Cahiers do Cinema

Bastidores: Trinta Anos Esta Noite

Aspecto nem sempre levado em conta e altamente contrário à índole dos vagueurs, Pierre Drieu La Rochelle [autor do livro] foi exemplo de anti-semita, colaborador do regime de Vichy. Estaria nele o maior atalho ao obscurantismo, para a análise binária do texto. Felizmente, ungido por Zeus e pela inteligência do humano, Malle soube encontrar no livro o conflito que Albert Camus decifrara a todos os adolescentes do pós-guerra (muitos deles, futuros redatores dos Cahiers du Cinéma): “Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois”.

Andrea Ormond, crítica de cinema, no livro Os Filmes que Sonhamos (Lume Filmes; pgs. 238 e 240). Abaixo, Malle nas filmagens de Trinta Anos Esta Noite, que acompanha os últimos momentos da vida de um suicida.

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Entrevista: João Nunes

Quando o assunto é cinema, o crítico João Nunes não esconde sua paixão pela arte. Lembra, na entrevista abaixo, o quanto chorou após uma sessão do emblemático Adeus, Meninos, de Louis Malle. Ressalta aqui também questões urgentes: a predileção do público pelas comédias “fáceis” do cinema nacional, os “achismos” daqueles que se julgam críticos em tempos de internet, a questão da ideologia, da opinião e muito mais.

Crítico do Caderno C do Correio Popular, de Campinas, João também assina um blog no portal da RAC (Rede Anhanguera de Comunicação) e mostra entusiasmo com o formato. No ofício há anos, ele faz parte da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema), onde ocupa o cargo de secretário-geral. “Não basta dizer gostei ou não gostei, é preciso fundamentar com bons argumentos a razão de ter ou não gostado. Isso poucos sabem fazer”, afirma ele, que vive em Campinas e está sempre em São Paulo, em sessões com as novidades do mundo cinema. Confira abaixo a entrevista completa.

A crítica de cinema frequentemente sofre ataques, geralmente daqueles que não aceitam julgamentos ou mesmo dos realizadores dos filmes. Muitas vezes, não se aceita alguém com poder para dizer se um filme é bom ou não. O trabalho da crítica, hoje, ainda tem significado?

Costumamos achincalhar a crítica quando ela fala mal do filme de que gostamos. Quando fala bem, nós amamos o crítico. O mesmo ocorre com o produtor. Se você falar bem do filme dele, é bem provável que uma frase do seu texto acabe no cartaz de lançamento; se falar mal, você é mau crítico. No entanto, sua pergunta sobre o significado da crítica hoje é pertinente. Ela existe não para dizer que um filme é gracinha ou legalzinho, mas para valorizar o novo, o que busca novos rumos, o que ousa, o que escolhe o caminho menos confortável. Não é por acaso que público e crítica se chocam. O público vai ao cinema para se divertir; o crítico vai para trabalhar e sempre aposta na ousadia, nunca no que está estabelecido. Neste sentido, ela é perfeitamente válida ainda hoje

Com o advento das mídias sociais, em que todos têm voz ativa na internet, a crítica deverá mudar ou se reinventar?

Se partirmos do pressuposto anterior, a de que a crítica se interessa pela ousadia e não pelo confortável, a mídia em si não muda muita coisa. O que era feito antes no impresso continua a ser realizado virtualmente. A diferença é que, com a internet, o número de pessoas dispostas a fazer crítica multiplicou-se vertiginosamente. Porém, boa parte não tem repertório nem formação nem informação, ainda está aprendendo – serão, provavelmente, os futuros críticos. São, em geral, pessoas que só veem os filmes do circuito e filmes do gênero de que gostam. Duro é ver um filme de pancadaria e encontrar qualidades nele. Quem alia repertório, formação técnica e intelectual, informação e experiência pode perfeitamente atuar seja no impresso ou virtualmente.

