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Filmes que ganharam a Palma de Ouro e o Oscar de filme estrangeiro

Alguns filmes de trajetórias meteóricas conseguiram arrebatar as principais estatuetas do mundo cinematográfico. Apenas cinco chegaram à Palma de Ouro e ao Oscar de filme estrangeiro na história dos prêmios – prova de que talvez não haja pleno diálogo entre eles. Cannes é um festival e o Oscar, uma premiação. Há diferenças óbvias.

No festival, os jurados assistem a todos os filmes enquanto o evento está em curso, o que tende a torná-lo mais justo. Já os critérios de avaliação para o Oscar de filme estrangeiro sempre geram dúvidas. A bancada que elege os cinco finalistas – de um punhado de obras dos mais diferentes países – deve, na prática, assistir a todos, mas nada é muito certo. São poucos os filmes que saem premiados dos dois lados do Atlântico, como se vê na lista abaixo.

Orfeu Negro, de Marcel Camus

A história passada nos morros cariocas, em pleno Carnaval brasileiro, adaptada de Vinícius de Moraes, volta ao mito de Orfeu, ao seu amor trágico por Eurídice. O filme é embalado por batuques, tem belas imagens e reproduz um Brasil inexistente, distante da mesma nação retratada pelo cinema novo local. A obra caiu na graça dos franceses e, difícil de acreditar, derrotou Os Incompreendidos e Hiroshima, Meu Amor em Cannes.

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Um Homem, Uma Mulher, de Claude Lelouch

Além do Oscar de filme estrangeiro, ganhou o prêmio de roteiro original. Em Cannes, empatou com Confusões à Italiana, de Pietro Germi, e derrotou filmes poderosos como O Segundo Rosto e Doutor Jivago. Tem uma inesquecível Anouk Aimée em par com Jean-Louis Trintignant, à beira-mar, no belo preto e branco da fotografia assinada pelo próprio Lelouch. E como esquecer a música de Baden Powell, com letra de Vinicius de Moraes?

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O Tambor, de Volker Schlöndorff

O menino de olhos esbugalhados (David Bennent) comunica-se com o mundo a partir de seu tambor: segue ao alto da catedral para tocar o instrumento, enquanto grita e quebra vidraças. Esse protagonista dá de ombros aos adultos e, em plena Alemanha nazista, decide parar de crescer. Filme poderoso, imaginativo. Em Cannes, novo empate: o filme de Schlöndorff dividiu a Palma com Apocalypse Now, obra-prima de Coppola passada no Vietnã.

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Pelle, o Conquistador, de Bille August

O mundo visto pelos olhos do garoto Pelle (Pelle Hvenegaard) não é nada agradável. Boa parte do filme centra-se em sua relação com o pai, personagem de Max von Sydow, perfeito como um homem covarde. É sobre a mudança de ambos da Suécia para a Dinamarca e a dificuldade para se estabelecer no local. O filme rendeu a von Sydow uma indicação ao Oscar de melhor ator. Na categoria de filme estrangeiro, derrotou Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos.

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Amor, de Michael Haneke

Nem todo mundo embarca no cinema de Haneke. O cineasta austríaco é considerado frio e gratuito por detratores, sempre levado a chocar o espectador. Amor passa longe de ser seu filme mais forte e mostra a relação abalada de um casal de idosos, quando ela (Emmanuelle Riva) tem uma doença e ele (Jean-Louis Trintignant) vê-se levado a acompanhar seus momentos finais. Em Cannes, derrotou títulos incríveis como Holy Motors, Cosmópolis e Além das Montanhas.

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Utopia e desilusão no cinema de Carlos Diegues

O grupo de escravos tenta resistir e ser livre. A mulher e seus amigos “chegados de longe” andam em círculos, sonham, encontram a pior parte da cidade grande. Com esses pontos de partida, Ganga Zumba e A Grande Cidade, ambos de Carlos Diegues, refletem sentimentos anteriores e posteriores ao Golpe de 64 no Brasil.

No primeiro caso, mostra a resistência e a fuga de um grupo de escravos – entre eles a personagem-título – para chegar ao Quilombo dos Palmares, onde poderão viver livres. O ambiente nunca mostrado, uma representação da utopia da obra.

