Brian de Palma

Suspiria, de Dario Argento

A menina que atravessa a sala de luzes vermelhas, rumo ao saguão do aeroporto, é frágil desde os primeiros instantes: menina em um país que não conhece, perto de pessoas que não conhece, no meio da noite e da tempestade. Nem o encontro com o taxista é tranquilo. Tudo estranho e fora do lugar. O terror ganha espaço.

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O que move Suspiria, de Dario Argento, é a saída ao desconhecido, o que compõe a fórmula de outros giallos: uma personagem frágil que precisa mostrar força contra os monstros que a rodeiam. Uma história a partir de Cinderela, da menina humilde que prova sua verdadeira natureza à contramão da aparência derrotada.

A moça em questão não poderia ser melhor. Jessica Harper é Suzy Bannion, bailarina que vai à Alemanha dançar em uma escola, ou por uma escola. O filme de Argento prende-se a esse local banhado, desde o início, a puro artificialismo: partindo da primeira vista de sua fachada, o prédio vermelho será fruto de um estúdio, feito ao cênico.

O ambiente é uma estrutura falsa moldada a canhões forrados de lâmpadas e jatos d’água que simulam chuva. É a primeira visão desse castelo curioso, brilhante, de paredes de veludo ora vermelho, ora azul; paredes em que Suzy escora-se para descobertas, como que abraçada por material nada aconchegante, com olhar de medo e descoberta.

Ainda do lado externo, entre o táxi e a porta, Suzy segue nesse movimento de transição, nem dentro nem fora, perdida na tempestade. Uma interna, desesperada, acaba de fugir. Antes de correr pela chuva, fala de um segredo atrás da porta, descoberto apenas no encerramento. Trata-se de uma clara homenagem à obra de Fritz Lang de 1947.

E se trata, ainda mais, de uma representação do próprio cinema: o que há atrás da porta é a descoberta que leva o público (que não escapa à posição da menina) a aceitar o jogo de altos e baixos, de sacudidas e poucos momentos para recuperar o fôlego; é o desejo de encontrar o que outro universo esconde, o desconhecido.

O cinema leva o espectador à “porta fechada”. Não seria isso, por sinal, que move a personagem de Janet Leigh em Psicose? Como a garota de Suspiria, ela embarca em uma viagem de descobrimento, em um jogo de cômodos e casas, de buracos na parede e pessoas estranhas que rodeiam. Não há qualquer segurança no ambiente que penetra.

Hitchcock é uma inspiração constante a Argento. O momento em que Suzy abre a cortina no interior do quarto secreto faz pensar na cena do chuveiro de Psicose; afundada na cama, sob o efeito de remédios, ou de venenos, remete a Interlúdio; e o momento em que se vê um prédio do alto, de dia, aproxima-se de Intriga Internacional.

Argento, como Brian De Palma, não apenas toma. Apesar das referências, seu cinema tem forma e vida própria. Como se vê na Trilogia dos Bichos, ou no monumental Prelúdio para Matar, não esconde exageros, em cores berrantes e cenários suntuosos.

Suspiria poderia se passar não em qualquer lugar, mas apenas na mente dessa menina que, desde o aeroporto, cruza a linha da navalha – na interessante amostra do maquinário da porta automática, ao alto, por onde ela passa. Desde o início está presa ao labirinto, à chuva que não deixa ver o caminho, à floresta percorrida por uma das vítimas, ao castelo embebido em vermelho em que se vê atacada por bruxas.

As luzes fortes levam do calor absoluto, do desejo, da morte, ao estado frio: do vermelho explosivo ao azul ou ao verde. Argento nunca é suave. A partir do livro de Thomas De Quincey, esse grande filme pode ser interpretado como uma luta contra a pureza, da Madrasta contra Cinderela, da Bruxa Má do Oeste contra Dorothy.

