Antes do Pôr-do-sol

Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater

Após o primeiro encontro e reencontro, o espectador sempre espera surpresas de Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy). Não tinham motivos para brigar. Tudo era uma novidade, uma descoberta e uma redescoberta, um começo e um recomeço.

Eram assim as duas primeiras partes, Antes do Amanhecer e Antes do Pôr-do-Sol, diferente da terceira, quando Jesse e Céline têm algo a mais, ou muito mais: um passado, duas filhas, novos amigos, o filho dele entre ambos, tal como a ex-mulher.

Leia aqui um texto sobre as duas primeiras partes.

antes da meia-noite1

Há, portanto, algo a envolver ambos, coisas que ficaram para trás, uma parte à qual o espectador não teve acesso. Se antes o público queria saber quem eram eles, agora seu questionamento mudou: o que eles fizeram? Nada se sabia, antes, senão o que estava ali, às claras, naqueles encontros da noite para o dia, ou de uma hora para outra. Acúmulo de deliciosos instantes e ótimos diálogos.

Com Antes da Meia-Noite, de Richard Linklater, tudo mudou – e mudou para melhor. Ou para pior. Primeiro, o efeito gera um susto, depois a certeza de que são os mesmos, tempos depois, com uma vida a dois, não mais jovens viajantes do mundo.

Estão casados, em viagem pela Grécia, perto de pessoas que o espectador nunca viu. O nível da conversa revela intimidade: são pessoas, ao que parece, de grande confiança, não mais aqueles seres desconhecidos, às trombadas, do primeiro filme em Viena.

Com os anos, a relação torna-se mais difícil. O tempo tudo solidifica, tudo faz cansar, tudo faz perder ou construir. Jesse e Céline parecem mais fortes e vulneráveis – mas isso não estará às claras logo na abertura, quando mais parecem formar um casal como qualquer outro, como pareciam, no primeiro filme, um caso de passagem como qualquer outro. Jovens viajantes e livres, e sem nada a temer.

Dessa vez estão presos: à vida a dois, à família, aos encontros feitos em viagens, aos aeroportos e aos carros caros com duas belas filhas (gêmeas, com sono) no banco de trás. Sim, o clima de aventura, dos trens pela Europa, foi embora. Ficou o desejo de conversar, de tentar se entender, conectar-se. Quem sabe, talvez, reinventar-se.

antes da meia-noite2

A ligação com o passado leva sempre ao primeiro filme. Quase nunca ao segundo. Ao fim, quando Jesse propõe um retorno por meio de uma máquina do tempo, é como se quisesse dizer a Céline que sua escolha, no primeiro filme, ao descer do trem, valeu a pena. O espectador sabe que valeu. Ela parece ter dúvidas.

Muitos momentos em Antes da Meia-Noite são contrapontos a Antes do Amanhecer – a começar pelo título. O filme inicia com os pés de Jesse e seu filho, no aeroporto. Antes, havia os pés dos amantes, enquadrados por Linklater naquela estação de trem, próximos de se despedir. Em outro momento, quando estão em um hotel na Grécia, sozinhos, há uma garrafa de vinho, duas taças, o que leva a pensar na bebida comprada sem dinheiro, em um bar em Viena, e naquelas taças furtadas em Antes do Amanhecer.

Momento ainda mais gritante é aquele em Jesse observa o mesmo quarto de hotel sem Céline. É um retorno ao encerramento do primeiro filme, quando o cineasta mostra alguns locais de Viena sem os mesmos amantes. Antes da Meia-Noite insiste em detalhes: em cada pedaço daquele quarto, onde ambos estiveram e quase fizeram sexo.

Como se vê, é sobre coisas ainda menores, sobre o insustentável peso de partículas invisíveis que, ao fim, geram toneladas de dor em um relacionamento. A história passada, que o espectador pouco conhece, vem para cobrar algo. E a discussão brota dessas passagens que parecem fruto de besteiras, mas não são.

É a melhor parte das três, pois obriga a pensar em uma história anterior, uma dor, uma vivência, enquanto nada mais é como no primeiro filme. O amor agora é dividido pela internet (como explicam personagens secundárias) e os mais velhos obrigam a pensar no amanhã e na morte. O pôr-do-sol visto por Jesse e Céline é a melhor representação.

Se antes conseguiam imprimir a leveza do reencontro, com muito a dizer, a impressão agora é que não desejam dizer muito e são obrigados a isso. Obrigados a confrontarem aquilo que os incomoda, que torna esse ou qualquer relacionamento mais difícil de encarar: o que cada um fez para deixar tudo diferente e não conseguiu.

São as mesmas pessoas de antes quando observadas separadamente e diferentes quando unidas. Efeitos do tempo. Não há como escapar. É como se o cineasta entregasse ao público o que ele tanto desejou nos filmes passados: ver o casal unido. Mas talvez o público não tenha lembrado, diz Linklater, que a vida a dois tem as piores partes. Isso o espectador não esperava confrontar. É o choque de realidade, com gente viva e natural.

