Betty Buckley

Fragmentado, de M. Night Shyamalan

Três adolescentes são sequestradas por um maníaco e mantidas em um cômodo pouco iluminado, sem janelas, com saída apenas ao banheiro. Apesar de unidas pelo pequeno espaço e pela tensa situação, uma delas, Casey (Anya Taylor-Joy), continuará separada, em seu próprio canto, sem tocar as outras, sem demonstrar intimidade.

A exemplo do criminoso de Fragmentado, ela sente-se diferente. Segundo o próprio diretor M. Night Shyamalan, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, o filme é sobre o medo do que parece diferente. É também sobre o encontro entre seres que se sentem excluídos, como Corpo Fechado.

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O vilão tem diferentes faces, 23 personalidades que se revezam e anunciam a chegada da 24ª, a mais perigosa de todas. A intensão por trás dessa gestação aos poucos é explicada: o monstro prestes a nascer daquele mesmo corpo é uma resposta, uma forma dessas 23 vidas ganharem respeito, poder, ou um protetor.

Como em Corpo Fechado, os monstros são gestados nos corpos menos prováveis: antes se falava na oposição entre o homem que sobrevive a tudo (o herói que não deseja tal fardo) e o homem frágil como cristal (o vilão que precisa encontrar seu oposto).

Mas Fragmentado embaralha as peças: se antes Shyamalan servia-se dos opostos, na América de heróis e vilões anterior ao 11 de setembro, agora recorre ao mesmo tempo ao monstro evidente e ao monstro difícil de enxergar, criado aos poucos. As meninas servem a esse projeto: são, em cativeiro, o banquete à espera da fera.

O maníaco de 23 vidas prende as garotas após sequestrá-las, no carro do pai de uma delas, nos primeiros momentos do filme. Casey pega carona com as outras, para ela menos que amigas. Logo descobrem que não lidam com um homem só, mas com diversas máscaras trocadas com constância, como uma mulher e uma criança.

James McAvoy vive esses diferentes com competência. Fora do cativeiro, ele encontra-se com uma psiquiatra (Betty Buckley) que estuda múltiplas personalidades e tenta compreender, em seu caso, como elas relacionam-se entre si.

A necessidade de comunicação com esses diferentes será vital à sobrevivência de Casey, cujo passado também retorna, os dias em que viu o homem (o tio) converter-se em animal, durante uma caçada na floresta. Nas recordações, ela chega a apontar a arma para o mesmo tio, talvez o assassino de seu pai.

É, por isso, sobre lidar com as feras, ou constatar que só é possível sobreviver quando se aceita essa relação entre predadores e presas. O maníaco serve-se da besta para estar no topo da cadeia alimentar. Vê-se maravilhado com as cicatrizes de Casey, sinais de sobrevivência e loucura. “Os problemáticos são os mais evoluídos”, ele declara.

Os cômodos e os corredores são escuros. O encanamento e a fiação elétrica, ao alto, dão a ideia das muitas ligações, detalhes que fazem pensar no maníaco. As meninas tentam escapar e sempre retornam. A esperança de encontrar uma janela dá lugar à frustração: era apenas uma pintura de criança. Os corredores escuros levam Casey a uma jaula, a outro buraco, até descobrir que sempre esteve em um zoológico, espaço em que feras são enclausuradas, onde continuam a rosnar.

(Split, M. Night Shyamalan, 2016)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Corpo Fechado, de M. Night Shyamalan

A Força do Carinho, de Bruce Beresford

O título original remete à misericórdia. Também, desde os primeiros instantes, é sobre a redenção de um homem que dorme bêbado, perdido, e acorda quase novo – ou novo o suficiente para tentar mudar e redescobrir a vida.

Após idas e vindas, a nova mulher de Mac Sledge, vivida por Tess Harper, explica que ele voltou a beber durante alguns dias e que a recaída foi superada. À frente, Sledge quase sempre aparece revigorado: quando precisa exagerar, corre com sua caminhonete pela estrada, quase bate, e joga uma garrafa de bebida fora.

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Ele está ao centro do belo A Força do Carinho, de Bruce Beresford. Em tom calmo, o filme leva esse homem à certeza de que viverá para ver o mal dos outros – igualmente a pouca beleza nessa triste paisagem texana.

Ele não é mais o mesmo: seu tempo de pecados passou. Foi, e talvez ainda seja, um cantor de sucesso. Canções românticas indicam o coração mais pulsante do que se espera. Por fora, a aparência de uma rocha, o silêncio de quem está mudando.

A partir do roteiro de Horton Foote, Beresford conta essa história simples mas única: o recomeço de uma vida que deu errado, ou talvez porque o acerto – a fama, o dinheiro, a arte – também tenha seu lado ruim: filhos desajustados, vícios, violência.

É na beira da estrada, em um pequeno motel, que Sledge encontra o recomeço: a nova trilha de que tanto precisava, com a mulher simples e seu filho que diz as coisas certas e não exagera por ser criança. É sereno, reclama pouco, fala quando necessário.

O clima leva a pensar que tudo dará certo, dessa vez, para Sledge. No entanto, grandes homens nunca ficam sozinhos. Seu passado persegue. Um jornalista aparece por ali, certo dia, cheio de perguntas. O protagonista esquiva-se, foge de si mesmo.

A matéria do jornal atesta o que alguns pensavam: Sledge está vivo, em nova vida, perdido para melhor, reencontrado para o susto de todos.

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Ali, naqueles campos abertos, Beresford constrói um poema de solidão, a saída aos que desejam ser esquecidos, mas onde, também, máquinas e pessoas – algumas ruins, outras não – aparecem para lembrar o passado do protagonista.

Sledge tem seus fantasmas: a ex-mulher enriquecida, ainda na estrada da fama; a filha que ele pouco conheceu e que, certo dia, bate à sua porta. Não dá para negar o fascínio que o passado exerce nesse presente de calmarias. Há, ainda, a música.

Quando sai para assistir o show de sua ex-mulher, Dixie (Betty Buckley), Sledge persegue a música, tudo o que representa, o que acreditou ter perdido e ainda passa por sua cabeça: letras que não deixa de escrever.

A Força do Carinho apresenta a típica vida americana, com festas regadas à música country, crianças que brigam por causa do comportamento de suas famílias, lanchonetes com máquinas de música e o Vietnã, ao fundo, com perguntas sem respostas.

O protagonista é interpretado por Robert Duvall em grande momento. Próximo de sua mulher, com a enxada na mão, ele solta questionamentos ao fim: por que as coisas são de uma forma e não de outra? Por que um homem morre no Vietnã e sua filha em um acidente de carro? Ele, um sobrevivente, continua para ver tudo e tentar entender. Faz perguntas em meio ao horizonte perdido. Não tem as respostas.