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13 Minutos, de Oliver Hirschbiegel

Os nazistas não entendem, em 13 Minutos, como um homem pode ter executado sozinho um atentado contra Adolf Hitler. Para eles, trata-se de uma conspiração com muita gente envolvida, o que justifica o sucesso do inimigo, ou quase.

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Descobrem, surpresos, que esse “exército de um homem só” voltado a eles – e contra o líder nefasto – é composto por um tipo curioso, de aparência pacata, rapaz que viveu boa parte da vida no campo. Como outros de sua geração, Georg Elser (Christian Friedel) assistiu à ascensão nazista com medo. 13 Minutos é sua história.

A História (com maiúscula) entrega o resultado: caso a bomba colocada tivesse matado Hitler, os rumos do mundo seriam outros. Basta saber um pouco sobre o passado para descobrir que não deu certo: o líder alemão deixou o local da explosão 13 minutos antes de a bomba ser acionada. O atentado matou outras pessoas que estavam no local.

A narrativa leva, entre dois tempos, ao olhar de Elser a um passado não tão distante e aos momentos nos quais é encurralado pelos nazistas. Batem cabeça enquanto o rapaz não mente, ou enquanto o filme de Oliver Hirschbiegel compra a versão oficial.

Nela, o “exército de um homem só” quase chegou lá. O plano ambicioso inclui uma bomba escondida no pilar ao lado do púlpito que serviu ao discurso do ditador, algumas porções de pólvora furtadas e tempo para calcular o atentado.

Ao retornar aos passos iniciais de Elser em sua relação com o nazismo, Hirschbiegel expõe o sentimento de outras pessoas: a apreensão dos alemães que viam o aumento do radicalismo entre suas fronteiras, a emergência dos nacionalistas que se reuniam para assistir filmes caseiros que louvam a beleza do povo alemão.

Elser tem um flerte com um grupo comunista, jovens camisas pretas inclinados a pequenos atentados. Resiste a pertencer a um lado, o que confunde os nazistas. Envolve-se com uma mulher casada, indo, a certa altura, viver na sua casa, onde ela mora com o marido beberrão e violento.

Sua justificativa para o atentado é simples: ele crê na liberdade. Matar Hitler seria uma forma de frear a onda de sangue a cobrir a Alemanha e toda a Europa. O herói só aceita confessar o crime e dar detalhes quando os nazistas prendem sua família.

Hirschbiegel oferece contornos conhecidos, o “drama sobre nazismo”, seguido pelas caricaturas de sempre: a amante livre, a secretária bondosa e o inimigo covarde. Nem Elser destoa do bolo: seria, em outro caso, o excluído, herói por acidente em um filme cômico; é aqui um deformado a confrontar os vilões.

O clima do início, quando as memórias retornam, revela o rapaz ao sol, à beira de um lago, ao som de músicas, observando belas meninas que se banham por ali. O paraíso logo chegaria ao fim: Elser é obrigado a se engajar e, quem sabe, dar cabo do führer.

(Elser, Oliver Hirschbiegel, 2015)

Nota: ★★★☆☆

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Cinco momentos inesquecíveis de A Marca da Maldade

Alguns filmes têm tantas sequências poderosas que é difícil eleger cinco. Caso de A Marca da Maldade. Abaixo, cinco momentos vivos na memória de qualquer cinéfilo mostram o brilho da obra, com diálogos cortantes, movimentos de câmera perfeitos e o clima meticulosamente construído pelo diretor Orson Welles.

A obra aborda a corrupção policial na fronteira entre México e Estados Unidos, terra quase sem lei em que o honesto Vargas (Charlton Heston) confronta o já calejado Quinlan (Welles), que fez escola com sua forma de agir. Às sequências.

“Eu tenho um ‘tic-tac’ em minha cabeça”

Durante o inesquecível plano inicial, a garota no carro, na passagem do México para os Estados Unidos, diz ouvir o “tic-tac” da bomba no porta-malas. As autoridades e o motorista – provável amante – não lhe dão ouvidos. Segundos depois, a bomba explode.

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As dinamites na caixa

Quinlan precisa fazer valer sua “lei”. Antes de plantar dinamites como provas falsas em uma caixa, o mesmo objeto seria visto por Vargas, que pôde conferir que não havia qualquer dinamite em seu interior. É o início do embate entre os policiais.

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A curra

Talvez o momento mais perturbador, quando a mulher de Vargas, Susan (Janet Leigh), é abusada no quarto do motel – com a passagem de Mercedes McCambridge entre jovens de gel no cabelo e jaqueta, os delinquentes, com a revelação de que deseja ver tudo.

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O futuro de Quinlan

Pouco antes do fim, Quinlan ainda tem tempo para o último encontro com a cigana interpretada por Marlene Dietrich. Tem-se talvez o diálogo mais duro: ao pedir pela previsão de seu futuro, Quinlan ouve que não o tem. “Você já gastou o seu futuro.”

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A ironia final sobre a bomba

A revelação de quem teria plantado a bomba, na abertura de A Marca da Maldade, não é o mais importante. A obra de Welles é sobre o conflito entre policiais. Ao fim, contudo, vem a revelação de que o autor da explosão é justamente quem não se pensava: o homem que Quinlan acusou. Gigante ironia para fechar essa obra-prima.

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Três perguntas sobre Orson Welles

Alguns itens inesquecíveis de dez filmes de Alfred Hitchcock

Ao manipular o espectador e guiá-lo ao suspense, Alfred Hitchcock entregou ao público detalhes marcantes e até passageiros. Alguns ajudam a entender o termo McGuffin, provavelmente criado pelo mestre do suspense.

