Beleza Adormecida

12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Desde seus primeiros instantes, Beleza Adormecida não se revela um filme de aproximação. Sua protagonista, jovem prostituta, uma working girl, coloca-se em um ponto de isolamento, com inegável frieza, a dizer frequentemente o inesperado.

Ela faz um exame médico durante a abertura. O homem que a examina introduz um canudo até seu estômago. Importa menos o que faz, mais o que significa esse laboratório asséptico e o que parece antecipar: ambientes sempre limpos nos quais homens confessam seus desejos, aproveitam possíveis esconderijos, nos quais a sujeira que o sexo poderia escancarar é sempre ocultada, ou apenas não existe.

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A força do trabalho de Julia Leigh deve-se àquilo que não mostra. Nesse sentido, o espectador sabe menos que a protagonista adormecida, a servir aos propósitos de homens com o estranho prazer de tê-la enquanto dorme por algumas horas.

Lucy (Emily Browning) passa a trabalhar em um bordel diferente. Ali, a cafetina manda seu motorista buscá-la, espera-a na porta, em plena luz do dia, e não cansa de repetir a ela – como aos clientes – as regras do local. A ela: não é possível ficar acordada, saber o desejo dos companheiros. A eles: não é permitido penetrar a jovem adormecida.

Opta-se por um filme realista, mas também pela dificuldade de saber tudo. A obra de Leigh trabalha no campo do oculto, da estranheza, estimula a imaginação do espectador. É difícil definir e julgar Lucy; nem mesmo contornos de prostituta ela possui.

Está sempre em movimento, trabalhando, estudando. Ao dormir nua e deixar que os homens estimulem-se com suas formas e imagem, com seu cheiro e frescor, ela curiosamente encontra seu tempo de descanso. Ao que parece, esses homens têm prazer por cadáveres, ou quase isso: a beleza morta que não cheira mal, que não apodrece.

Beleza que se mantém, igualmente a obsessão pela juventude. O que explica o tato da cafetina e de seu assistente no corpo de Lucy na entrevista de emprego. Pedem que fique apenas com as roupas íntimas, observam sua pele, cada detalhe do corpo.

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Antes de se oferecer em sono, a menina passa algumas noites servindo pessoas mais velhas e bem vestidas em um jantar. As criadas, como ela, vestem roupas íntimas para o trabalho, expõem os seios, e depois servem de companhia e acariciam os clientes.

O sexo nunca é exposto, ainda que esteja lá. Talvez tenha sido superado. O que aquelas pessoas buscam é a possibilidade de contemplar a beleza, o corpo jovem, de ter a menina adormecida ao mesmo tempo em que não deixam ver seus fetiches.

O único contato de Lucy com emoções verdadeiras se dá na companhia de um amigo, talvez um antigo companheiro, Birdman (Ewen Leslie). Prestes a morrer, o rapaz divide a cama com a moça, que chora enquanto ouve sua voz. Raro momento em que ela mostra sentimentos – em um ambiente envelhecido, diferente dos demais.

Leigh realiza um filme de emoções frias. Com esse mundo moderno chegam novos e estranhos prazeres. Sua protagonista está tão imersa no desejo de sobreviver e ganhar dinheiro que não encontra qualquer traço de vida, não se deixa envolver. Reflete o meio, os outros, com palavras sujas e automáticas, com seu rosto angelical.

(Sleeping Beauty, Julia Leigh, 2011)

Nota: ★★★☆☆

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