Chile

Dez bons filmes recentes sobre ditadura militar

Ditaduras em diferentes países da América Latina são relembradas em filmes poderosos. As narrativas, em alguns casos, fogem ao esperado: não estão em cena apenas o embate físico, a tortura, as ações clandestinas e outras práticas conhecidas. As obras abaixo – de diferentes países – apostam em abordagens como a infância, a memória, a libertinagem, a família e até uma campanha publicitária com boas doses de graça.

Post Mortem, de Pablo Larraín (2010)

O protagonista (Alfredo Castro) trabalha em um necrotério. Quando os militares tomam o poder no Chile, corpos não param de chegar ao local. Ao mesmo tempo, esse homem recluso aproxima-se de sua vizinha, com pai e amante comunistas. Como no extraordinário Tony Manero, Larraín vai aos anos de chumbo de seu país.

Infância Clandestina, de Benjamín Ávila (2011)

Essa produção argentina foi comparada, na ocasião de seu lançamento, ao brasileiro O Ano em que Meus Pais Saíram de Férias. Tratam de assuntos semelhantes: os efeitos da ditadura na vida de dois garotos com pais na luta armada. O protagonista, Juan (Teo Gutiérrez Moreno), vive esse tempo de apreensão enquanto descobre o mundo adulto.

infância clandestina

A Memória que me Contam, de Lúcia Murat (2012)

Já no período democrático, com a esquerda no poder, um grupo de amigos, no Brasil, encontra-se quando um deles está no hospital, à beira da morte. Mesmo antes de morrer, Ana (Simone Spoladore) é o espírito questionador entre todos: é a imagem da liberdade, da revolta nos anos de chumbo, contraponto ao hospital monocromático.

a memória que me contam

O Ato de Matar, de Joshua Oppenheimer (2012)

Documentário poderoso, em momentos difícil de ver, sobre os assassinos a mando dos ditadores na Indonésia. Ao cineasta, eles contam como exterminaram os inimigos comunistas, em detalhes, inclusive reencenando as ações e as torturas. Os homens desse esquadrão da morte gozam a vida em liberdade e ainda reconstroem suas histórias – suas versões – para o cinema daquele país.

No, de Pablo Larraín (2012)

Larraín de novo. Situa-se nos momentos finais da ditadura de Pinochet, no Chile, quando alguns comunicadores – entre eles René Saavedra (Gael García Bernal) – unem-se para derrubar o velho sistema. Utilizam uma arma comum às eleições de regimes democráticos: a propaganda. Nasce assim a campanha pelo “não” (o “no”), com boas doses de criatividade.

no

Cara ou Coroa, de Ugo Giorgetti (2012)

É curiosa a nostalgia que move Giorgetti, mostrando como os tempos de chumbo também davam vez a aventuras amorosas e artísticas. Ao olhar esse passado amargo, o cronista paulistano revela histórias deliciosas, entre elas a da garota Lilian (Julia Ianina), neta de um general (Walmor Chagas), que acaba escondendo dois guerrilheiros em sua casa.

cara ou coroa

Tatuagem, de Hilton Lacerda (2013)

O contraponto ao militarismo é a libertinagem de um grupo de artistas. Na bela obra de Lacerda, quase tudo está à margem, a começar pelas personagens. E ao centro surge o desejo do soldado Fininha (Jesuíta Barbosa) pelo homem à frente do cabaré, Clécio (Irandhir Santos), depois de visitar o local. O abismo está exposto: são dois países em um só.

tatuagem

O Clã, de Pablo Trapero (2015)

Mesmo após o fim, a ditadura argentina deixou algumas práticas nefastas em sua sociedade. Entre a família Puccio, seu líder (Guillermo Francella) arrasta o filho mais velho para um trabalho inglório: sequestrar pessoas ricas para conseguir boas quantias de dinheiro. Os crimes são descobertos à medida que a família desfaz-se.

o clã1

O Botão de Pérola, de Patricio Guzmán (2015)

O documentário do mestre Guzmán (responsável pelo referencial A Batalha do Chile) é uma continuação de A Nostalgia da Luz. Mescla a história do universo, a do cosmos, à sede de poder que culmina com a presença dos militares e as vítimas de Pinochet. Delas, sobram os botões de pérola: as partículas que resistem à água salina.

Uma Noite de 12 anos, de Álvaro Brechner (2018)

A história do cárcere de três revolucionários no Uruguai ditatorial dos anos 1970 e 1980, um deles José Mujica (Antonio de la Torre), que se tornaria presidente do país anos depois. Momentos de dor são casados à ternura. O tempo passa e os homens tentam sobreviver à escuridão dos buracos em que são lançados, em luta contra a insanidade.

