Audrey Hepburn

Desonrada, de Josef von Sternberg

Há uma coleção de grandes closes e aparições marcantes de Marlene Dietrich ao longo de Desonrada, a começar pela primeira: à rua, ela revela parte da meia-calça, enquanto o povo aglomera-se em frente ao prédio em que uma mulher suicidou-se.

Antes de se tornar importante espiã a serviço dos austríacos na Primeira Guerra, Marie Kolverer (Dietrich) é alguém livre. O contrário é exposto na mulher suicida, sem rosto: é a opção à vida que a protagonista aceitou viver, antes de se aliar ao governo.

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Desde o início, a heroína – ou quase isso – sabe de seu destino: sua consciência chama a atenção do homem poderoso que naquela mesma noite faz-lhe companhia, no que parece ser uma indicação de seu trabalho, a partir das sutilizas do cineasta Josef von Sternberg ao enquadrar e dirigir Dietrich: ela é uma prostituta.

Ainda que essas sutilezas que agem como palavras tenham perdurado até os anos 60, com a bonequinha Audrey Hepburn no famoso filme de Blake Edwards, é com Dietrich que se grita, à perfeição, questões diretas, sem medo, enquanto confronta.

E os closes mostram com maestria esse confronto, e com as transições resistentes – quando imagens sobrepõem-se a outras – vê-se o verdadeiro significado desse filme livre e incrível: é sobre misturas, sobre indefinições, em um tempo de guerra que só deixa ver extremos, heróis ou vilões. E por isso Dietrich não se deixa ver.

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A aproximação apenas confere mais mistério e distância. Como agente secreta, a X27, ela consegue convencer em várias faces, seja como a militar em jaqueta de couro, seja como a simples camareira de hotel. Precisa chegar aos homens, aos gabinetes, aos vilões e traidores, sem que mostre qualquer medo ou receio, sem que se entregue para tanto.

Poderá aceitar beijos, festejar em noites de serpentina e bagunça, de carnaval de máscaras, com os velhos poderosos a cair de joelhos por ela, a levá-la para suas residências com os mesmos mordomos de sempre e as ligações indesejadas.

Um deles percebe a própria fraqueza, desiste: lança ao chão sua espada e se suicida. Sua primeira missão termina assim: a mulher não precisa de violência ou de qualquer outra arma para render o inimigo. Segundo von Sternberg, precisa ser apenas mulher.

A paixão pelo inimigo russo (Victor McLaglen) não convence. O filme não é sobre amor, mas sobre indefinições, o que explica, em certa medida, o não convencimento. Mais ainda, mostra como essa mulher deixa-se levar, antes de tudo, pela sua natureza.

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McLaglen é irritante, propositalmente canastrão. Dietrich é forte o tempo todo. Em tempos de guerra, ela pode até se apaixonar por ele – menos pelo que oferece de evidente, mais pela capacidade de confrontá-la. Ele deverá resistir a ela.

À medida que o conflito não deixa ver contradições, ou aparenta não deixar, o amor dela é a contradição maior a quem iniciava sua jornada como rocha, cínica, capaz de não se dobrar aparentemente a ninguém. Sua guinada ao amor não é sinal de fraqueza.

Ninguém deu personagens tão interessantes a Dietrich como von Sternberg. A parceria rendeu grandes filmes. Neles, Dietrich pode terminar destruidora ou destruída. Como se vê em Desonrada, será sempre forte e misteriosa.

Nota: ★★★★☆

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Gregory Peck, 100 anos

No recente Trumbo – Lista Negra, o famoso roteirista e sua família divertem-se enquanto assistem a uma sequência clássica de A Princesa e o Plebeu (abaixo). É o momento em que Joe Bradley (Gregory Peck) finge perder a mão ao colocá-la no boca de uma estátua, enquanto leva a bela princesa Ann (Audrey Hepburn) ao desespero.

A leveza e segurança de Peck tornam a cena extraordinária, com a elegância típica de cavalheiros de seu tempo. Peck faz parte do último time de verdadeiros cavalheiros do cinema, antes de explodir a geração rebelde, com Brando e James Dean.

a princesa e o plebeu

Em seu primeiro filme, Quando a Neve Voltar a Cair, de 1944, já era possível ver toda a segurança do astro, todos os traços que se veria em outros filmes. O segundo, As Chaves do Reino, rendeu-lhe a primeira indicação ao Oscar, o que lhe tornaria astro.

