1970?

No Brasil, os filmes refletiam, a meu ver, uma busca pelo proibido, um protesto social. A gente estava em plena Ditadura. Havia um cerceamento da liberdade enorme. Havia atitude por parte dos cineastas porque, digamos, havia demanda. Que tipo de atitude vai se exigir hoje de nossos cineastas. Crítica social, crítica à corrupção? Isso a gente vê em muitos filmes. O que não existe é um retorno do outro lado da tela, em quem recebe. A gente (público) se acomodou com essas mazelas, naquele tempo havia essa luta contra a Ditadura, contra um sistema, e o cinema reflete a sociedade, de muitas formas. Nosso cinema, hoje, tem menos demanda revolucionária ou de protesto. Em contrapartida, em uma opinião bem pessoal, tem mais variedade e mais qualidade hoje. Menos atitude, mais variedade.

A crítica de cinema ainda tem relevância em tempos em que o marketing é quem dita se um filme será sucesso ou não?

Não existe um fator, não é uma fórmula matemática. Filmes de orçamentos vultosos naufragaram, independente do marketing, porque o público não é tão burro. Os maiores sucessos de todos os tempos são bons filmes, independente da opinião deste ou daquele crítico, até porque muito se resume a gostos pessoais. Não sou fã de Godard, há quem o endeuse. Adoro alguns filmes que outros detestam com todas as forças. Quem tem razão? Aliás, há alguém com razão? Não consigo ler comentários em sites de pessoas que escrevem algo como “ainda bem que li seu texto antes, estava quase gastando dinheiro para assistir no cinema.” Espera aí: desde quando a opinião de outra pessoa diz se eu devo ou não assistir a um filme? Você não tem opinião? Você não quer poder dizer se é bom ou ruim baseado no que você viu e não no que o Zé da esquina achou? Não acho que a crítica deva formar opinião, mas acho que ela pode fornecer elementos para a discussão. É muito diferente. Leio críticas para captar novos pontos de vista, para ver a partir de outros olhos, entender coisas que eu possa não ter percebido. É uma construção constante, ninguém é dono da verdade. Mas acho a crítica importante para ajudar naquela “educação do olhar” a que você se referiu antes. A gente é um mediador, mas nunca um formador de opinião. É muita petulância achar que eu poderia dizer a uma pessoa se ela vai ou não gostar daquele filme. Eu não tenho esse poder. Ninguém tem. Nenhum crítico pode ser onipotente e se julgar irrepreensível. Infelizmente esse pedantismo faz parte de muita gente que escreve sobre cinema, profissionalmente ou na net. E fazer crítica é complicado, é preciso ser totalmente neutro, o que é quase impossível: como alguém que é fã de cineastas com o estilo mais cerebral ou experimental vai ver com bons olhos alguns filmes de Wes Craven, por exemplo, que podem ser ótimos em seu gênero? Como fazer para deixar preferências pessoais longe da questão da avaliação, e como fazer para que essa avaliação chegue ao público certo? (ou, como convencer um amante de filmes de terror que o filme do Kiarostami é uma obra-prima?) Enfim, não vejo a crítica de cinema como elemento definidor de gostos, então acho que ela não deveria influenciar no mercado, porque a boa crítica deve ser lida depois que a pessoa assistiu ao filme. Olha só: se você não pode revelar aspectos do filme, se não pode abordar determinados temas, enfim, para não estragar a experiência de quem vai assistir ao filme, você não está fazendo crítica, certo? Sei bem disso, sofri com isso. Trabalhei 5 anos escrevendo nesse sentido, com pouco espaço e sem poder me aprofundar muito. Sofro com os vícios de texto que eu adquiri por conta disso e ainda tento me livrar deles.

Sobre seus filmes queridos (todo mundo tem os seus), quais aqueles que o marcaram, aqueles que reservam, segundo você, cenas que melhor resumem a beleza da sétima arte?

Sou cria dos americanos, sempre digo isso, e sou filho dos anos 80. Sendo filho dos anos 80, sou parte daqueles que endeusam filmes que não são perfeitos para a crítica, mas estão entre os melhores do mundo na nostalgia. Muitos chamam de “a década perdida”. Longe disso. Foi a década em que eu achei esse amor ao cinema e que me ajuda a manter ele. Volta e meia, me vejo retornando a esses filmes. É uma reciclagem, uma espécie de transfusão de sangue. Mas isso é sentimentalismo. A melhor década do cinema, para mim, são os anos 50, depois os 70. Sou fã de Kurosawa, endeuso Carl Dreyer – acho O Martírio de Joana D’arc um dos dez de qualquer gênero – e aquela cena da sombra do padre sobrepondo-se à cena da sombra da cruz na cela me despertou para os múltiplos significados que uma cena pode conter. Obviamente, westerns como Rastros de Ódio e Rio Vermelho – além dos de Anthony Mann – estão nessa lista. Me formei com os grandes épicos – Doutor Jivago, Lawrence da Arábia, Ben-Hur, El Cid, Quo Vadis, Dez Mandamentos – e acho A Marca da Maldade uma das experiências mais marcantes da história do cinema. Não sou um grande fã de Godard, Antonioni, Pasolini… E não vejo o cinema com uma função – ele pode ter várias, depende o que você, espectador, procura. Enfim, reduzir 100 anos em alguns filmes é injusto, a gente sempre esquece de um Wilder, um Hitchcock, um Satyajit Ray, que poucos conhecem, mas que é um dos maiores artistas da história. Mas se eu tiver que resumir essa paixão pelo cinema, vou sempre puxar a silhueta de Scarlett abaixo de um carvalho com a câmera em movimento no pôr do sol e a música de Max Steiner. E O Vento Levou simboliza tudo o que o cinema despertou desde os 10 anos, e continua despertando.

Rafael Amaral (07/03/2012)