aventura

Caravana de Bravos, de John Ford

O pistoleiro de Ben Johnson é uma variação do Ringo Kid de John Wayne. Ambos, em Caravana de Bravos e No Tempo das Diligências, separados por pouco mais de dez anos, imprimem um jeito fácil de viver, como se a ventura fosse diversão. Encontram, no time ao qual se unem, tipos diferentes, belas damas, índios ao redor.

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Em ambos os filmes está o faroeste que John Ford sabia fazer como ninguém: a aventura como desculpa para analisar um grupo de pessoas, uma crônica – sobretudo em Caravana de Bravos – a revelar o material que forjou uma nação, misturas que, nas trilhas de terra seca, cercadas por rochas, conseguem conviver.

Pode ser descrito como anti-aventura, ou faroeste sobre pessoas, convivências, cravado por pitadas de comédia, menos sobre conflitos armados. A experiência de Ford conferia-lhe poder para falar sobre o que quisesse, sem pressa; estende as conversas, a experiência que leva a saber quem é um, quem é outro, como em A Longa Viagem de Volta.

Do visual não se pode esperar menos: a fotografia de Bert Glennon é sublime. Em vários momentos, capta as personagens de baixo para cima, o chamado contra-plongée, e sugere que as mesmas tocam o céu, como se tudo acima delas existisse para guardá-las. É desse efeito que se extrai o irreal, o espaço mítico.

Por outro lado, Glennon, sob a condução de Ford, em momentos apresenta os ambientes de frente, chapados, com carroças que cruzam o campo seco, em plano geral. O resultado é oposto: tem-se algo real, ou a zona de transição ao efeito mágico, quando a poeira sobe e aos poucos oculta o transporte, como se desaparecesse no ar.

Johnson é o herói por acidente, Travis Blue, que só revelará seu poder nos instantes finais, levado a atirar. Segundo conta, até então só havia matado serpentes. O problema é que, entre toda a poeira, nesse mundo descoberto pela caravana rumo à terra prometida, matadores e serpentes confundem-se. Travis não é puro como parece.

Ao seu lado, o irmão falador e brincalhão (Harry Carey Jr.), também o homem justo e um pouco nervoso (Ward Bond) à frente do grupo de mórmons. A certa altura, o herói encontra o oposto ao puritanismo daqueles que conduz, a carruagem na qual estão alguns artistas ambulantes, pessoas livres e vaidosas.

Entre elas, a bela Denver (Joanne Dru), pequena, magra, que ousa tomar banho mesmo quando há escassez de água para cavalos, que olha para Travis em misto de desejo e desprezo. Sabe o homem que ele é, os tipos que compõem o grupo, e se coloca sobre todos, consciente de sua beleza entre as damas cobertas dos pés à cabeça.

Um belo momento é sua corrida à mesma carruagem em que apareceu pela primeira vez, depois de recusar o convite de Travis para que vivessem juntos. Senta atrás do veículo em movimento enquanto fuma, a dizer tudo em expressão liberta. É a mulher do mundo, certamente distante da almejada terra prometida.

Os percalços são variados. Um grupo de bandidos infiltra-se na caravana. O líder (Charles Kemper) tem o braço machucado após trocar tiros durante um assalto. Sua presença é ambivalente: o espectador não duvida de seus demônios – nem dos de seus companheiros – à medida que Ford o faz um pouco engraçado.

Os membros da caravana querem se estabelecer, formar comunidade. As rodas de madeira, por vales e montanhas, antecedem as estradas de ferro. Para Ford, essas pessoas dão vez à família, da qual – com exceções de praxe – não se desconfia. Um pouco sobre a história de uma nação, entre poeira, até chegar (ou não) ao local sonhado, ao futuro.

(Wagon Master, John Ford, 1950)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Fomos os Sacrificados, de John Ford

A Garota da Motocicleta, de Jack Cardiff

As roupas de couro coladas no corpo servem à excitação. Há nada por baixo, sabe o espectador, apenas ele, que acompanha a curta aventura da garota que pode ser uma ninfomaníaca, a menina que corre atrás do belo amante após uma noite de sonhos ao lado do marido desinteressante em A Garota da Motocicleta.