Veio uma sucessão de bons filmes: Quando Fala o Coração, Virtude Selvagem, Duelo ao Sol, A Luz é para Todos, Céu Amarelo e Almas em Chamas – todos nos anos 40. A década seguinte levou-lhe a produções variadas como A Princesa e o Plebeu.

Provou versatilidade ao encarar o duro capitão Ahab de Moby Dick, na famosa versão de John Huston, o que de certo parecia estranho aos espectadores – às espectadoras, sobretudo – que ainda recordavam o estreito e brincalhão jornalista Joe Bradley.

Ator versátil, capaz de ser o homem mau ou o amante confiável, e que ainda não tinha um Oscar. Alguns atores esperaram a vida toda e não ganharam, como Richard Burton (indicado sete vezes), outros se contentaram com o honorário, como Peter O’Toole.

o sol é para todos

O de Peck estava para chegar, e seria por sua personagem mais conhecida, Atticus Finch, o advogado honesto que defende um negro inocente contra a sociedade branca e racista. Em um dos momentos marcantes, um homem cospe em seu rosto.

A direção calculada de Robert Mulligan, com personagens condenadas e absolvidas antecipadamente, não retira a beleza de O Sol é para Todos (acima). Muito se deve à atuação de Peck, ajudada pela distância tomada pelo cineasta: a história é contada pelo ponto de vista das crianças, o que ajuda a aceitar esse suposto homem correto e incorruptível.

Finch tornar-se-ia sinônimo de heroísmo, de heróis sem capa e espada. Décadas mais tarde, ocuparia o primeiro lugar entre os maiores heróis do cinema americano na lista do Instituto Americano de Filmes – à frente de Indiana Jones e James Bond.

Filmes como O Sol é para Todos fixaram a imagem de Peck como o homem acima de qualquer suspeita, feito de palavras, de alma aberta contra os intolerantes.

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Bastidores: Um Caminho para Dois

Quando leu o roteiro de Um Caminho para Dois, Audrey ficou cautelosa e preocupada com sua imagem. Os diálogos sério-cômicos eram ácidos, cínicos e a personagem de Joanna, a esposa que muda e amadurece – nem sempre admirável – não era a ideia primeira do roteirista. Joanna não se parecia em nada com Hepburn e nem com nenhum papel que ela interpretara e ela temeu perder sua imagem e seu público. Mas Joanna tinha sim alguns aspectos de Audrey, não no que diz respeito à infidelidade ou às cenas de cama muito francas, mas alguns paralelos com seus próprios casamentos. Ela chegou a comentar com Mel [Ferrer, seu marido] que não tinha certeza se esse papel era certo para ela, o que era uma maneira de tentar escapar dele.

Donald Spoto, escritor, em Enchantment, The Life of Audrey Hepburn (2006).

um caminho para dois

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20 frases inesquecíveis de 20 ganhadores do Oscar

Basta pensar em algumas frases e os filmes vêm logo à cabeça: “Eu sou o rei do mundo!”, dita por Leonardo DiCaprio em Titanic, por exemplo, ou “A vida é como uma caixa de chocolates…”, de Tom Hanks em Forrest Gump. São textos que todos conhecem e talvez sem o mesmo poder se retirados de seus contextos.

Com a aproximação da festa do Oscar, o blog relembra frases marcantes de antigos vencedores da principal estatueta da noite: melhor filme. A lista passa por décadas da história da festa – e do cinema – para mostrar o quanto algumas falas sobrevivem ao tempo. E o quanto algumas, um pouco esquecidas, merecem agora devido destaque.

“Eu quero ficar só.”

Greta Garbo em Grande Hotel (1932)

grande hotel

“Contemple os muros de Jericó, não tão espessos como aquele que Josué derrubou com a corneta, porém mais seguros. Não tenho corneta, mas como tenho bom coração, você vai receber o melhor pijama.”

Clark Gable, dividindo o quarto com Claudette Colbert, em Aconteceu Naquela Noite (1934)

aconteceu naquela noite

“Vovô diz que hoje a maioria das pessoas é movida pelo medo. Medo do que comem, medo do que bebem, medo de perder o emprego, medo do futuro, medo de perder a saúde, medo de guardar dinheiro, medo de gastá-lo. Sabe o que o vovô mais odeia? Aqueles que lucram explorando o medo. Assustado, você compra aquilo de que não precisa.”

