Billy Wilder: E o Resto é Loucura

A história por trás da cena do respiradouro do metrô

A filmagem da cena que fiz com ela [Marilyn Monroe] sobre o respiradouro atraiu a atenção de todo mundo. Havia 20 mil pessoas, o trânsito estava um caos, houve uma crise conjugal [refere-se às brigas da atriz com seu então marido, Joe DiMaggio].

(…)

Joe DiMaggio estava em Nova York quando filmamos a cena do respiradouro na Lexington Avenue e provocamos aquele inimaginável ajuntamento de gente. Ele estava num bar algumas quadras acima, com um amigo, o investidor nova-iorquino George Solitaire. O colunista Walter Winchell os arrastou então para o local da filmagem, onde DiMaggio não somente ouviu os gritos sujos ou encorajadores da multidão, como também viu (teve de ver!) como Marilyn estava gostando daquela exibição pública. Admito que eu também ficaria um pouco preocupado se 20 mil pessoas estivessem observando uma única coisa: o vestido de minha mulher subindo acima de sua cabeça. Quis a ironia que eu tivesse de refilmar uma tomada da cena no estúdio – o respiradouro não trazia ar suficiente, nem mesmo quando instalamos um ventilador suplementar.

Billy Wilder, diretor de O Pecado Mora ao Lado, que contém essa cena, considerada uma das mais icônicas do cinema americano. O relato está na biografia de Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura, de Hellmuth Karasek (Editora DBA; pgs. 399 e 400).

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Regras de Preston Sturges para uma comédia de sucesso

1) Uma moça bonita é melhor que uma feia
2) Uma perna é melhor que um braço
3) Um quarto é melhor que uma sala
4) Uma chegada é melhor que uma partida
5) Um nascimento é melhor que uma morte
6) Uma perseguição é melhor que uma conversa
7) Um cão é melhor que uma paisagem
8) Um gatinho é melhor que um cão
9) Um bebê é melhor que um gatinho
10) Um beijo é melhor que um bebê
11) Quando alguém cai de bunda no chão é melhor que todo o resto

As regras foram publicadas na biografia do também cineasta Billy Wilder, Billy Wilder: E o Resto é Loucura, de Hellmuth Karasek (Editora DBA; pg. 183). Abaixo, o cineasta Preston Sturges com a atriz Barbara Stanwyck durante as filmagens de As Três Noites de Eva.

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Farrapo Humano, de Billy Wilder

O homem em questão, embriagado, não tem poder sobre si mesmo. Cambaleia, vive às sombras, furta uma bolsa para conseguir dinheiro, depois chega a roubar uma garrafa de uma loja como se estivesse armado. Não está. Ainda não. Basta o olhar de Ray Milland, o embriagado em questão, para que o balconista entregue a garrafa.

Depois de Farrapo Humano, de Billy Wilder, o “bêbado” passou a “alcoólatra”. Sinal dos tempos. Não que não fosse necessário falar de alcoolismo e seus males. O filme de Wilder é um retrato forte sobre o problema, passado em apenas um fim de semana e na companhia do homem entregue à própria sorte, sem poder sobre o corpo e a mente.

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Um filme que chamou a atenção do público, da crítica e dos prêmios. Um filme que terminou imortalizado – ou quase isso – devido à coragem de se colocar como um divisor de águas. Até então, existiam os bêbados felizes. Farrapo Humano levou ao alcoólatra prestes a tomar a arma e puxar o gatilho, preso às sombras da grande cidade.

Em Billy Wilder: E o Resto é Loucura, Hellmuth Karasek aponta à transformação, ao cinema antes e depois do filme: “No cinema, os bêbados eram esperados em casa por suas mulheres, que ficavam à espreita atrás da porta, com o rolo de macarrão na mão”. Os bêbados faziam sucesso. Chaplin ganharia fama e fortuna no papel do descontrolado Vagabundo, com pouca força para sustentar o peso, ainda assim leve, engraçado em sua forma trôpega.

Em Farrapo Humano, um certo Don Birnam eleva-se à tela como um monstro: expande os braços um pouco ao alto, firma os lábios para dizer palavras que o levam a pontos do outro lado do mundo, o olhar que borbulha de paixão enquanto encara, como se fosse o último gole, o pequeno copo de bebida posto sobre o balcão. Não fraqueja: vira inteiro.

O destino do alcoólatra, de todas suas certezas a todas suas fraquezas, aos tropeços, ao crime, à miséria, ao hospital para ser trancado, depois aos braços de alguma dama disposta a amar esse novo vagabundo. O triste retrato de um certo homem da cidade, um como tantos, a quem resta encarar a cidade da janela, a grande metrópole.

Pois Wilder voltaria à grande cidade em Se Meu Apartamento Falasse, de 1960. Algo aproxima esses filmes. São irmãos. Um como drama profundo, sobre aprisionamento; o outro como comédia sobre o ridículo da vida moderna, no qual homens assemelham-se a formigas, gente que encontra o prazer, de novo, em algum bar ainda aberto em pleno Natal, para se escorar no Papai Noel igualmente à beira do balcão.

O homem moderno, diz Wilder, não vive. Soçobra. Escora-se. Precisa de alguma injeção de ânimo constante, de alguma fórmula para o lábio não tombar – o que Milland faz com maestria. O roteiro é conhecido: da ideia de força, com o copo à mão, passa à fraqueza absoluta, à escuridão do cômodo e aos delírios com pequenos animais.

Se por momentos a cidade é filmada de maneira realista, em outros as sombras levam Farrapo Humano ao campo expressionista. A trilha sonora assemelha-se à de um filme de ficção científica, chega mesmo a incomodar o público, como se martelasse ali a estaca que atinge a mesma personagem, o que lhe imobiliza o filme inteiro.

Estranho jogo em que o movimento não permite que se saia do lugar. É a amostra maior do problema retratado, da passagem do bêbado para o alcoólatra. Se antes o Vagabundo de Chaplin era capaz de flutuar, o homem moderno de Milland vê-se em lama espessa, no labirinto em que é apenas, e pouco a pouco, um corpo sem vida.

(The Lost Weekend, Billy Wilder, 1945)

Nota: ★★★★☆

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