Cantando na Chuva

Stanley Donen (1924-2019)

(…) era um dançarino e um homem de cinema. Dominava tanto as piruetas humanas quanto as da câmera. Foi ele o introdutor de uma técnica que depois seria adotada por todo mundo: dividir a tela em duas, três ou dez partes, o que seria chamado de tela múltipla. E o freeze-frame, a imagem congelada? Era um recurso que já vinha do cinema mudo, mas, modernamente, também foi ele quem voltaria a usá-lo. A prova de que Donen não era apenas um apêndice de Gene Kelly está no fato de que teve uma grande carreira paralela sem o parceiro, inclusive como diretor de ótimos não-musicais, como Indiscreta, Charada, Arabesque e Um Caminho para Dois. O contrário, infelizmente, não aconteceu: longe de Donen (ou de Vincente Minnelli, seu outro mentor), Kelly nunca se deu bem. E suas tentativas de dirigir sozinho foram uma tristeza – vide Hello, Dolly!, filme mais dirigido por Barbra Streisand do que por ele.

Ruy Castro, jornalista e escritor, no jornal O Estado de S. Paulo. (11 de abril de 1998; o artigo está no livro Um Filme é Para Sempre, com organização de Heloisa Seixas; pg. 256). Abaixo, Donen entre Donald O’Connor e Gene Kelly no set de Cantando na Chuva, que dirigiu com o segundo.

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Milos Forman (1932-2018)

La La Land: Cantando Estações, de Damien Chazelle

O sonho duela o tempo todo com a realidade em La La Land: Cantando Estações. Em sua parte final, ainda mais: é o momento em que apenas o sonho ocupa a tela, quando o espectador assiste, de forma rápida, em resumo, a essa mesma história caso apenas o musical hollywoodiano fosse a matéria-prima em questão.

Claro que se trata de um musical hollywoodiano. Mas não como os clássicos, aqueles em que o sonho ultrapassava qualquer sinal de realidade, quando o cinema voltava-se a mocinhos e mocinhas que naturalmente terminavam juntos. Era sonho, apenas.

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La la Land

O moderno impõe o real, o que explica as comparações entre La La Land e os filmes do francês Jacques Demy. Em Os Guarda-Chuvas do Amor, por exemplo, o encerramento é triste, um reencontro dramático, à neve, entre o casal que não pode mais ficar unido. O real pede passagem. O sonho desfaz-se.

O filme de Damien Chazelle inicia com o choque de realidade logo quebrado, o local em que a vida parece mais real, e no qual o tempo é sentido: uma avenida congestionada. De um dos carros, de repente, uma garota sai e começa a cantar. Outros começam a cantar, e logo todos cantam e dançam sobre seus veículos.

O espetáculo vai e vem, às vezes como choque, às vezes natural, ao passo que o amor do casal ao centro – ela, Emma Stone, que sonha em ser atriz; ele, Ryan Gosling, que deseja ter sua casa de jazz – vem para contar algo visto tantas vezes, aqui diferenciado pela material que pula à frente, pela música, pela natural falsidade do meio.

No primeiro encontro, em uma casa de jazz na qual ele canta e ela entra por acaso, ambos chocam-se quando a menina tenta dizer algo. À frente, quando tudo é sonho e o momento repete-se, eles simplesmente se beijam. É como se Chazelle mostrasse que tudo seria falso – e feliz – fosse a vida o que se deseja dela.

Não é. Ou quase sempre não é. O musical retira as pessoas de seu meio bruto: do congestionamento sob o sol escaldante, dos testes de atores nos quais a banca avaliadora não se limita a ver muito, da plateia vazia para a apresentação teatral da moça.

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Ela, Mia, aprende a gostar de jazz com ele, Sebastian. O filme apela à velha história de que nasceram um para outro. Alguma coisa, no entanto, insiste em não dar certo. Também autor do roteiro, Chazelle dá a resposta: é a realidade. E ela insiste em tropeços, ou acasos, como o toque do celular que irrompe entre uma sequência musical, ou a película que queima durante uma sessão de Juventude Transviada.

A vida real aumenta à medida que a obra avança. A história corre em Los Angeles. Mia mostra para Sebastian a sacada em que foi filmada uma cena famosa de Casablanca. Com constância, La La Land remete ao passado da terra de filmes, na qual se esbarra em alguma gravação, na rua, ou se invade sem querer estúdios de cinema.

Alguns momentos rementem à dança de Gene Kelly, a Cantando na Chuva, aos cartazes com os rostos de Ingrid Bergman e Ava Gardner. Ao mesmo tempo, há quem diga que o jazz está morto. Sebastian, ao contrário, não liga em viver apenas com alguns trocados, sem o sucesso, para tentar reviver seu estilo musical favorito.