Sua viagem será de descobrimento, com um pouco do prazer que a fuga – física ou não – oferece. Ela, Rebecca (Marianne Faithfull), sonha com o sexo, com o outro, e retorna a ele, ou a algum estranho, durante sua viagem. Às vezes a tela deixa-se tingir: o rosa explode e as pinceladas do psicodelismo típico do momento dão as caras na obra de Jack Cardiff, com roteiro de Ronald Duncan, do livro de André Pieyre de Mandiargues.

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As marcas do tempo, por sinal, mais atrapalham do que ajudam: a impressão é que o filme, em grande parte, foi “refeito”, remodelado em diferentes ambientes, sob os sinais das back projections que retiram o espectador rapidamente dessa balada. É como se os sinais do mundo livre perdessem espaço ao bom e velho clássico de estúdio, com o galã Alain Delon encurvado, falso, à frente de estrada alguma, um menino de campanha publicitária.

A moto potente oferece à moça a força que não tem em seus ambientes reservados: antes, com o pai dono de livraria e que tudo proíbe; depois, com o futuro marido louro de traços abobados, que à mesma oferta apenas a companhia. A menina descobre o amante enquanto trabalha na livraria com o pai. É o belo professor que chega em uma moto, que a leva para escapadas pela estrada, que depois lhe presenteia com o veículo.

A escapada de Rebecca em uma manhã como qualquer outra, após uma noite de sonhos e desejos, é a representação de sua necessidade de sexo, sua busca pelo amante perfeito que talvez não exista, o que sua perfeição – a de um Delon de passado misterioso, de amor fracassado, que fala sobre a importância de se ligar à máquina – só faz corroborar.

À estrada, Rebecca encontra tempo para paradas e novos sonhos. Lembra os dias em que, na companhia de amigos, esquiando por montanhas geladas, outra vez se deparou com o amante. Não há acasos aqui. Naquela mesma noite, um homem estranho – alguém com coragem para arrombar a janela do quarto tingido de vermelho – fez sexo com ela.

Desses momentos fica o sentido do filme, o da menina antes feita de porcelana e agora convertida na mulher que veste trajes de couro, cujos sonhos levam ao picadeiro de um circo em que se vê atração principal, às chicotadas do mestre de cerimônias que vem a ser justamente o amante. Menina que escolhe fugir da vida de amarras, previsível, pela máquina potente, presente do outro, sobre a qual ela prega o corpo, as curvas.

Um filme sobre uma mulher que não sabe lidar com os desejos, que, nesse clima de psicodelia e fuga dos anos 60, escolhe viajar para qualquer lugar, para novas estradas, levada pelo objeto que, dúbio, pode conferir instantes de prazer e morte, no caminho em que, pelo filme inteiro, perigo e excitação convivem lado a lado, inescapáveis.

(The Girl on a Motorcycle, Jack Cardiff, 1968)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Alain Delon, 80 anos

Atômica, de David Leitch

Os hematomas da agente secreta interpretada por Charlize Theron são uma representação possível do mundo em confronto em que se situa. A Guerra Fria, o Muro de Berlim, os seres duplos, a desconfiança, os microfilmes, a parafernália analógica – tudo conspira, somado às luzes neon, ao azul constante, a esse momento de despedida.

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O que move o diretor David Leitch, em Atômica, é a soma de certo estilo a altas doses de pancadaria. O estilo chega com o caminhar da protagonista, também com seu silêncio, seu mistério; ou com as figuras daquela época, dos pequenos carros quadrados, do metrô à forma antiga, do medo de cruzar as barricadas.

Estilo, por sua vez, que leva ao imaginário de qualquer um quando se pensa no que define o mundo dividido pela Guerra Fria, entre duas Alemanhas, entre espiões russos, britânicos, americanos e franceses – nesse meio, todos são estrangeiros atrás de buracos para passar ao outro lado, ou para se vender a quem tem a melhor oferta.

Theron, cheia de marcas de pancada, relembra seus dias anteriores aos homens que a interrogam em uma sala gélida e à meia luz. Ela é Lorraine Broughton, agente britânica do MI6 cuja missão é recuperar uma lista com a identidade de todos os agentes que atuam de diferentes lados do muro, nessa Europa em transformação.

