biografia

A diferença entre teatro e cinema, segundo Marlon Brando

Se alguém resolvesse produzir uma peça como se produz um filme em Hollywood, seria expulso do palco sob gargalhadas. Nas peças da Broadway os atores e diretores passam cinco ou seis semanas reunidos falando sobre motivação, discutindo o roteiro e os personagens, repassando a história, examinando o palco, procurando abordagens diferentes; só então acabam montando o espetáculo. Depois levam a peça para Schenectady ou New Haven, veem como o público reage, acertam os detalhes e oito semanas depois voltam para Nova York e fazem a pré-estreia. Finalmente, quando tudo já foi montado, remontado e aprimorado, há uma noite de estreia. Em Hollywood geralmente há uma reunião de negócios em que a conversa é só a respeito de dinheiro, “objetivos” e “participação nos lucros”. Então o ator recebe um roteiro e a ordem de ir para o estúdio já sabendo o papel; daí em diante, fica praticamente por conta própria. Raramente os diretores de filmes dão ao ator sequer uma vaga sugestão de como ele deve representar o personagem.

(…)

No teatro é possível modificar a ênfase de uma cena, estabelecer o ritmo e determinar quais os principais pontos emocionantes de uma peça com base na reação do público das cidades do interior. Mas no cinema o diretor diz “corta” e “copie” e pronto. Na moviola, se eles quiserem, fazem picadinho de tudo. O ator não tem nenhum controle, a menos que tenha experiência suficiente para saber fazer o jogo, assumir e atuar apenas como quiser.

Marlon Brando, ator, na autobiografia Brando – Canções que Minha Mãe Me Ensinou, co-escrita por Robert Lindsey (Editora Siciliano; pgs. 172 e 173). Abaixo, Brando nas filmagens de Uma Rua Chamada Pecado.

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Bastidores: A Dama de Shanghai

À medida que as filmagens prosseguiam, problemas com o roteiro começaram a atrasar a produção. Não restava mínima dúvida de que Rita depositava total confiança no imenso talento de seu marido, sob cuja direção ela começou a dar uma interpretação sincera, provocante e sutil da personagem que encarnava. Havia muita afeição entre os dois (Rita chamava Welles de Papa e ele a chamava de Mama), porém o filme já havia estourado o orçamento e também as previsões do cronograma de trabalho. Cohn [o produtor Harry Cohn] estava irado, mas permitiu que Orson prosseguisse livremente.

A Dama de Shanghai foi o único filme em que Rita Hayworth morre em cena. A sequência é o ponto alto da história: Rita leva um tiro e cai no chão lutando para viver, gritando: “Não quero morrer”.

[A colunista] Hedda Hopper se encontrava no set no dia em que a cena foi filmada. “Welles estava limpando o chão com Rita. De acordo com a minha cartilha, não é esta a melhor maneira de se manter um casamento.” Hopper esqueceu-se de mencionar a interpretação magnífica de Rita.

Anos depois, perguntaram a Rita Hayworth por que motivo ela havia causado tantos atrasos na produção de A Dama de Shanghai. Quem fez a pergunta observou que Rita ficava doente com muita frequência. A atriz retrucou: “Eu nunca estive doente. O coitado do Orsie é quem ficou doente por causa do Harry Cohn”.

Joe Morella e Edward Z. Epstein, na biografia Rita, A Deusa do Amor (Editora Nórdica; pg 112). Abaixo, Rita e o então marido Orson Welles nas filmagens de A Dama de Shanghai, que ele, com comum maestria, dirigiu.

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Bastidores: Wilder e Monroe

Caso se queira escolher a cena mais típica de Hollywood, entre todos os grandes filmes típicos de Hollywood, esta seria certamente a cena de Marilyn sobre o respiradouro do metrô de Nova York, com o vento provocado pelo trem lhe levantando o vestido, e sua feição maravilhosa, à vontade e libidinosa – este seria o ícone de Hollywood, o leitmotiv de MM, o nascimento de uma nova Vênus sobre o poço de ventilação do metrô, uma nova Vênus surgindo do mar de sonhos do cinema.

E caso se queira recordar o papel em que Marilyn é mais Marilyn: uma figura emocionante e um clichê, sentimental e prática, bêbada e sóbria, enganada e ardentemente amada, uma tolinha e uma mulher com um coração infinitamente sábio, uma cômica capaz de arrancar lágrimas, uma garota que canta que o amor já passou para ela no momento em que volta a se apaixonar. Marilyn é uma figura ora falsa, ora verdadeira…

o pecado mora ao lado

Verdadeira: quem fala é Sugar Kane, a tocadora de guitarra e cantora da orquestra feminina em que Jack Lemmon e Tony Curtis têm de se esconder. Aqui, Marilyn é inteiramente ela mesma, e inteiramente arte cômica. Billy Wilder elaborou todas as contradições e conflitos dela para torná-la uma figura imortal. Quanto Mais Quente Melhor é o melhor filme de Marilyn Monroe, porque não é absolutamente um filme de Monroe, mas um filme de Wilder.

Hellmuth Karasek, na biografia do cineasta Billy Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura (Editora DBA; pgs. 396 e 397). Abaixo, os bastidores de O Pecado Mora ao Lado, na famosa cena do respiradouro do metrô, e Quanto Mais Quente Melhor.

quanto mais quente melhor

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Marilyn, por Norman Mailer