Toda a mistura que a obra joga por algum milagre não faz de La La Land algo ainda mais disforme. Os atores ajudam a dar coerência em meio a tanta velocidade, sobretudo a minguada Stone, de olhos enormes, que se impõe pelo jeito sonhador.

Os jovens e artistas em cena conseguem até flutuar. Ao olharem ao passado – ao outro filme que a certa altura passa por ali – veem que o sonho, com sua cidade ensolarada e gente bela, não sobrevive à inexplicável fadiga da vida real.

(La La Land, Damien Chazelle, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Poucas e Boas, de Woody Allen

Debbie Reynolds (1932–2016)

Debbie Reynolds era uma novata que já atuara em cinco papéis de menor importância, e esta era a sua maior oportunidade. Ela tinha que se sobressair junto de dois veteranos bailarinos, e conseguiu; notem a determinação do seu atrevido e pequeno rosto quando ela dá passos largos no momento em que, todos juntos, se encaminham para um sofá na apresentação do número “Good Morning”.

Roger Ebert, crítico de cinema, em uma análise de Cantando na Chuva publicada em A Magia do Cinema (Ediouro; pgs. 103 e 104).

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Vamos Dançar?, de Mark Sandrich

Os 40 melhores filmes sobre o cinema

Afinal, o que é o cinema? Pensadores já se debruçaram sobre essa pergunta. Em linhas gerais, é a arte na qual a imagem ganha movimento, em que os sonhos aproximam-se da realidade – ou ganham esse aspecto real, fantástico, que apenas o cinema – a sétima das artes – é capaz de captar. Ou, tecnicamente falando: 24 quadros por segundo.

Às vezes, e de forma brilhante, o cinema fala sobre si mesmo. Mestres de países e estilos variados – de Dziga Vertov a Robert Altman – já se dedicaram a colocar na tela a arte e as particularidades de um meio que conheciam tão bem. Abaixo, uma lista sobre filmes que abordam o cinema – da paixão à realização. Também, vale registrar, uma lista que já nasce apaixonante, de alguém apaixonado. Uma lista que demorou certo tempo para ser feita, com pesquisa e cabeça a pensar. O resultado segue abaixo.