Ou seja, o que é vital para as personagens, mas que não serve de combustível à trama e às necessidades do espectador – como a estatueta de Intriga Internacional e talvez o dinheiro roubado pela Marion Crane de Psicose. Na lista abaixo, há ainda outros detalhes levados à frente por Hitchcock e inesquecíveis ao olhar de qualquer cinéfilo.

O pincel de barbear (O Homem que Sabia Demais)

Um homem simples é avisado de que algo importante está escondido em um pincel de barbear, no banheiro do hotel. É apenas o início de um caso de intriga e sequestro.

o homem que sabia demais

Os rolos de filme e o pacote com a bomba (Sabotagem)

O próprio diretor lamentou a explosão da bomba. Nessa obra estranha, ele mostra os últimos momentos da vida de uma criança: sua passagem por ruas lotadas e com a bomba no ônibus.

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O nome da desaparecida (Froy) no vidro do trem (A Dama Oculta)

A protagonista não entende o nome de uma senhora simpática, devido ao barulho do trem. É quando resolve escrevê-lo no vidro – mais tarde, o sinal para saber que não enlouqueceu.

a dama oculta

O copo de leite (Suspeita)

Estranho ver Cary Grant como vilão, levando um copo de leite para a mulher, talvez para matá-la. É o momento mais famoso do filme, no qual Hitchcock colocou uma luz dentro do copo.

suspeita

O anel de esmeralda (Sombra de uma Dúvida)

A menina ingênua ganha um anel de seu tio assassino. A inscrição no objeto, feita com iniciais, ajuda a heroína a descobrir a verdadeira face do homem estranho, em passagem por sua casa.

sombra de uma dúvida

A chave em poder de Alicia (Interlúdio)

O vilão nazista esconde urânio em sua adega, em sua casa na Argentina. Nesse covil de bandidos, a bela moça tem de pegar a chave da adega e conduzir o herói ao sucesso.

interlúdio

Os sapatos que se esbarram (Pacto Sinistro)

Antes de aceitarem cometer crimes trocados, os homens esbarram seus sapatos no interior de um trem, momento sutil em que a relação deles sugere mais que acordos verbais.

pacto sinistro

O cabelo preso de Madeleine (Um Corpo que Cai)

O protagonista, vivido por James Stewart, compara o cabelo de sua perseguida à imagem de um quadro, em um museu. A imagem também remete à espiral de seus pesadelos, à sua vertigem.

um corpo que cai

A estatueta comprada no leilão (Intriga Internacional)

De novo, o vilão esconde planos secretos no interior de um objeto e, de novo, um homem simples envolve-se com perigosos espiões em tempos de Guerra Fria.

intriga internacional

O jornal com o dinheiro escondido (Psicose)

Antes de o assassino levar o jornal, Hitchcock trabalha o suspense como poucos: ele observa o quarto, limpa cada espaço, dá fim ao cadáver da mulher. E não deixa o jornal por ali.

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Os cinco melhores filmes de Stanley Kubrick

A certa altura de sua carreira, Stanley Kubrick passou a dirigir dois ou mesmo um filme por década. Esses poucos filmes mostraram-se desafiadores, ousados, como é o caso de seu capítulo final, De Olhos Bem Fechados, incompreendido por parte da crítica e do público em 1999, em seu lançamento. Antes, voltou-se ao Vietnã em Nascido Para Matar, ao terror em O Iluminado. Uma carreira que explorou diferentes gêneros e teve início com filmes de baixo orçamento.

5) Glória Feita de Sangue (1957)

Antes de levar Kubrick ao épico Spartacus, Kirk Douglas viveu o honesto coronel Dax. Nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, ele tenta defender três soldados condenados à morte, acusados de covardia. O filme carrega uma poderosa mensagem contra a guerra, comparável à de obras como Sem Novidade no Front, também ambientada na Primeira Guerra.

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4) Barry Lyndon (1975)

Na primeira parte, Barry (Ryan O’Neal) recebe sempre um empurrão do destino, o que faz sua vida dar certo: ele sobrevive à guerra, tem nos braços belas mulheres, prospera. Na segunda parte tem início sua derrocada: Barry casa-se, rende-se aos jogos, e tudo, aos poucos, passa a dar errado. Visualmente, o filme é um espetáculo, com fotografia à base de luz natural.

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3) Dr. Fantástico (1964)

Tudo pode dar errado com homens no comando. Sempre haverá um lunático para apertar o botão. Pior: sempre haverá um lunático com poder para tanto. Todo o restante – quase o filme inteiro – é sobre os esforços inúteis para reverter essa infeliz escolha. Ou seja, para vencer os códigos e as máquinas que os próprios homens criaram. A comédia de Kubrick deu luz ao melhor retrato da Guerra Fria.

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2) Laranja Mecânica (1971)

O futuro oferece, de novo, um beco sem saída. De um lado, a liberdade para saquear, estuprar, matar. De outro, a prisão que tira do homem sua força – ao passo que ele torna-se a vítima do saque, do estupro, de todos que estão dispostos a matá-lo. Aqui, Kubrick trabalhou com a versão americana do livro de Anthony Burgess, que possui um capítulo a menos que a britânica e não inclui a reintegração de Alex à sociedade.

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1) 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968)

A fronteira final é o nascimento. O filme leva ao contato com essa fronteira, quando a busca do astronauta – à cama e cadavérico, vislumbrando o monólito preto – coloca-o em contato com o planeta que nasce, o círculo que se fecha. Em paralelo, os astronautas têm de enfrentar a máquina, o computador assassino, em outro caso de futuro que não deu certo – como Dr. Fantástico e Laranja Mecânica. Melhor começar de novo.

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