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A lição política de Yves Montand

Eu canto, ouço, leio, viajo, sonho e vejo. Meu trabalho é agradar o público, fazê-lo sonhar, rir ou chorar. Eu não sou filósofo nem político; minha vida é como a sua. Parece a vida de outras pessoas, suas mortes e as que as matam. Eu dou vida a seres imaginários, algo entre o céu e a terra, na tela e no palco, mas eu vivo no mundo real, com os dois pés no chão. As dores e as injustiças deste mundo me machucam tanto quanto te machucam. Um palhaço? Sim, pode ser, mas não inconsciente. As notícias seguem seu curso, como costumam dizer. Um nos faz esquecer o outro. Kippur, Chile… Um homem destruído aqui, centenas de mortos em outro lugar. E a dança continua. Mas os refugiados chilenos permanecem. Há milhares entre nós, procurando um pedaço de pão e um pouco de calor, assim como há milhares de prisioneiros, desemprego forçado, homens caçados. Você não ouve falar deles, mas eles estão lá. Eu canto hoje para nos lembrar do sangue de ontem e para nos manter juntos, para que o sangue não seja substituído amanhã pelo nosso.

Yves Montand, ator e cantor, em narração no encerramento do documentário The Loneliness of the Long Distance Singer, de Chris Marker. O filme é de 1974, pouco depois do golpe militar no Chile, e acompanha os ensaios e a apresentação do cantor Montand, com sua consciência política e solidariedade às vítimas chilenas.

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Frank Sinatra, à prova do tempo

Numa época em que os muito jovens parecem estar assumindo o controle da situação, protestando e manifestando-se e exigindo mudanças, Frank Sinatra se mantém como um fenômeno nacional, um dos poucos produtos do pré-guerra que resistiu à prova do tempo. Ele é o campeão que fez a volta triunfal, o homem que tinha tudo, perdeu tudo e depois recuperou tudo, fazendo o que poucos homens são capazes de fazer: destruiu sua vida, deixou sua família, rompeu com tudo que lhe era familiar, aprendendo nesse processo que a única maneira de conservar uma mulher é não tentar segurá-la. Agora ele goza da afeição de Nancy, de Ava e Mia, a fina flor de três gerações de mulheres, e ainda é adorado pelos filhos, tem a liberdade de um homem solteiro, não se sente velho, faz com que homens velhos se sintam jovens, faz com que eles pensem que, se Sinatra é capaz de fazer alguma coisa, ela pode ser feita; não que eles mesmos sejam capazes de fazê-la, mas agrada-lhes saber que, aos cinquenta anos, essa coisa ainda é possível.

Gay Talese, jornalista, no clássico perfil Frank Sinatra está resfriado, em 1965 (Fama e Anonimato, Companhia das Letras; pg. 259).

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Tim Maia, de Mauro Lima

Cada Tim Maia em cena representa um tipo e um universo diferentes. O primeiro é o jovem de um mundo de sonhos, de olho na capa dos discos de vinil, que não acredita na morte do rock, anunciada com a morte de alguns grandes músicos.

O segundo, mais interessante, joga o espectador de Tim Maia, de Mauro Lima, na dura realidade de boa parte dos homens da noite: confusões, mulheres interesseiras, gente interesseira (sobretudo) e, não poderia faltar, drogas à vontade.

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É como se ao mundo, e não apenas ao mundo da música, não houvesse esperanças: sempre pode ficar pior. Se os excessos, a certa altura, colocam o genial Tim Maia em rota de colisão com a morte, a busca pela religiosidade pode retirá-lo do mal. Mas, como tudo, é apenas uma fase, antes de chegar o pior.

Nesse meio, céu e inferno tocam-se rapidamente. Tim, grande e desbocado, poderia ser um demônio mulato em um filme de Glauber Rocha; a bela Janaína (Alinne Moraes) poderia ser, enquanto contorce-se pelos jovens cantores em programas de auditório, a menina de um musical inocente, ou de comédias sem compromisso.

No caldeirão que é Tim Maia, tudo se mistura. E não faltam exemplos: da Tijuca, o filme passa aos Estados Unidos, depois a São Paulo, mais tarde à Inglaterra. Música negra esbarra nas canções de Roberto Carlos, e este deixa aqui seu jeito moleque, o sorriso falso, o astro montado – e lustrado – da cabeça aos pés.

O filme de Mauro Lima não escapa à fórmula comum a tantas filmografias recentes. Oferece a descoberta do talento, com o olhar virgem do jovem artista. Depois, oferece a podridão do mesmo homem, vítima dos excessos. Nem sempre é possível reconhecer os “diferentes” na mesma pessoa.

O primeiro Tim é vivido por Robson Nunes e o segundo, por Babu Santana. O primeiro vai em frente, tenta, cai, volta, não desiste nunca. O segundo, após descobrir sua grandeza e ser chamado de gênio, deixa-se levar: segue a onda das drogas, das festas, dos amigos. Ambos fazem bonito, sobretudo o segundo.

Se o primeiro parece se importar, o segundo dá de ombros ao mundo. Como se aquela fosse sua resposta: ao se tornar famoso, ao provar ser o gênio que é, não precisa de mais ninguém – e não se preocupa em procurar Roberto Carlos novamente.

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O sucesso leva-o a Janaína. Antes desconhecido, ele apenas gerava repulsa na moça. Depois, com o sucesso e os discos vendidos, ganha sua atenção. Janaína é um daqueles anjos malvados pelos quais os homens deixam a inteligência de lado. Esquecem tudo. Gastam dinheiro com elas, compram carros para agradá-las.

A certa altura, a moça surge grávida. Sem saber quem é o pai, Tim prefere a dúvida: assume a paternidade, o que garante a Janaína a boa vida. Aos trancos, com gestos inesperados, Tim comprova que – seja pelo talento, seja pelas atitudes – sempre foi alguém fora do eixo, imprevisível.

Ainda no início, quando o personagem-título recebe visitas no camarim, o filme de Mauro Lima antecipa a história de um excluído. À base de suas máximas sempre, Tim é deslocado, vagando de uma pessoa a outra, sem parar, sem encontrar um ponto fixo.

Os velhos companheiros, tal como Janaína e outras mulheres, e os outros intrusos, sem rosto e sem muito a dizer, são como fantasmas que rondam sua vida.

Se com Robson Nunes havia alguma chance de o espectador sentir empatia, com Babu Santana isso não ocorre. Tal transformação – ainda que radical – é um dos méritos do filme de Mauro Lima, realizador de Meu Nome Não é Johnny, sobre um jovem de classe média que se torna traficante, outro filme sobre excessos.

O ponto baixo da obra começa com a narração do companheiro e talvez melhor amigo, que pretende explicar muito, forçar o olhar do público e entregar de bandeja o mito antes do homem. Tenta explicar o óbvio, como se fosse necessário indicar ao público que existe um gênio vivo dentro do ogro evidente.

Nota: ★★☆☆☆