Antes do Amanhecer e do Pôr-do-sol, de Richard Linklater

O primeiro encontro entre Jesse (Ethan Hawke) e Celine (Julie Delpy) ocorre em um trem em movimento, quando outro casal, alemão e mais velho, discute por ali. A moça fica irritada com a briga ao lado, vai ao fundo do vagão, troca olhares com o rapaz e logo a conversa tem início.

São dois jovens aparentemente livres, de fala livre, do trem às ruas, bares e vielas de Viena. O diretor Richard Linklater parte da simplicidade para esculpir a química entre ambos em Antes do Amanhecer. Esse casal parece, cada vez mais, diferente, único, mas talvez seja uma impressão. Talvez seja como qualquer outro.

antes do amanhecer

No filme seguinte sobre o casal, Antes do Pôr-do-sol, Jesse e Celine precisam confrontar aquilo que não são mais: dois jovens sem destino, com mais horas à disposição, com mais calor, com vontade de sexo, dispostos a se apaixonar. Nesse sentido, a segunda parte parece – e talvez seja – mais real do que a primeira. É também mais verdadeira, mais adulta, menos nostálgica.

Ambos são filmes sobre o amor. Antes do Amanhecer marca a descoberta, enquanto o filme seguinte – nove anos depois – prefere a dúvida, o impasse, a força ainda maior do diálogo para, com algumas besteiras verbais, descobrir aquele jovem casal apaixonado e livre de antes. A tristeza da segunda parte reside aí: na forma como não parece triste mas é, na maneira como faz as personagens parecerem livres quando não são.

Linklater, à primeira impressão, apoia-se apenas em diálogos. Nos dois filmes, a dupla anda e fala sem parar – e, quando para, sobretudo em Antes do Amanhecer, estão ainda a despejar o amor aos cantos, fazendo com que ele surja da brincadeira inesperada.

A primeira parte é sobre a impossibilidade de lidar com o futuro. A segunda, sobre como esse futuro – não importa o que se faça, o que se mude, o que se agarre – bate à porta e cobra uma reflexão, olhar para trás.

antes do por do sol

Antes do Pôr-do-sol mostra como esses amantes passageiros fizeram para lidar com a constatação de que não iriam mais se encontrar. Ele escreveu um livro, ela fez uma música. Entre essas amostras de arte, o diretor insere o reencontro, o caminhar, a Paris calma e pouco povoada sob o sol de uma tarde agradável.

Se antes a Viena de figuras curiosas confrontava a cada instante – com um poeta, uma cigana, dois amigos atores –, a Paris nada mais faz senão ser um palco, um local calmo em contraponto aos questionamentos das personagens, pouco a pouco à mostra.

Vale lembrar que os beijos e o sexo de antes também dão vez ao diálogo. Quando se é adulto, diz Linklater, o desejo do instante perde um pouco sua força. O casal volta ser confrontado ainda mais pelo tempo, com menos horas, na segunda parte, para estar unido. Jesse tornou-se um escritor de relativo sucesso, foi a Paris lançar seu livro – sobre o encontro passageiro entre um jovem casal, ou seja, sobre a história de Antes do Amanhecer – e, dentro de algumas horas, tomará seu avião.

Quando um repórter, na livraria, questiona-o sobre o fim ambíguo de seu livro, sobre aquele encontro marcado entre os amantes, fica claro que Jesse não soube lidar com o caso. Isso porque ele foi ao encontro combinado no encerramento de Antes do Amanhecer, enquanto Celine não apareceu.

antes do amanhecer2

Nesse tom, difícil é saber quem está mais apaixonado, mais disposto a se entregar: quem deverá ceder para mudar o rumo da história e, talvez, partir a um relacionamento sério. O cineasta não deixa saber muito sobre suas personagens. Seus seres são fechados, sem muito a revelar além de histórias, sem novas imagens do passado, à tela, senão aquelas do primeiro filme que retornam na continuação.

O segundo tem a mágica que falta ao primeiro: clara amostra da evolução de Linklater. Não apenas as personagens (e os atores) amadureceram. A própria narrativa e construção visual ganharam densidade e, no melhor sentido da palavra, simplicidade. Em Antes do Pôr-do-sol, a vida é como deve ser: um emaranhado de conversas ora sem sentido, ora deliciosas e produtivas. Os seres frágeis surgem depois.

O primeiro filme tem um gosto de sonho, uma noite de sexo ao escuro, oculto, que dá vez a uma manhã com os jovens ao chão, ao lado de uma fonte envelhecida. Nesse caso, o casal destoa: é a juventude contra aquela amostra da velha Europa.

Os diálogos trazem ao espectador as imagens que o filme – e a própria vida – não podem mostrar: imagens mentais, imaginadas por cada um à sua própria forma. Até o fim da segunda parte, continuam a contar histórias, a falar de outras coisas enquanto revelam muito sobre si próprios, a fazer o espectador acreditar na verdadeira paixão.