(Idem, Dario Argento, 1977)

Nota: ★★★★★

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Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

Raw, de Julia Ducournau

A garota virgem e inocente não demora a se transformar. Para celebrar tal passagem, a câmera de Julia Ducournau lança à tela dois efeitos – um pela lentidão, outro pela proximidade. As imagens lentas, com a exposição dos jovens, da busca pelo prazer, das festas, do medo, são um exercício de estilo cuja beleza não traz nada de novo.

Por outro lado, em Raw, Ducournau tem a proximidade. E é nesse campo que ela dá-se melhor: o momento em que a mesma câmera reproduz o sangue, as feridas, os pelos pubianos prestes a serem retirados em depilação. Se a lentidão afasta, a aproximação conduz o espectador à dor que o filme deseja passar: a chegada da vida adulta.

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Essa fase encontra espaço, não por acaso, com o ingresso na universidade. Justine (Garance Marillier) é vegetariana, pacata, e vai cursar veterinária. A menina ainda se vê contida, aprisionada pelos costumes: não pode comer carne, ou foi educada a não comer. Seu universo, indicam as imagens de abertura, enquanto almoça, é asséptico.

O sangue sobre Justine, despejado nos calouros da universidade, talvez seja apenas tinta. O efeito é o mesmo: os calouros são obrigados a desfilar sujos de sangue. Dá-se assim, desde a chegada, o tom de rompimento ao qual a protagonista é lançada: a descoberta do sexo é simultânea à da carne, o que torna Raw um pouco esquemático.

A menina em cena, em seu rito de transformação, vai da bondade ao terror. Personagens semelhantes foram vistas antes, em outros filmes, como a Carrie de Sissy Spacek em Carrie, a Estranha ou a Nina de Natalie Portman em Cisne Negro. Todas, em determinado ponto, descobrem o sangue – da primeira menstruação, da perda da virgindade.

O vermelho simboliza o rompimento, a condução à vida adulta. Às portas, em cada um desses filmes, a exemplo de Raw, dos problemas com os outros: os meninos que se afastam, as meninas que se enfurecem quando as protagonistas resolvem demonstrar força. São candidatas às “estranhas” da turma, àquelas que se privam da carne.

Pois quando resolvem experimentar terminam em explosão. Os efeitos servem mais ao terror, menos às questões sociais desse experimento. No caso de Carrie, seus super-poderes levam-na ao mal absoluto; no caso de Nina, à descoberta do “cisne negro”, sua experiência com o sangue que jorra do ventre, depois ao gozo e à morte.

No caso de Justine, ao simples prazer da carne. Ou à impossibilidade de negar sua própria linhagem. Nesse ponto, os humanos refletem os animais. O fato de Raw passar-se em uma universidade de veterinária torna a experiência mais interessante. Em algum momento, o espectador questionar-se-á quem são os selvagens dessa história.

A exemplo das personagens de Brian De Palma e Darren Aronofsky, Justine está à sombra do próprio sangue. As outras tinham problemas com mães fanáticas e possessivas. À magra e pequena Justine resta a irmã (Ella Rumpf), entre os veteranos da universidade, a conduzi-la aos problemas, ao mesmo tempo às descobertas.

Na companhia da irmã, Justine descobre a violência. Descobre a necessidade de ingerir carne. Conduz-se assim a uma espiral sem retorno, entre festas regadas às bebedeiras e acidentes – com mortes – à beira de uma estrada, em local afastado. Postam-se ali, como animais selvagens à margem, à espera da carne fresca de algum motorista.

(Grave, Julia Ducournau, 2016)

Nota: ★★★☆☆

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Os sinais de Alfred Hitchcock em O Gato de Nove Caudas

A exemplo de Brian De Palma, Dario Argento seguiu os passos de Alfred Hitchcock. Desde seu primeiro filme, O Pássaro das Plumas de Cristal, o cineasta italiano soube como mobilizar a atenção do espectador e causar medo. Assassinos em câmera subjetiva, personagens mentalmente perturbadas, ligações familiares mal resolvidas e o uso de diferentes recursos visuais levam a pensar no mestre Hitchcock.

Em seu segundo filme, O Gato de Nove Caudas (a segunda parte da Trilogia dos Bichos, encerrada com Quatro Moscas Sobre Veludo Cinza), essa influência fica ainda mais clara, como se vê abaixo.

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A espiral (Um Corpo que Cai)

A imagem da escada, vista em plongée em Um Corpo que Cai, será repetida por Argento em O Gato, mas em oposto, ou seja, em contra-plongée (como se vê abaixo). É o momento em que o homem cego vivido por Karl Malden desce das escadas do prédio, após conversar com uma das futuras vítimas do assassino.

Para Hitchcock, a espiral reproduz a vertigem da personagem central (James Stewart). Mas não só: é também a representação de seu mergulho no universo da personagem feminina, o mergulho em seu redemoinho, sua aproximação à morte. Em outro momento, a mulher vivida por Kim Novak reproduzirá a espiral também em seu cabelo.

Em Argento, a espiral pode representar o esmagamento, a estrutura (aqui captada com lente grande angular) de um universo maior que a personagem, que ainda ousa atravessá-lo. Também funciona como a representação do caminho oposto àquele que leva ao paraíso, à luz vista no alto da imagem.

O copo de leite (Suspeita)

Em uma das cenas mais famosas criadas por Hitchcock, Johnnie (Cary Grant) leva leite para sua amada, a protagonista de Suspeita (Joan Fontaine). O leite em questão talvez esteja envenenado. O espectador assiste ao movimento de Grant pela escada e o copo é iluminado a partir de seu interior, ganhando destaque.

Em O Gato, o espectador já sabe que o leite está envenenado. No momento em que o protagonista (James Franciscus) leva a bebida para a companheira (Catherine Spaak), Argento aproxima a câmera dos dois copos, com foco curto, dando destaque aos objetos. É uma clara referência ao filme do mestre inglês.

A face da vítima (Psicose)

Após levar diversas facadas, naquela que talvez seja a sequência mais conhecida da carreira de Hitchcock (e do cinema), Marion Crane (Janet Leigh) permanece caída no chão do banheiro. Em Psicose, a câmera aproxima-se de sua face, de seu olho.

Uma das vítimas do assassino agoniza pouco antes de morrer enforcada em O Gato. Argento capta o desespero dessa mulher, Bianca (Rada Rassimov), com sua saliva e seus últimos suspiros enquanto mantém a face colada ao chão. Ainda que as câmeras sejam colocadas em diferentes posições, difícil não enxergar semelhanças entre o filme de Hitchcock e o de Argento. Outro encontro entre mestre e pupilo.

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Identidade, duplos e os labirintos da alma (em 22 filmes)

O reino de máscaras e cópias encontra no cinema um espaço privilegiado. São muitos os filmes que fazem essa abordagem, com personagens divididas, a confrontar o outro, estranho e não raro inerente. A lista abaixo traz filmes de diferentes épocas, alguns baseados em autores famosos, levando o espectador a labirintos e sem respostas fáceis.

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O Grande Gabbo, de James Cruze e Erich von Stroheim

O diretor Stroheim interpreta a personagem-título, ventriloquista que entra em confronto com seu próprio boneco, Otto, sua outra face, seu contato com o mundo feito de festas e amores, de sequências musicais nos palcos da Broadway. Dois lados de um mesmo homem, cujo embate poderá levá-lo à miséria, também à loucura.

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O Médico e o Monstro, de Rouben Mamoulian

A clássica história baseada no livro de Robert Louis Stevenson. Fredric March ganhou seu primeiro Oscar como Henry Jekyll e o oposto, o senhor Hyde, o homem e o monstro, sob os cenários e a câmera subjetiva utilizada na abertura – e segunda a qual todos os espectadores também se tornam parte daquele homem, ou daquela criatura.

