Cabaret

Sete obras-primas que ganharam o Oscar de direção, mas não o de filme

Nem sempre dá para entender as escolhas da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, o Oscar. Há filmes que ganham estatuetas importantes, mas terminam a noite sem a mais cobiçada: a de melhor filme. E ainda que a Academia costume conceder os prêmios de filme e direção na maior parte das vezes à mesma obra, são vários os casos em que preferiu fatiar. A lista abaixo traz sete obras-primas que ficaram com o prêmio de melhor diretor, o que não significa que sejam superiores aos ganhadores da estatueta principal. Mas vale refletir e comparar.

As Vinhas da Ira, de John Ford

O segundo dos quatro Oscars que Ford recebeu em sua carreira. O diretor ainda é o recordista em número de estatuetas nessa categoria. Conta a história de uma família que viaja em busca de trabalho e uma terra para viver nos Estados Unidos da Grande Depressão. Vencedor de melhor filme na ocasião: Rebecca, a Mulher Inesquecível.

O Tesouro de Sierra Madre, de John Huston

Huston ficou com o prêmio de direção e, pelo mesmo filme, seu pai, Walter, abocanhou o de coadjuvante. Um faroeste belíssimo, em preto e branco, sobre três homens que se embrenham no México em busca de ouro. O que começa com camaradagem dá vez à loucura e mais tarde ao confronto. Vencedor de melhor filme na ocasião: Hamlet.

Um Lugar ao Sol, de George Stevens

A história do jovem pobre com um tio rico e que, da noite para o dia, entre um pouco de amor e outro tanto de oportunismo, vê a possibilidade de ingressar no mundo dos grã-finos. O problema é que ele já engravidou outra mulher. A dificuldade de viver uma vida dupla o leva à tragédia. Vencedor de melhor filme na ocasião: Sinfonia de Paris.

Cabaret, de Bob Fosse

Esse grande musical moderno de Bob Fosse levou oito estatuetas douradas, entre elas a de diretor, atriz (Liza Minnelli) e ator coadjuvante (Joel Grey), mas não a de melhor filme. Na Alemanha à beira do nazismo, o cabaré é a fuga ao show e a um pouco de libertinagem. Vencedor de melhor filme na ocasião: O Poderoso Chefão.

Reds, de Warren Beatty

O diretor, também ator famoso, levou anos para colocar a história do jornalista John Reed na película. O resultado é uma obra monumental cuja estrutura narrativa traz declarações de pessoas que conviveram com as figuras reais retratadas, mesclando documentário e ficção. Vencedor de melhor filme na ocasião: Carruagens de Fogo.

O Segredo de Brokeback Mountain, de Ang Lee

A história de amor entre dois rapazes (Jake Gyllenhaal e Heath Ledger) que dividem algum tempo pastoreando ovelhas em uma montanha. Do encontro nasce uma relação inesperada que atravessa décadas e, devido ao preconceito, não aparece aos olhos de todos. Comovente e delicado. Vencedor de melhor filme na ocasião: Crash – No Limite.

Gravidade, de Alfonso Cuarón

Uma cientista está presa ao espaço em que nada tem fim, em que tudo parece aberto e, ao mesmo tempo, onde se vive em clausura. A vida no espaço é impossível. Cuarón investe em planos-sequência extraordinários e coloca o público no interior dessa luta pela sobrevivência. Vencedor de melhor filme na ocasião: 12 Anos de Escravidão.

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Bastidores: Cabaret

Não é sempre que se vê um musical tratando de assuntos assim tão sérios e é mais raro ainda que os trate com o rigor de Cabaret. Num certo sentido, muita coisa que Visconti queria dizer (e que aparecia confundida pelo fatal viscontiano) em Os Deuses Malditos, aflora com força de excelência no trabalho de Bob Fosse. Há diferenças, claro, mas Fosse, como Visconti, procura mostrar o nazismo como extensão da degenerescência patológica da alma alemã, não recuando ante a amostragem de homossexualismo, corrupção e decadência. Só que, enquanto Visconti via o tema da perspectiva da intriga palaciana (os deuses no seu Olimpo amaldiçoado), Bob Fosse mostra o surgimento do nazismo do ponto-de-vista do homem comum, filmando os sonhos desfeitos e a dura luta dos personagens.

Luiz Carlos Merten, crítico de cinema, no jornal Folha da Manhã (11 de outubro de 1972). A crítica foi reproduzida no livro Um Sonho de Cinema (Editora da Unisc; pgs. 103 e 104). Abaixo, a atriz Liza Minnelli com o diretor Bob Fosse.

