Billy Wilder

A história por trás da cena do respiradouro do metrô

A filmagem da cena que fiz com ela [Marilyn Monroe] sobre o respiradouro atraiu a atenção de todo mundo. Havia 20 mil pessoas, o trânsito estava um caos, houve uma crise conjugal [refere-se às brigas da atriz com seu então marido, Joe DiMaggio].

(…)

Joe DiMaggio estava em Nova York quando filmamos a cena do respiradouro na Lexington Avenue e provocamos aquele inimaginável ajuntamento de gente. Ele estava num bar algumas quadras acima, com um amigo, o investidor nova-iorquino George Solitaire. O colunista Walter Winchell os arrastou então para o local da filmagem, onde DiMaggio não somente ouviu os gritos sujos ou encorajadores da multidão, como também viu (teve de ver!) como Marilyn estava gostando daquela exibição pública. Admito que eu também ficaria um pouco preocupado se 20 mil pessoas estivessem observando uma única coisa: o vestido de minha mulher subindo acima de sua cabeça. Quis a ironia que eu tivesse de refilmar uma tomada da cena no estúdio – o respiradouro não trazia ar suficiente, nem mesmo quando instalamos um ventilador suplementar.

Billy Wilder, diretor de O Pecado Mora ao Lado, que contém essa cena, considerada uma das mais icônicas do cinema americano. O relato está na biografia de Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura, de Hellmuth Karasek (Editora DBA; pgs. 399 e 400).

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Mulher de Verdade, de Preston Sturges

Levado pela rapidez de Mulher de Verdade, o espectador chega a Quanto Mais Quente Melhor, comédia de Billy Wilder do fim dos anos 50. Recordará a sequência da festa regada à bebida, entre beliches, os corpos que sobem e descem pelo espaço, no trem em movimento.

O mesmo espaço pode ser visto no filme de Preston Sturges. Wilder não teria motivos para esconder a inspiração pelo cenário, pelo desenvolvimento da comédia no mesmo meio de transporte: o cineasta austríaco nunca escondeu sua paixão pelo americano nascido em Chicago, cujo salto da produção de roteiros para a direção de filmes, no início dos anos 40, foi fundamental para que outros artistas fizessem o mesmo – Wilder entre eles.

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Nem a comédia de aparência leve deixa esconder certa radicalidade: em Mulher de Verdade, Sturges coloca um bando de caçadores – confundidos com cavalheiros – pelos vagões do trem, com armas e cães, atrás da protagonista em fuga. Os homens embriagados atiravam para todos os lados, antes, na cabine em que estavam.

Não por acaso, esse tipo de comédia é chamada de “maluca”. Sturges, no momento em que a comédia americana passa da década de ouro para a década atrofiada por questões sociais (a da guerra, a do filme noir, a da mulher dominadora e malvada), renova o gênero ao olhar ao passado: seus trabalhos retiram algo da comédia muda. Sobre o cineasta, Georges Sadoul diria: “Renovou a comédia ligeira americana, em 1940, por um recurso à tradição de Mack Sennett: gags visuais, grandes piadas”.

Está por ali, e não ao acaso, o lendário Chester Conklin, que com Chaplin atuou nas comédias físicas de Sennett. Movido a essa loucura, à forma desregrada, talvez seja possível entender por que Sturges não cabia em Hollywood – ou apenas supor que o gênio chegou um pouco atrasado. Sua comédia dava um passo além se comparada às guinadas sociais de Capra, sendo a antessala às investidas ao sexo exploradas depois por Wilder.

Em Mulher de Verdade, é a mulher de Capra, a Claudette Colbert de Aconteceu Naquela Noite, que ganha protagonismo. A história passa-se depois do casamento, momento em que essa mesma mulher questiona sua posição na relação a dois: acredita, como deixará claro ao marido, que é apenas um empecilho, uma pedra em seu caminho.

Seria a deixa de Sturges: ela precisa se separar dele, o bonachão sempre interessante vivido por Joel McCrea, para escapar ao mundo. Pouco necessária a desculpa elaborada em detalhes, com profundidade: eis a comédia de movimento, em que os sentimentos mudam pouco ou nada o sentido do golpe, da queda, do engano.

