Andrzej Wajda

Os 20 melhores filmes de 2017

Até a metade, o ano não parecia ser dos melhores. Fala-se aqui, claro, do cinema. Mas algo mudou e grandes obras começaram a estrear, incluindo a primeira posição da lista abaixo – da qual muita coisa ficou de fora. Esse apanhado prova que o cinema atual respira bem. Grandes diretores continuam a fazer filmes e surpreender. Que venha 2018!

20) Manifesto, de Julian Rosefeldt

Cate Blanchett pula de cenário em cenário, de vida em vida, para dar voz a diferentes manifestos artísticos nesse filme original e sem saídas fáceis. Ao fundo repousa um mundo estranho, futurista, de salas lustradas ou de espaços em cacos, de gente bela ou miserável.

19) Últimos Dias em Havana, de Fernando Pérez

O que resiste é a amizade. E é sobre seu fim, a certeza de se ir embora – da vida ou de um país. Em cena, dois homens dividem a mesma casa em Havana, Cuba. Um fala muito, o outro quase nada. Um sonha em ir para os Estados Unidos, o outro tem aids e está acamado.

18) Eu, Daniel Blake, de Ken Loach

Davi contra Golias, o homem comum contra o Estado. Uma trajetória tocante que venceu a Palma de Ouro em Cannes. Ao centro, o simpático e às vezes difícil Daniel Blake, que não pode voltar a trabalhar e cuja vida é dificultada pelas autoridades, que insistem em não lhe ajudar.

17) Guerra do Paraguay, de Luiz Rosemberg Filho

O lendário diretor integrou o grupo de realizadores do cinema marginal. Trabalha aqui com o preto e branco, elenco e recursos mínimos. Conta a história de um soldado que retorna cheio de patriotismo da vitória no Paraguai e se depara com uma diligência guiada por mulheres.

16) Uma Mulher Fantástica, de Sebastián Lelio

O cotidiano da transsexual Marina Vidal fica de cabeça para baixo quando seu companheiro morre. É apenas o início do filme. O que vem a seguir é uma jornada por reconhecimento próprio contra a família do homem, que insiste em ignorá-la e tratá-la com preconceito.

15) Como Nossos Pais, de Laís Bodanzky

Retrato da vida de uma mulher presa às exigências da família – à medida que assiste às fugas e à boa vida do marido e à morte da mãe. Bodansky recheia sua história, outra vez, com sensibilidade. Em cena, o brasileiro que se descobre impotente, entre gerações diferentes demais.

14) Dunkirk, de Christopher Nolan

O espetáculo de guerra de Nolan. O filme é pulsante, empolga, não deixa cair no desinteresse em momento algum. Divide-se em três tempos: a semana de um rapaz que tenta escapar da França, o dia de um homem que ajuda os soldados no mar e as horas de um piloto contra os inimigos.

13) Nocturama, de Bertrand Bonello

Inédito nos cinemas, o filme foi direto para a Netflix. Os jovens em cena se reúnem para promover o caos: em um dia como qualquer outro, espalham bombas em Paris e sequer explicam suas reais motivações. Em seguida, juntam-se em uma loja de departamentos, à espera do fim.

12) Afterimage, de Andrzej Wajda

Outra luta de Davi e Golias, a do artista contra o sistema comunista polonês após a Segunda Guerra Mundial. Aos olhos do Estado, a arte de Wladyslaw Strzeminski não interessa: parece intelectual ou burguesa demais a esses tempos de “arte política”. Último filme do mestre Wajda.

11) Blade Runner 2049, de Denis Villeneuve

O que parecia impossível aconteceu: Villeneuve fez um novo Blade Runner sem que parecesse cópia do primeiro e, de quebra, sem deixar de lado as características do anterior. O diálogo entre ambos é pleno. Ainda assim, o cineasta vai em frente e faz um filme com sua assinatura.

10) Na Praia à Noite Sozinha, de Hong Sang-soo

Um dos mais belos trabalhos do coreano Sang-soo. Com muito diálogo e aparência de improviso, além do uso constante do zoom, o diretor trilha caminho autoral. Trabalha de maneira rápida, é incansável. E mais outros dois filmes do cineasta devem desembarcar em breve no Brasil.

9) O Ornitólogo, de João Pedro Rodrigues

A situação do protagonista tem algo onírico: ele perde-se pela floresta, é perseguido por mulheres que o torturam e assombrado por animais empalhados. O homem torna-se refém e presa nessa obra original do português João Pedro Rodrigues, com coprodução brasileira.

8) Z: A Cidade Perdida, de James Gray

Outro grande filme esquecido pelas premiações. Os homens do establishment hollywoodiano insistem em ignorar Gray, talvez o melhor cineasta americano em atividade. Aqui, ele conta a história real do explorar Percival Fawcett, em busca de uma cidade perdida.

7) Na Vertical, de Alain Guiraudie

A França profunda deixa ver os lobos. Nada pode ser previsto nesse filme do diretor de Um Estranho no Lago. A misè-se-scene de Guiraudie é direta, às vezes fria, dispensa firulas. Seu protagonista, um roteirista de cinema, torna-se pai e se vê sozinho com seu bebê.

6) O Apartamento, de Asghar Farhadi

A vida de um casal transforma-se ao mudar para outro apartamento. A cena inicial resume muito: o antigo prédio em que vivia apresenta tremores. No prédio seguinte, o casal passa a morar no apartamento em que residia uma prostituta, onde a nova moradora é agredida.

5) A Vida de uma Mulher, de Stéphane Brizé

Filme triste e realista, em época passada, ainda sob a regra dos bons modos. À frente, a vida da mulher é feita mais dos momentos tristes, menos dos felizes. Ela é vítima dos homens que a cercam: primeiro o marido, depois o filho. Ela resiste. Brizé é cruel e delicado.

4) Toni Erdmann, de Maren Ade

Os pontos altos dessa comédia ocorrem em situações inesperadas. A cineasta apresenta a difícil relação entre pai e filha, e como a segunda é levada a se transformar – a se despir, o que inclui o gesto literal – para seguir em frente. O momento em que canta é um achado.

3) Além das Palavras, de Terence Davies

Nova incursão pela vida de uma mulher. Personagem verdadeira, a poetisa Emily Dickinson passa da educação religiosa à vida de festas e alguma clausura. Sempre cercada pelas pessoas e, claro, pelas palavras. Davies é um daqueles mestres que merece mais reconhecimento.

2) Paterson, de Jim Jarmusch

A poesia, outra vez. O poeta urbano, escondido, à frente do volante de um ônibus. Os dias, para ele, só podem escapar da repetição – e das repetições sinalizadas pelos gêmeos – a partir da escrita, da possibilidade de ser poeta. Possivelmente o melhor filme do independente Jarmusch.

1) Corpo e Alma, de Ildikó Enyedi

A medalha de ouro fica com esse pequeno grande filme sobre o amor entre pessoas aparentemente diferentes, em lugar difícil de imaginar: um abatedouro de bovinos. Ali, ele observa a moça que tenta se desviar. Ambos passam a sonhar o mesmo sonho e relatam essa experiência a cada novo dia. Algo mágico, para dizer o mínimo.

E outros dez que merecem menções honrosas: Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé; Martírio, de Vincent Carelli; Moonlight: Sob a Luz do Luar, de Barry Jenkins; A Tartaruga Vermelha, de Michael Dudok de Wit; Manchester à Beira-Mar, de Kenneth Lonergan; Mimosas, de Oliver Laxe; Joaquim, de Marcelo Gomes; Eu Não Sou Seu Negro, de Raoul Peck; Fragmentado, de M. Night Shyamalan; e O Filho de Joseph, de Eugène Green.

Veja também:
Os 20 melhores filmes de 2016
Os 20 melhores filmes de 2015

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Mostra apresenta a arte de Jerzy Skolimowski

Alguns grandes cineastas nem sempre receberam o merecido valor no Brasil e, para muitos, suas obras caíram no esquecimento. É o caso do polonês Jerzy Skolimowski, cuja filmografia oferece um cardápio variado aos cinéfilos, passando pelos filmes de estreia na Polônia, pela linguagem claramente influenciada pela nouvelle vague e pela ousadia de filmes que captam à perfeição o espírito de sua época.

Skolimowski acaba de ganhar uma retrospectiva no Brasil, que começa nesta quarta-feira (24 de maio) no CCBB (Centro Cultural Banco do Brasil) de São Paulo. Abaixo, uma entrevista com Theo Duarte, um dos curadores da mostra O Cinema de Jerzy Skolimowski. Confira aqui mais informações sobre esse evento imperdível.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Qual a importância de Jerzy Skolimowski para o cinema moderno?

A obra cinematográfica de Skolimowski, como um exemplo virtuoso das maiores ambições do cinema moderno, foi fruto de uma intransigente independência artística e interesse na expressão autoral. Sob as mais distintas e adversas condições, seja sob ameaça de censura na Polônia comunista, seja sob pressão do mercado exibidor do ocidente, o diretor construiu uma trajetória autônoma, de contínua renovação e experimentação estilística. Como os maiores nomes dos cinemas novos, também manteve a sua independência ao deter-se em questões mais decididamente políticas, principalmente em torno da conturbada história de sua Polônia natal no pós-guerra. Desse modo, cremos que a sua vigorosa obra e a independência que a marca atraíram a atenção de diversos cineastas igualmente interessados nesses valores.

Esse interesse remonta ao período de realização de seus três primeiros filmes, Marcas de Identificação: Nenhuma (1964), Walkover (1965) e Barreira (1966). Esses atraíram a atenção da crítica internacional, especialmente a da revista Cahiers du Cinéma que, admirando o espírito revolucionário, impertinente e imprevisível de sua obra, considera-o como um dos grandes nomes dos assim chamados cinemas novos. O cinema de Skolimowski também revelava a vitalidade do cinema polonês de então, dando continuidade aos esforços de uma geração anterior, aquela de Andrzej Wajda, Andrzej Munk e Roman Polanski, com quem o cineasta colaborou.

Como foi possível viabilizar essa mostra e o que ela oferece de surpresa ao cinéfilo?

A realização da mostra só foi possível através do edital de projetos promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil. Apesar da crise econômica e da variação nos valores cambiais do euro e do dólar, a mostra conta com seis longas e os quatro primeiros curtas do cineasta em 35mm. Nós diríamos que trazer os filmes no formato em que foram filmados (que se não fosse a mostra, os cinéfilos não conseguiriam assistir) é uma das surpresas. A outra seria a exibição do seu último longa, ainda inédito aqui no Brasil, 11 minutos (2015).

Como outros diretores poloneses que fizeram carreira internacional, como Zulawski e Zanussi, o Skolimowski nem sempre é lembrado no Brasil e tem aqui seu devido valor. A que deve, na sua opinião, a distância brasileira a esses importantes autores?

Acreditamos que a distância dos brasileiros em relação a grandes cineastas do Leste Europeu de maneira geral se dá pelo pequeno circuito de distribuição que temos aqui. O circuito exibidor de filmes alternativos no Brasil ainda se concentra em filmes que ganharam festivais renomados ou que foram indicados para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Sem dúvida, o surgimento de uma a nova cinefilia, que toma conhecimento do melhor da produção cinematográfica internacional pela internet, mudou este cenário. Também podemos apontar que a obra de Skolimowski, em razão da já apontada independência em relação ao mercado exibidor, não se mostrou igualmente palatável ao grande público como as de demais cineastas poloneses como Roman Polanski e Andrzej Zulawski.

Vamos falar sobre os filmes. A Partida (Le Départ), com o Jean-Pierre Léaud, pode ser considerado um filme da nouvelle vague francesa? Como você o enquadra?

A Partida é um filme claramente marcado pela nouvelle vague francesa, mas não poderíamos dizer que ele faz parte do movimento (que está circunscrito na França, num momento específico, etc). Após conquistar a admiração da crítica internacional com os seus três primeiros longas, o cineasta embarca na aventura de dirigir Jean-Pierre Léaud, ator fetiche de François Truffaut, em um filme deliciosamente caótico, no qual já se reconhece novamente o interesse de Skolimowski, compartilhado pelos autores franceses, pela juventude e por uma encenação movida pelo improviso.

Ato Final (Deep End), como seus sinais da Swinging London, é geralmente considerado a obra-prima do diretor. Qual sua opinião sobre esse filme?

É um dos grandes filmes do diretor, onde parecem culminar os esforços anteriores em termos de encenação. O filme é notável por sua vitalidade, garantida por certa improvisação muito bem sucedida, musical, no encontro da câmera, atores e espaço. Deep End também espanta pela bem sucedida estilização do espaço visual e pelo uso das cores – o cineasta já demonstrava aí seu talento como pintor, desenvolvido posteriormente –, do jogo, de alusões simbólicas, na relação entre cores agressivas e o branco, da passagem entre uma ambientação realista para uma imagética onírica. Também nos parece extraordinário o modo como a interioridade do protagonista é objetivada pelo movimento febril da câmera, pela organização da temporalidade e pela estilização visual do espaço onde improvisa, que sublinha a espiral obsessiva do personagem adolescente, o movimento central da obra. Por fim, é também digno de atenção o olhar estranhado, crítico, de um artista estrangeiro em relação à juventude inglesa do fim dos anos 1960, em relação à liberdade sexual – como uma espécie de complemento nesses mesmos termos ao Blow Up de Antonioni.

Você acredita que um filme como O grito (The Shout) [também conhecido no Brasil como O Estranho Poder de Matar] poderia ser realizado nos tempos atuais, levando em conta sua ousadia e complexidade? Afinal, do que trata esse filme?

Não saberia dizer, afinal, me parece que no seio da conservadora indústria cinematográfica os filmes de horror – como, de certo modo poderia ser caracterizado O Grito – são aqueles que ainda hoje buscam novas formas e propõem alguma experimentação narrativa. No entanto, também parece difícil encontrar atualmente filmes para grande público marcados pelo tipo de estranheza atmosférica que dá forma a O Grito ou que propõem uma radical experimentação estética e técnica no uso do som.

Um dos filmes do Skolimowski que mais gosto é Classe operária (Moonlighting). E sempre me pareceu um filme mais centrado em uma visão individual, a de um homem sozinho, do que em uma “classe operária”. Na sua visão, qual importância política e social que esse filme tem hoje?

Necessário observar que Classe Operária foi o nome dado ao filme no Brasil, possivelmente em razão da dificuldade de se traduzir o belo e alusivo título original, que se refere ao ato de se trabalhar em um segundo emprego, clandestino. Mas considerando que o filme está centrado na visão individual do protagonista, ele também se abre a significados alegóricos que remetem à situação da classe operária polonesa de então, num momento de acentuada crise econômica e política. Em relação a sua pergunta, cremos que nesse momento em que a Europa Ocidental enfrenta uma grave crise de imigração, este filme tem sim muito a dizer. A personagem vivida por Jeremy Irons carrega consigo todas as dificuldades que um trabalhador imigrante enfrenta ao se estabelecer em um novo país. Viver em ambiente insalubre, sem dinheiro, com indiferença, sem prazo de retorno, etc. Nos dias de hoje pouca coisa mudou, os trabalhadores imigrantes ilegais enfrentam exatamente estes mesmos problemas, e nesse sentido o filme dá visibilidade a uma situação adversa que Skolimowski tematizou em algumas de suas obras, muito em razão de sua própria condição de exilado.

Parece-nos assim bastante coerente o diretor, ao ser homenageado no ano passado no Festival de Veneza pelo conjunto de sua obra, afirmar a importância de se realizar filmes sobre imigrantes e a imigração no futuro próximo. Como afirmou, “eu mesmo fui um imigrante durante muitos anos, então sei como a pessoa se sente ao ser forçada a deixar seu próprio país e depois tentar encontrar um lugar novo. (…) Eu me importo com as pessoas que estão de alguma forma às margens da sociedade, aquelas que são chamadas de perdedoras ou aquelas que não conseguem realmente encontrar um lugar na vida. (…) Algumas delas são figuras realmente trágicas, algumas podem ter interesses ocultos. O que quer que sejam, ainda são pessoas… E deveríamos tentar saber a seu respeito, entendê-las”.

E Essential Killing, continua conectado a nosso mundo atual, nesse momento de fronteiras fechadas e medo do “diferente”?

De certa forma todos os filmes de Skolimowski demonstram um engajamento com questões prementes do seu período. A sua originalidade em tratar o tema, articulando de modo inventivo a encenação e a montagem faz com que seus filmes não pareçam datados. Com Essencial Killing não seria diferente; apesar da narrativa se concentrar na fuga de um prisioneiro afegão, pode também articular um discurso sobre o fracasso das guerras encabeçadas pelas potências político-econômicas no Oriente Médio.

Para terminar, qual filme da mostra você considera imperdível e que merece a redescoberta?

É difícil escolher um dos filmes para indicar aos leitores, pois a obra do diretor é muito consistente, em todas as diferentes fases – seja na tetralogia de filmes poloneses semi-autobiográficos, nos filmes de exílio sobre a juventude (A Partida, Ato Final, Diálogo 20-40-60), em trabalhos mais pessoais desse mesmo período no estrangeiro (Sucesso é a Melhor Vingança e Classe Operária), assim como aqueles filmes realizados após seu retorno à direção, em 2008. Para afirmar apenas um, a escolha recai sobretudo para Ato Final (Deep End), a ser exibido em seu formato original.

Foto 1: Jerzy Skolimowski
Foto 2: A Partida
Foto 3: Ato Final
Foto 4: Essential Killing

Veja também:
Entrevista: Anna Muylaert

O Homem de Ferro, de Andrzej Wajda

No fim de O Homem de Ferro, uma personagem é sacrificada não antes de impedir que sacrifiquem sua própria consciência: ela toma o telefone e pede que comuniquem seu chefe, na rede de televisão estatal polonesa, sobre sua demissão.

É a resposta do cineasta Andrzej Wajda ao poder que tenta controlar a comunicação: podem levar das pessoas até certa obediência, não a liberdade de pensar.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

o-homem-de-ferro1

Nesse grande filme, o diretor polonês retoma a história iniciada (e não concluída) em O Homem de Mármore, lançado quatro anos antes, em 1977. Essa jornada tem início com a descoberta de uma velha estátua, em um museu, e termina com um pedaço de ferro sem vida, próximo ao local em que um homem morreu. O mármore e o ferro remetem ao mesmo homem, como mito ou como parte de um ambiente esquecido mas real.

Wajda, no início e no fim, obriga o espectador a observar as formas da ausência de humanismo ou as de seu excesso: o ponto da história em que o mito desfaz-se, dando vez ao homem, ou à menor forma que o represente. As estátuas tornam-se desnecessárias. O cinema, em oposição, oferece humanismo, diz Wajda, e contra ele emerge a propaganda estatal da época, forjada pelo governo polonês.

Move esses filmes o desejo de desconstruir o mito do operário padrão. Ele ocupava o centro de O Homem de Mármore e se chamava Birkut (Jerzy Radziwilowicz). Em O Homem de Ferro, um jornalista busca o filho desse líder, também convertido em sindicalista quando explodem as famosas greves de 1980, com Lech Walesa à frente.

O filho, Maciej (também vivido por Radziwilowicz), esteve nos movimentos estudantis de 1968, não nas lutas dos operários em 1970. Participar dos movimentos de 1980, para ele, é uma resposta ao pai, que se recusou a ir às ruas em 1968 e terminou morto nos conflitos seguintes, dois anos depois. As voltas da História não são obras do acaso, aponta o humanista Wajda. Tampouco o cinema deixará parecer assim.

No caminho de Maciej está a cineasta Agnieszka (Krystyna Janda), que tentava descobrir, no filme anterior, o homem por trás da estátua de mármore, o trabalhador convertido em símbolo da “maravilha comunista”, depois acusado de traição.

o-homem-de-ferro2

A cineasta une-se a Maciej, tornar-se sua mulher, termina presa. A certa altura de O Homem de Ferro, o condutor da história entrevista-a na prisão. Wajda muda o foco: de investigadora, Agnieszka passa a investigada e contribui a esse quebra-cabeça.

Ela cita algo esclarecedor na sala apertada e gélida do cárcere: “Uma vez presa, você não precisa mais se preocupar em fugir”. Em outras palavras, ou se aceita a prisão ou se tenta fugir. E não se fala apenas de prisão física. O Estado opressor desejava “homens de ferro”. “Por que você visita locais que deveria esquecer?”, questiona um membro do poder, ao visitar Maciej e intimidá-lo. A pergunta remete a 1984, de Orwell: a tentativa de apagar a memória e dominar (falsificar) o passado.

Se em O Homem de Mármore há o homem por trás da estátua sem vida, em O Homem de Ferro a busca é pela configuração do novo homem. Mas o novo mito, Maciej, nasce de outro efeito, com outra matéria, quando trabalhadores dão início à greve.

A História sempre encontra brechas para revelar a verdade, mesmo quando o olhar é o do mais improvável herói. Wajda prefere humanos errantes, às vezes o fraco, com ironias e falsidades. A História é feita de carne e osso, forjada por pontos de vista. O Homem de Ferro contraria seu título bruto: é uma história de amor.

(Czlowiek z zelaza, Andrzej Wajda, 1981)

Nota: ★★★★☆

Veja também:
Andrzej Zulawski (1940–2016)

Andrzej Zulawski (1940–2016)

Os filmes de Andrzej Zulawski são raros. Ousados, eróticos, contestadores, às vezes difíceis de definir. Em apenas um, O Globo de Prata, há ficção científica, figuras religiosas e imagens reais para preencher o que não foi filmado ou o que foi perdido, quando as autoridades comunistas o impediram de terminar o trabalho.

Zulawski viveu entre países. Fez na França alguns de seus melhores filmes, com seu estilo inconfundível, planos-sequências de tirar o fôlego. Sangue e sexo não eram problemas, tampouco gratuitos. O histerismo era constante, o que nem sempre agradava.

possessão

Morreu aos 75 anos neste início de 2016, dono de uma filmografia pouco conhecida no Brasil. Seu trabalho mais lembrado é Possessão (foto acima), com a bela Isabelle Adjani. A sequência em que ela tem sua possessão, no metrô, marcou época.

Se possível, o diretor não recuava: no mesmo Possessão há a polêmica cena em que o marido (Sam Neill) encontra a mulher (a mesma Adjani) fazendo sexo com uma criatura difícil de definir, e que mais tarde daria vez ao duplo do mesmo homem.

Outro assunto caro ao diretor: os duplos. Em A Terça Parte da Noite, os mesmos atores vivem personagens diferentes. O protagonista reencontra a mulher amada, antes morta, em outro momento da vida – e ao fim encontra seu próprio cadáver.

Em Diabel (abaixo), filme que traz todas as características de seu cinema, o prisioneiro Jacob (Leszek Teleszynski) é libertado de um mosteiro e, como o protagonista do filme passado, percorre a trilha que o leva a si próprio, não sem flertar com o inferno.

diabel

A abertura dá a ideia do que enfrentará, quando o próprio Diabo, a cavalo, liberta-o da prisão. Com uma freira, embrenha a floresta húmida de atores ambulantes que o observam, que desejam despi-lo, e que mais tarde voltam a cruzar seu caminho. Passa-se durante a invasão prussiana à Polônia no século 17.

Em casa, encontra o pai morto, a irmã que serve aos prazeres de outro e, à frente, a mãe prostituta – em outra das várias sequências delirantes. Diabel não oferece nada a se apegar. É a imagem do caos, ecos de 68, como observou o crítico Fernando Fonseca.

O cineasta polonês deixa 13 longas, dois curtas. Foi assistente de direção de Andrzej Wajda antes de se estabelecer como grande cineasta. Sob sua direção, atrizes tiveram momentos marcantes, explosivos, como a já citada Adjani, premiada em Cannes.

o importante é amar

Outras devem ser lembradas, sobretudo Romy Schneider – ao lado de Fabio Testi e Jacques Dutronc – no ótimo O Importante é Amar (acima), feito das inconstâncias e diversos mundos de uma atriz, entre a pornografia e o teatro, em colapso psicológico, na abertura, quando deixa ver sua beleza (sua alma) em close inesquecível.

O xamanismo é recorrente, além da metalinguagem – em A Mulher Pública, Szamanka e, claro, O Globo de Prata. No último, astronautas veem-se isolados em um planeta e iniciam outra civilização – não sem repetir os sinais da primeira.

Ou dariam vez à atual, com suas imagens religiosas – as da crucificação incluídas – e problemas recorrentes, como guerras e intrigas políticas? Ao mesmo tempo, narrações perdidas vêm à tona e são preenchidas com registros da realidade.

a revolta do amor

Ao lado de Sophie Marceau, com quem foi casado, Zulawski fez o extraordinário A Revolta do Amor (acima). A abertura traz o assalto a banco mais estranho do cinema. Filme cheio de reviravoltas, de bandidos e escapadas, de amor louco.

Entre os enfants terribles do cinema moderno, o polonês ocupa destaque menor. Não é lembrado como um Pasolini, por exemplo, ainda que à altura. Seu cinema “já não se faz mais nesse minguado e bem comportado cinema contemporâneo que abdicou quase que completamente do radicalismo na temática e nas imagens”, observa Fonseca.

Zulawski fez obras de confrontos, de forma independente e autoral, sem agradar o espectador com caminhos conhecidos e meios acolhedores.

Veja também:
Jacques Rivette (1928–2016)

Os cinco melhores filmes de Andrzej Zulawski

Na onda de liberdade dos cinemas novos, ou mesmo no fim dela, nos anos 70, o nome de Andrzej Zulawski agita a sétima arte. Faz filmes violentos, desafiadores, nos quais o sagrado e o profano sempre dividem os mesmos espaços.

Como outros realizadores poloneses, teve problemas para financiar seus filmes. A carreira tem sucessos lembrados, como Possessão, e grandes obras quase esquecidas, como Szamanka – no qual volta a abordar o xamanismo, presente em O Globo de Prata. Antes de se tornar diretor, Zulawski foi assistente de Wajda em Samson, a Força Contra o Ódio e em um episódio de Amor aos 20 Anos. Aprendeu com um mestre.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

5) A Terça Parte da Noite (1971)

Passado na Segunda Guerra Mundial, o filme inclui um dos temas favoritos de Zulawski e presente em outros de seus filmes: a origem dos duplos. Nesse caso, um jovem ainda sofre com a morte da mulher e ajuda outra, quase idêntica à anterior, a ter seu filho. Ao mesmo tempo, empresta o corpo como cobaia para a produção de vacinas.

a terça parte da noite2

4) O Importante é Amar (1975)

Ainda na abertura, a atriz tem dificuldades de chegar à “verdade” desejada pela diretora, durante a realização de um filme. Ao mesmo tempo, ela é fotografada por um rapaz com quem manterá um caso. Nessa obra incrível, Zulawski mescla o ambiente do teatro ao do cinema pornográfico, com Romy Schneider em grande interpretação.

o importante é amar

3) O Globo de Prata (1988)

A obra mais ambiciosa do diretor teve sua produção interrompida pelo governo polonês ainda nos anos 70. Mais tarde, o cineasta retomou a história e remontou o material, preenchendo as partes que faltavam com narrações e imagens da vida cotidiana. O filme conta a origem do planeta – ou a formação de outro – com a chegada dos astronautas.

o globo de prata

2) Diabel (1973)

Em termos de violência e sangue, talvez seja o filme mais forte do diretor, ao lado de Possessão. Aqui, um jovem é salvo da prisão por um estranho e seguido de perto por uma freira. Passa-se durante a invasão prussiana à Polônia, com o caos por todos os lados, atores ambulantes e a mãe que vive em um prostíbulo.

diabel2

1) A Revolta do Amor (1985)

Nessa obra-prima, Zulawski trabalha com sua companheira Sophie Marceau, com quem ficou por anos. Segue certa tendência ao erotismo, como também se viu no anterior A Mulher Pública e explora a corrida de um ladrão de bancos para resgatar sua namorada (Marceau), ao mesmo tempo em que conhece um homem sonhador.

a revolta do amor

Veja também:
Os cinco melhores filmes de Michael Haneke
Os cinco melhores filmes de Maurice Pialat