40) Serbis, de Brillante Mendoza

serbis

39) Adaptação, de Spike Jonze

adaptação

38) Salve o Cinema, de Mohsen Makhmalbaf

salvem o cinema

37) Barton Fink – Delírios de Hollywood, de Joel Coen

barton fink

36) A Mulher Pública, de Andrzej Zulawski

a mulher pública

35) Sonhos de um Sedutor, de Herbert Ross

sonhos de um sedutor

34) Um Truque de Luz, de Wim Wenders

um truque de luz

33) Depois da Vida, de Hirokazu Koreeda

depois da vida

32) No Decurso do Tempo, de Wim Wenders

no decurso do tempo

31) O Artista, de Michel Hazanavicius

o artista

30) Na Mira da Morte, de Peter Bogdanovich

na mira da morte

29) A Invenção de Hugo Cabret, de Martin Scorsese

a invenção de hugo cabret

28) The Last Movie, de Dennis Hopper

último filme

27) Dia de Estreia, de George Nichols

dia de estreia

26) Ed Wood, de Tim Burton

ed wood

25) Irma Vep, de Olivier Assayas

irma vep

24) Amador, de Krzysztof Kieslowski

amador

23) Corridas de Automóveis para Meninos, de Henry Lehrman

corrida de automóveis para meninos

22) Belíssima, de Luchino Visconti

belíssima

21) King Kong, de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack

king kong

20) Cidade dos Sonhos, de David Lynch

cidade dos sonhos

19) Um Homem com uma Câmera, de Dziga Vertov

um homem com uma câmera

18) No Silêncio da Noite, de Nicholas Ray

no silêncio da noite

17) A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen

a roda púrpura

16) O Desprezo, de Jean-Luc Godard

o desprezo

15) Close-Up, de Abbas Kiarostami

close up

14) A Cidade dos Desiludidos, de Vincente Minnelli

a cidade dos desiludidos

13) O Último Magnata, de Elia Kazan

último magnata

12) A Tortura do Medo, de Michael Powell

a tortura do medo

11) Assim Estava Escrito, de Vincente Minnelli

assim estava escrito

10) O Jogador, de Robert Altman

o jogador

9) Através das Oliveiras, de Abbas Kiarostami

atravès das oliveiras

8) Cantando na Chuva, de Gene Kelly e Stanley Donen

cantando na chuva

7) Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho

cabra marcado para morrer

6) Contrastes Humanos, de Preston Sturges

contrastes humanos

5) A Noite Americana, de François Truffaut

a noite americana

4) O Espírito da Colmeia, de Víctor Erice

o espírito da colmeia

3) O Homem das Novidades, de Edward Sedgwick e Buster Keaton

o homem das novidades

2) Oito e Meio, de Federico Fellini

oito e meio

1) Crepúsculo dos Deuses, de Billy Wilder

crepúsculo dos deuses

Entrevista: Antonio Nahud

Para abrir a seção de entrevistas, um blogueiro e apaixonado por sétima arte: o jornalista e escritor Antonio Nahud, autor de sete livros e, durante alguns anos, correspondente de diversos veículos de comunicação na Europa, onde foi viver em 1994. Apesar de não se considerar um crítico de cinema, Antonio não perde tempo quando o assunto é opinar. Solta o verbo em seu blog, cujo título faz clara homenagem ao cinema clássico: O Falcão Maltês – Uma Viagem Pessoal Pela História do Cinema.

“Muitos filmes considerados clássicos hoje, fundamentais para a história do cinema, foram produzidos com finalidade comercial em primeiro lugar”, ele afirma. Antonio vive hoje em Natal, no Rio Grande do Norte e finaliza um livro de contos que será lançado ainda este ano, Pequenas Histórias do Delírio Peculiar Humano. Abaixo, a entrevista completa:

Seu blog, O Falcão Maltês, já apresenta, de cara, uma homenagem ao cinema clássico, em um filme não apenas grande, mas um divisor de águas. Como nasceu a paixão pelo cinema clássico e por que escolheu este filme de título para seu blog?

Sou fascinado por filmes, de ontem e de hoje. Vejo com o mesmo prazer um bom filme mudo da década de 20 ou o mais recente Martin Scorsese. Vou e volto no tempo cinematográfico com facilidade e sem traumas. Porém, não nego que o noir é o gênero que mais me atrai, assim, para mim, nesse momento vigoroso da década de 40 o cinema se destaca, trazendo ecos do passado e influenciando filmes futuros. O Falcão Maltês não é o meu noir favorito, mas – como muita gente – considero-o o “pai” do gênero. Uma noite, assistindo-o pela terceira ou quarta vez, tomei algumas anotações e tive vontade de compartilhá-las publicamente. Assim surgiu o blog em outubro de 2010.

Com a internet, o público chega mais facilmente aos filmes antigos, antes esquecidos?

Com certeza. Vejo um verdadeiro tráfico cinéfilo clássico na net. Troca-se impressões, descobre-se artistas esquecidos, valoriza-se identificações, indica-se onde encontrar determinados filmes raros. Conheço cinéfilos com menos de 20 anos completamente seduzidos pelo universo do cinema clássico. E muitas vezes dão show de competência em seus blogs. Caso da Lê, do Crítica Retrô, que tem apenas 18 anos de idade.

Muita gente acusa o cinema norte-americano moderno, sobretudo aquele feito depois dos blockbusters dos anos 1970, de ser infantilizado. Sempre os mesmos temas, as mesmas saídas cômicas e aventureiras para vender ingresso. O cinema norte-americano ficou mais pobre depois dos anos 1980?

Os blockbusters sempre comandaram o espetáculo. Isso acontece desde os primórdios do cinema mudo. … E o Vento Levou ou Ben-Hur, por exemplo, são típicos produtos blockbusters. Só que de outra época, com outros conceitos, outras técnicas. Sinceramente, não sou nostálgico, acho que sempre tivemos filmes comerciais e outros mais, digamos assim, artísticos. Só que, inexplicavelmente, certos momentos são mais pródigos em talentos; outros, mais escassos. O que acontece com o cinema norte-americano das últimas três décadas é que se pode contar nos dedos os grandes cineastas. Mas isso não quer dizer que será assim eternamente.

Mas antes, durante o cinema clássico, já não havia alguma infantilização? Não se abordava o sexo de forma aberta, o mundo era colorido demais…

Exato. Como disse, sempre houve a manutenção dos dois lados da questão. A fantasia pueril e o produto comercial nunca deixaram de estar no topo. Muitos filmes considerados clássicos hoje, fundamentais para a história do cinema, foram produzidos com finalidade comercial em primeiro lugar. O problema não é esse. A questão é período pouco criativo, banal, do cinema hollywoodiano atual.

Em uma entrevista em seu blog, você diz que, entre os piores filmes que viu no ano passado, está o Além da Vida, e, entre os melhores, A Árvore da Vida. Às suas maneiras, são filmes religiosos, sobre a abordagem da vida após da morte, talvez. O cinema é uma maneira de trazer o homem para perto de certa espiritualidade? Não acha que, com mais simplicidade e narrativa linear, Além da Vida consegue melhor o seu propósito de comover e se aproximar do público?