Em contrapartida, acredito que você, como eu, encontra muitas besteiras na internet, muita gente dizendo qualquer coisa sobre cinema em blogs e comunidades. Como você filtra o que você lê? Você encontra muita coisa boa, em termos de crítica de cinema, na internet?

Grande parte dos que escrevem na internet ficam na linha do “eu acho”, “eu gosto” – impressões que qualquer criança de seis meses também tem. Qualquer um pode achar ou gostar do que seja; a questão é ter capacidade para fazer boa análise crítica. Não basta dizer gostei ou não gostei, é preciso fundamentar com bons argumentos a razão de ter ou não gostado. Isso poucos sabem fazer. Se não se faz por ofício, mas por diletantismo, vira só mais um perdido na rede. E, sim, encontro coisas bem interessantes, basta pesquisar. Este é um dos pontos positivos da internet.

Qual o retorno que seu blog lhe traz? O alcance é maior que o do jornal?

Sim, é maior. No impresso sempre tive a impressão de que falava para o vazio, o retorno era quase zero. Quando eu escrevia alguma crônica falando mal de gatinhos e cachorrinhos, aí chovia e-mails. Mas quando escrevo um texto discutindo cinema seriamente pouca gente se interessa. E mesmo no blog, se falo mal de filmes espíritas ruins, os espíritas se revoltam porque estão interessados em religião, não em cinema. Mas se discuto um tema interessante ninguém dá muita bola. No fundo, ainda continuo achando que escrevo para o vazio.

Não falta um pouco de atitude à crítica atual? Semelhante àquela nascente no cinema francês, no pós-guerra, que fez surgir os Cahiers do Cinema?

Os críticos sempre estiveram ausentes da cena brasileira porque atuavam isoladamente, cada um no seu canto. Em julho do ano passado, durante o Festival de Cinema de Paulínia, foi criada a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), da qual eu sou o secretário-geral. Se você olhar o blog, que está funcionando desde então, vai perceber que estamos tentando escrever uma história bacana sobre crítica no Brasil. Fizemos cartas abertas, dossiês, discutimos temas pertinentes, levantamos polêmicas, demos nosso Primeiro Prêmio Abraccine aos melhores do ano de 2011. Enfim, estamos tentando nos sintonizar com o mundo. Hoje somos 84 sócios de 10 estados do país – ou seja, temos uma representatividade bem interessante. A Abraccine está procurando se posicionar, que é mais ou menos isso que você expõe na sua pergunta.

Você acha que ideologia e, depois, política, impedem um julgamento isento?

Não existem isenção nem objetividade absolutas. Todos nós levamos nossas particularidades para os nossos textos – imagine como isso pesa quando elas são ideológicas. Tentamos ser objetivos e isentos – o que é diferente. Tentamos ser honestos com o que escrevemos, mas são tentativas. Quando damos uma notícia podemos fazê-lo com alguma isenção, mas quando escrevemos um texto crítico fica quase impossível não nos colocarmos como pessoas com pensamentos, ideologias e ideias particulares.

Sobre o cinema nacional, estamos vendo uma safra de filmes que fazem muita bilheteria. Alguns dizem que a Globo Filmes não representa qualidade, mas apenas uma extensão das novelas para o cinema. Você concorda?

Eu diria que os produtos da Globo Filmes têm qualidade de produção, cuidados que são essenciais para buscar empatia com o público: fotografia, direção, atores, direção de arte etc. Mas concordo que esses filmes são um modo de fazer a Rede Globo presente em todos os segmentos da sociedade brasileira. A Globo Filmes leva para o cinema os telespectadores das teledramaturgias da emissora. Pergunte a esses mesmos espectadores se eles assistem a outros filmes brasileiros que não tenham nomes globais e que não sejam essas comédias leves ou reproduções de produtos da Globo. Certamente, não. E bilheteria é legal para conquistar mercado, mas não é tudo. E, aqui, entra o papel do crítico. Um filme como De Pernas pro Ar ou Cilada.com são dois dos piores filmes lançados no ano passado. O primeiro fez 3,5 milhões, o segundo 3,3 milhões. O melhor filme brasileiro do ano, para mim, Trabalhar Cansa, não deve ter chegado a dez mil. Por que tamanha disparidade? Bem, isso é conversa para outra entrevista.