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A lição política de Yves Montand

Eu canto, ouço, leio, viajo, sonho e vejo. Meu trabalho é agradar o público, fazê-lo sonhar, rir ou chorar. Eu não sou filósofo nem político; minha vida é como a sua. Parece a vida de outras pessoas, suas mortes e as que as matam. Eu dou vida a seres imaginários, algo entre o céu e a terra, na tela e no palco, mas eu vivo no mundo real, com os dois pés no chão. As dores e as injustiças deste mundo me machucam tanto quanto te machucam. Um palhaço? Sim, pode ser, mas não inconsciente. As notícias seguem seu curso, como costumam dizer. Um nos faz esquecer o outro. Kippur, Chile… Um homem destruído aqui, centenas de mortos em outro lugar. E a dança continua. Mas os refugiados chilenos permanecem. Há milhares entre nós, procurando um pedaço de pão e um pouco de calor, assim como há milhares de prisioneiros, desemprego forçado, homens caçados. Você não ouve falar deles, mas eles estão lá. Eu canto hoje para nos lembrar do sangue de ontem e para nos manter juntos, para que o sangue não seja substituído amanhã pelo nosso.

Yves Montand, ator e cantor, em narração no encerramento do documentário The Loneliness of the Long Distance Singer, de Chris Marker. O filme é de 1974, pouco depois do golpe militar no Chile, e acompanha os ensaios e a apresentação do cantor Montand, com sua consciência política e solidariedade às vítimas chilenas.

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Larraín por ele mesmo

Coloquei-me muitas perguntas ao fazer estes três filmes [Tony Manero, Post Mortem e No] e as respostas que tenho são muito poucas. Ou nenhuma. Pergunto-me: O que aconteceu? Como fomos capazes de fazer tanto mal? Como é que estruturámos uma sociedade sustentada num ressentimento tão profundo entre ideologias e classes? O meu trabalho não está instalado a partir de certezas. Tem mais a ver com tentar encontrar pequenas coisas que se articulem e deem uma ideia a partir da ficção, porque eu não faço documentários nem filmes que tenham um papel historiográfico.

(…)

No início, quando me criticaram duramente pela ideia de ser uma pessoa que vem de uma família de direita [Pablo é filho do senador Hernán Larraín e da ex-ministra Magdalena Matte], lidei com isso bastante mal, porque não me foi permitido, por um bom setor da cultura, fazer filmes. Como se a cultura fosse propriedade de alguém. Depois, com o tempo, não só consegui conviver bem com isso mas também a ter prazer. Como quando um crítico é filtrado pela ideia da classe e de que determinada aproximação estética a determinados fenómenos históricos só podem ser abordados por determinada classe. Então, tudo o que essa pessoa diz dilui-se em nada. E começamos a perceber bem de que é que estamos a falar.

(…)

Como sempre vivi protegido, como nunca tive medo em ditadura nem estive perto de qualquer forma de violência, como vivi confortável e seguro, e depois, quando chegou a altura de ter uma identidade, formulei as minhas próprias ideias, tive de enfrentar esse tratamento que por vezes me foi dado. Porque o sítio de onde eu venho não deixa a direita confortável, dado que os meus filmes não deixam esse setor ficar bem. E a esquerda também reage mal. Então fico sem lugar. Sem fazer parte de nenhum grupo.

Sobre seus primeiros filmes, suas origens e a dificuldade de ser interpretado pela direita e pela esquerda. As declarações foram publicadas no El semanal – La Tercera na ocasião do lançamento de No e traduzidas ao português pelo site do programa Ibermedia (leia aqui).

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No, de Pablo Larraín

O homem inclinado ao trenzinho de brinquedo será, na abordagem de Pablo Larraín, um dos responsáveis pela retirada de Augusto Pinochet do poder, no Chile, no fim dos anos 1980. Até esse momento, foram-se 15 anos de opressão e mão de ferro.

Não é fácil engolir essa versão, a de que a publicidade criativa, quase sozinha, retirou o ditador de seu trono. Mas a História, sabem os estudiosos, está cheia de linhas tortas e passagens estranhas, algumas à beira do absurdo. Em No, o espectador aceita.

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René Saavedra (Gael García Bernal) é o homem à frente da empreitada e a história da campanha pelo “não”, tão fantástica, funciona à base da câmera trêmula, do registro realista e às vezes fora de foco, de um bando de gente comum em um filme incomum.

O universo em questão já está transformado. Para vender o “não” na campanha do plebiscito e retirar Pinochet, o publicitário Saavedra utilizará o humor. O que vence, sobretudo, é a fórmula da publicidade levada todos os dias à televisão, semelhante à do forno micro-ondas, do refrigerante e de qualquer produto a ser consumido.

A imagem que marca o início é a do palhaço. Vale tudo para chegar à emoção e à graça, aponta Larraín. Os tempos eram outros no fim da década de 1980. Uma campanha pautada em imagens de violência, entende o publicitário, não cairia bem à televisão e sua fábrica de desejos. A campanha do “não” atacaria Pinochet com alegria.

Mas eram ainda tempos instáveis. A ruptura não chegaria sem barulho e truculência. Havia, do lado de fora do país, uma pressão para a instalação da democracia. Com o plebiscito, os militares permitiram sua aparência. Líder nenhum, em uma situação como tal, daria espaço a uma campanha que não pudesse vencer.