Casais trocados, cães latindo, falsos senhores bondosos, amigos gays tratados como animais de estimação. O dinheiro não vale muito, ainda que possa comprar bobagens, ou algum diamante. E a mulher, veja só!, não tem problema algum em assumir seu desejo pela pedra brilhosa comprada pelo milionário que com ela deseja se casar.

Gerry Jeffers (Colbert) deseja casar com um ricaço para bancar o invento de seu amado Tom (McCrea). Pisará na cara do escolhido, quebrará seus óculos – ainda na cena dos beliches. Sturges, como em Natal em Julho, encontra a forma para rir da riqueza e de seus seres sem muita graça, pensativos demais, ou levados demais aos prazeres do momento.

O pretendente que tudo anota em um caderno, sem qualquer atrativo, representa o oposto ao sonhador encarnado por McCrea. Ninguém duvida que a mulher em fuga render-se-á ao segundo, o marido, ainda que fosse preciso correr muito, atravessar uma nação, para se ver seduzida pelo diamante comprado pelo submisso milionário.

Antes de fugir, a protagonista oferece sua justificativa: “Sou um carro que faz 10 quilômetros com tanque cheio, mas que não tem o tanque cheio”. O roteiro talvez não faça tanto sentido. Não importa. Sturges transfere o público de volta à comédia livre de décadas anteriores, na qual os supostos comportados colocavam tudo a perder.

(The Palm Beach Story, Preston Sturges, 1942)

Nota: ★★★★☆

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Natal em Julho, de Preston Sturges

O slogan parece pouco à altura da vitória, e talvez seja: “Se você não dormir à noite, não é o café, é a cama”. À comédia genial de Preston Sturges, serve à perfeição: seu criador, interpretado por um Dick Powell na medida, nasceu para dizê-lo, para fazê-lo parecer uma grande ideia no espaço do absurdo, com vazão à crítica social.

De rosto avantajado, feito à felicidade, Powell faz o público sofrer ainda mais quando descobre que sua vitória foi apenas uma brincadeira: ele vê-se ao centro de uma farsa que pouco a pouco revela a verdade das pessoas ao redor, é o homem sonhador que se senta ao alto de um prédio para lançar à amada suas ideias, à luz da cidade grande.

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É o bom camarada dos anos 30, aqui na entrada da década seguinte, sob a influência de certa sofisticação que incluía a crítica inescapável de Sturges ao mundo veloz, feito de fantasia, banhado à propaganda. O homem sonhador seria, fácil prever, engolido pela maldade: alguém a viver a riqueza por um dia, ou por poucas horas.

E ainda que o interessante Jimmy MacDonald (Powell) possa ser o grande vencedor, seu provável talento é colocado em dúvida. Da crença de que poderia chegar ao topo ele passa à constatação de que foi lançado, de novo, ao fundo do poço. O filme termina antes que seja levantado. O filme é uma comédia sobre perdedores, sobre cobiça.

O movimento de câmera, na abertura, dá esses sinais: de cima para baixo, das luzes da cidade aos amantes sobre o prédio, da estrutura gigante aos humanos que inegavelmente interessam mais. Ao lado de Jimmy está sua amada (Ellen Drew), futura mulher, que ainda arrisca ouví-lo como se os sonhos e frases proferidos tivessem sustentação.

Curioso como é, o filme não esconde a farsa de seu encerramento: claro que esse camarada amável merece o paraíso, o prêmio, em caminho oposto à cegueira dos poderosos e ambiciosos ao lado. No fundo, ele deseja mais o reconhecimento por seu trabalho do que os vários dólares do cheque polpudo dado ao vitorioso.

Ainda assim, não demora a cair na farra, a viver como deve viver um homem rico: faz o dono da empresa de café responsável pelo concurso acreditar que ele é o vencedor. Gasta boa parte do prêmio com brinquedos para as crianças do bairro, com móveis para a família, com o anel de brilhantes para a amada, nos preparativos para o casamento.