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O Homem que Nunca Pecou, de John Ford

Filme menos lembrado do mestre Ford, com Edward G. Robinson em papel duplo: o funcionário padrão que nunca chega atrasado ao trabalho, também o bandido mais temido na cidade. Claro que as duas figuras a certa altura se encontrarão, e claro que a provável troca de papéis gerará situações curiosas. Vale a descoberta.

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Um Corpo que Cai, de Alfred Hitchcock

Após não conseguir salvar a mulher amada, o detetive de James Stewart vê a possibilidade de transformar “outra” mulher na anterior. Aos poucos, ele descobre que se trata da mesma. Obra-prima de Hitchcock com Kim Novak na pele da loura misteriosa Madeleine Elster e, depois, na da morena Judy Barton.

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Quando Duas Mulheres Pecam, de Ingmar Bergman

O próprio Bergman considerava Quando Duas Mulheres Pecam – ou Persona, como é também conhecido – um de seus filmes mais completos. É o encontro de duas mulheres, depois isoladas em uma ilha, a atriz Elisabet Vogler (Liv Ullmann), que emudeceu, e a enfermeira falante Alma (Bibi Andersson), em um poderoso jogo de máscaras.

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O Segundo Rosto, de John Frankenheimer

Homem poderoso contrata uma organização para simular sua própria morte. Ele deseja mudar de vida e se tornar mais jovem. Na nova roupagem, com seu segundo rosto, ganha a forma do galã Rock Hudson. No entanto, a mudança trará consequências. O grande thriller de Frankenheimer banha-se no clima da Guerra Fria.

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Peppermint Frappé, de Carlos Saura

O título refere-se à bebida servida nos encontros das personagens. Saura aproxima-se de Buñuel, do surrealismo, com seus tambores de Calanda, e explora uma história às raias do absurdo. É sobre um homem impotente que tenta transformar uma mulher em outra, a morena em loura atraente, a exemplo do já citado Um Corpo que Cai.

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Partner, de Bernardo Bertolucci

Baseado em O Duplo, de Dostoievski, é o filme do cineasta italiano que mais se aproxima do clima político de 68, com seus jovens contestadores e a estrutura que flerta com Jean-Luc Godard. O estudante ao centro, interpretado por Pierre Clémenti, tem suas convicções abaladas quando passa a ser confrontado por seu duplo.

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Performance, de Donald Cammell e Nicolas Roeg

Antes dos extraordinários A Longa Caminhada e Inverno de Sangue em Veneza, Roeg dividiu com Cammell a direção desse filme conectado com seu tempo, sobre um gângster (James Fox) que, em fuga, pinta o cabelo e termina na grande casa de Turner (Mick Jagger). Com doses de psicodelia, eles começam a se fundir.

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Irmãs Diabólicas, de Brian De Palma

A história de uma mulher que perdeu sua irmã siamesa após a separação dos corpos. Fica a cicatriz, a marca do rompimento em um filme curioso do arquiteto De Palma, sempre se banhando no universo de Alfred Hitchcock. Há o voyeurismo nas sequências da janela, quando a jornalista observa um assassinato, e também a dupla personalidade.

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Profissão: Repórter, de Michelangelo Antonioni

A personagem de Jack Nicholson, repórter desiludido, vê a oportunidade de mudar de vida: ela assume a identidade do homem no quarto ao lado, em um hotel, em um ponto remoto do globo. Antonioni volta ao campo da identidade nesse belo filme. O encerramento é inesquecível: a câmera percorre o quarto e atravessa as grades da janela.

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Três Mulheres, de Robert Altman

O filme de Altman deve algo a Quando Duas Mulheres Pecam, de Bergman, e insere ainda uma terceira figura feminina. Aborda a relação de duas mulheres (Shelley Duvall e Sissy Spacek) quando passam a trabalhar juntas em uma casa de repouso e quando uma tenta se tornar a outra. Altman, em grande momento, propõe um enigma.

