atriz

Doris Day (1922–2019)

Entre 1959 e 1962, depois de uma carreira que já tivera grandes momentos, Doris rodara uma série de filmes – Confidências à Meia-Noite, Volta Meu Amor, Carícias de Luxo e outros – que a estabeleceram, para surpresa geral, como a bilheteria número 1 do mundo. Não que os filmes fossem grande coisa. Eram comédias urbanas, contemporâneas, em que, por um desses paradoxos que então floresciam em Hollywood, a graça estava em Doris resistir às investidas do galã (quase sempre Rock Hudson) contra a sua virgindade – a qual só era justiçada no último rolo do filme e, mesmo assim, depois do casamento. Talvez parecesse mais engraçado porque, ao fazer aqueles papéis de virgem, ela já tivesse quase quarenta anos. Os filmes eram banais, divertidos e inofensivos, donde o enorme sucesso, mas os críticos foram soezes. Eles não julgavam os filmes – julgavam Doris Day.

Ruy Castro, jornalista e escritor, em Saudades do Século 20 (Companhia das Letras; pg. 50).

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Centrais
As cinco personagens representam mães com problemas: mulheres que perderam os filhos, as famílias, em jornadas de dor e até mesmo em contato com o sobrenatural. Em alguns casos, a história se desvia da tragédia e mira na sociedade ao redor.

Charlotte Rampling em Hannah

Diane Kruger em Em Pedaços

Frances McDormand em Três Anúncios Para um Crime

Karine Teles em Benzinho

Toni Collette em Hereditário

Outros destaques: Ana Brun em As Herdeiras; Andrea Berntzen em Utøya 22 de Julho: Terrorismo na Noruega; Juliette Binoche em Deixe a Luz do Sol Entrar; Kim Min-hee em O Dia Depois e A Câmera de Claire; Louise Chevillotte em Amante por um Dia; Luciana Paes em O Animal Cordial; Margot Robbie em Eu, Tonya; Maryana Spivak em Sem Amor; Meryl Streep em The Post: A Guerra Secreta; Sally Hawkins em A Forma da Água; Saoirse Ronan em Lady Bird: É Hora de Voar; Yalitza Aparicio em Roma.

Coadjuvantes
Um time variado, com atrizes de diferentes gerações, entre rostos conhecidos e outros jovens. A mãe traidora e autoritária, a mãe jovem que tenta sustentar a filha, a menina em uma família cheia de problemas, a dama de peruca, entre colonizadores, e a senhora de espírito amargo.

Allison Janney em Eu, Tonya

Bria Vinaite em Projeto Flórida

Fantine Harduin em Happy End

Lola Dueñas em Zama

Natalya Potapova em Sem Amor

Outros destaques: Adriana Esteves em Benzinho; Ana Ivanova em As Herdeiras; Elisabeth Moss em The Square: A Arte da Discórdia; Galatéa Bellugi em A Aparição; Jeon Jong-seo em Em Chamas; Laurie Metcalf em Lady Bird: É Hora de Voar; Léa Drucker em Custódia; Lesley Manville em Trama Fantasma; Lilli Palmer em O Outro Lado do Vento; Millicent Simmonds em Sem Fôlego.

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Liv Ullmann, 80 anos

Envelhecer muda a gente por dentro. Quando uma mulher é atraente, ela deposita muito de si em seu visual. Seu rosto é uma pintura. Diz tudo. Quando essa mulher envelhece e se olha no espelho, dependendo do ângulo da luz, ela vai se sentir bonita, achar encantos. Mas aí ela olha uma foto e vê que é mentira, pois o tempo está ali, na frente. Eu estou nessa fase, de ver que a pintura não é o rosto, é o interior. Mas ainda me sinto mais bonita do que as mulheres de botox. Minha face não tem retoques. Sou o que sou.

Liv Ullmann, atriz, em entrevista ao jornal O Globo, na ocasião do lançamento do documentário Liv & Ingmar, de Dheeraj Akolkar, em 2012 (leia aqui). Abaixo, Ullmann em Gritos e Sussurros, de Ingmar Bergman.

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Centrais
As mulheres em destaque abaixo apoiam-se em diferentes máscaras: uma deles veste 13 personagens; outra, transexual, luta para ser apenas uma – contra os preconceituosos que não a aceitam. Há também uma mulher fechada, com dificuldade de amar, porém poetisa famosa; outra que perdeu seu amor e vaga sozinha, além da aparente liberal que termina sob as inesperadas investidas do pai descolado.