O “não” dava as costas ao passado, ao montante de corpos, às doses de dor que o mesmo Larraín havia explorado em seu filme anterior, o ótimo Post Mortem. E mostrar a dor na televisão era justamente o que desejavam alguns militantes comunistas.

Alguns terão dificuldades em aceitar as peças publicitárias de Saavedra, aparentemente infantis e sonhadoras. As mudanças não caberão sem alguma insistência. Saavedra é o próprio produto de renovação, homem que se aproveita antes das imagens de Larraín, a estética da imperfeição aqui imposta. Ele retira desse visual a possibilidade de ser como qualquer um entre a multidão, alguém com seus problemas pessoais.

Essa parte da história chilena seria então desajeitada, truncada pela imagem imperfeita, pela falta de foco – não raro pela dificuldade de ver. A opção em fazer o filme com o uso do U-matic pode parecer estranha, mas é certeira. A aparência de vídeo, como em antigas reportagens, é para Larraín a oportunidade de abolir as divisões entre a peça publicitária, a imagem da época e a história recriada. Talvez tudo não passe de uma propaganda com fundo verdadeiro.

A opção do cineasta é pelo ponto de vista do publicitário, permitindo assim uma ideia de seu tempo, com seus produtos e a forma que as campanhas políticas tomariam a partir de então. À sua maneira, o discurso publicitário subverte e engole – pelo menos aqui, ou pelo menos em algumas democracias – o velho discurso comunista.

(Idem, Pablo Larraín, 2012)

Nota: ★★★★☆

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Tony Manero, de Pablo Larraín

O gesto de John Travolta, em frente ao espelho, seduz o homem silencioso interpretado por Alfredo Castro em Tony Manero, de Pablo Larraín. A cueca de Travolta é saliente, a câmera coloca-se abaixo, em contra-plongée, e o homem desbocado, na tela, parece maior do que é, o que certamente faz a diferença ao seu fã.

Castro é Raúl Peralta, sósia (ou quase isso) de Manero, a personagem. É tratado por Larraín como um homem pequeno, de aparência vazia e até mesmo frágil. Dele não se sabe nada. O que lhe preenche apenas é a personagem que deseja interpretar ou viver, o homem dos “embalos de sábado à noite” que, no fundo, não pode ser.

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Mas Peralta é um sociopata: sua aparência frágil logo dá vez ao assassino, servindo a um contraste perfeito, de natureza visual: é uma espécie de Norman Bates que gosta de observar e, difícil de definir, alguém que não deixa saber o que fará em seguida – talvez à exceção dos momentos finais, quando segue uma nova vítima.

Homem sem qualquer senso de justiça ou sentimento, homem à frente dos sinais de sua época, o fundo escuro ou pastel dos tempos da ditadura de Augusto Pinochet, no Chile. Pouco distante, esse fundo incomoda: é um momento em que o Estado mata pessoas contrárias à sua ideologia, momento de perseguição política.

O que assusta é justamente a opção pelo protagonista alienado, à frente do espaço sem vida alguma. É o alienado e assassino quem sobrevive e se adapta à época, que escapa impune dos crimes que comete, alguém que incomoda menos o sistema do que a resistência que imprime folhetos contra Pinochet, sob a mira de investigadores.

Peralta sequer consegue dar prazer às mulheres com as quais convive. Em uma cena forte, não consegue se excitar quando uma delas, a mais velha, volta-se ao sexo oral; em outra, com a filha dessa mesma mulher, termina deitado na cama enquanto a companheira masturba-se ao lado. À tela resta a face enigmática do protagonista.

Larraín deixa ver esses sinais de impotência enquanto o mesmo candidato a Manero, o homem forte e de cueca saliente, mata pessoas por muito pouco. A primeira é uma senhora que ele finge ajudar e depois rouba sua televisão; mais tarde, mata um projecionista do cinema no qual assistiu, por dias seguidos, Os Embalos de Sábado à Noite. Fica desapontado quando o filme sai de cartaz e decide roubar a cópia.

Trata-se de um momento interessante: a mesma sala de cinema dá espaço a Grease – Nos Tempos da Brilhantina, com o mesmo Travolta, mas sem o mesmo ambiente e a mesma trilha sonora, sem a personagem revoltada de antes, ao espelho, a figura rebelde – até certo ponto – que inspira o assassino em questão.

Comum, em suas caminhadas, ver um homem um pouco perdido, sob os efeitos da câmera trepidante, ora ou outra sem foco. Larraín institui um universo fechado, estreito, escuro, no qual não é possível ver tanto. O homem em foco – ou fora dele – é um ser repugnante que obriga o espectador a reparar no fundo para tentar encontrar uma justificativa à sua existência e ao seu destaque: ele é o reflexo de sua época.

A atração cinema e pelo protagonista da tela, o dançarino que se impõe e vence concursos em casas noturnas, é mais uma forma de tomar uma personagem à força, menos a expressão de um fã. Peralta talvez explique isso em seu vazio natural, em sua forma enigmática: ele precisa desesperadamente ser alguém.

(Idem, Pablo Larraín, 2008)

Nota: ★★★★☆

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