Os espiões assistem à deflagração de suas faces: nesse mundo que luta para se unificar, para além da identidade, para além do rótulo de ocidental e oriental, os agentes percebem que ser desmascarado cobra seu preço. Não é fácil assumir vida própria, ser alguém. No caso de Lorraine, esse não parece ser o problema maior. Movida pelo trabalho, é uma personagem robótica que segue seu próprio código, nada inclinada ao dinheiro, e que parece incorruptível.

Lorraine não tem vida, apenas forma. Não tem graça – a despeito de toda beleza de Theron, que tenta se firmar como musa de filmes de ação. Guia-se aqui pelo movimento, em um roteiro frouxo que, a cada reviravolta, busca surpreender o espectador – e que embute, quase sempre de maneira desajeitada, alguma saída à pancadaria.

Por sinal, a direção de Leitch aposta na dor, na transpiração. Trata-se tanto de apanhar quanto de bater. Lorraine sofre, sangra, quase morre na mão dos grandalhões de barba, os russos que correm atrás da mesma lista preciosa. A banhar o contexto, as canções revezam-se entre o universo diegético e o não diegético, tentando conferir ao espectador, sem rodeios, o aumento da pulsação nesse jogo de saltos e acidentes, socos e pontapés.

A caça entre agentes, ou o fio que o roteiro oferece, é apenas uma desculpa. O que vale é a ação, o movimento, o quebra-quebra. Há grandes filmes que se apoiam apenas no movimento – sobretudo, na direção – para validar o espetáculo. O caso recente de Mad Max: Estrada da Fúria vem à mente. Atômica, por sua vez, é uma corrida fria e azulada de autômatos que desejam ter vida, integrar-se à questão histórica que acena ao espectador – regada por música pop da época e muita vodca.

(Atomic Blonde, David Leitch, 2017)

Nota: ★★☆☆☆

Veja também:
Em Ritmo de Fuga, de Edgar Wright

Homem-Aranha: De Volta ao Lar, de Jon Watts

A dicotomia herói/vilão, em Homem-Aranha: De Volta ao Lar, pode ser substituída por outra: jovem promissor/adulto fracassado. A ambos, herói ou vilão, jovem ou adulto, impõe-se o sistema ao redor, com seus representantes: um país de homens bilionários e belos como Tony Stark, a face do chamado establishment americano.

Para Peter Parker (Tom Holland), Stark é o exemplo a ser seguido, seu mentor. Ele não cansa de dizer aos amigos que faz estágio com o empresário que veste a armadura do Homem de Ferro. Ao vilão, Adrian (Michael Keaton), depois convertido no Abutre, seres como Stark são odiosos: servem apenas para lucrar a partir de gente batalhadora como ele, que no início perde um trabalho e culpa justamente Stark.

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Adrian trabalhava na limpeza da cidade, entre destroços, após a batalha dos heróis contra os alienígenas retratada no primeiro filme dos Vingadores. Por se tratar de material alienígena, foi impedido de continuar o serviço. O produto ficou sob a batuta de Stark. No entanto, Adrian ainda conseguiu furtar um pouco do precioso material. Criou assim sua armadura.

A construção de personagens – nunca perdida entre tanto movimento, giros, pulos, saltos de prédio em prédio – é o que há de melhor em De Volta ao Lar, de Jon Watts. A questão política atual, que indica a ascensão de uma figura como Donald Trump, está representada no filme. Ressentidos com os rumos de uma nação guiada por homens como Stark ganham corpo em Adrian, candidato a engrossar as fileiras de Trump.

Por sinal, as motivações de Adrian são sempre as do empresário, não as do vilão em busca de vingança, ou as de um louco atrás do caos. O Abutre é, antes, um empresário. Ao roubar de Stark, talvez ele tente expor o crime como algo justificável: está apenas tomando o que deveria ser seu por direito, o trabalho que perdeu enquanto limpava a cidade.

A incrementar essa batalha a distância, entre o bilionário e o homem comum que funde sua armadura escondido em um galpão, surge o adolescente que deseja ser um super-herói. O Homem-Aranha erra o tempo todo. Mais brinca do que luta. Vê em Stark o “empresário que deu certo” e em Adrian a possibilidade de o mal também residir nas melhores famílias.