Cate Blanchett, em Manifesto

Cynthia Nixon em Além das Palavras

Daniela Vega em Uma Mulher Fantástica

Kim Min-hee em Na Praia à Noite Sozinha

Sandra Hüller em Toni Erdmann

Outras que merecem destaque: Alexandra Borbély em Corpo e Alma; Annette Bening em Mulheres do Século 20; Eili Harboe em Thelma; Emma Stone em La La Land: Cantando Estações; Florence Pugh em Lady Macbeth; Judith Chemla em A Vida de uma Mulher; Kate Winslet em Roda Gigante; Maria Ribeiro em Como Nossos Pais; Natalie Portman em Jackie; Patrícia Niedermeier em Guerra do Paraguay; Paula Beer em Frantz; Ruth Negga em Loving; Soria Zeroual em Fátima; Yuliya Vysotskaya em Paraíso.

Coadjuvantes
A mãe sofre e não larga o cigarro. Ao piano, tem em cena um momento tocante; outra, mais jovem, faz o possível para sustentar os filhos pequenos quando o Estado deixa de representá-la. Há também a mãe poderosa que mantém as rédeas da família, contra o marido descontrolado em conflito com o filho. Destaque ainda à criada que luta para ter voz e à moça de cabelo vermelho, em mundo à parte, que não raro rouba a cena.

Clarisse Abujamra em Como Nossos Pais

Greta Gerwig em Mulheres do Século 20

Hayley Squires em Eu, Daniel Blake

Naomi Ackie em Lady Macbeth

Viola Davis em Um Limite Entre Nós

Outras que merecem destaque: Emma Bell em Além das Palavras; Michelle Williams em Manchester à Beira-Mar; Naomie Harris em Moonlight: Sob a Luz do Luar; Raph em Mistério na Costa Chanel; Solène Rigot em Faces de uma Mulher; Tilda Swinton em Okja; Zita Hanrot em Fátima.

Veja também:
Manifesto, de Julian Rosefeldt
Toni Erdmann, de Maren Ade
Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O Proscrito, de Howard Hughes e Howard Hawks

Poucas vezes no cinema homens tão desinteressantes deixaram de lado uma mulher tão atraente. Aos cantos, Jane Russell é a figura irreal em O Proscrito, a imagem idealizada de uma Hollywood ainda no período clássico, a se mover pelos terrenos da sexualidade.

O diretor e produtor Howard Hughes expõe, pelo decote, pequena parte de seus seios. Faz história com essa jovem ainda contida em expressões, dominadora com um simples olhar, uma simples frase àqueles homens incapazes de se inserir nos domínios dela. É o protótipo da pin-up, da mulher carnuda que dominaria o cinema nos anos seguintes.

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Hughes soube aproveitar essa mina de ouro: teria criado, diz a lenda, um sutiã para sua atriz e vendido sua imagem para promover o filme. Codiretor da obra, Howard Hawks declarou em entrevista a Peter Bogdanovich que não teria feito esse tipo de publicidade com a atriz, “mas ele [Hughes] fez e teve grande sucesso”.

O Proscrito retorna a algumas lendas do oeste. Doc Holliday (Walter Huston) tem seu cavalo roubado por Billy the Kid (Jack Buetel) e, em sua procura pelo animal, vai parar na pequena cidade cujo xerife é ninguém menos que Pat Garrett (Thomas Mitchell). Todas essas figuras são um pouco distorcidas, às vezes cômicas. Consciente ou não, Hughes e Hawks brincam com os mitos do faroeste.

E ainda que grande atração emane de Russell, os homens em cena nada podem fazer: são antigos machos do oeste que pouco se importam com a mulher que ora é beijada por um e deixada ao outro com pouco ou nenhum ressentimento, que ora serve de isca para um deles tentar capturar o outro, o foragido da lei.

Enquanto ela insinua-se aos cantos, e sem esforço, os homens estão mais preocupados com seus cavalos e armas. O tom erótico é quase forçado, imposto apenas por uma peça – ao passo que aos pistoleiros resta a forma fria do homem em sua missão, destinado a vagar solitário. Chega a ser engraçado o momento em que Billy não consegue atirar em Holliday, o único parceiro que teve na vida.

Há quem enxergue um fundo homossexual nessas relações – o que talvez justifique a indiferença a Russell. O faroeste sempre foi o espaço dos homens. Ali, as mulheres, com alguma exceção, sempre se mantiveram como coadjuvantes. Caso ganhassem peso, terminavam alienadas a algum pistoleiro, ao embate final.

Coadjuvante de luxo, Russell dá peso à obra. Segundo Jean Tulard, Hughes criou para a atriz o primeiro sexy western. A bela – ao lado de atores consagrados como Huston e Mitchell – domina todas as cenas em que aparece. O feito não está ligado ao talento da atriz (que tinha, é verdade), mas à pura e simples presença, aos traços que o cinema clássico imortalizou na tela.

(The Outlaw, Howard Hughes, Howard Hawks, 1943)

Nota: ★★★☆☆

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