bordel

Ádua e Suas Companheiras, de Antonio Pietrangeli

Salta à frente, primeiro, a ternura. A maneira como vivem e se relacionam quatro mulheres em um novo negócio, um restaurante. O antigo ruiu: elas eram prostitutas, atuavam em bordéis antes da lei proibi-los na Itália. Fosse outro filme ou abordagem, talvez elas tivessem retornado logo ao antigo. No entanto, gostaram do novo. Transformaram-se.

Nos poucos dias em que vivem à frente do restaurante, quando têm poder maior e trabalham mais, ainda estarão à sombra de um homem em Ádua e Suas Companheiras. Há por trás um patrocinador, o verdadeiro dono do restaurante. Criminoso de ternos e carros caros, ele deseja maquiar ali um novo prostíbulo. À espera de clientes, as mulheres ficarão nos quartos, no andar superior do restaurante, em local afastado.

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Ádua é Simone Signoret, a mais velha e experiente entre elas. Em momento marcante, ela lembra seus dias de prostituta na guerra, quando homens faziam fila para tê-la nos braços. Em outro momento, a personagem de Emmanuelle Riva, Marilina, recorda que a idade de Ádua pesa contra ela e que no passado a mulher perdeu um filho.

Mulheres como Ádua carregam a história na forma, uma prostituta com ternura, por isso mesmo da estirpe de figuras inexistentes como a Cabíria de Federico Fellini. Não precisam contá-la. Apenas alguns indicativos, algumas frases perdidas entre brigas, dão conta de preencher o que o espectador precisa: Ádua viveu uma vida de problemas e deseja mudar.

Ao restaurante ela segue com três amigas, também prostitutas: a já citada Marilina, a corpulenta Milly (Gina Rovere) e a desavisada Lolita (Sandra Milo). Pouco a pouco, sob a direção precisa de Antonio Pietrangeli, que entre seus roteiristas tem Ettore Scola, é possível ver o que move essas mulheres, ao passo que a Itália transforma-se.

A começar pelo moralismo. Como em Rua da Vergonha, de Mizoguchi, as leis indicam a transformação, e para muitos a prostituição não é mais aceita como trabalho. Mas as mulheres precisam encontrar formas para sobreviver. Ao fim, o filme indica o pior: para muitas, o fechamento das “casas de tolerância” representou a saída à sarjeta, sob a chuva.

A prostituição não terminaria. As mulheres em cena tentam sobreviver a ela. O restaurante, o véu do novo prostíbulo, é a forma de resistência encontrada. E elas não precisam declarar as delícias dessa nova vida difícil, da cozinha à mesa dos clientes. O filme não esconde os caminhos sinuosos, o trabalho árduo. O que se vê é apenas a nova porta.

E a forma de Pietrangeli leva à Itália passada, ainda feita de prédios que se erguem, de homens honestos e, sobretudo, de prostitutas que buscavam na Igreja – como Cabíria – uma forma de redenção, além de deixarem ali algumas lágrimas. Tem mais a ver com o Fellini anterior a A Doce Vida, com a ternura que não exclui a tragédia.

Signoret e Riva lançam-se à tela como italianas. Não possuem as expressões das mulheres típicas àquele ambiente. Ainda assim conseguem a adaptação, a malícia, a explosão e, claro, a inocência de figuras comuns a essa Itália pós-guerra. A personagem de Signoret, como no famoso Almas em Leilão, reconhece que seu tempo passou.

Seu amante, o malandro vendedor de carros vivido por Marcello Mastroianni, mostra que ainda é possível se enganar. E que a mulher forte seria vencida pelo círculo vicioso e masculino de seu meio: o belo amante não deixaria escapar a menina mais nova; o espaço das prostitutas, a rua, seria então seu destino final, pior que qualquer bordel.

(Adua e le compagne, Antonio Pietrangeli, 1960)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Divinas Divas, de Leandra Leal
Rua da Vergonha, de Kenji Mizoguchi

Jovem e Bela, de François Ozon

A jovem e bela protagonista não expressa sentimentos com facilidade. Sua frieza incomoda. Em sua primeira experiência sexual, com um belo rapaz alemão, à beira-mar, ela volta o olhar para o céu, para o lado; vê a si mesma, como se outra parte de seu ser a encarasse, a fizesse sentir vergonha. Talvez seja o momento em que descobre a ausência do prazer.

Ou, em Jovem e Bela, de François Ozon, não sentir o prazer que esperava sentir. Vive naquele amor de verão sua primeira decepção: o mundo ao redor, afinal, não é belo ou colorido como uma casa de bonecas, os irmãos mais novos não são tão inocentes quanto parecem, as mães e os padrastos não são corretos como deveriam.