A fase adulta de Peter Parker começa a se desenhar nesse momento: ele precisa sair do típico bailinho adolescente de décadas passadas, nesse passado que ganha espaço como nostalgia americana, para enfrentar o vilão. Precisa deixar sua amada para correr atrás de sua outra identidade: em suma, precisa deixar o jovem para ser o homem, e encarar a briga.

Com um peso extra sobre o corpo, a certa altura, precisa provar força e levantá-lo. A sequência é conhecida e resume bem essa transformação. O jovem que vê em Stark seu modelo, seu “chefe”, tem de provar estar à altura da roupa colante que deseja usar para combater o crime – roupa, por sinal, projetada por Stark.

Na melhor sequência do filme, o Homem-Aranha mostra certo medo de altura, no topo do Monumento de Washington. Watts leva o medo ao espectador ao voltar a câmera para baixo, ao fazer rolar uma pedra. Não deixa de ser outro momento representativo: o jovem herói descobre o tamanho do mundo que o cerca e o abismo que o espera.

O mesmo jovem herói não quer deixar de ser jovem. Ainda quer estar pela vizinhança, a combater pequenos bandidos que rondam seu bairro. Prefere o “estágio” à vaga garantida no time dos grandes, os Vingadores. É apenas questão de tempo para se juntar à turma. Com suas fragilidades e graça, é um dos poucos heróis interessantes da atualidade.

(Spider-Man: Homecoming, Jon Watts, 2017)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Mulher-Maravilha, de Patty Jenkins

Rogue One: Uma História Star Wars, de Gareth Edwards

A série Star Wars nem sempre garantiu personagens carismáticas. Em seu primeiro filme, de 1977, o carisma estava presente graças à figura de Harrison Ford, eterno Han Solo. Era o menos correto entre os heróis, por isso mesmo o mais interessante.

Como o mercenário, a Jyn Erso de Felicity Jones tem seu lado desregrado, a heroína solta pelo mundo e que reluta a pertencer à causa dos rebeldes em Rogue One: Uma História Star Wars. Mas a moça logo se vê tragada à causa maior: a exemplo de Solo, ela carrega a paixão que move os heróis, não sendo apenas um rosto bonito.

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rogue-one

Nesse sentido, a série vê-se bem representada como em seu sétimo episódio, no qual o protagonismo é de Daisy Ridley. De uma garota entre monstros estranhos, planetas variados, a enfrentar algo maior. Jones é a alma da nova aventura, a menina que quase não tem tempo para viver um romance, de quem pouco ou nada se sabe.

E isso faz pensar no que o filme tem de pior, e que o sacrifica: uma boa atriz em uma personagem instigante, mas em uma fita a serviço da velocidade (problema de outros vários filmes recentes), do barulho, com atalhos manjados ao longo do roteiro.

A história de Rogue One situa-se entre os episódios três e quatro da série Star Wars, A Vingança dos Sith e Uma Nova Esperança. Jyn é a filha do criador da Estrela da Morte, grande nave do tamanho de um planeta feita para destruir o que encontrar pela frente.

Quem conhece a saga criada por George Lucas tem a mínima ideia de como essa nova aventura deve terminar: no filme seguinte, a Estrela da Morte continua inteira, mas alguns planos para destruí-la são extraviados graças à princesa Leia (Carrie Fisher).

Rogue One é a história do roubo desses planos. Jyn e um grupo formado por rebeldes e outros mercenários aliam-se para lutar contra o Império, ao passo que ela, aos poucos, perde sua indiferença, principalmente após a morte do pai (Mads Mikkelsen).

Os laços entre pais e filhos continuam a mover a história, como em O Império Contra-Ataca e O Despertar da Força. Pena que o diretor Gareth Edwards, ao contrário de J. J. Abrams, não faça o drama das personagens funcionar, rendido como está à aventura e ao excesso de seres de sua trupe, a tudo o que a série precisa levar na bagagem.

É, ao mesmo tempo, um filme que se inscreve com perfeição no universo Star Wars e, à exceção de Jones, um filme que não deixa ver a paixão de outras personagens que habitaram – e habitam – esse mesmo universo mitológico. Caso para pensar: qualquer avaliação não tende a subir quando se é levado à obra sabendo que se trata de batalhas em “uma galáxia muito, muito distante”, sempre a esbarrar nas criações de Lucas?

(Rogue One, Gareth Edwards, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Doutor Estranho, de Scott Derrickson