Acreditou na própria glória ao ser vítima da brincadeira de três amigos que com ele dividem uma sala de mesas enfileiradas, cheia de homens debruçados sobre máquinas e números, em visual que faz pensar em A Turba, de King Vidor, e que certamente antecipa Se Meu Apartamento Falasse, de Billy Wilder (que adorava Sturges).

São, como Natal em Julho, reproduções da loucura americana. Mas o filme de Sturges ainda oferta uma fuga: não é tão duro ou ácido como os outros. Essa crítica social tem mais comédia, embrenha-se no jeito e na forma de seres dos quais o público ainda duvida quando se trata da maldade. São seres moles, aos quais ainda resta, talvez, o coração.

O problema, diz Sturges, está na notícia, na publicidade, no poder da voz e da farsa: em todo o emaranhado de erros que leva alguém a acreditar estar no topo (tenha talento ou não), que leva o patrocinador do prêmio a crer na honestidade do homem com o suposto bilhete premiado, que leva as pessoas do bairro pobre a saudarem o novo Papai Noel.

Ao acreditarem que Jimmy é o vencedor do prêmio, os figurões acreditam também que ele é um gênio. É automático: de sua boca, qualquer slogan idiota parecerá perfeito. É o mal da crença absoluta nos vencedores, o que sustenta essa sociedade de aparências, na qual todos – ou quase – querem fazer negócios: a pior das sentenças tornar-se-á marca. Sturges, ao dar vez à história do homem simples convertido em estrela, ri da crença cega no sucesso.

(Christmas in July, Preston Sturges, 1940)

Nota: ★★★★☆

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Regras de Preston Sturges para uma comédia de sucesso

1) Uma moça bonita é melhor que uma feia
2) Uma perna é melhor que um braço
3) Um quarto é melhor que uma sala
4) Uma chegada é melhor que uma partida
5) Um nascimento é melhor que uma morte
6) Uma perseguição é melhor que uma conversa
7) Um cão é melhor que uma paisagem
8) Um gatinho é melhor que um cão
9) Um bebê é melhor que um gatinho
10) Um beijo é melhor que um bebê
11) Quando alguém cai de bunda no chão é melhor que todo o resto

As regras foram publicadas na biografia do também cineasta Billy Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura, de Hellmuth Karasek (Editora DBA; pg. 183). Abaixo, o cineasta Preston Sturges com a atriz Barbara Stanwyck durante as filmagens de As Três Noites de Eva.

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Dez grandes cenas em que as mulheres dominam os homens

Há inúmeras grandes cenas que abordam a dominação feminina no cinema. São momentos nos quais elas – à base da palavra, do olhar, do movimento – colocam os homens aos seus pés. São belas mulheres. Algumas, perigosas. E alguns deles, é verdade, percebem que estão pisando em terreno arenoso. Ainda assim vão em frente. Abaixo, uma lista com dez títulos e dez momentos inesquecíveis.

Nos dos bastidores (A Caixa de Pandora, de Georg Wilhelm Pabst)

A impressão de libertinagem, de leveza, explode na tela. Ao centro está a bela Lulu de Louise Brooks, cujo cabelo tigelinha seria copiado inúmeras vezes nas décadas seguintes. A cena de dominação ocorre nos bastidores de uma peça da qual a protagonista faz parte. É ali que mobiliza todos os olhares, de figuras masculinas e femininas, do elenco ou entre os visitantes. De frágil ela migra à predadora.

A “feiticeira” da cidade (Aurora, de F.W. Murnau)

Ela é descrita nos créditos como “a mulher da cidade”. O suficiente para entender sua função: enfeitiçar o homem do campo e fazer com que mate a própria mulher. É apenas o início da obra-prima de Murnau. Do lado de fora da casa, ela chama pela homem. Ele sofre em dúvida. Ela está próxima ao muro feito de pedras. Sob a luz da lua, ele caminha à amante. O plano-sequência é magnífico. Ele rende-se à mulher.

