centenário

Pauline Kael, 100 anos

(…) ajudou a mudar a natureza e o status da crítica de cinema no mundo de língua inglesa. Transformou-a em uma atividade emocionante, vital e essencial, um diálogo com nossa época e cultura.

(…)

Semana após semana [na revista The New Yorker], aplicava todo o coração, cérebro e experiência ao que via. E graças a uma memória extraordinária (aparentemente nunca toma notas, e é raro que veja um filme duas vezes), suas críticas parecem reprises instantâneas, nas quais ela argumenta, medita, analisa, se entusiasma e agoniza com o que viu. (…) Ela escreve com paixão, às vezes fúria, mas também com alegria, e da perspectiva do americano arrogante, provinciano. Realista quanto aos defeitos nacionais, ressente-se corretamente dos que desfazem de maneira injusta da herança nacional.

Philip French, crítico de cinema, na introdução de Criando Kane e Outros Ensaios, de Pauline Kael (Editora Record; pgs. 13 e 14).

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Kirk Douglas, 100 anos

Não se pode dizer que Kirk Douglas será lembrado por um filme menor. Spartacus é uma grande obra. Stanley Kubrick, à época, não era um diretor das primeiras fileiras de Hollywood. Após ter trabalhado com o jovem cineasta em Glória Feita de Sangue – que é melhor que o seguinte – Douglas decidiu levá-lo para Spartacus.

Não apenas ele. O ator e coprodutor do épico de 1960 bancou o nome de Dalton Trumbo no roteiro. Uma ousadia: Trumbo integrava a Lista Negra de Hollywood, a apontar os comunistas “infiltrados” na indústria do espetáculo. Por anos, Trumbo teve de assinar roteiros com pseudônimos. Seu retorno marcou o início do fim do período.

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A ação de Douglas revela alguém tão combativo dentro das telas quanto fora. Algumas de suas melhores interpretações remontam à imagem: o homem intenso em cada ato, explosivo em diferentes personagens. Spartacus, de escravo a líder de uma revolução, é apenas um deles. Seus vilões também merecem lugar de destaque.

Mito vivo, o ator completou 100 anos em dezembro de 2016. Em seu terceiro filme, o noir Fuga do Passado, ele interpreta o vilão Whit, em cena com o protagonista Robert Mitchum. Os atores voltariam a se encontrar mais tarde em Desbravando Oeste. Mitchum como o guia pacato, Douglas como o ambicioso desbravador.

Apesar do sucesso Quem é o Infiel?, em outro papel menor, Douglas chegou de vez ao estrelato com O Invencível, de 1949, que lhe valeu a primeira indicação ao Oscar de melhor ator. A segunda veio em seu grande momento nas telas, o papel do produtor de cinema sem escrúpulos de Assim Estava Escrito, no qual atua ao lado de Lana Turner.

De queixo perfurado, sua marca registrada, o ator viveria o pintor van Gogh em Sede de Viver. Outra grande interpretação, outra indicação ao Oscar – perdendo para o Yul Brynner de O Rei e Eu, musical com todos os traços do cinema clássico da época.

Pouco antes, a face cínica de Douglas serviu bem ao diretor mais ácido da Hollywood clássica: Billy Wilder. Produto das pitadas de sexo da comédia screwball, sempre a zombar de regimes totalitários, Wilder, com Douglas, voltou suas armas à imprensa americana da época em A Montanha dos Sete Abutres.

Em um local perdido no mapa, ele, Chuck Tatum, vê a oportunidade de dar uma virada em sua carreira de jornalista. Aproveita-se de uma vítima presa em uma mina, manipula autoridades e a opinião pública para fabricar, dias a fio, novas manchetes.

A energia de Douglas produzia grandes personagens como Tatum. Magnífica, de estranha atração apesar de corrupta. A mesma levaria ao oposto, ao destemido coronel Dax de Glória Feita de Sangue. Difícil não se emocionar com sua convicção ao defender três soldados condenados à morte. Bom ou mau, há sempre o grande ator.

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Paulo Emílio Sales Gomes, 100 anos

Como resumir a vida de um escritor e professor tão importante, com tamanha relevância ao exercício da crítica de cinema no Brasil? O grande Paulo Emílio Sales Gomes, cujo centenário ocorre em dezembro de 2016, é lembrado com uma mostra de filmes em São Paulo (até 7 de setembro). Nela, são apresentadas obras variadas, de diferentes países, que ele analisou ao longo da vida. Em homenagem ao seu centenário, o blog traz um pouco da importância de Hiroshima, Meu Amor ao autor, além de um trecho de seus escritos sobre a obra de Alain Resnais.

(…) Paulo Emílio escreveu nada menos que cinco (cinco!) artigos sobre Hiroshima, Meu Amor ao Suplemente Literário do Estado. Acercando-se da obra com cuidado, vendo-a por ângulos diversos, respeitando-a como enigma colocado em desafio ao espectador. “O filme é absurdo e múltiplo como a realidade”, escreve em um desses textos. Caso raro de crítico que, ao colocar em ação seus dotes interpretativos, coloca-se à altura da obra-prima que tem diante de si.

