bastidores

Bastidores: Acossado

Acossado é muito mais que o ponto-final no cinema de certa época, é o ponto de partida do cinema moderno dos anos 1960, seu “manifesto e seu programa”, como muito bem disse Marc Cerisuelo, e a história do cinema só faz confirmar essa perspectiva.

É também em referência ao filme de Welles [Cidadão Kane] que Godard suprime toda a ficha técnica e começa seu filme com um título breve, em tela inteira, letras brancas sobre fundo preto, cuja grafia é muito próxima de seu ilustre modelo. Os dois filmes, tanto um como o outro, começam com um prólogo espetacular, de tipo antológico. No corpo de Acossado, os traços do progresso da investigação policial mobilizarão numerosos artigos de jornal e o enquadramento do letreiro luminoso “O cerco se fecha  em torno de Michel Poiccard” evoca aquele que anunciava a morte do magnata da imprensa americana “Cidadão Kane está morto” e toda a sequência inicial das atualidades “News on the March”.

Godard, como Orson Welles, mas também como o jovem Sergei M. Eisenstein de O Encouraçado Potemkin, faz de seu filme um manifesto do poder da montagem, retomando figuras abandonadas desde a passagem ao cinema falado.

Michel Marie, ensaísta, historiador de cinema e professor emérito da Universidade de Paris 3 – Sorbonne Nouvelle, em A Nouvelle Vague e Godard (pg. 178; Papirus Editora). Abaixo, Jean-Luc Godard e sua equipe nas filmagens de Acossado.

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Bastidores: Mônica e o Desejo

Desdenhado quando de sua estreia no circuito comercial, Monika é um filme do mais original dos cineastas e é para o cinema de hoje o que O Nascimento de uma Nação foi para o cinema clássico. Assim como Griffith influenciou Sergei Eisenstein, Abel Gance, Fritz Lang, Monika levou ao apogeu, com cinco anos de vantagem, esse renascimento do jovem cinema moderno que tinha por sumos sacerdotes um Fellini, na Itália, um Aldrich, em Hollywood, em um Vadin (ou será que nos enganamos?), na França.

Jean-Luc Godard, cineasta, sobre o filme Mônica e o Desejo, de Ingmar Bergman. Texto publicado na revista Arts, em julho de 1958.

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Bastidores: Persona

O adulto Steven Spielberg

A Lista de Schindler foi o único dos meus filmes que eu não me importei se as pessoas iam ou não gostar. Se ia fazer dinheiro ou não. Foi o único filme, a única vez na minha vida. Eu não poderia não me preocupar com essas coisas nos anos 80. Foi preciso que eu tivesse filhos. Foi preciso que eu me tornasse um pai para os meus filhos, um pai que ia ter de responder quando eles me perguntassem sobre o Holocausto. Esse foi meu modo de responder aos meus filhos. Eu falo muito melhor através do cinema do que com palavras.

(…)

Eu não poderia ter feito A Lista de Schindler se eu não tivesse feito A Cor Púrpura e Império do Sol. A Cor Púrpura, por exemplo, foi um filme totalmente centrado nos atores. Nada de efeitos especiais. Nada de truques. Apenas personagens, 100% personagens – o primeiro que fiz sem nenhum outro artifício para vender a ideia do filme. Mas se as pessoas acreditam que me tornei adulto apenas com A Lista de Schindler, não vou reclamar. Fico feliz que elas façam essa associação de ideias. Tenho muito orgulho desse filme.

Steven Spielberg, cineasta, em entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 157). A entrevista foi realizada em 1994. Abaixo, Spielberg nos bastidores de A Cor Púrpura, Império do Sol e A Lista de Schindler, respectivamente.

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A criança Steven Spielberg

A criança Steven Spielberg

A garotada faz filmes desde que nasce, sem saber. Eu me deito no chão com minha lente e tento ver a cena, com os atores, com os elementos do cenário. É como coreografar uma dança – é isso que as crianças fazem com seus bonecos, seus super-heróis, suas Tartarugas Ninja, colocando Michelangelo e Leonardo cara a cara, inventando os movimentos deles… Só que eles crescem e viram médicos e professores e eu… cresci e continuei fazendo a mesma coisa.

Steven Spielberg, cineasta, em entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana em A Luz da Lente – Conversas com 12 Cineastas Contemporâneos (Editora Globo; pg. 159). Abaixo, Spielberg nos bastidores de E.T.: O Extraterrestre e O Bom Gigante Amigo, respectivamente.

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Milos Forman (1932-2018)

Fazer cinema é como amar: você tem que sentir um frio na barriga a cada nova paixão. Eu não sinto mais essa sensação. Então não há o que contar. E, no meu caso, se não há desejo, não há como dar prosseguimento ao tipo de obra que eu construí, centrada no embate entre o indivíduo e as instituições.

(…)

Para fazer um filme, você precisa de tempo para entender o que ele representa, como narrativa, como linguagem, como gesto político. Não tenho mais esse tempo. Estou velho. Não houve problemas com Hollywood, até porque, nos EUA, onde vivo como cidadão naturalizado americano, ninguém jamais será tratado como artista excluído se tiver ideias minimamente rentáveis, por mais polêmicas que sejam. A questão comigo hoje é mais do que cansaço. É a sensação de que não há mais interesse pela verdade individual. Ninguém mais quer se debruçar sobre o ponto de vista de um autor e dissecar seus sentimentos. E cinema para mim é compartilhar verdades minhas e trocá-las pelas verdades dos outros, a verdade do espectador, do crítico.

(…)

Tecnologia nenhuma é difícil de dominar quando você entende da técnica do cinema. Mas de nada adianta um parque tecnológico sofisticado se você não tiver uma boa história para contar. Esse é o paradoxo estético do cinema.

Milos Forman, em entrevista ao jornal O Globo (junho de 2014; leia a entrevista completa aqui). Abaixo, o cineasta nos bastidores de Um Estranho no Ninho, que lhe rendeu o primeiro Oscar de melhor diretor.

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