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A mesma jovem que vive, ou não, esse amor de verão, uma adolescente um pouco sem rumo, prefere radicalizar: torna-se prostituta aos 17 anos. Vivida por Marine Vacth, Isabelle torna-se Léa, cresce alguns centímetros com o scarpin, veste terninho, solta os cabelos, diz ter 20 anos. É a garota dos desejos – e sonhos – de muitos homens mais velhos. Faz sucesso.

A verdadeira – sabe-se lá se existe, ou quem é – usa roupas de colegial, jeans, jaqueta um pouco longa, prende os cabelos e, perto da mãe e do padrasto, parece sempre menor, encolhida, às vezes criança. Vacth segue o conselho de Ozon: mantém-se em silêncio para provocar esse choque, para abrir essa possibilidade de transformação.

A referência à Bela da Tarde de Luis Buñuel vai muito além do título: como a musa Catherine Deneuve, a adolescente de Ozon conserva duas características: prostitui-se na parte da tarde e não esconde a indiferença em relação aos outros e aos seus sentimentos (parece ser má, mas talvez seja apenas fria e direta, ou real).

Isabelle busca mais do que dinheiro em suas investidas na prostituição. Ao seu psicólogo, mais tarde, confessa sentir prazer no perigo que a profissão carrega, a aventura que a leva sempre a um novo quarto, a um novo homem, ao inesperado. Não se trata apenas de buscar prazer ilimitado e com dinheiro; para Isabelle, a prostituição permite viver fora de seu “círculo perfeito”, o da aparente família perfeita.

E, nesse ponto, faz pensar de novo na personagem de Deneuve na obra de Buñuel: a menina rica, casada com um médico correto, em uma grande casa, que passa suas tardes em um bordel discreto, em Paris, para escapar da vida monótona e realizar suas fantasias. Mas no mundo de Isabelle permite-se ainda maior esconderijo. Graças à internet, os encontros são marcados a distância. Dispensa-se o ambiente do bordel.

Na ausência dos sentimentos da protagonista, Ozon oferece personagens secundárias frágeis, a começar pela mãe, interpretada por Géraldine Pailhas. A mãe tenta entender a opção da filha, tenta resolver seu “problema”, às vezes levando o espectador ao caminho mais cômodo e o retirando do mistério da personagem central. Ozon expõe uma normalidade ilusória. Como bem sabe Isabelle e o espectador de Jovem e Bela, a mãe também esconde segredos.

(Jeune & jolie, François Ozon, 2013)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
8 Mulheres, de François Ozon

À beira da estrada, perdidas no mapa

À beira da estrada, postos de combustível são pontos de encontro, de chegada e de partida em O Céu de Suely e Baixio das Bestas. São locais de prostituição e homens anônimos nos filmes do cearense Karim Aïnouz e do pernambucano Cláudio Assis. Ambientes que reproduzem encontros passageiros e impessoais, promiscuidade e decadência.

É em um posto, ainda no início de O Céu de Suely, que chega a protagonista, Hermila (Hermila Guedes), com o filho no colo. Cruza a estrada e espera por sua carona à sombra da estrutura metálica do local. Voltou de São Paulo com a criança e sem o marido, que deverá retornar depois. Os dias passam, ele não vem. Hermila descobre-se sozinha.

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E volta, outras vezes, à beira da estrada, aos espaços do posto de combustível. Lava carros e vende rifas para ganhar algum dinheiro. Observa outra mulher, uma prostituta, descendo e subindo de caminhões. Homens pouco importam. São as mulheres que ganham espaço, sem julgamentos precipitados, nesse belo filme de Aïnouz.

A estrada, com paisagem ao infinito e a lugar algum, oferece sempre uma saída: a certa altura, Hermila vai à rodoviária e pergunta quanto custa a passagem para o lugar mais longe dali. Trata-se de outro ponto do Brasil. Hermila precisa de dinheiro para fugir, para mudar, também para garantir algo melhor ao filho. Seu sucesso, claro, é incerto.

Hermila, certa noite, em conversa com um rapaz, entre beijos sem compromisso, pura curtição, diz que vai se rifar. A brincadeira embalada à bebida ganha corpo: no dia seguinte, ela decide levar a ideia à frente. Torna-se ela própria o produto à beira da estrada, pelo posto, ou pelos bares da cidade: ao ganhador da rifa, uma “noite no paraíso”.

Nessa fase de descobrimento, Hermila envolve-se com outro homem, interpretado pelo sempre ótimo João Miguel, alguém de dor presa aos olhos, ao silêncio, à forma do homem comum. E é nele, mais do que nela, que se vê como é gestado o drama de Aïnouz: pouco a pouco, entre um golpe ou outro, a dor vem à tona, inclui até gestos loucos.

