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Bastidores: Morte em Veneza

Durante o jantar, não consegue retirar os olhos de Tadzio, tendo até mesmo afastado o vaso de flores que enfeita a sua mesa para poder apreciá-lo melhor. Envolvido pela atenção que lhe é demandada, lembra-se de suas conversas sobre o Belo com Alfred, que surgem como se fossem uma iluminação dos sentimentos que agora experimenta e que o fazem pensar sobre as suas próprias convicções. Poderia mesmo o Belo ter surgido assim do nada, do puro acaso de uma combinação genética maravilhosamente realizada, mas que não demandou, na verdade, nenhum trabalho do espírito em sua elaboração? Mas, se negar esta possibilidade com fundamento em suas concepções artísticas, como explicar aquilo que ele tem sob seus olhos, para seu profundo deleite e prazer, fruto proibido do pecado e irresistível convite à paixão? Como explicar este súbito arrebatamento dos sentidos que não é fruto de nenhum trabalho ou exercício do espírito?

Paulo Menezes, professor, em À Meia-luz: Cinema e Sexualidade nos anos 70 (Editora 34; pgs. 103 e 104). Abaixo, o ator Dirk Bogarde nas filmagens.

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Bastidores: A Estrada da Vida

Nunca peço ao ator um esforço de interpretação particular, ou seja, nunca me obstino a fazê-lo dizer meus diálogos num dado tom. O caso de Giulietta interpretando Gelsomina é o único exemplo em que obriguei uma atriz que tem um temperamento exuberante, agressivo, até pirotécnico, a fazer o papel estilizado de uma criatura retraída de timidez, com um clarão de razão e de gestos sempre no limite da caricatura e do grotesco. Isso me demandou um esforço muito grande e nesse caso particular, Giulietta, contrariamente ao que ela fez por Cabiria, precisou de um esforço de interpretação muito grande, porque Gelsomina é uma “interpretação” enquanto “Cabiria” estava muito mais na sua afinação, com sua agressividade, seu temperamento quase um pouco alucinado, sua prolixidade.

Federico Fellini, cineasta, na revista Cahiers du Cinéma (nº 84, junho de 1958; traduzido do francês por Luiz Carlos Oliveira Jr. e publicado na Contracampo; leia aqui). Abaixo, Fellini e Giulietta Masina.

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Bastidores: Era Uma Vez em Tóquio

(…) no começo da década de 70, quando eu estava em Nova York pela primeira vez e já tinha feito dois ou três filmes, um dia um amigo me perguntou se já tinha visto os filmes de certo diretor japonês. Seu nome era impronunciável e eu nunca tinha ouvido falar dele. Mas meu amigo insistiu e me disse: “você vai gostar dele”. Então eu fui a uma sessão vespertina de um filme chamado Era Uma Vez em Tóquio. Este é o filme da minha vida. Claro que não esperava muito, mas a partir da primeira cena, fui atingido como nunca antes numa sala de cinema. Sentei-me com os olhos abertos, a boca escancarada, e chorei durante a maior parte do filme – mas nem percebi. Não conseguia acreditar no que via. Ali estava a história mais simples que tinha visto na vida. A história de uma família: um pai, uma mãe, seus filhos crescidos e netos. Havia ali casamentos e funerais; eles trabalhavam, comiam, conversavam, caminhavam. Nada espetacular, nada que nem de longe lembrasse uma história. Mas era mais cativante que as melhores aventuras que tinha visto até então. Fiquei ali, sentado, até o fim da última sessão do dia. Vi aquele filme quatro vezes seguidas, e ao final, eu sabia bem o nome do cineasta e tinha certeza de que não me esqueceria dele pelo resto da minha vida: Yasujiro Ozu. Ele me mostrou o que eu nem sabia que poderia existir. Algo como um paraíso perdido no cinema, onde as coisas finalmente são nada mais que elas próprias. Onde não existe medo algum, apenas a vida como ela é.

Wim Wenders, cineasta, em depoimento ao ciclo Os Filmes da Minha Vida, da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, publicado no livro Os Filmes da Minha Vida 3 (Imprensa Oficial; pgs. 24 e 25). Abaixo, a atriz Setsuko Hara é dirigida por Ozu nas filmagens de Era Uma Vez em Tóquio.

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Bastidores: Os Renegados

Nós víamos moradores de rua nas estradas. Jovens, velhos. E nos dez anos antes de eu fazer o filme, nos anos 70, começaram a aparecer garotas nas ruas. Eu fiquei impressionada. Fiz muita pesquisa dirigindo sozinha em ruelas e pegando garotas com mochilas na rua. Conversei com elas e elas me disseram que queriam liberdade, não queriam trabalhar, não tinham medo de homens, não chamavam atenção. Pensei que esse seria um bom tema atual. Eu tive a sorte de ter Sandrine Bonnaire para fazer o papel da Mona. Sandrine não tinha nem 18 anos, ela fez aniversário nas filmagens. E ela tinha tanta rebeldia e tanta raiva, que ela podia ser ela mesma e ser a personagem.

(…)

Eu queria… não ensaiar as ações, mas ensaiar, tipo, como colocar a mochila, como tirar os sapatos, como dormir na rua. E eu a mandei [a atriz Bonnaire] com outra garota, elas acamparam por três dias antes das filmagens. Mas ela é muito talentosa porque era muito intuitiva, entendia de primeira. E acho que ela realmente construiu o filme comigo. Ela fez muito sucesso, assim como o filme. Preciso dizer que foi o único filme que realmente fez dinheiro dentre todos os meus filmes.

Agnès Varda, cineasta, em declaração em junho de 2017 (a entrevista faz parte do material extra do digipak Agnès Varda, lançado pela distribuidora Obras-Primas do Cinema). Os Renegados ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e é conhecido no Brasil também como Sem Teto, Nem Lei. Abaixo, a atriz Bonnaire ao lado da câmera e a cineasta ao fundo.

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Bastidores: Nashville

Ao final de Nashville, quando toda a tensão acumulada explode em tiros e sangue, a câmera, num movimento vertical, vai descobrir pela primeira vez o céu (um buraco branco e vazio), onde nada parece existir, nem mesmo a palavra “fim” (the end). Nashville é um filme a prosseguir, um esboço (rápido) de um momento da civilização americana, na passagem de seus duzentos anos. Um documento para a posteridade.

Tuio Becker, crítico de cinema, na Folha da Manhã (novembro de 1976). A crítica está reproduzida no livro Sublime Obsessão (Unidade Editorial; pg. 253). Abaixo, o diretor Robert Altman, na câmera, durante as filmagens de Nashville, lançado em 1975.

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