Asghar Farhadi

Todos Já Sabem, de Asghar Farhadi

O diretor Asghar Farhadi, com frequência comedido, apoia-se no título, na ideia de que todos – à exceção do espectador – já sabem alguns segredos. O que vem em seguida são as revelações, histórias que correm de boca em boca. Fala-se muito, explica-se em excesso. Os humanos perdem espaço para a trama de suspense, o sequestro.

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O jogo foi explorado muitas vezes: alguém some à medida que outros se revelam. Na pequena cidade em que o filme passa-se, na Espanha de terra seca e olhares constantes a qualquer movimentação diferente, os assuntos correm rápido, resistem ao tempo, como se cada segredo fosse compartilhado sem que se precise erguer o tom.

Enraizado, portanto, o que corre na casa ou na quadra do lado: quem namorou quem, quem amou quem, quem pode ser o pai de uma criança que foi embora com a mãe, para viver com outro homem em outro continente. Prato cheio para o silêncio aqui evitado. Farhadi põe casos em explicações, amputa o mistério.

Em viagem a essa Espanha provinciana está a bela Laura (Penélope Cruz), na companhia dos filhos, uma adolescente e uma criança, para o casamento da irmã. Seu marido, Alejandro (Ricardo Darín), ficou na Argentina, onde a família vive. Com a volta da mulher, alguns pequenos fantasmas ligados ao amor e à terra retornam.

Antes de cruzar o Oceano Atlântico, Laura vendeu um terreno para Paco (Javier Bardem). A relação de ambos será ligada ao sequestro da filha da protagonista, a certa altura, durante a festa de casamento da irmã: entre danças e juramentos, a luz apaga. No quarto, um pouco desacordada, a menina some. Tem início a busca por ela.

Paco envolve-se com o caso, tenta ajudar, aos poucos descobre seu papel na motivação do sequestro. O passado vem à tona: ele e Laura já foram namorados, escreveram suas iniciais no interior da torre da igreja, ao lado do sino e do relógio que indicam o tempo da cidade. O espaço é velho. Pombos escapam pelo vidro quebrado.

Nessa terra em que todos sabem um pouco sobre todos, especulações não faltam. Como em filmes anteriores, Farhadi explora o poder das palavras erradas nos ambientes errados. É a palavra que move o grande A Separação, ou sua dificuldade em uma sociedade fechada e, como essa Espanha um pouco distante, que ainda crê no silêncio, ou na “boca pequena” que espalha o que todos – ou quase todos – já sabem.

O desaparecimento foi abordado antes pelo diretor iraniano em Procurando Elly, no qual o sumiço de uma mulher lança luz aos problemas daqueles que procuram por ela, à sociedade machista viva por trás do grupo em questão. O que vem depois, entre tanto palavreado, não significa explicar, mas dizer o que é necessário – ou não dizer.

Com Todos Já Sabem, o mistério apequena-se, o íntimo das personagens é escancarado a ponto de o público não ter dúvida, no fim, de que todos têm boas intenções, de que os vilões, revelados, serão punidos. Um cinema para dar respostas, sem confiar no inaudível, nas expressões, no que todos talvez saibam sem que precisem dizer.

Chega-se à religião com a personagem de Darín, o pai que acredita em um Deus grande o suficiente para devolver sua filha. O mesmo homem que, falido, desempregado, não tem dinheiro para pagar o resgate. Farhadi injeta uma dose de ceticismo: será o dinheiro, o de Paco, a passagem de volta para a menina sequestrada.

A religião, segundo o cineasta iraniano, não combina com as relações humanas. Nessa mistura, algo se desestabiliza. Em A Separação, uma mulher conta uma mentira e é obrigada a jurar sobre o Alcorão, o que a faz declinar. Em Todos Já Sabem, uma cidade cheia de figuras defeituosas é fundada ao pé de uma igreja, a mesma cuja torre serve de esconderijo aos amantes – aos jovens do passado e aos do presente.

(Todos lo saben, Asghar Farhadi, 2018)

Nota: ★★☆☆☆

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Os 20 melhores filmes de 2017

Até a metade, o ano não parecia ser dos melhores. Fala-se aqui, claro, do cinema. Mas algo mudou e grandes obras começaram a estrear, incluindo a primeira posição da lista abaixo – da qual muita coisa ficou de fora. Esse apanhado prova que o cinema atual respira bem. Grandes diretores continuam a fazer filmes e surpreender. Que venha 2018!

20) Manifesto, de Julian Rosefeldt

Cate Blanchett pula de cenário em cenário, de vida em vida, para dar voz a diferentes manifestos artísticos nesse filme original e sem saídas fáceis. Ao fundo repousa um mundo estranho, futurista, de salas lustradas ou de espaços em cacos, de gente bela ou miserável.

19) Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez

O que resiste é a amizade. E é sobre seu fim, a certeza de se ir embora – da vida ou de um país. Em cena, dois homens dividem a mesma casa em Havana, Cuba. Um fala muito, o outro quase nada. Um sonha em ir para os Estados Unidos, o outro tem aids e está acamado.

18) Eu, Daniel Blake, de Ken Loach

Davi contra Golias, o homem comum contra o Estado. Uma trajetória tocante que venceu a Palma de Ouro em Cannes. Ao centro, o simpático e às vezes difícil Daniel Blake, que não pode voltar a trabalhar e cuja vida é dificultada pelas autoridades, que insistem em não lhe ajudar.

17) Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

O lendário diretor integrou o grupo de realizadores do cinema marginal. Trabalha aqui com o preto e branco, elenco e recursos mínimos. Conta a história de um soldado que retorna cheio de patriotismo da vitória no Paraguai e se depara com uma diligência guiada por mulheres.

16) Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O cotidiano da transsexual Marina Vidal fica de cabeça para baixo quando seu companheiro morre. É apenas o início do filme. O que vem a seguir é uma jornada por reconhecimento próprio contra a família do homem, que insiste em ignorá-la e tratá-la com preconceito.

15) Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Retrato da vida de uma mulher presa às exigências da família – à medida que assiste às fugas e à boa vida do marido e à morte da mãe. Bodansky recheia sua história, outra vez, com sensibilidade. Em cena, o brasileiro que se descobre impotente, entre gerações diferentes demais.

14) Dunkirk, de Christopher Nolan

O espetáculo de guerra de Nolan. O filme é pulsante, empolga, não deixa cair no desinteresse em momento algum. Divide-se em três tempos: a semana de um rapaz que tenta escapar da França, o dia de um homem que ajuda os soldados no mar e as horas de um piloto contra os inimigos.

13) Nocturama, de Bertrand Bonello

Inédito nos cinemas, o filme foi direto para a Netflix. Os jovens em cena se reúnem para promover o caos: em um dia como qualquer outro, espalham bombas em Paris e sequer explicam suas reais motivações. Em seguida, juntam-se em uma loja de departamentos, à espera do fim.

12) Afterimage, de Andrzej Wajda

Outra luta de Davi e Golias, a do artista contra o sistema comunista polonês após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos do Estado, a arte de Wladyslaw Strzeminski não interessa: parece intelectual ou burguesa demais a esses tempos de “arte política”. Último filme do mestre Wajda.

11) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O que parecia impossível aconteceu: Villeneuve fez um novo Blade Runner sem que parecesse cópia do primeiro e, de quebra, sem deixar de lado as características do anterior. O diálogo entre ambos é pleno. Ainda assim, o cineasta vai em frente e faz um filme com sua assinatura.

10) Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo

Um dos mais belos trabalhos do coreano Sang-soo. Com muito diálogo e aparência de improviso, além do uso constante do zoom, o diretor trilha caminho autoral. Trabalha de maneira rápida, é incansável. E mais outros dois filmes do cineasta devem desembarcar em breve no Brasil.

9) O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

A situação do protagonista tem algo onírico: ele perde-se pela floresta, é perseguido por mulheres que o torturam e assombrado por animais empalhados. O homem torna-se refém e presa nessa obra original do português João Pedro Rodrigues, com coprodução brasileira.

8) Z: A Cidade Perdida, de James Gray

Outro grande filme esquecido pelas premiações. Os homens do establishment hollywoodiano insistem em ignorar Gray, talvez o melhor cineasta americano em atividade. Aqui, ele conta a história real do explorar Percival Fawcett, em busca de uma cidade perdida.

7) Na Vertical, de Alain Guiraudie

A França profunda deixa ver os lobos. Nada pode ser previsto nesse filme do diretor de Um Estranho no Lago. A misè-se-scene de Guiraudie é direta, às vezes fria, dispensa firulas. Seu protagonista, um roteirista de cinema, torna-se pai e se vê sozinho com seu bebê.

6) O Apartamento, de Asghar Farhadi

A vida de um casal transforma-se ao mudar para outro apartamento. A cena inicial resume muito: o antigo prédio em que vivia apresenta tremores. No prédio seguinte, o casal passa a morar no apartamento em que residia uma prostituta, onde a nova moradora é agredida.

5) A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

Filme triste e realista, em época passada, ainda sob a regra dos bons modos. À frente, a vida da mulher é feita mais dos momentos tristes, menos dos felizes. Ela é vítima dos homens que a cercam: primeiro o marido, depois o filho. Ela resiste. Brizé é cruel e delicado.

4) Toni Erdmann, de Maren Ade

Os pontos altos dessa comédia ocorrem em situações inesperadas. A cineasta apresenta a difícil relação entre pai e filha, e como a segunda é levada a se transformar – a se despir, o que inclui o gesto literal – para seguir em frente. O momento em que canta é um achado.

3) Além das Palavras, de Terence Davies

Nova incursão pela vida de uma mulher. Personagem verdadeira, a poetisa Emily Dickinson passa da educação religiosa à vida de festas e alguma clausura. Sempre cercada pelas pessoas e, claro, pelas palavras. Davies é um daqueles mestres que merece mais reconhecimento.

2) Paterson, de Jim Jarmusch

A poesia, outra vez. O poeta urbano, escondido, à frente do volante de um ônibus. Os dias, para ele, só podem escapar da repetição – e das repetições sinalizadas pelos gêmeos – a partir da escrita, da possibilidade de ser poeta. Possivelmente o melhor filme do independente Jarmusch.

1) Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

A medalha de ouro fica com esse pequeno grande filme sobre o amor entre pessoas aparentemente diferentes, em lugar difícil de imaginar: um abatedouro de bovinos. Ali, ele observa a moça que tenta se desviar. Ambos passam a sonhar o mesmo sonho e relatam essa experiência a cada novo dia. Algo mágico, para dizer o mínimo.

E outros dez que merecem menções honrosas: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé; Martírio, de Vincent Carelli; Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins; A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit; Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan; Mimosas, de Oliver Laxe; Joaquim, de Marcelo Gomes; Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck; Fragmentado, de M. Night Shyamalan; e O Filho de Joseph, de Eugène Green.

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