Você vê o grande número de festivais de cinema, no Brasil, como positivo ou negativo? Não seria melhor reduzir o número e distribuir e selecionar melhor o que passa neles? Afinal, muitos recebem verba pública, não é?

Quase todos (acho que todos) recebem verbas públicas. Concordo, mas a lei dá abertura para eles proliferarem. O lado bom é que eles exibem filmes que nunca (ou quase) atingem a grande população. Muitos filmes vistos em festivais acabam tendo maior público do que no cinema comercial. Claro que essa não deve ser a razão última de um festival, mas eles têm cumprido esse papel atualmente. Mas eu concordo que eles poderiam ser em número muito menor.

Quais são os filmes que marcaram sua infância ou mesmo sua iniciação como cinéfilo? Alguma cena, em especial, lhe marcou e traz nostalgia?

Há uma cena em Adeus, Meninos (Louis Malle, 1987), no final, quando um olhar fortuito de um garoto francês entrega seu amigo judeu aos nazistas. Menos pelo tema nazista e mais pela amizade traída involuntariamente eu saí do cinema, sentei na calçada e não conseguia parar de chorar. Foi impressionante. E adoro a cena final de Os Incompreendidos (François Truffaut, 1959) quando Antoine Doinel (outro garoto) foge do reformatório e conhece o sentido da liberdade. E vi muito Ingmar Bergman (todos os clássicos dele), mas, quando garoto, assisti a muito faroeste. Você fala em nostalgia. Talvez tenha nostalgia desses faroestes que vi no Cine Cruzeiro, na minha cidade, Conchas (SP). Não sinto saudade da adolescência nem da cidade, mas do fato de que comecei a entender um pouco de cinema a partir daí.

Engraçado que o seu filme predileto de 2011, o Poesia, também é o meu predileto. Acha que a resposta ao cinema industrial americano atual vem do Oriente? O futuro está lá?

Não se pode localizar geograficamente o futuro em um mundo globalizado. O futuro está em qualquer lugar, ainda que a China cresça em todos os sentidos até de forma assustadora aos nossos olhos. Porém, é possível que tenhamos uma nova Hollywood por lá. Por que não? Mas cinema, assim como tudo no mundo de hoje, é globalizado – a internet está aí para demonstrar essa realidade. Mas, hoje, os orientais têm dado expressiva contribuição para o cinema mundial, especialmente a Coreia do Sul e China.

E, aproveitando a ocasião do lançamento de A Separação, como vê o cinema iraniano atual e aquela boa fase, encabeçada por Kiarostami, nos anos 1990?

Olhe eu me colocando ideologicamente: abomino o regime iraniano, tenho visto filmes independentes do Irã, que sofrem censura no país, há cineastas e jornalistas presos, enfim, é um regime que não cabe mais no mundo de hoje. Por isso, saúdo a chegada de um filme como A Separação, que toca nesse assunto da impossibilidade de deixar o país e fez sucesso por lá – países democráticos não impedem seus habitantes de ir e vir. Abbas Kiarostami, a quem admiro muito como cineasta, faz um cinema não exatamente comprometido – e não estou cobrando isso dele, de forma alguma. Mas é um cinema palatável ao regime. De qualquer maneira, há grandes filmes dirigidos por ele, como Gosto de Cereja, por exemplo. E, em 2011, seu Cópia Fiel foi um dos meus dez melhores do ano. Mas gosto particularmente dos filmes recentes produzidos no país, muitos deles que falam da situação política do Irã. E olhe que eu não gosto de arte engajada e coisas do gênero. Cinema é arte. Engajamento é outra coisa. Também este é um assunto para longos debates.

Rafael Amaral (15/02/2012)