A dama do palco (Marrocos, de Josef von Sternberg)

A parceria entre o diretor von Sternberg e a estrela Marlene Dietrich rendeu grandes momentos e filmes. O que a bela faz em Marrocos – que, é verdade, não se trata do melhor filme da parceria – seria visto, com alguma diferença, no anterior O Anjo Azul. É quando ela, no palco, fisga o olhar do jovem soldado vivido por Gary Cooper. Ousada, chega a beijar outra mulher, como parte do show, como provocação.

“Ponham a culpa em Mame, rapazes” (Gilda, de Charles Vidor)

A essa altura, ao som de “Put The Blame On Mame”, os homens já conhecem Gilda. Já se dobraram aos seus encantos. É verdade: nunca houve uma mulher como ela. Para confirmar, canta e dança, flerta com todos, coloca cada um a seus pés. Ousa retirar a luva como se retirasse tudo. Desenrola-a pela pele, lentamente, enquanto canta. No fim, ainda retira a outra luva e lança ao público, que vem abaixo.

O batom pelo chão (O Destino Bate à Sua Porta, de Tay Garnett)

Com um lenço na cabeça, inteira de branco, Lana Turner tem uma entrada triunfal. É a dama que usará o homem recém-chegado, John Garfield, para matar o marido. Antes se tornam amantes. Ele não resiste aos seus encantos. Nessa primeira aparição, ela deixa cair o batom, que rola até os pés dele. O objeto indica o caminho até a dama, parada na porta, a encarar seu futuro companheiro nesse grande filme de Garnett.

Menina da alta roda (Um Lugar ao Sol, de George Stevens)

A bela e jovem Elizabeth Taylor não faz esforço algum. Está, nesse primeiro encontro, de passagem. Na verdade, é ele que a encontra. Seu olhar evidencia o desejo pelo que parece inalcançável: o novo mundo que pouco a pouco passa a conhecer, e no qual habita uma certa Angela Vickers. Ao olhar para trás, à moça que acaba de entrar na grande casa, o jovem vivido por Montgomery Clift deixa ver tudo.

Boneca de carne (Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder)

A cena é clássica. Os dois homens, vestidos de mulher, assistem à dama desfilar pela estação de trem. Jack Lemmon e Tony Curtis, procurados pelos mafiosos, conhecem ali a bela Sugar Kane, um pouco burra, irresistível, e que domina todas as cenas à maneira de Billy Wilder: Marilyn Monroe. Ao passar pelos homens, na mesma estação, a fumaça faz com que ela dê um salto à frente. O momento é mágico.

A mulher do outro (O Conformista, de Bernardo Bertolucci)

O comparsa diz uma frase importante ainda no início: “Precisa tentar entender as mulheres”. O fascista impotente vivido por Jean-Louis Trintignant não consegue. A mulher em questão é Dominique Sanda. O protagonista deve matar o marido dela, um subversivo. Antes que chegue a tanto, vê-se envolvido no momento em que se conhecem, quando ela impõe força com o cigarro à boca, a ele e a outros convidados.

Como Veronica Lake (Los Angeles: Cidade Proibida, de Curtis Hanson)

Na Los Angeles da era clássica, gângsteres mesclam-se a estrelas de Hollywood. Nos prostíbulos de luxo, mulheres são sósias dessas mesmas estrelas, e servem seus clientes, antes, com o sonho. Ao se deparar com a atraente e misteriosa Lynn Bracken (Kim Basinger), em uma loja de bebidas, ainda no início, o policial durão interpretado por Russell Crowe rende-se à musa. Toda sua fraqueza, de repente, é exposta.

Em casa de família (Ponto Final, de Woody Allen)

O protagonista poderia, em outro caso, ser um perdedor. Poderia se render o tempo todo àquela mulher. Quem viu o filme sabe que seu destino é moldado às reviravoltas. Ele resiste. Mas, no início, esse professor de tênis fraqueja frente à bela: ele, Jonathan Rhys Meyers, encontra Scarlett Johansson na casa de sua nova família. É a namorada de seu futuro cunhado. A atração entre ambos é imediata. Ela sabe de seu poder.

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