Cinderela

Suspiria, de Dario Argento

A menina que atravessa a sala de luzes vermelhas, rumo ao saguão do aeroporto, é frágil desde os primeiros instantes: menina em um país que não conhece, perto de pessoas que não conhece, no meio da noite e da tempestade. Nem o encontro com o taxista é tranquilo. Tudo estranho e fora do lugar. O terror ganha espaço.

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O que move Suspiria, de Dario Argento, é a saída ao desconhecido, o que compõe a fórmula de outros giallos: uma personagem frágil que precisa mostrar força contra os monstros que a rodeiam. Uma história a partir de Cinderela, da menina humilde que prova sua verdadeira natureza à contramão da aparência derrotada.

A moça em questão não poderia ser melhor. Jessica Harper é Suzy Bannion, bailarina que vai à Alemanha dançar em uma escola, ou por uma escola. O filme de Argento prende-se a esse local banhado, desde o início, a puro artificialismo: partindo da primeira vista de sua fachada, o prédio vermelho será fruto de um estúdio, feito ao cênico.

O ambiente é uma estrutura falsa moldada a canhões forrados de lâmpadas e jatos d’água que simulam chuva. É a primeira visão desse castelo curioso, brilhante, de paredes de veludo ora vermelho, ora azul; paredes em que Suzy escora-se para descobertas, como que abraçada por material nada aconchegante, com olhar de medo e descoberta.

Ainda do lado externo, entre o táxi e a porta, Suzy segue nesse movimento de transição, nem dentro nem fora, perdida na tempestade. Uma interna, desesperada, acaba de fugir. Antes de correr pela chuva, fala de um segredo atrás da porta, descoberto apenas no encerramento. Trata-se de uma clara homenagem à obra de Fritz Lang de 1947.

E se trata, ainda mais, de uma representação do próprio cinema: o que há atrás da porta é a descoberta que leva o público (que não escapa à posição da menina) a aceitar o jogo de altos e baixos, de sacudidas e poucos momentos para recuperar o fôlego; é o desejo de encontrar o que outro universo esconde, o desconhecido.

O cinema leva o espectador à “porta fechada”. Não seria isso, por sinal, que move a personagem de Janet Leigh em Psicose? Como a garota de Suspiria, ela embarca em uma viagem de descobrimento, em um jogo de cômodos e casas, de buracos na parede e pessoas estranhas que rodeiam. Não há qualquer segurança no ambiente que penetra.

Hitchcock é uma inspiração constante a Argento. O momento em que Suzy abre a cortina no interior do quarto secreto faz pensar na cena do chuveiro de Psicose; afundada na cama, sob o efeito de remédios, ou de venenos, remete a Interlúdio; e o momento em que se vê um prédio do alto, de dia, aproxima-se de Intriga Internacional.

Argento, como Brian De Palma, não apenas toma. Apesar das referências, seu cinema tem forma e vida própria. Como se vê na Trilogia dos Bichos, ou no monumental Prelúdio para Matar, não esconde exageros, em cores berrantes e cenários suntuosos.

Suspiria poderia se passar não em qualquer lugar, mas apenas na mente dessa menina que, desde o aeroporto, cruza a linha da navalha – na interessante amostra do maquinário da porta automática, ao alto, por onde ela passa. Desde o início está presa ao labirinto, à chuva que não deixa ver o caminho, à floresta percorrida por uma das vítimas, ao castelo embebido em vermelho em que se vê atacada por bruxas.

As luzes fortes levam do calor absoluto, do desejo, da morte, ao estado frio: do vermelho explosivo ao azul ou ao verde. Argento nunca é suave. A partir do livro de Thomas De Quincey, esse grande filme pode ser interpretado como uma luta contra a pureza, da Madrasta contra Cinderela, da Bruxa Má do Oeste contra Dorothy.

(Idem, Dario Argento, 1977)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright

Os movimentos de Baby, pela rua, enquanto busca café para sua equipe de ladrões, fornece dados suficientes sobre a personagem em questão: trata-se de alguém desconectado do universo comum, dos carros e dos prédios, dos manifestantes, do perigo que ronda. Torna assim sua passagem mais leve, ainda que precise crescer ao longa da jornada.

E crescer, no esperto Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright, significa passar para o outro lado, confrontar homens armados, assassinos, damas perigosas, tomar a estrada e fugir para lugar algum com a garota dos sonhos. Sim, o crescimento de Baby, personagem de Ansel Elgort, ainda embute um pouco de sonho – e não dispensa sua trilha sonora.

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A música, por sinal, embala o filme. A edição é pautada nela, do início ao fim, das arrancadas à lentidão do tom da mixagem, entre a vida e a morte de um capanga qualquer, após um banho de sangue. A trilha movimenta Baby e leva o filme ao ritmo que Wright deseja imprimir. Mas não só: há também a harmonia das cores, o universo que se desenha para Baby – ou que ele mesmo desenha -, assumidamente artificial.

Baby é o melhor no seu ofício. Ele dirige para criminosos. É a peça importante que fica do lado de fora do banco, aquela que sempre vê, com medo, um carro de polícia passar de um lado para outro – enquanto canta e dança, enquanto tenta encontrar a música para a ocasião.

Trabalha para o poderoso Doc, interpretado, não por acaso, por Kevin Spacey. Se Elgort sintetiza o menino que não se transformou em homem, com iPod, jaqueta esporte e óculos escuros, Spacey é alguém que já viveu tudo. O bandido sob a fachada do homem de negócios. Ou a do político, a do apostador de Wall Street, o camaleão.

Doc representa tudo o que Baby não deseja ser: é, como se prevê, alguém fadado ao figurino do empresário em jantares caros, o estrategista que, no fim da corrida, fica com a maior parte do dinheiro apenas para dar ordens. O mundo de homens como Doc – e também de alguns outros criminosos que passam pela tela – exclui trilha sonora. Escuro, apagado.

A história de Baby logo vem à tela. O rapaz ainda não conseguiu se despregar do espírito da mãe. Ainda é um bebê – mesmo que tal ligação possa parecer pura forçação de barra. Ainda pequeno, ele sofreu um acidente de carro enquanto seus pais discutiam. Do acidente ficou um zumbido que ele tenta ocultar com o iPod ligado o tempo todo. À tragédia recaem o mundo em cores, as músicas, o olhar de Baby.

Logo encontra a menina perfeita. Não poderia ser diferente. A garçonete de dentes um pouco saltados, com olhar e pinta de princesa, por sinal a atriz que interpretou Cinderela na versão mais recente, Lily James. E encontra os bandidos de sempre, os matadores que insistem em tornar seu universo mais real – entre um assassinato e outro, enquanto fogem.

Wright constrói um mundo harmonioso – de momentos engraçados e toques idiotas, no qual nenhuma peça está fora do lugar – com inegável maestria. Seu trunfo é ser infantil e ousado ao mesmo tempo. Como no engraçado Homem-Formiga, que ele escreveu, a ideia é voltar ao universo aparentemente indolor dos brinquedos. Ao trenzinho, no caso do super-herói, ou aos carrinhos que Baby e Doc gostam de manusear.

Citados pela crítica, os “toques de Tarantino” não fazem sentido. Em Ritmo de Fuga, ainda que com explosões de violência, não recorre à saturação do diálogo – só para ficar em uma (talvez a principal) característica do autor de Pulp Fiction. Wright prefere a disposição perfeita das peças no tabuleiro, o ritmo e a música ideais para a ocasião, o herói inesperado e os vilões que tentaram ser Jordan Belfort e não conseguiram.

(Baby Driver, Edgar Wright, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts