Andrzej Zulawski

A escalada ao rosto – e aos sentimentos – de Romy Schneider

A arte é um exercício de dor e, nos filmes do  diretor Andrzej Zulawski, não existe sem entrega, sem explosão. Suas personagens sofrem, choram, algumas aproximam-se da convulsão. A regra é sempre a entrega à aparente loucura, ao histerismo. Mesmo seus atos mais comportados devem algo ao horror, ao desespero.

Desde o título, o que está em jogo em O Importante é Amar é a capacidade de se entregar à arte e se deixar consumir pela mesma. É a possibilidade – a dificuldade, ainda mais – de ser real, de ser o mesmo, enfim, de ser. Estar na personagem por inteiro – ou na foto, ou na câmera. Desde o início, é o que aflige a personagem de Romy Schneider.

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À mulher talvez seja difícil ser ela própria. Seu passado retorna aos poucos, suas dores também. Uma mulher salva por um homem, um cinéfilo, e que vive à sombra de outros que a circulam. Em seu caso, a arte é praticamente um mal: oferece-lhe o espelho que tanto nega, o olhar ao interior, o choro verdadeiro, sincero, enquanto se sente bloqueada.

Mas se a arte só existe com entrega, o que fazer? Talvez seja este o verdadeiro drama dessa atriz, o que capta a câmera da personagem de Fabio Testi. É na abertura que o filme inteiro se resume, no cruzamento de olhares, de artes – encontro ao “acaso” celebrado pelo cinema, no momento da filmagem, no filme dentro de outro.

O que se vê primeiro é Schneider de corpo todo. É apenas o começo de uma escalada que terminará em seu rosto, em sua dor, enquanto a cineasta do filme dentro de outro pede que ela diga as palavras mais conhecidas das histórias de amor: “eu te amo”. As palavras remetem a algo forte, não se desligam da mulher verdadeira.

O corpo inteiro, em plano médio, fita a câmera de Zulawski. Antes a câmera verdadeira, a do filme, e depois a do filme como parte da ficção. O corredor convida à passagem, deixa ver, porta a porta, suas camadas, suas membranas, à medida que a atriz dirige-se ao fundo, ao sangue, ao homem que sua personagem ama e deve ir em socorro.

As personagens centrais serão apresentadas logo no primeiro plano e em outros, seguintes, que se desenrolam durante a filmagem. De tão forte, essa abertura faz a conexão entre o casal central funcionar, e tudo o que vem pela frente não precisará de preliminares: ambos já estão tão conectados que o filme todo corre sem esforço.

E toda a violência de Zulawski – suas “chicotadas”, suas figuras gritantes, que não raro apelam à palhaçada, ao excêntrico – funciona à base dessa abertura que dispensa palavras “reais”, que prefere a suposta encenação, ou o olhar trocado entre o casal. Ele, um intruso no set de filmagem, fotografa-a em momento-chave, justamente quando a atriz precisa ser verdadeira, quando é cobrada para dar tudo e dizer “eu te amo”.

“Não posso fazer isso”, diz a atriz de Schneider. “Você é paga para isso”, rebate a diretora. Ao mesmo tempo, Servais (Testi) posiciona-se para arrancar o close-up da bela mulher – um dos mais tristes da História do Cinema. “Não faça fotos, por favor. Sou uma atriz. Sei fazer bem as coisas. Faço-o para poder comer. Não tire fotos.”

As palavras ao fotógrafo explicam muito sobre a mulher: a tentativa de se distanciar da personagem, de desvincular a vida da ficção, pois tudo aquilo é “apenas um trabalho”. O filme todo é a jornada da atriz à sua descoberta, às suas entregas, aos seus desejos. E a abertura será a escalada – do plano-sequência do corredor, durante os créditos, às sequências passadas em outra sala, enquanto a atriz é dirigida – ao rosto, ao close-up.

Vida e interpretação confundem-se naquela face. Difícil saber quem chora de verdade. A personagem que sofre com o amante morto nos braços ou a atriz que não quer mergulhar na personagem que lhe foi dada? Fora desse espaço, Nadine (Schneider) tem uma vida, ou tentou construir uma. É casada com Jacques (Jacques Dutronc).

O filme de Zulawski, a partir da obra de Christopher Frank, pode ser compreendido como uma nova versão de O Desprezo, de Jean-Luc Godard, longa admirado pelo polonês. Nesse sentido, a personagem de Schneider corresponde à de Brigitte Bardot, mulher entre dois homens, duas vidas; a de Dutronc à de Michel Piccoli, o marido ligado à arte e que, a certa altura, vê-se deixado pela companheira, “desprezado”, como ele próprio diz; e a de Testi, com claras diferenças, à do repugnante produtor de Jack Palance.

Todas essas personagens reconhecem seus estados de falsidade, as camadas que precisam atravessar; todas fazem um exercício para o reconhecimento de seus sentimentos, de suas fraquezas, do desprezo, da falta de amor, no ponto em que arte e vida são uma só coisa. Nadine olha para a câmera na abertura; Jacques olha à mesma, mais tarde, antes de se suicidar. Clamam por cumplicidade, expõem verdade, a alma, o ser.

(L’important c’est d’aimer, Andrzej Zulawski, 1975)

Nota: ★★★★☆

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Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski

Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

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Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

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Entrevista: Anna Muylaert

12 diferentes fetiches explorados pelo cinema

O cinema é o espaço perfeito para o voyeur. O espaço para explorar o proibido, o íntimo e impenetrável – ou quase isso. Os filmes abaixo apresentam desejos de pessoas ou grupos, em alguns casos divididos apenas com o espectador, seu cúmplice. Obras de diferentes cineastas e épocas, com os mais variados fetiches.

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Atração por pés (podolatria) – O Alucinado

No início dessa grande obra de Luis Buñuel, seu protagonista, um obsessivo, observa os pés das mulheres no interior da igreja – justamente quando o padre lava os pés dos frequentadores, durante uma cerimônia. É ali que ele atenta-se a uma mulher entre várias, sua desejada e futura esposa. Um filme sobre ciúme e perseguição.

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Atração por deformidades (teratofilia) – A Tortura do Medo

O melhor exemplo do cinema sobre o desejo pela deformação. Esse estranho fetiche vai sendo revelado aos poucos e, a certa altura, o espectador descobre que o protagonista gosta de matar mulheres vendo seus rostos distorcidos no espelho. Em uma cena específica, ele fica deslumbrado por uma prostituta com o lábio deformado.

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Atração por criminosos – Marnie, Confissões de uma Ladra

O marido, vivido por Sean Connery, estuda zoologia e tenta entender a mulher, Marnie (Tippi Hedren), a ladra platinada. O desejo do homem a certa altura fica evidente (e seria confirmado pelo diretor Alfred Hitchcock): ele deseja fazer sexo com ela quando está prestas a cometer seu crime. A saber: ela é uma ladra compulsiva.

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Atração por sujeira ou fezes (coprofilia) – A Bela da Tarde

O mestre Buñuel foi o rei da exploração de fetiches no cinema. Eis outro exemplo famoso: o momento em que Séverine (Catherine Deneuve), amarrada, tem lama lançada contra seu corpo pelo amigo do marido. Trata-se de desejos ocultos divididos apenas com o espectador. Ela torna-se prostituta em um bordel para tentar realizá-los.

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Atração pela monstruosidade – Possessão

O filme mais famoso do grande diretor polonês traz Isabelle Adjani como Anna, que passa a apresentar comportamentos estranhos e é seguida pelo marido, Mark (Sam Neill). O que ele descobre é assustador: a companheira mantém relações sexuais com uma criatura monstruosa. Outro caso de teratofilia, aqui com doses de surrealismo.

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Ser tratado como criança (autonepiofilia) – Veludo Azul

O rapaz (Kyle MacLachlan) está escondido no armário e assiste à sessão de sadismo de Frank Booth (Dennis Hopper), quando este investe contra a frágil Dorothy (Isabella Rossellini). Ele rasteja às suas partes íntimas, cheira gás e, aparentemente dopado, faz-se um bebê em busca de sexo com a representação da mãe. Obra-prima de David Lynch.

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Vestir-se de mulher – Ed Wood

Mais conhecido como “o pior diretor de todos os tempos”, Ed Wood ganha vida na pele de Johnny Depp nesse filme de Tim Burton. Uma das manias do excêntrico diretor – sempre tratado com certa inocência por Burton – era se vestir de mulher. Apesar de cômica e nostálgica, a obra não deixa de ser um retrato triste de artistas à margem.

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Atração por máquinas e acidentes – Crash – Estranhos Prazeres

Obra-prima de David Cronenberg sobre um grupo de fetichistas ligado às máquinas, ao sexo, também ao cinema. Eles excitam-se nos veículos, exploram o desejo pela deformidade gerada por colisões e chegam a reproduzir acidentes que tiraram a vida de figuras famosas como James Dean. Perfeito retrato da busca pelo prazer na era moderna.

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Ouvir histórias eróticas – Ondas do Destino

Feito ainda no período do Dogma 95, época em que Lars von Trier apostava em uma câmera livre, de imagens “imperfeitas”, aqui a tratar de uma moça ingênua (Emily Watson) que se vê obrigada a procurar outros parceiros quando o marido sofre um acidente. Preso à cama, ele deseja ouvir os relatos de suas aventuras sexuais.

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Atração pelo sangue – Desejo e Obsessão

Há também toques de canibalismo nesse trabalho perturbador de Claire Denis, discípula de Jacques Rivette. Um homem recém-casado (Vincent Gallo) está em lua de mel em Paris e tenta resistir a seu desejo por sangue. Em paralelo, o espectador conhece uma mulher (Béatrice Dalle) aprisionada, que mata homens para realizar seus desejos sexuais.

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Masoquismo – A Professora de Piano

Pianista reclusa, aparentemente fria, a protagonista (Isabelle Huppert) sai em busca de excitação quando não está dando aulas. Frequenta cinemas pornográficos e ambientes de perversão. A história dá uma guinada quando ela passa a manter uma estranha relação com um de seus alunos (Benoît Magimel), o que inclui jogos perversos.

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Atração por cadáveres (necrofilia) – Beleza Adormecida

A protagonista (Emily Browning) é uma prostituta que divide seu tempo entre fisgar homens em um bar e servir às perversões de frequentadores de um castelo afastado. Ela aceita dormir nua, sob o efeito de remédio, sem saber o que se passa no quarto. Os clientes, por sua vez, devem respeitar as regras da casa e não fazer sexo com ela.

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Beleza Adormecida, de Julia Leigh

Seis grandes filmes que discutem a origem da vida e do universo

A origem da vida não deu trabalho apenas a cientistas e religiosos. O cinema abordou essa aurora – como o fim do mundo – em diferentes filmes e épocas. No entanto, apenas alguns longas conseguiram ser mais que apenas científicos ou religiosos, distantes daqueles típicos documentários feitos para a televisão. É o caso das seis obras da lista abaixo. São trabalhos complexos para pensar nas origens e no papel do homem no mundo ao redor – sem respostas fáceis.

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2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick

A estrela-feto, ao fim, dá uma ideia da ambição de Kubrick: um filme que vai da aurora do homem – com a violência – ao crepúsculo, com os cenários do interior de grandes naves, esculturas alienígenas, um robô enlouquecido e o homem rumo ao renascimento.

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Fata Morgana, de Werner Herzog

O diretor alemão empenhou-se em questionar o lugar do homem no mundo e sua relação com a natureza. Fata Morgana (nome que remete a uma miragem) tem um pouco de ficção científica, com os mais variados locais ao redor do globo, entre criação e destruição.

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Globo de Prata, de Andrzej Zulawski

Astronautas caem em um planeta que pode ser a Terra, renunciam à ciência e, mais tarde, aderem ao misticismo. O grande diretor polonês mostra o caminhar da civilização ao contrário: do moderno ao primitivo, passando pela guerra e por outro homem crucificado.

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Baraka, de Ron Fricke

Não é um documentário convencional. Não há qualquer narração. O que vem à tona é o mundo em imagens extraordinárias, de pontos diferentes do planeta: culturas distantes, animais exóticos, paisagens assustadoras. Um resumo da vida e de suas estranhas particularidades.

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Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán

Os astrônomos que trabalham no Deserto do Atacama, no Chile, buscam explicações para a origem da vida a partir das estrelas. Nesse mesmo deserto, mulheres buscam os restos mortais de vítimas da ditadura. Tipos diferentes de morte questionam essas pessoas.

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A Árvore da Vida, de Terrence Malick

Uma típica família americana divide a cena com a origem do universo, passando do cosmos à água, dos primeiros e pequenos seres aos dinossauros. Sinais religiosos não faltam. A obra de Malick é ousada, carregada de belas imagens, inúmeras simbologias.

a árvore da vida

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Andrzej Zulawski (1940–2016)

Os filmes de Andrzej Zulawski são raros. Ousados, eróticos, contestadores, às vezes difíceis de definir. Em apenas um, O Globo de Prata, há ficção científica, figuras religiosas e imagens reais para preencher o que não foi filmado ou o que foi perdido, quando as autoridades comunistas o impediram de terminar o trabalho.

Zulawski viveu entre países. Fez na França alguns de seus melhores filmes, com seu estilo inconfundível, planos-sequências de tirar o fôlego. Sangue e sexo não eram problemas, tampouco gratuitos. O histerismo era constante, o que nem sempre agradava.

possessão

Morreu aos 75 anos neste início de 2016, dono de uma filmografia pouco conhecida no Brasil. Seu trabalho mais lembrado é Possessão (foto acima), com a bela Isabelle Adjani. A sequência em que ela tem sua possessão, no metrô, marcou época.

Se possível, o diretor não recuava: no mesmo Possessão há a polêmica cena em que o marido (Sam Neill) encontra a mulher (a mesma Adjani) fazendo sexo com uma criatura difícil de definir, e que mais tarde daria vez ao duplo do mesmo homem.

Outro assunto caro ao diretor: os duplos. Em A Terça Parte da Noite, os mesmos atores vivem personagens diferentes. O protagonista reencontra a mulher amada, antes morta, em outro momento da vida – e ao fim encontra seu próprio cadáver.

Em Diabel (abaixo), filme que traz todas as características de seu cinema, o prisioneiro Jacob (Leszek Teleszynski) é libertado de um mosteiro e, como o protagonista do filme passado, percorre a trilha que o leva a si próprio, não sem flertar com o inferno.

diabel

A abertura dá a ideia do que enfrentará, quando o próprio Diabo, a cavalo, liberta-o da prisão. Com uma freira, embrenha a floresta húmida de atores ambulantes que o observam, que desejam despi-lo, e que mais tarde voltam a cruzar seu caminho. Passa-se durante a invasão prussiana à Polônia no século 17.

Em casa, encontra o pai morto, a irmã que serve aos prazeres de outro e, à frente, a mãe prostituta – em outra das várias sequências delirantes. Diabel não oferece nada a se apegar. É a imagem do caos, ecos de 68, como observou o crítico Fernando Fonseca.

O cineasta polonês deixa 13 longas, dois curtas. Foi assistente de direção de Andrzej Wajda antes de se estabelecer como grande cineasta. Sob sua direção, atrizes tiveram momentos marcantes, explosivos, como a já citada Adjani, premiada em Cannes.

o importante é amar

Outras devem ser lembradas, sobretudo Romy Schneider – ao lado de Fabio Testi e Jacques Dutronc – no ótimo O Importante é Amar (acima), feito das inconstâncias e diversos mundos de uma atriz, entre a pornografia e o teatro, em colapso psicológico, na abertura, quando deixa ver sua beleza (sua alma) em close inesquecível.

O xamanismo é recorrente, além da metalinguagem – em A Mulher Pública, Szamanka e, claro, O Globo de Prata. No último, astronautas veem-se isolados em um planeta e iniciam outra civilização – não sem repetir os sinais da primeira.

Ou dariam vez à atual, com suas imagens religiosas – as da crucificação incluídas – e problemas recorrentes, como guerras e intrigas políticas? Ao mesmo tempo, narrações perdidas vêm à tona e são preenchidas com registros da realidade.

a revolta do amor

Ao lado de Sophie Marceau, com quem foi casado, Zulawski fez o extraordinário A Revolta do Amor (acima). A abertura traz o assalto a banco mais estranho do cinema. Filme cheio de reviravoltas, de bandidos e escapadas, de amor louco.

Entre os enfants terribles do cinema moderno, o polonês ocupa destaque menor. Não é lembrado como um Pasolini, por exemplo, ainda que à altura. Seu cinema “já não se faz mais nesse minguado e bem comportado cinema contemporâneo que abdicou quase que completamente do radicalismo na temática e nas imagens”, observa Fonseca.

Zulawski fez obras de confrontos, de forma independente e autoral, sem agradar o espectador com caminhos conhecidos e meios acolhedores.

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