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O que a move é o desejo de liberdade dos oprimidos em contraponto à selvageria dos opressores brancos e seus capitães do mato. Ganga Zumba (Antônio Pitanga) é o jovem escravo que pode se tornar líder de Palmares. Com outros, ele consegue fugir. Por dias, é caçado, quase morre e luta desesperadamente.

Então no início da carreira, Diegues filma seguindo as características do cinema novo da época: câmera na mão, linguagem raivosa, ligação de um tema antigo (a escravidão) a uma situação do presente (o desejo de fazer a revolução e ter assim a almejada liberdade). Além disso, confere à obra contornos épicos, típicos de uma aventura de toques fantásticos – como Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol.

E, como Glauber, Diegues levará suas personagens à desilusão em A Grande Cidade – seu equivalente a Terra em Transe. Se Ganga Zumba reproduz a busca pelo impossível, a idealização da sociedade perfeita (o quilombo nunca encontrado), Deus e o Diabo promete a transformação do sertão em mar com a corrida do homem ao infinito.

O fim do confronto entre brancos e escravos não oferece a porta de entrada ao paraíso. Ao contrário, a câmera prefere se afastar: de longe, o espectador vê o movimento dos sobreviventes, em uma caminhada incerta. O filme termina.

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Em A Grande Cidade, tem-se o oposto à utopia: a terra sonhada pelos nordestinos não é mais que um emaranhado de casas, prédios, gente que não para de trabalhar, miseráveis caídos pelos cantos, música, massa, carnaval, bares, doses de alegria.

Em suma, o choque de realidade expresso à perfeição quando o vagueiro matador e procurado pela polícia abre a porta de sua pequena casa e mostra a cidade para sua amada, que veio de longe para viver com ele no suposto paraíso.

Enquanto ele explode em fúria, ela ora. Enquanto ele tenta sobreviver à base do crime, pois só pode estar à margem, ela aceita viver como criada em um escritório. Ao mesmo tempo, Diegues traz outras personagens: o negro malandro e o operário conformista.

O primeiro tem peso. Ao mesmo tempo, é secundário. É o mesmo Antônio Pitanga de Ganga Zumba – de herói e líder, rapaz bravo e inquieto, ao cínico de camiseta branca colada ao corpo, com sapatinho branco, de fala rápida, carregado de malícia.

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Diegues refere-se a ele como “pícaro moderno”, por transitar entre todos e ainda assim não ser o mais importante – mas a quem se confere o resumo dessa nação de misturas. Mais tarde, ele deixa a cena com alegria: ri em meio à podridão da grande cidade.

É também “uma reminiscência do Macunaíma que eu havia pensado em filmar”, diz o diretor. Nesse sentido, Calunga (Pitanga) é o pequeno notável brasileiro. Comum mas diferente, que tudo sabe, capaz de unir personagens, de dar dicas, mas sem revelar detalhes. Transita entre a plateia e o palco, entre a borda e o meio.

Ele ajuda Luzia (Anecy Rocha), que acabou de chegar do Nordeste com sua mala em mãos, cabelo desarrumado, sem informações e ingênua. Não seria diferente. A ela, ele oferece o choque, a realidade, mas nem sempre com palavras claras.

Abre portões de um paraíso que não é dele, seduz com dinheiro do asfalto e compra morangos com as notas sujas. A moça sabe o suficiente sobre Calunga. Todos reconhecem esse típico brasileiro esperto e nem todos lhe dão crédito.

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A moça precisa encontrar seu par, Jasão (Leonardo Villar), também vindo do nordeste, transformado em assassino. Mata políticos, deixa ver suas botas antes de seu rosto. A grande cidade, ele sabe, é palco para extremos: seu jeito de viver a prisão é negando a prisão dos outros, como a do pedreiro (Joel Barcellos).

Esses homens estão em pontas diferentes. A dama está entre eles. Calunga passa por todos, primeiro com malícia, depois com desespero – e tudo se resume a essa cidade que não dorme, à custa da miséria, com sua festa de carnaval, com seus intelectuais fascinados pelo pobre e pelo marginal, além de militares à beira mar.

Com Ganga Zumba, Diegues apresenta a vitória dos oprimidos. Seu encerramento deixa esperança. Depois, com A Grande Cidade, leva à vitória dos opressores, à morte do vaqueiro e de sua amada, à dança do típico brasileiro e sua alegria.