João, ao saber que Hermila está rifando o próprio corpo, tornando-se prostituta, persegue-a e diz estar disposto a comprar todos os números da rifa, inclusive o bilhete premiado. Palavras de desespero, de amor, enfim, do homem que parecia não ter nada. Talvez nem todos estejam dispostos a servir ao papel da personagem passageira.

É no posto de combustível, depois, que Hermila encontra-se com o ganhador da rifa. Um homem qualquer, sem presença frente à câmera. Importa ela, seu inegável mal-estar, seus movimentos mecânicos, o início e o fim de um trabalho em apenas uma noite, a prostituição, igualmente uma amostra de lealdade àqueles que compraram a rifa.

Aïnouz assegura um tom entre delicadeza e raivosidade, nunca deixando a primeira perder para a segunda. É um filme próximo ao melodrama, cuja vida pessoal ao centro não deixa sumir a sociedade ao fundo – seja para punir a protagonista, seja para desejá-la. Em Baixio das Bestas, por outro lado, a impressão é sempre de perda, de raivosidade.

A vítima da vez é a adolescente Auxiliadora (Mariah Teixeira), exposta nua pelo avô aos caminhoneiros que pagam para olhá-la, depois para tocar seu corpo. A menina – nem criança nem mulher adulta – está rendida à pressão do avô inválido, com gesso no pé e bengala. Tal homem, mesmo fraco, impõe a força como um velho coronel autoritário.

O fim de Auxiliadora não será dos melhores. É possível supor desde o início. À beira da estrada, ela, jovem prostituta, toma cerveja com um caminhoneiro. É a nova sensação dos homens que frequentam o espaço. Antes, enquanto vivia com o avô, a menina caminhava por estradas enquanto caminhões lotados de cana-de-açúcar cruzavam seu caminho.

Outras personagens surgem por ali. Rapazes violentos, prostitutas à espera de clientes, boias-frias que ainda resistem ao fechamento das usinas. A certa altura, entre idas ao bordel e estupros, as personagens esbarram-se, revelando um país do qual extraem à força o máximo que podem, quebrado e retorcido como a cana sobre a boca do trabalhador.

Assis, sabem seus fãs, não é inclinado a concessões. Prefere um país verdadeiro, de figuras incorretas, xingamentos, baladas, violência, prostituição com naturalidade. Suas personagens não dão vazão ao apego: falta ali uma Hermila, ou uma Suely, ainda que não demore para o público perceber que algum gesto de compaixão é impossível.

Ambos os filmes são de 2006. Hermila Guedes é protagonista em O Céu de Suely e faz um pequeno papel em Baixio, justamente o de uma prostituta. O primeiro foi filmado em Iguatu, no Ceará; o segundo em Nazaré da Mata, Pernambuco. Cidades diferentes que, à época, representavam na tela um Brasil perdido no mapa, sob o som do forró, do corte da cana, com o movimento de caminhoneiros e prostitutas. Convites à despedida.

(Idem, Karim Aïnouz, 2006)
(Idem, Cláudio Assis, 2006)

Notas:
O Céu de Suely: ★★★★☆
Baixio das Bestas: ★★★☆☆

Foto 1: O Céu de Suely
Foto 2: Baixio das Bestas

Veja também:
Mulheres em metamorfose

Mulheres em metamorfose

À primeira vista, as personagens femininas de David Neves são livres em atos ou pensamentos. Uma delas, em seu longa-metragem de estreia, é Helena, que vive em Diamantina e tem a história lembrada por um casal de amigos. Outra, Lúcia McCartney, é uma prostituta loura, magra, bela, que adora dançar e passar algumas horas na praia.

Ambas, em Memória de Helena e Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa, são traídas pelos próprios sentimentos. Talvez não sejam tão livres quanto pareçam. E ambas, em dois filmes curiosos, econômicos, servem a um Brasil ora dos fundos, da roça, ora da cidade grande, do Rio de Janeiro de tipos inclinados à poesia e a Beatles.

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São duas nações que às vezes se encontram, e com a feliz mise-èn-scene de Neves, direta, sem floreios, cuja poesia não deixa escapar a simplicidade cotidiana, cuja morte registrada é feita com segura distância. As pessoas do campo são recatadas, silenciam seus instintos; as da cidade deixam ver, ao gosto da comédia da época, os tipos malandros e soltos.

Memória de Helena é um marco. Talvez em tom menor, ainda que grande. É parte do cinema novo. Em metragem, é pequeno, rápido, feito de narrações, da fusão entre os “filminhos” que cortam a obra e trechos do diário de Helena, reavivados pelo casal de amigos.