Luiz Zanin Oricchio, no jornal O Estado de S. Paulo (“O legado crítico de Paulo Emílio Salles”, 1º de setembro de 2016; Caderno 2, pg. C8; leia texto completo aqui).

Dizer apenas que Hiroshima mon amour viola a cronologia não é suficiente. A película não oferece tampouco uma estrutura espacial contínua. Sua matéria-prima é o fragmento, geográfico, histórico, psicológico, narrativo. Confiar na pura lógica para a apreensão de Hiroshima mon amour não seria aconselhável. Essa fita exige atenção, tensão, e ao mesmo tempo abandono. É possível que seja um tanto hermética, é certamente muito contraditória.

Paulo Emílio Sales Gomes, no Suplemento Literário do jornal O Estado de S. Paulo (25 de junho de 1960; a análise foi reproduzida no livro O Cinema no Século, com críticas de Paulo Emílio; Companhia das Letras, pg. 528). Abaixo, uma imagem de Hiroshima, Meu Amor, de Alain Resnais.

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hiroshima meu amor

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Olivia de Havilland, 100 anos

Olivia de Havilland tem bem a sugestão oleosa do seu nome vegetal, é cheia e jovem como uma azeitona polpuda, e triste como uma oliveirazinha. Seus olhos e sua boca vivem num contraponto permanente, os olhos sempre implorando, assustadoramente, sempre esfomeados de carinho, e a boca sempre rindo para disfarçar a tristeza dos olhos.

Vinicius de Moraes, poeta, que também escreveu crônicas sobre cinema e algumas críticas. O texto, do qual o trecho acima é destacado, foi publicado em abril de 1942 no jornal A Manhã e está em O Cinema de Meus Olhos (Organização de Carlos Augusto Calil; Companhia das Letras; pg. 276). Abaixo, a atriz em E o Vento Levou. Ela nasceu em 1 de julho de 1916.

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Olivia de Havilland E o Vento Levou

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Gregory Peck, 100 anos

No recente Trumbo – Lista Negra, o famoso roteirista e sua família divertem-se enquanto assistem a uma sequência clássica de A Princesa e o Plebeu (abaixo). É o momento em que Joe Bradley (Gregory Peck) finge perder a mão ao colocá-la no boca de uma estátua, enquanto leva a bela princesa Ann (Audrey Hepburn) ao desespero.

A leveza e segurança de Peck tornam a cena extraordinária, com a elegância típica de cavalheiros de seu tempo. Peck faz parte do último time de verdadeiros cavalheiros do cinema, antes de explodir a geração rebelde, com Brando e James Dean.

a princesa e o plebeu

Em seu primeiro filme, Quando a Neve Voltar a Cair, de 1944, já era possível ver toda a segurança do astro, todos os traços que se veria em outros filmes. O segundo, As Chaves do Reino, rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar, o que lhe tornaria astro.

Veio uma sucessão de bons filmes: Quando Fala o Coração, Virtude Selvagem, Duelo ao Sol, A Luz é para Todos, Céu Amarelo e Almas em Chamas – todos nos anos 40. A década seguinte levou-lhe a produções variadas como A Princesa e o Plebeu.

Provou versatilidade ao encarar o duro capitão Ahab de Moby Dick, na famosa versão de John Huston, o que de certo parecia estranho aos espectadores – às espectadoras, sobretudo – que ainda recordavam o estreito e brincalhão jornalista Joe Bradley.

Ator versátil, capaz de ser o homem mau ou o amante confiável, e que ainda não tinha um Oscar. Alguns atores esperaram a vida toda e não ganharam, como Richard Burton (indicado sete vezes), outros se contentaram com o honorário, como Peter O’Toole.

o sol é para todos

O de Peck estava para chegar, e seria por sua personagem mais conhecida, Atticus Finch, o advogado honesto que defende um negro inocente contra a sociedade branca e racista. Em um dos momentos marcantes, um homem cospe em seu rosto.

A direção calculada de Robert Mulligan, com personagens condenadas e absolvidas antecipadamente, não retira a beleza de O Sol é para Todos (acima). Muito se deve à atuação de Peck, ajudada pela distância tomada pelo cineasta: a história é contada pelo ponto de vista das crianças, o que ajuda a aceitar esse suposto homem correto e incorruptível.

Finch tornar-se-ia sinônimo de heroísmo, de heróis sem capa e espada. Décadas mais tarde, ocuparia o primeiro lugar entre os maiores heróis do cinema americano na lista do Instituto Americano de Filmes – à frente de Indiana Jones e James Bond.

Filmes como O Sol é para Todos fixaram a imagem de Peck como o homem acima de qualquer suspeita, feito de palavras, de alma aberta contra os intolerantes.

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