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Seis grandes cineastas inspirados por Federico Fellini

Seis grandes cineastas inspirados por Federico Fellini

Os grandes cineastas vão além de suas próprias obras: eles seguem vivos nas obras dos outros. Alguém com uma filmografia rica como a de Federico Fellini, dono de um estilo particular, inegável autor, produziu inúmeros adoradores e imitadores. Basta um pequeno detalhe para alguém apontar o efeito “felliniano”.

Os traços de Fellini são conhecidos: as personagens exageradas, as mulheres gordas, as figuras circenses, os mestres de cerimônia, os sonhos, a vida como espetáculo etc. Os cineastas abaixo retiram não tudo, mas algumas características do mestre. Alguns deles, em homenagem, não esconderam a adoração e são aqui lembrados.

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Bob Fosse

Em sua primeira experiência como diretor de cinema, em Charity, Meu Amor (abaixo), Fosse levou Noites de Cabíria a Hollywood, em versão musical, com Shirley MacLaine em papel que havia sido de Giulietta Masina. É sobre a trajetória da sonhadora prostituta que pode ter encontrado o amor de sua vida, que confia demais nas pessoas.

Com sua forma propositalmente fora do lugar, não é difícil encontrar em Cabaret, de 1972, um pouco de Fellini. O mestre de cerimônias de Joel Grey, como as mulheres assimétricas do palco, tem toques fellinianos em excesso. E depois, em 1979, Fosse assume o mergulho na fonte felliniana: com O Show Deve Continuar, faz seu Oito e Meio, sobre um diretor da Broadway tendo de lidar com muitas mulheres, com a companheira oficial, com os produtores, com o novo espetáculo – enfim, com a vida.

abcharity meu amor

Lina Wertmüller

A cineasta italiana foi assistente de Fellini em Oito e Meio e, como Fosse, esculpiu figures exageradas, falastronas, tipicamente fellinianas. O resultado pode ser visto em diferentes sucessos, como Mimi, o Metalúrgico ou mesmo no ótimo Amor e Anarquia.

Mas foi com Pasqualino Sete Belezas (abaixo), de 1975, que a forma do mestre ficou evidente: a personagem covarde, Pasqualino (Giancarlo Giannini), não consegue lidar com as irmãs enquanto finge valentia. São suas lembranças, enquanto tenta sobreviver após ser preso em um campo de concentração, enquanto finge seduzir a grande líder do local.

pasqualino sete belezas

Woody Allen

O cômico americano nunca escondeu ser fã de Fellini. Em mais de um filme, fez declarações de amor evidentes, às vezes até chamadas de cópias. Isso é claro, primeiro, em Memórias, de 1980, quase uma refilmagem de Oito e Meio. Depois, com Celebridades (abaixo), de novo em preto e branco, seu alvo é A Doce Vida.

As semelhanças são gritantes: em cena, Allen elege Kenneth Branagh como o jornalista Lee Simon, cuja profissão – como a de Marcello Mastroianni – serve de porta de entrada ao mundo das celebridades, próximo dos paparazzi (termo cunhado na obra de Fellini) e em festas em que arte e vazio quase sempre se confundem. O universo felliniano pode ser visto, em doses menores, também em outros filmes de Allen.

celebridades

Terry Gilliam

Vários filmes de Gilliam trazem um universo delirante, à beira do teatral, ligado ao sonho. O diretor já declarou se inspirar em Fellini. Essa fonte pode ser vista em obras variadas como As Aventuras do Barão de Münchausen, Medo e Delírio e até mesmo em O Pescador de Ilusões (abaixo), com Robin Williams e Jeff Bridges.

Os closes explosivos, as personagens malucas, o circo deformado de Medo e Delírio, ou a estação que se torna parte de um sonho, com dança, em O Pescador de Ilusões. Mesmo com sua forma particular, há interferências do genial italiano por ali.

o pescador de ilusões

Paolo Sorrentino

A ligação evidente, claro, está em A Grande Beleza (abaixo). Seria, como alguns afirmaram à época do lançamento, outra releitura de A Doce Vida. Faz sentido, já que ambos falam da sociedade italiana ao mesmo tempo bela e podre, com personagens centrais desiludidas, entre festas, gente rica, em mil e uma excentricidades.

Sorrentino rejeita o naturalismo. Algumas de suas personagens chegam ao grotesco, como o político ao centro de Il Divo, Giulio Andreotti, também vivido por Toni Servillo, o perfeito Jep Gambardella de A Grande Beleza.

grande beleza

Wes Anderson

A associação a Fellini pode parecer estranha. Após o curta Castello Cavalcanti (abaixo), de 2013, essa dúvida passou. O trabalho de sete minutos leva claramente ao universo felliniano, àquela pequena cidade italiana, de gente pacata, de senhores fãs de carteado, de meninos curiosos como os de Amarcord, sobre a infância de Fellini.