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Gêmeos – Mórbida Semelhança, de David Cronenberg

Os gêmeos de Cronenberg compartilham a mesma profissão e a mesma ciência: a ginecologia. Mas ambos expõem suas diferenças, o que aumenta o clima destrutivo, ajudado pela mulher entre eles, a misteriosa Geneviève Bujold. Um dos grandes trabalhos do diretor de Videodrome: A Síndrome do Vídeo e Marcas da Violência.

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A Dupla Vida de Véronique, de Krzysztof Kieslowski

A ideia é curiosa: todas as pessoas teriam um duplo em algum lugar do mundo. A protagonista e sua cópia são vividas por Irène Jacob. Ainda no início, uma consegue ver a outra, em um ônibus, enquanto a segunda fotografa seu duplo sem saber. O resultado é mais um trabalho exemplar de Kieslowski, aqui em sua primeira incursão pela França.

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Clube da Luta, de David Fincher

Incluir o filme de Fincher nesta lista é correr o risco de revelar muito. Seu protagonista é alguém sem caminho (Edward Norton), que descobre na violência um novo sentido para a vida. E descobre que essa busca pode, a certa altura, ganhar proporções inimagináveis – enquanto segue atormentado pela figura de Brad Pitt.

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Cidade dos Sonhos, de David Lynch

Duas mulheres, uma loura e uma morena, faces da mesma moeda, na Hollywood delirante de Lynch. Ao que parece, começa como sonho, com a chegada de uma jovem atriz (Naomi Watts) a Los Angeles e os problemas de outra (Laura Harring), que sofreu um acidente e perdeu a memória. Para muitos, o ponto alto da carreira do diretor.

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Adaptação, de Spike Jonze

Outro sobre o mundo do cinema. Aborda as relações de um roteirista (interpretado por Nicolas Cage, e que pode ser o próprio Charlie Kaufman) com seu duplo, seu gêmeo que sempre aparece para soltar palpites sobre sua vida. Detalhe: o roteiro desse filme inventivo é assinado por Charlie Kaufman e um inexistente Donald Kaufman.

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O Rabo do Tigre, de John Boorman

O protagonista, um empresário, descobre que seu duplo vive pelas ruas e representa o outro lado do sistema capitalista em questão: é seu gêmeo que foi deixado para trás, que, diferente dele, não teve as mesmas oportunidades. A aparência kafkiana dá espaço à abordagem social. O duplo retorna para atormentar o protagonista endinheirado.

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O Homem Duplicado, de Denis Villeneuve

Muitos cinéfilos consideram o filme incompreensivo, com passagens absurdas, como o encerramento com a aranha gigante no interior do quarto. Os tons pastéis salientam um clima de sonho, a cercar o público de dúvidas. E o protagonista, vivido por Jake Gyllenhaal, almeja ser como seu duplo, um ator de vida movimentada.

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Viva a Liberdade, de Roberto Andò

Político atingido por pressões de todos os lados decide desaparecer. Seu partido, na Itália, decide colocar seu irmão gêmeo no seu posto. O que poderia ser um desastre torna-se uma vitória: o outro fala o que vem à mente e logo se torna um sucesso com o eleitorado. E, como costume, há uma (dupla) interpretação acertada de Toni Servillo.

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O Duplo, de Richard Ayoade

Jesse Eisenberg serve bem à personagem, rapaz impotente que tenta se aproximar de uma bela moça (Mia Wasikowska), no trabalho, e que passa a ser atormentado por seu duplo. A cópia representa tudo o que ele não é, e talvez tudo o que sonhasse ser. Mais uma adaptação direta de O Duplo, de Dostoievski, e em um universo surreal.