Não disse que Além da Vida é detestável. Clint Eastwood jamais seria desprezível. Como tenho uma certa aversão a shoppings, só vou ao cinema depois de uma triagem rigorosa, ou seja, para ver filmes que já tenha alguma afinidade indispensável. Dentre esses, que já fazem parte de uma “categoria especial” no meu universo de cinéfilo, em 2011, Além da Vida não me empolgou o suficiente. Mas tem um bom roteiro e Eastwood domina um tema delicado com habilidade. A Árvore da Vida é outra coisa, uma obra complexa, hermética, poética, difícil, está além de seu tempo.

Você faz parte daquele grupo de cinéfilos que, entre os dez melhores filmes que viu na vida, todos são antigos, em geral em preto e branco?

Vixe… Deixe-me pensar um pouquinho… Creio que todos os dez melhores filmes que vi na vida são antigos. No máximo essa lista chegaria a Gritos de Sussurros, de Bergman, ou Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola, nos anos 1970. Mas nem todos são em preto e branco. Cantando na Chuva, por exemplo, é um espetáculo de cores.

O que torna possível amar obras tão diferentes como um melodrama de Douglas Sirk e um filme contemplativo de Tarkovski, por exemplo?

O talento e nossas identificações particulares. O talento supera o gênero, o conteúdo, a própria obra. Sou capaz de amar da mesma forma o cinema seco, sombrio e silencioso de Jean-Pierre Melville como o cinema verbal, literário e sofisticado de Max Ophuls.

Entre as grandes figuras conhecidas que entrevistou, como Carlos Saura e Bernardo Bertolucci, lembra de alguma particularidade, algo despercebido pelos fãs, que lhe marcou?

A grande maioria de minhas entrevistas foi feita em coletivas, festivais de cinema, lançamentos cinematográficos. Tudo muito superficial, muito profissional e com o tempo cronometrado. Mas me surpreendi muitas vezes. Por exemplo, com a afeição de Bertolucci pelo cinema brasileiro, o bom humor de Woody Allen, a inteligência de Isabelle Huppert, o esnobismo de Catherine Deneuve, a densidade espiritual de Irene Papas, a informalidade de Almodóvar, a sensualidade intacta e simplicidade de Sophia Loren, a beleza sedutora de Ewan McGregor, a magreza assustadora de Penélope Cruz, o tipo amigável de Javier Bardem, a exuberância de Stefania Sandrelli etc.

Como seu blog faz referência a um filme noir, não posso deixar de perguntar: qual o maior anti-herói do cinema? Não vale o Sam Spade… (risos)

Gosto muito do George Eastman de Montgomery Clift em Um Lugar ao Sol, de George Stevens. Ele é ambicioso, infiel, alpinista social e um assassino involuntário, mas não deixamos de nos apaixonar por ele, torcendo para que supere essas deficiências de caráter e fique com a linda mocinha Liz Taylor no final da fita.

Qual o maior medo de um cinéfilo: ficar cego ou perder a memória?

Cruz credo. O que responder? Posso dizer que algumas vezes pensei como seria torturante viver sob o domínio da cegueira. Quase tudo que amo exige o olhar, a visão. Já perder a memória seria uma lástima, mas acontecendo, de nada lembraríamos, não haveria saudades ou conflitos. A cegueira se impõe. Você está com a mente acesa, e também proibida para muitos prazeres. Deve ser terrível. Lembro do escritor argentino Jorge Luís Borges, um cinéfilo que perdeu a visão. Felizmente ele passou o resto da vida recordando detalhes preciosos dos filmes que viu. Não é o meu caso. Minha memória não é tão detalhista. Estou sempre revendo filmes para recordar-me de certos aspectos.

E, quando a memória vai lá no fundo do baú, qual imagem ela resgata, qual aquela que lhe marca, que faz toda a diferença em sua vida?

Não sou felliniano. Dos mestres italianos, é o que menos me atrai. Mas quando vou lá ao comecinho da paixão cinéfila, o filme que surge é Amarcord, de 1974, que vi nos anos 80, em um cinema de arte. Ele marcou minha adolescência, mudou minha vida intelectual e me fez compreender que o cinema me ajudaria a não sucumbir às desilusões do cotidiano. Portando, a partir de Amarcord, assim como a Mia Farrow de A Rosa Púrpura do Cairo, o cinema tornou-se vital para mim. Inclusive, em momentos de crise, desabafo assistindo filmes, e muitas vezes me revigoro, partindo de novo à luta com renovada disposição.

Rafael Amaral (08/02/2012)