Em outros filmes como Moonrise Kingdom ou A Vida Marinha com Steve Zissou, é interessante observar como Anderson movimenta a câmera em direção às personagens como Fellini fazia, com a intenção de salientar uma frase estranha, até banal. Como algumas das melhores personagens do mestre, as de Anderson são cômicas por natureza.

castello cavalcanti

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Os 100 melhores filmes dos anos 70

Resumir dez anos de grandes filmes em 100 títulos é um desafio. A década de 70 oferece misturas, cinemas variados, como a Novo Hollywood, o Novo Cinema Alemão, os filmes pipoca de Hollywood, o cinema político italiano, além de produções que refletiram, no calor da hora (ou quase), os conflitos do Vietnã. Destaque para cineastas como Coppola, Altman, Fassbinder, Herzog e muitos outros. Uma década para não esquecer. (Atualizado em 11/02/2018)

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100) Três Mulheres, de Robert Altman

três mulheres foto

99) Tubarão, de Steven Spielberg

tubarão

98) Esta Terra é Minha Terra, de Hal Ashby

esta terra é minha terra

97) Um Lance no Escuro, de Arthur Penn

um lance no escuro

96) As Irmãs Brontë, de André Téchiné

95) Cría Cuervos, de Carlos Saura

cria cuervos

94) Um Dia de Cão, de Sidney Lumet

um dia de cão

93) Esse Obscuro Objeto de Desejo, de Luis Buñuel

esse obscuro objeto de desejo

92) Espantalho, de Jerry Schatzberg

espantalho

91) O Homem de Mármore, de Andrzej Wajda

o homem de mármore

90) Loucuras de Verão, de George Lucas

loucuras de verão

89) Tragam-me a Cabeça de Alfredo Garcia, de Sam Peckinpah

tragam-me a cabeça de alfredo garcia

88) A Tocha de Zen, de King Hu

87) Operação França, de William Friedkin

operação frança

86) Um Dia Muito Especial, de Ettore Scola

um dia muito especial

85) O Show Deve Continuar, de Bob Fosse

o show deve continuar

84) A Batalha do Chile – A Luta de um Povo sem Armas, de Patricio Guzmán

1973, AGOSTO 15.- PARO DE CAMIONEROS

83) A Honra Perdida de Katharina Blum, de Volker Schlöndorff e Margarethe von Trotta

a honra perdida de katharina blum

82) Lacombe Lucien, de Louis Malle

lacombe lucien

81) Iracema, Uma Transa Amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna

iracema

80) Valerie e Sua Semana de Deslumbramentos, de Jaromil Jires

79) Sob o Domínio do Medo, de Sam Peckinpah

sob o domínio do medo

78) Bye Bye Brasil, de Carlos Diegues

bye bye brasil

77) Manhattan, de Woody Allen

manhattan

76) Amor e Anarquia, de Lina Wertmüller

amor e anarquia

75) Manila nas Garras de Néon, de Lino Brocka

74) Trágica Separação, de Claude Chabrol

trágica separação

73) Muito Além do Jardim, de Hal Ashby

muito além do jardim

72) Jeanne Dielman, de Chantal Akerman

jeanne dielman

71) Lenny, de Bob Fosse

lenny

70) Mad Max, de George Miller

mad max

69) Uma História de Amor Sueca, de Roy Andersson

uma história de amor sueca

68) Suspiria, de Dario Argento

67) Barry Lyndon, de Stanley Kubrick

barry lyndon

66) O Franco Atirador, de Michael Cimino

o franco atirador

65) M.A.S.H, de Robert Altman

mash

64) Prelúdio para Matar, de Dario Argento

63) O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog

enigma de kaspar hauser

62) Violência de Paixão, de Luchino Visconti

violência e paixão

61) Diabel, de Andrzej Zulawski

diabel

60) Saló ou Os 120 Dias de Sodoma, de Pier Paolo Pasolini

saló

59) Cenas de um Casamento, de Ingmar Bergman

cenas de um casamento

58) O Espelho, de Andrei Tarkovski

espelho

57) Os Duelistas, de Ridley Scott

duelistas

56) A Noite Americana, de François Truffaut

a noite americana

55) Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

performance

54) Providence, de Alain Resnais

providence

53) A Última Ceia, de Tomás Gutiérrez Alea

a última ceia

52) Os Emigrantes, de Jan Troell

Max von Sydow, Liv Ullman

51) Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach

lilian m

50) A Confissão, de Costa-Gavras

confissão

49) O Mensageiro, de Joseph Losey

mensageiro

48) A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi

árvore dos tamancos

47) Último Tango em Paris, de Bernardo Bertolucci

último tango

46) O Mercador da Quatro Estações, de Rainer Werner Fassbinder

o mercador das quatro

45) A Longa Caminhada, de Nicolas Roeg

longa caminhada

44) Guerra nas Estrelas, de George Lucas

guerra nas estrelas

43) Corações e Mentes, de Peter Davis

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42) Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

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41) As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant, de Rainer Werner Fassbinder

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40) O Garoto Selvagem, de François Truffaut

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39) O Último Magnata, de Eli Kazan

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38) Cerimônias, de Nagisa Oshima

37) O Discreto Charme da Burguesia, de Luis Buñuel

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36) Amor de Perdição, de Manoel de Oliveira

35) Domingo Maldito, de John Schlesinger

domingo maldito

34) O Sopro no Coração, de Louis Malle

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33) Caminhos Perigosos, de Martin Scorsese

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32) O Medo Devora a Alma, de Rainer Werner Fassbinder

medo devora a alma

31) A Mãe e a Puta, de Jean Eustache

a mãe e a puta

30) O Açougueiro, de Claude Chabrol

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29) Amargo Pesadelo, de John Boorman

amargo pesadelo

28) Solaris, de Andrei Tarkovski

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27) Um Estranho no Ninho, de Milos Forman

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26) Cabaret, de Bob Fosse

cabaret

25) Amarcord, de Federico Fellini

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24) A Viagem dos Comediantes, de Theodoros Angelopoulos

a viagem dos comediantes

23) O Império dos Sentidos, de Nagisa Oshima

império dos sentidos

22) Uma Mulher Sob Influência, de John Cassavetes

uma mulher sob

21) Cada um Vive Como Quer, de Bob Rafelson

cada um vive como quer

20) O Amigo Americano, de Wim Wenders

o amigo americano

19) Noivo Neurótico, Noiva Nervosa, de Woody Allen

noivo neurótico

18) S. Bernardo, de Leon Hirszman

s bernardo

17) Cinzas no Paraíso, de Terrence Malick

cinzas no paraíso

16) Rede de Intrigas, de Sidney Lumet

rede de intrigas

15) Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick

laranja mecânica

14) A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich

última sessão de cinema

13) Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola

apocalypse now

12) Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman

gritos e sussurros

11) Inverno de Sangue em Veneza, de Nicolas Roeg

inverno de sangue

10) Taxi Driver, de Martin Scorsese

De Niro, como Travis, passa suas noites no interior daquele táxi, com diferentes passageiros: com políticos, prostitutas e homens traídos.

taxi driver

9) A Conversação, de Francis Ford Coppola

O protagonista é o paradoxo: ao mesmo tempo plugado em tudo, ao mesmo tempo separado de todos, solitário, fechado em seu próprio universo. E perseguido.

conversação

8) O Espírito da Colmeia, de Victor Erice

A criança assiste o clássico Frankenstein e tem sua vida transformada em plena época da Guerra Civil Espanhola. Obra-prima sobre o universo infantil.

espírito da colmeia

7) Nashville, de Robert Altman

Para Pauline Kael, este é o filme que mais bem revela a loucura da América. Passa-se na cidade-título, com música country e uma campanha política ao fundo.

nashville

6) O Poderoso Chefão – Parte 2, de Francis Ford Coppola

A continuação é tão boa quanto a primeira parte: tem Pacino mais malvado e, de quebra, De Niro como o jovem Corleone pai, sobre os telhados, transformando-se em assassino.

o poderoso chefão2

5) Aguirre, A Cólera dos Deuses, de Werner Herzog

A viagem a lugar nenhum não poderia terminar bem: uma jangada à deriva e o suposto desbravador sozinho, sobre águas escuras, rodeado de macacos, quase morto.

aguirre

4) O Conformista, de Bernardo Bertolucci

É sobre a alienação humana, também sobre a viagem de descoberta de um soldado de Mussolini e a invasão da libertinagem em tempos hostis. O melhor de Bertolucci.

conformista

3) Chinatown, de Roman Polanski

O diretor de origem polonesa realiza um dos grandes filmes noir americano fora do período noir – e ainda faz a inesquecível cena da faca no nariz de Jack Nicholson.

chinatown

2) Quando os Homens são Homens, de Robert Altman

O faroeste gélido de Altman parece às vezes calculado, às vezes livre. Passa-se em um local cheio de lama, com atiradores, cafetões e prostitutas.

quando os homens

1) O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola

Já foi descrito como um filme de salas fechadas, de sussurros, de mortes nem sempre às claras. É uma obra-prima à qual todo mundo recorre, ora ou outra, para lembrar o cinema perfeito. Começa com uma frase irônica – “Eu acredito na América” – e termina com uma mentira.

o poderoso chefão

Os diretores mais presentes na lista:
Quatro filmes: Francis Ford Coppola e Robert Altman.
Três filmes: Bob Fosse, Nicolas Roeg e Rainer Werner Fassbinder.

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Chicago, de Rob Marshall

Tudo se converte em espetáculo na terra em que o show não pode parar. A vida confunde-se com esse espetáculo: ora há músicas, ora há lamentações. A realidade perde a vez, fica pequena, quase desaparece aos olhos do público.

Em Chicago, de Rob Marshall, é assim: um show divertido com tom de crítica, em uma cidade que transforma criminosos em celebridades. Era o tempo de Al Capone, do jazz, de bebidas a regar a noite, de criaturas malvadas que o cinema adorava mostrar.

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Ao centro está uma lourinha Roxie Hart, com o mesmo tipo de Ginger Rogers. Não por acaso, a própria Rogers viveu Hart em um filme de 1942, dirigido pelo mestre William A. Wellman. Ela reúne inocência e maldade, aquele tipo ao mesmo tempo sexy e disposto a se inclinar a qualquer homem que apenas diga um “sim”.

Como ela explica, a certa altura de Chicago, cantando, durante boa parte da vida sofreu com a turma do “não”. Nessa terra de aparentes facilidades, em plena Depressão, todos querem o “sim”: a comprovação de que tudo podem, de que não há impedimentos.

No filme de Marshall, Hart é vivida por Renée Zellweger, que precisou emagrecer para ficar com aquele tipo raquítico, aquele jeito de menina frágil, a quem o pequeno cabelo louro e as mechinhas onduladas servem à perfeição. Nasce então esse belo retrato americano: ingênuo, perigoso, sonhador.

A câmera, na abertura, vai ao fundo de seus olhos, segue a seus sonhos. E quais são eles? Ela deseja se tornar um estrela, cantar nos palcos, ser apresentada, talvez, a um grande produtor disposto a bancá-la, a lhe dar o sucesso.

Mas Hart só poderá chegar a tal sonho quando o crime surge em sua vida. Para estar nos jornais, ela terá de matar, de se tornar uma atiradora e, depois, lutar para vender sua marca e se tornar a excitante assassina, querida da mídia sensacionalista.

Forja-se assim algo acima do bem e do mal: a marca que essa menina terá de sustentar para escapar da forca e, de quebra, encontrar seu meio perfeito: o palco onde tudo pode ser falso e, ao mesmo tempo, prazeroso e recompensador. Ela deseja apenas fingir, fazer o que sabe fazer muito bem, talvez até se aliar a uma inimiga para tanto.

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Nessa América, tudo vale. Como ponte ao sucesso dela está o advogado Billy Flynn (Richard Gere). Dizer que se trata de alguém corrupto é tão desnecessário quanto dizer que Hart está disposta a parecer uma vítima, em público, em alto e bom som. Jogam o mesmo jogo: ele finge gostar do amor, ela finge estar disposta a amar.

Ambos forjam o equilíbrio: falam à imprensa aglomerada como se falassem como santos. Ao fundo, no número musical em que Hart é um ventríloquo de Flynn, todos são manipulados – e a imprensa, coitada, torna-se mera marionete. Todos servem ao show da cegueira enquanto Marshall, em paralelo, apresenta o verdadeiro show.

À espreita está o furacão Velma Kelly (Catherine Zeta-Jones), exato oposto a Hart: morena, sedutora, nada ingênua, mas igualmente assassina. Essas mulheres completam-se sem saber: são seres que alimentam um ramo de atividade no qual o ódio, explicará Velma ao fim, não fará qualquer diferença nos palcos. Tudo termina em show.

Todas as canções dialogam com as situações mostradas. Mais ainda: elas ajudam a narrar a história, como deveria ser em qualquer musical. O filme não tem aquela aparência às vezes anárquica de Cabaret, de Bob Fosse, nem mesmo sua libertinagem. Chicago é mais “limpinho”, mais cômico, aparenta ser mais calculado.

Ainda assim, faz pensar na obra de Fosse, também situada em um período complicado da história da humanidade, na Berlim à beira do nazismo, quando os cabarés – como na Chicago dos anos 30 – serviam de fuga. Bastava abrir os olhos e sonhar. Ou, como parece ser o caso de Hart, deixar que os sonhos entrem ali.

Nota: ★★★★☆