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Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância), de Alejandro González Iñárritu

Ator tenta provar que pode dar a volta por cima, com uma peça séria na Broadway, enquanto é atormentado pelo passado: a personagem que ele viveu no cinema, o herói Birdman, retorna para cobrá-lo, para salientar sua fraqueza nesse labirinto de atores, parentes, nesse meio em que todos tentam se entender e no qual tudo parece efêmero.

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Profissão: Ladrão, de Michael Mann

Os cofres arrombados por Frank (James Caan) não são o principal obstáculo em Profissão: Ladrão. Seu problema tem a ver com sua necessidade de independência, ao não se alienar a alguns chefões do crime. Ele quer ter seu próprio negócio.

Alguém como ele, um autônomo, não se importa em ganhar um pouco menos em nome da livre circulação entre clientes: é da própria natureza de sua nação, os Estados Unidos, esse desejo. E o filme de Michael Mann é sobre esse espírito livre.

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E não menos sonhador: o anti-herói aproxima-se do público – mesmo com seus ataques de violência – quando demonstra desejo pela vida confortável, o sonho americano. Quer uma bela casa, uma bela mulher, um filho – de preferência, um menino.

Frank preserva o faro dos empreendedores liberais, dos homens que se sentem bem ao olhar o oceano, pela manhã, após uma noite de arrombamento, ao lado de um velho homem que pesca por ali. A imensidão reproduz um caminho de possibilidades.

Na noite anterior, Frank abriu um cofre com a participação de seus dois parceiros fiéis. Seu trabalho é braçal. O filme todo se concentra em seus movimentos, em seu prazer em executar o crime. Mann aposta nesse esforço, em um bandido distante da malícia dos batedores de carteira do metrô: é um americano “trabalhador”, esforçado.

Ao abrir um desejado cofre, ao fim, ele faz questão de se sentar, observar aquele feito, a sujeira e a bagunça, enquanto fuma seu cigarro. Contente com a ação, apenas observa, com o rosto de felicidade voltado a nada. Talvez haja mais do que dinheiro em jogo.

Não ter acesso à personagem faz parte da construção do filme. O pouco que se sabe surge em uma história contada para sua companheira. Tudo o que Frank aprendeu sobre crimes se deve a outro bandido com quem conviveu na prisão. Foi detido por causa de 40 dólares. Matou outro homem na cadeia, acabou ficando mais tempo por ali.

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Ele tenta reduzir o tempo perdido ao confessar à nova companheira, em um único encontro, todos seus planos, suas metas, ao passo que ela rende-se àquele “batalhador”, àqueles olhos típicos de um empreendedor apaixonado, ao modo americano.

Oferece a ela, interpretada por Tuesday Weld, uma vida estável, um sonho. Logo, ao perder o interceptador que negociava seus materiais furtados, o anti-herói vê-se obrigado a fazer negócios com os homens do “andar de cima”. Leia-se: criminosos que encaram o jogo como uma velha instituição sólida e verticalizada.

A fotografia de Donald E. Thorin reproduz uma Chicago quase sempre opressiva, gélida, de luzes que recaem sobre o asfalto molhado, que refletem na lataria de carros enfileirados no outro negócio do protagonista, também um vendedor.

As imagens confrontam o homem em busca do paraíso. Nada remete a algo saudável, e não estranha se vier à mente a imagem da personagem de Al Pacino em O Pagamento Final, Carlito, que, em preto e branco, enxerga o oceano estampado em uma publicidade na estação de trem, no início e no término do filme de Brian De Palma.

Como Carlito, Frank busca a saída. A dificuldade reside no vício dos outros, no redemoinho do qual não escapa: há sempre alguém a fazer um convite para o último golpe. Os sonhos logo se dissolvem. À personagem de Caan resta aceitar ser quem sempre foi, como o estilo de vida do qual não se despregou: o de um criminoso.

(Thief, Michael Mann, 1981)

Nota: ★★★★☆

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