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Bastidores: Noites de Cabíria

Giulietta Masina, que interpretou a criatura passiva de A Estrada da Vida, transforma-se aqui numa lutadora, uma Quixote sempre pronta a enfrentar os moinhos de vento, e apesar de tudo com uma fé inquebrantável na vida e na felicidade.

Georges Sadoul, pesquisador, historiador e crítico de cinema, em verbete de seu Dicionário de Filmes (L&PM Editores; pg. 280). Abaixo, Masina (ao centro) durante as filmagens.

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Bastidores: Boneca de Carne

Todos os grandes cineastas aspiram libertar-se das exigências dramáticas e sonham em fazer um filme sem progressão, sem psicologia, onde o interesse dos espectadores seria suscitado por meios outros que mudanças de lugar e de tempo, a astúcia de um diálogo, entradas e saídas dos personagens. Um Condenado à Morte Escapou, Lola Montès, A Mulher Desejada e Janela Indiscreta subiram bem alto nesse pau de sebo, cada um à sua maneira.

Em Boneca de Carne Kazan conseguiu quase perfeitamente – graças ao poder de uma direção de atores única no mundo – impor um filme dessa natureza, escarnecendo dos sentimentos expostos e analisados nos filmes habituais.

François Truffaut, cineasta e crítico de cinema, em Os Filmes de Minha Vida (Editora Nova Fronteira; pgs. 147 e 148; a crítica é de 1957). Abaixo, Elia Kazan dirige Carroll Baker e Eli Wallach.

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Oliver Stone: ‘Uma vez no set, o roteiro não significa mais nada’

As filmagens são o momento crítico do filme, pois, bem mais que na escrita ou na montagem, estamos à mercê de acidentes de todo tipo, que podem levar o filme em várias direções diferentes. É por isso que sempre chego ao set com a lista dos dez a vinte planos que pretendo filmar naquele dia, e sempre começo pelos mais importantes. Porque nunca se sabe o que pode acontecer. Pode começar a chover, um ator pode ficar doente, a comida do almoço pode fazer você dormir o resto do dia… Talvez você filme seus vinte planos, mas talvez faça apenas três. Então é muito importante determinar o que é essencial e começar por aí. Geralmente tenho uma imagem bem precisa do filme na cabeça, mas sei que não é o que vou filmar, que isso vai mudar ao longo dos ensaios. Pois os atores trazem muitas coisas, fazem sugestões ou críticas que me obrigarão a rever tudo na última hora. Uma vez no set, o roteiro não significa mais nada. Sobretudo não se deve ser rígido e dizer “não se pode fazer isso, não está assim no script!” O roteiro é uma indicação, nada mais. A realidade do set ultrapassa amplamente tudo o que pode ser escrito no papel. Trabalho sozinho com os atores e mantenho o resto da equipe fora do set enquanto eu não tiver encontrado a essência da cena. Geralmente isso leva uma hora. Às vezes duas. E às vezes não começamos a filmar antes da tarde.

Oliver Stone, cineasta, em declaração a Laurent Tirard em Grandes Diretores de Cinema (Editora Nova Fronteira; pgs. 164 e 165). Abaixo, Stone durante as filmagens de JFK: A Pergunta que Não Quer Calar.

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Bastidores: Lolita

O impulso decisivo para sua trajetória independente [a de Stanley Kubrick] veio com Lolita (1962), baseado no romance escandaloso que Vladimir Nabokov havia publicado em 1955 na França. Kubrick e Harris [James B. Harris, o produtor] o leram enquanto estavam envolvidos em Spartacus e concluíram rapidamente que o material era incendiário. Resolveram vender os direitos sobre O grande golpe à Universal para levantar os US$ 150 mil necessários à compra de Lolita e de Gargalhada no escuro, outro romance de Nabokov, com situação semelhante. Ambos temiam que, nas mãos de um aventureiro, Gargalhada fosse adaptado e lançado antes de Lolita, esvaziando o teor polêmico do filme.

Ainda que o resultado da adaptação tenha sido comportado em comparação com o livro, sobretudo em virtude das limitações impostas pelo Código Hays (o código de auto-regulamentação da indústria cinematográfica dos EUA, que vigorou por mais de três décadas, até 1967) e do conservadorismo do grande público norte-americano, Lolita se tornou mais um “filme-evento” cuja bilheteria se beneficiou, entre outros fatores, da reação de conservadores religiosos. De acordo com alguns deles, que espalharam sua mensagem por igrejas de todo o país, os fiéis que assistissem ao filme cometeriam um “pecado”. Nada melhor para a publicidade do filme do que essa sugestão quase irresistível de transgressão.

Sérgio Rizzo, jornalista, crítico de cinema e professor, no site da revista Cult (leia aqui). Abaixo, Stanley Kubrick com a atriz Sue Lyon.

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Bastidores: O Escritor Fantasma

(…) o maior acerto de Polanski é sem dúvida construir um filme que se utiliza do espaço cênico de maneira impressionante, emparelhando uma arquitetura precisa das interações entre os personagens com o controle de um ambiente-cenário um tanto restrito, no qual as tensões circulam, se condensam e explodem inusitadamente. Há neste O Escritor Fantasma um quê de A Morte e a Donzela, filme que ele dirigiu em 1994: a condução de um suspense de trama quase impalpável num espaço limitado, onde a aderência ao binômio palavra-ação é mais importante para o roteiro do que a psicologia dos personagens em si. E talvez seja exatamente esta a dinâmica que lhe permita direcionar a atenção do espectador de forma tão eficiente e trabalhar uma narrativa com pontos de virada e conclusão que desafiam as expectativas mais correntes de desenvolvimento e conclusão. Deste filme, saímos sem nada além da verificação de que os jogos de poder são herméticos e operam inexoravelmente de acordo com suas próprias leis.

Tatiana Monassa, crítica de cinema e pesquisadora, na Contracampo – Revista de Cinema (maio de 2010; leia a crítica completa aqui). Abaixo, o diretor Roman Polanski e o ator Ewan McGregor.

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Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski