Bruce Beresford

Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford

A pouco simpática Daisy Werthan sente atração pelas palavras do pastor Martin Luther King Jr. e vai a um evento para assistí-lo discursar. Seu motorista negro, Hoke Colburn, fica do lado de fora – mesmo convidado pela patroa a assistir ao discurso – e ouve o líder pelo rádio. No filme todo, esses amigos insistem em se separar.

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Outros momentos salientam divisões. A ela resta a mesa da cozinha; a ele, os fundos, a cozinha dos criados. Conduzindo Miss Daisy cobre anos dessa relação de distância, dessa estranha maneira de se comunicar ora pelo linguajar orgulhoso e rabugento da protagonista, ora pela risada que tanto agrada e adianta a bondade do homem em questão.

Ela é a judia de cabelos sempre presos, fios que só escapam perto do fim, momento em que se abre ao espectador: ironicamente, o fará apenas a um passo da loucura. É quando recorre àquilo que lhe conferia significado – suas aulas para crianças, seus tempos de professora -, contra a vida à espera do tempo, sozinha, ou quase, naquela casa.

O modo como a senhora Daisy encara a câmera, na abertura, permite ver sua força, a certeza de seu lugar como mulher absoluta do espaço; a criada negra, ao contrário, volta os olhos para outro lado, menos para frente. A dona da casa segue para seu carro e, no momento de retirá-lo da garagem, acelera e causa um acidente.

O filho rico, dono de tecelagem, é o simpático esperto e, como a mãe, demora um pouco para conquistar. Ele entende que ela não pode mais dirigir. Contra sua vontade, claro, contrata um chofer. O negro simpático, bondoso, analfabeto e de risada marcante entra em cena. Pavimenta-se, entre conflitos, a amizade inevitável.

O diretor Bruce Beresford compõe seu filme premiado como pintura discreta, drama que repousa sob uma textura amarelada, brilhante, levemente embaçada. Faz disso o passado evidente, o tempo que por pouco não se perde, espaço de dores sem grito, de comédia sem exageros. Corre aí uma relação possível, natural.

Diferente de outros filmes que forçam a aproximação entre lados diferentes, Conduzindo Miss Daisy oferece leveza, a amizade que não precisa do toque ou do conforto da aceitação constante. Em momento esclarecedor, ela vê-se sozinha, alguns minutos, quando ele sai para urinar em um local escuro, na estrada, durante uma viagem.

Dessa sequência ficam duas questões: nos Estados Unidos dos anos 60, negros não podiam usar o banheiro de todos os lugares públicos; Hoke, ao parar o carro e fazer o que precisa, deixa Daisy desarmada, sozinha, com medo, sem que possa contornar aquele momento íntimo e, ao mesmo tempo, sem que possa seguir sozinha. Ao silêncio, espera-o.

Como Hoke, Morgan Freeman não tem respostas, mas não tem medo de perguntar; de certa forma, como em textos do tipo, alguma submissão não causará vergonha. Do outro lado, a Daisy de Jessica Tandy precisa responder, a todo o momento, sob o risco do erro. Gosta de citar as origens pobres, ainda que não as oportunidades de mudança.

Beresford tem talento. Algumas de suas personagens são profundas sem que precisem falar muito, como se viu no ótimo A Força do Carinho. Ao fundo, algo a ser superado, avalanche de dor que esfarela, que não deixa ver seu tamanho, discrição típica de certo drama americano dos anos 1980, o qual muitos fitam com algum desprezo.

(Driving Miss Daisy, Bruce Beresford, 1989)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Green Book: O Guia, de Peter Farrelly

A Força do Carinho, de Bruce Beresford

O título original remete à misericórdia. Também, desde os primeiros instantes, é sobre a redenção de um homem que dorme bêbado, perdido, e acorda quase novo – ou novo o suficiente para tentar mudar e redescobrir a vida.

Após idas e vindas, a nova mulher de Mac Sledge, vivida por Tess Harper, explica que ele voltou a beber durante alguns dias e que a recaída foi superada. À frente, Sledge quase sempre aparece revigorado: quando precisa exagerar, corre com sua caminhonete pela estrada, quase bate, e joga uma garrafa de bebida fora.

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Ele está ao centro do belo A Força do Carinho, de Bruce Beresford. Em tom calmo, o filme leva esse homem à certeza de que viverá para ver o mal dos outros – igualmente a pouca beleza nessa triste paisagem texana.

Ele não é mais o mesmo: seu tempo de pecados passou. Foi, e talvez ainda seja, um cantor de sucesso. Canções românticas indicam o coração mais pulsante do que se espera. Por fora, a aparência de uma rocha, o silêncio de quem está mudando.

A partir do roteiro de Horton Foote, Beresford conta essa história simples mas única: o recomeço de uma vida que deu errado, ou talvez porque o acerto – a fama, o dinheiro, a arte – também tenha seu lado ruim: filhos desajustados, vícios, violência.

É na beira da estrada, em um pequeno motel, que Sledge encontra o recomeço: a nova trilha de que tanto precisava, com a mulher simples e seu filho que diz as coisas certas e não exagera por ser criança. É sereno, reclama pouco, fala quando necessário.

O clima leva a pensar que tudo dará certo, dessa vez, para Sledge. No entanto, grandes homens nunca ficam sozinhos. Seu passado persegue. Um jornalista aparece por ali, certo dia, cheio de perguntas. O protagonista esquiva-se, foge de si mesmo.

A matéria do jornal atesta o que alguns pensavam: Sledge está vivo, em nova vida, perdido para melhor, reencontrado para o susto de todos.

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Ali, naqueles campos abertos, Beresford constrói um poema de solidão, a saída aos que desejam ser esquecidos, mas onde, também, máquinas e pessoas – algumas ruins, outras não – aparecem para lembrar o passado do protagonista.

Sledge tem seus fantasmas: a ex-mulher enriquecida, ainda na estrada da fama; a filha que ele pouco conheceu e que, certo dia, bate à sua porta. Não dá para negar o fascínio que o passado exerce nesse presente de calmarias. Há, ainda, a música.

Quando sai para assistir o show de sua ex-mulher, Dixie (Betty Buckley), Sledge persegue a música, tudo o que representa, o que acreditou ter perdido e ainda passa por sua cabeça: letras que não deixa de escrever.

A Força do Carinho apresenta a típica vida americana, com festas regadas à música country, crianças que brigam por causa do comportamento de suas famílias, lanchonetes com máquinas de música e o Vietnã, ao fundo, com perguntas sem respostas.

O protagonista é interpretado por Robert Duvall em grande momento. Próximo de sua mulher, com a enxada na mão, ele solta questionamentos ao fim: por que as coisas são de uma forma e não de outra? Por que um homem morre no Vietnã e sua filha em um acidente de carro? Ele, um sobrevivente, continua para ver tudo e tentar entender. Faz perguntas em meio ao horizonte perdido. Não tem as respostas.

Dez ganhadores do Oscar que caíram no esquecimento

Alguns ganhadores do Oscar de outras décadas caíram no esquecimento e, hoje, alguns indicados são mais lembrados. O tempo provou isso. Um exemplo sempre citado é Cidadão Kane, derrotado, à época, por Como Era Verde Meu Vale. Quem, em sã consciência, considera o filme de John Ford superior ao de Orson Welles?

E quem prefere Kramer vs. Kramer a Apocalypse Now, derrotado – como O Show Deve Continuar, de Bob Fosse – em 1980? As injustiças do Oscar são tantas que seria impossível numerá-las. Delas, é certo, surgiram alguns vencedores esquecidos, filmes interessantes que, por um motivo ou outro, retornam à cena apenas em tempos de Oscar. Ou nem chegam a tanto. Abaixo, uma lista de dez vencedores pouco lembrados.

1939: Do Mundo Nada se Leva, de Frank Capra

O delicioso choque de comportamentos proposto por Frank Capra dá vez a uma de suas deliciosas comédias dos anos 1930, década em que ganhou três Oscars. Mas não ficou tão lembrada como Aconteceu Naquela Noite, A Mulher faz o Homem e, mais tarde, A Felicidade Não se Compra. Tem seu herói preferido, James Stewart, com aquele tipo conhecido: o bom homem à América do otimismo.

Com quem concorria: As Aventuras de Robin Hood e A Grande Ilusão

do mundo nada se leva

1941: Rebecca, a Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock

Apesar de ser um filme de Hitchcock, seu primeiro em solo americano, nem de longe é lembrado entre seus grandes feitos, como Psicose e Janela Indiscreta. O público, também, não costuma lembrar o mestre do suspense como um ganhador de Oscar, já que, naquele ano, perdeu a estatueta para John Ford.

Com quem concorria: Vinhas da Ira e O Grande Ditador

rebecca

1945: O Bom Pastor, de Leo McCarey

O diretor é mais lembrado por outros filmes, como Cupido é Moleque Teimoso, que lhe rendeu um primeiro Oscar. Já havia dirigido os Irmãos Marx e, ao lado de Bing Crosby, conseguiu uma segunda estatueta de direção por um filme que fez grande sucesso à época. Crosby vive um padre à frente de uma paróquia e tem de lidar com os problemas quando a igreja pode perder seu espaço.

Com quem concorria: Pacto de Sangue e À Meia Luz

bing crosby, gene lockhart & barry fitzgerald - going my way 1944

1948: A Luz é para Todos, de Elia Kazan

Antes de fazer grandes obras como Uma Rua Chamada Pecado e Sindicato de Ladrões, e ainda antes de ser apontado como delator, Kazan fez esse drama modesto sobre racismo, com um repórter que se passa por judeu para descobrir, na pele, os males do antissemitismo. Com Gregory Peck em bom momento.

Com quem concorria: Rancor e Grandes Esperanças

a luz é para todos

1950: A Grande Ilusão, de Robert Rossen

O filme ganhou, mais tarde, outra versão, com Sean Penn no papel principal. Apesar de não ter ganhado qualquer Oscar, essa nova versão certamente é mais lembrada pelo público. Antes, o bonachão Broderick Crawford conquistou corações e mentes no papel de um caipira que chega a um importante posto político e vê-se embriagado pelo poder.

Com quem concorria: Tarde Demais e Quem é o Infiel?

a grande ilusão

1956: Marty, de Delbert Mann

À época, Marty foi o sinônimo do jovem criado pela mãe, trabalhador, boa praça, mas sempre forçado a estar no segundo plano: nenhuma garota interessava-se por ele. Isso logo muda e Marty (vivido pelo querido Ernest Borgnine, morto em 2012) encontra seu par perfeito (Betsy Blair). Surge então uma disputa para conseguir levar à frente seu grande amor. O roteiro é de ninguém menos que Paddy Chayefsky.

Com quem concorria: Férias de Amor e A Rosa Tatuada

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1964: As Aventuras de Tom Jones, de Tony Richardson

O diretor foi um dos responsáveis pela renovação do cinema britânico, cena conhecida mundialmente como cinema livre ou cinema novo. Aqui, contudo, Richardson retorna à literatura para contar, com liberdade, a história do namorador Tom Jones, imortalizado pelo sorriso cínico de Albert Finney. O elenco e a produção britânica são de alto nível, mas o filme, tão premiado, passou da história ao esquecimento.

Com quem concorria: Terra de um Sonho Distante e Cleópatra

 

1969: Oliver!, de Carol Reed

David Lean já havia feito uma versão anterior, com o incrível Alec Guinness. Polanski faria, mais tarde, a sua. Entre as mais conhecidas, a obra de Reed situa-se ao meio: um interessante musical com a história do jovem órfão e suas aventuras por becos, pontes e em más companhias. Era o ano de 2001: Uma Odisseia no Espaço, mas o filme de Kubrick mais confundiu que explicou. A Academia ficou com Oliver!.

Com quem concorria: O Leão no Inverno e Rachel, Rachel

oliver

1981: Gente como a Gente, de Robert Redford

Um dos casos de maior injustiça na história do prêmio: Redford, antes apenas indicado como ator, derrotou Martin Scorsese e sua obra-prima, Touro Indomável. Resultado: apesar do Oscar, o drama familiar de Redford caiu em esquecimento, enquanto o trabalho de Scorsese raras vezes escapa a uma lista de melhores filmes. Timothy Hutton roubou a cena e ganhou o prêmio de coadjuvante.

Com quem concorria: Touro Indomável e O Homem Elefante

gente como a gente

1990: Conduzindo Miss Daisy, de Bruce Beresford

Um caso raro: apesar de premiado como melhor filme, seu diretor sequer foi indicado. Pouca gente lembra-se de Beresford. De seu Conduzindo Miss Daisy, um pouco mais. A obra, contudo, apesar de interessante não caiu nas graças de todo mundo e nem sempre é lembrada. Vale descobrir: mulher idosa torna-se grande amiga de seu motorista negro nos Estados Unidos segregados dos anos 60.

Com quem concorria: Nascido em 4 de Julho e Sociedade dos Poetas Mortos

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