Helena, interpretada por Rosa Maria Penna, liberta-se antes em palavras. Seus atos levam a um só, final, desesperado, por isso mesmo tratado com distância. O drama, para Neves, é um pouco assim: tem a segurança dos grandes diretores da época, sem se aproximar da reflexão de um Antonioni ou da explosão de algum realizador mais politizado.

Neves estava ao meio. Sua Helena sofre por não ter escolha (ainda que descubra, ao fim, a última e necessária), vê inspiração na fêmea do louva-a-deus (que “devora o macho depois do amor”), como também na forte lutadora do circo ancorado em sua cidade.

Diamantina, por sinal, é a cidade da infância de Neves. O cineasta retorna ao terreno que conhece para contar essa história com toque nostálgico, das meninas que circulavam entre pequenas casas, calçadas estreitas, leves, flutuando. “A Helena de Neves está abandonando a infância, percebe que não tem vocação para a vida conjugal, é saturada pela província, tiranizada pela mãe, pelas tias, pela avó”, observa a crítica Andrea Ormond.

Nos almoços de família, Helena não destoa apenas devido à idade. A diferença é abissal: ao contrário das outras mulheres, presas aos seus papéis, a menina deseja se libertar. E liberdade maior, contestadora, será vista na aproximação à amiga Rosa (Adriana Prieto). Na cama, elas chegam a ensaiar um beijo, ou chegam mesmo a se beijar.

O filme é sobre memória, também sobre intimidade. A tentativa de penetrar esse universo feminino prestes a se rasgar, o da menina que não tem o amor da outra – tão solta que cai nos braços de um rapaz qualquer, sem importância – e traída justamente pelo amor passageiro, que poderia, em outro caso, ser apenas a aproximação ao viajante.

Antes de se envolver com o repórter André (Joel Barcellos), Helena aproxima-se de Renato (Arduíno Colassanti), que assiste aos filmes e lê o diário da protagonista na companhia de Rosa. Mas é com André que Helena chega à desilusão, ao sentimento de perda. O jornalista “deflora” a moça e depois vai embora, toma um avião e desaparece.

A moça, ou mulher, termina sem nada, uma entre várias que se renderam às promessas – sem qualquer garantia – do galanteador da cidade grande. Se Helena é vítima desse caso passageiro, do amor por alguém um tanto boçal, Lúcia McCartney termina apaixonada por um de seus clientes, certamente não o mais belo entre eles.

Em Memória de Helena, o crítico Antonio Gonçalves Filho vê um “diagnóstico um tanto sombrio do Brasil”. “Atolado em seu provincianismo rural e sintonizado com o mundo através de antenas parabólicas, esse Brasil de sexualidade ambígua como a de um anfíbio quer imitar a modernidade das grandes metrópoles, mas não consegue esquecer que tem um pé na roça. Tristes e confusas cabeças tropicais.”

O Brasil de Lúcia McCartney, livre desse “provincianismo rural”, ironicamente prova a liberdade pelo absurdo, à beira da comédia, ou inserido quase todo nela. E esse Brasil é ainda dividido pelas meninas do bordel no qual se desenrolam algumas cenas da segunda parte do filme, local de mineiras, paulistas, baianas e cariocas.

O roteiro é de Rubem Fonseca, autor dos dois contos que servem à adaptação (em Memória de Helena, Neves trabalha com outro gigante das letras, Paulo Emílio Sales Gomes). A primeira história leva à Lúcia, vivida por Adriana Prieto; a segunda, ao advogado na pele do eterno malandro – o Bandido da Luz Vermelha – Paulo Villaça.

Lúcia adotou o sobrenome de um dos Beatles e é fã da banda. Talvez esconda mais inteligência do que parece. Em uma festa, critica os paulistas e, a um deles, que “gostam de resolver tudo com o dinheiro”, fala sobre Kafka e seu A Metamorfose. Termina apaixonada justamente por esse cliente, como uma Helena levada pelo homem sem atrativos.

O universo de Lúcia é regado a esconderijos, festas, facilidades, o que torna o amor deslocado: sem este, ela terminará refugiada na ficção da vida do bordel, vivendo outra identidade, com peruca preta, a ser resgatada justamente pela personagem de Villaça. Segundo os letreiros finais, o bordel é o espaço da ficção. No caso de Lúcia, é fuga e metamorfose. Diferente de Helena, ela preferiu viver.

(Idem, David Neves, 1969)
(Idem, David Neves, 1971)

Notas:
Memória de Helena: ★★★★☆
Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa: ★★★☆☆

Foto 1: Memória de Helena
Foto 2: Lúcia McCartney, Uma Garota de Programa

Veja também:
Hector Babenco (1946–2016)