Jean Arthur, para James Stewart, em Do Mundo Nada se Leva (1938)

do mundo nada se leva

“Tara! Lar. Eu vou voltar para casa. E pensarei em alguma maneira de trazê-lo de volta. Afinal, amanhã é outro dia.”

Vivien Leigh no encerramento de E o Vento Levou (1939)

e o vento levou

“De todos os bares do mundo, ela tinha que entrar logo no meu?”

Humphrey Bogart em Casablanca (1942)

casablanca

“É engraçada a carreira de uma mulher; pense nas coisas de que você tem que se livrar, quando está no topo da escada, para ter mais liberdade de movimento. Mas quando faz isso esquece que vai precisar delas quando voltar a ser uma mulher. Há uma carreira que todas as mulheres têm em comum, gostem ou não, por serem mulheres. E mais cedo ou mais tarde, temos que exercê-la.”

Bette Davis em A Malvada (1950)

a malvada

“Você não entende! Eu poderia ter classe. Podia ter sido um competidor. Eu poderia ter sido alguém, ao invés de um vagabundo, que é o que eu sou.”

Marlon Brando, para Rod Steiger, em Sindicato de Ladrões.

sindicato de ladrões

“As pessoas que dizem que fazem amor o tempo todo são mentirosas.”

Louis Jourdan em Gigi (1958)

gigi

“Pode haver honra entre ladrões, mas não entre políticos.”

Peter O’Toole em Lawrence da Arábia (1962)

lawrence da arábia

“Eu vendi flores. Não me vendi. Agora que você me transformou em uma dama, não consigo vender mais nada.”

Audrey Hepburn, para Rex Harrison, em Minha Bela Dama (1964)

ÒMy Fair LadyÓ and ÒThe Great RaceÓ will screen at the Academy of Motion Picture Arts and SciencesÕ Linwood Dunn Theater in Hollywood on Friday, March 27, and Saturday, March 28, respectively. Screenings will begin at 8 p.m. The programs are presented by the AcademyÕs Science and Technology Council in conjunction with its ÒDressed in Color: The CostumesÓ exhibition, which includes costumes from both films. Pictured: Audrey Hepburn and Rex Harrison as they appear in MY FAIR LADY, 1964.

“O povo me segue porque segue tudo o que se move.”

Robert Shaw, como Henrique 8º, em O Homem que Não Vendeu Sua Alma (1966)

o homem que não vendeu sua alma

“Eu amo a guerra, que Deus me ajude, amo de verdade. Mais do que minha vida.”

George C. Scott em Patton – Rebelde ou Herói?

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“Mantenha seus amigos por perto e seus inimigos, mais perto ainda.”

Al Pacino em O Poderoso Chefão – Parte 2 (1974)

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“Eu sinto que a vida se divide entre o horrível e o miserável.”

Woody Allen em Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

noivo neurótico

“Podem torturar meu corpo, quebrar meus ossos, podem até me matar. Eles terão meu cadáver, mas não a minha obediência.”

Ben Kingsley em Gandhi (1982)

gandhi

“O progresso baseia-se mais no fracasso do que no sucesso.”

Kevin Costner em Dança com Lobos (1990)

dança com lobos

“Gostaria de conversar com você, mas tenho um velho amigo para jantar.”

Anthony Hopkins, para Jodie Foster, no encerramento de O Silêncio dos Inocentes (1991)

silêncio dos inocentes

“É uma coisa infernal matar um homem. Você tira tudo o que ele tem e tudo o que ele poderia ter um dia.”

Clint Eastwood em Os Imperdoáveis (1992)

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“Poder é quando temos justificativa para matar e não matamos.”

Liam Neeson, para Ralph Fiennes, em A Lista de Schindler (1993)

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“Só conheci um homem com o qual não queria lutar. Quando eu o conheci, ele já era o melhor “cut man” do ramo. Começou treinando e empresariando nos anos 60, mas nunca perdeu o dom.”

Morgan Freeman, sobre Clint Eastwood, na abertura de Menina de Ouro (2004)

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