Alida Valli

Lisa e o Diabo, de Mario Bava

Como mordomo, o Diabo é quem assiste, quem move as peças, ao mesmo tempo o centro e o espaço à margem. Carrega por ali, em Lisa e o Diabo, os bonecos de seres que já foram pessoas, ou as pessoas que acabaram cedendo a própria carne ao molde desse senhor das trevas de cabeça lustrada, sob a forma endiabrada de Telly Savalas.

Será o Diabo perfeito. Por outro lado, não chega a ser o vilão desse grande filme de Mario Bava. Característica que apenas um realizador munido de total controle poderia conferir: mais vale o truque do que o golpe, mais vale o mover das peças – ou dos bonecos – do que o avanço às figuras humanas indefesas e em busca de prazer.

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A história sequer é do Diabo. Ou, se é, este não precisa assumi-la. Brinca com os outros como um mestre de marionetes, tem posição privilegiada sobre o palco. Os outros são os convidados acidentais – ou não – de um castelo, no qual terminam no meio da noite. Vale voltar no tempo: à turista que se perdeu do grupo e conheceu o Diabo.

Ela é Lisa, vivida pela bela Elke Sommer. É a turista que paga para ir ao paraíso e desce ao inferno. Destino surreal, digno dos melhores devaneios de Bava: a moça pode ser a reencarnação, ou o duplo, de uma mulher morta. Da outra restou apenas a caveira, ainda conservada à cama, como a mãe de Norman Bates em Psicose.

A moça tenta escapar do Diabo, depois tenta fugir de um homem que diz conhecê-la, mas que a chama de Elena. É quando as mulheres – e os papéis – começam a se confundir, ou a se fundir. O jogo de duplos, no entanto, não é soberano. Bava, de novo, parece estar contando mais de uma história de uma só vez, com espíritos, assassinatos e charadas.

Os créditos não deixam mentir: as cartas reproduzem o jogo. Os jogadores terminam no castelo, no meio da noite, entre neblina. Lisa pega carona com um casal rico e seu chofer. A mulher é amante do empregado, o marido talvez saiba de tudo. Outra pequena história paralela que dá vez, sem surpresa, a uma tragédia – um atropelamento brutal.

As personagens de Bava matam com vontade, e o diretor faz crescer esse desejo por meio de seus efeitos. Sem medo de exagerar, ou de parecer delirante, com uso excessivo do zoom e da imagem fora de foco, do sangue de vermelho gritante e dos sons que cercam o castelo.

Outro castelo, como em O Chicote e o Corpo ou Os Horrores do Castelo de Nuremberg. Outra visita aos aristocratas insuportáveis, impositivos, mofados em figurinos velhos e mobília empoeirada. Entre eles o rapaz Max (Alessio Orano), cuja tensão erótica – além da forma efeminada – aproxima-o de Helmut Berger nos filmes de Luchino Visconti.

Atormentado pela presença da mãe (Alida Valli), ele aproxima-se de Lisa, na qual enxerga Elena. Os papéis trocados servem ao jogo do Diabo de Savalas. Sua vitória – ninguém duvida dela – é fazer com que a bela moça ao centro acredite estar em um longo sonho, no meio de um castelo sem vida, cercada por bonecos de cera.

A turista é rendida por essas pessoas estranhas. Não sabe o que se passa ao lado. Tem então de correr ao seu avião, à velha vida que lhe aguarda, a qualquer sinal da civilização que se perdeu no caminho a esse castelo impossível e distante, no sonho transmitido à tela – com assassinatos, mães dominadoras e um pouco de necrofilia. É o universo único de Bava, espaço no qual o Diabo, seguro, sorri do início ao fim, a cada nova cartada.

(Lisa e il diavolo, Mario Bava, 1973)

Nota: ★★★★★

Veja também:
A Maldição do Demônio, de Mario Bava

Sedução da Carne, de Luchino Visconti

O fato de o casal central não funcionar não retira a grandeza da história de amor. No filme de Luchino Visconti, o amor revela-se no isolamento, na distância, na estranheza entre seres envolvidos também em uma causa política: ela como uma condessa nacionalista que, apaixonada, descontrolada, permite que o sentimento ultrapasse o engajamento; ele como um oficial austríaco do qual mulher nenhuma escapa.

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Nenhum deles, sabe-se cedo, encontrará a felicidade: essa história de amor em tons envelhecidos está fadada a dar errado desde o início. De novo, o espectador reconhece, fareja o que está fora do lugar – o que culmina com a mulher perdida, nos instantes finais, vestida de preto, rente aos paredões; com o homem fuzilado.

Fala de sentimento, não da “sedução da carne”, como diz o título brasileiro. O que talvez tenha ajudado a inflamar a crítica a Visconti feita pelas esquerdas da época. Não era “histórico” o suficiente, era apaixonado demais, confinado demais, de aparência retocada, como uma daquelas pinturas caras para se pregar em um museu.

Mas Sedução da Carne é estranhamente um filme histórico no qual as personagens centrais revelam o espírito de uma época: são, por um lado, figuras que se contentam em viver sob o fogo de uma paixão, de gritos inesperados quando consumidas por essa mesma paixão, condicionadas a correr todos os riscos – ainda que o outro não mereça.

No extremo oposto, a figura do oficial pouco a pouco se revela odiosa, pequena, o retrato do dominador que não quer estar ali, covarde que caça mulheres ricas para tomar dinheiro, para conseguir comprar sua liberdade com um falso atestado médico. Nesse conflito entre dominadores e nacionalistas se esconde um mundo real de sentimentos.

Há, inclusive, uma explicação implícita para a vitória inevitável dos italianos: a mulher, tão apaixonada, tão disposta a seguir seu coração, não se deixa inclinar àquilo que corre ao lado – seja uma revolução, seja o conforto, seja a sobrevivência – e se deixa consumir pelo sentimento a ponto de enlouquecer, como o filme sugere.

Do outro lado, o dominador austríaco não quer mais que conforto, do qual desfruta a partir do dinheiro que retirou da amante casada. Vive na companhia de belas prostitutas, à base das cartas que manda à protagonista (nas quais ainda joga com o fingimento), e por isso mesmo não serve à batalha que corre do lado de fora.

A mulher casada é a condessa Livia Serpieri. No papel, Alida Valli olha para o nada, desvia, e deixa ver o que sente. Ele, o verdadeiro falso da história, é Farley Granger. Ao fim, quando ela procura-o, descobre o embuste, o derrotado em túmulo pequeno-burguês, em roupão de banho, sob o efeito de bebidas, ao lado de uma companhia de ocasião.

E se o filme de Visconti não precisa ser tão “histórico”, quem liga? Desde o título, não joga com o falso. Inicia no teatro, com juras de amor seguidas por gritos de guerra. Todo o filme está ali. Quando a guerra vem, do lado de fora, será feita como uma pintura da mesma época, do Risorgimento. Pintura que não permite ser tocada, ser feia demais, que desvia da sujeira da verdadeira guerra. Visconti aferra-se à beleza.

A euforia do início, dos palcos e dos camarotes de adornos dourados, sintetiza ainda um universo confinado às interpretações, à arte como refúgio: lados diferentes da guerra estão ali, antes, como espectadores, à espera de algum movimento, dos panfletos lançados à plateia pelos nacionalistas à tentativa de ver tudo com indiferença pelos invasores.

Visconti não deixa escapar a figura humana em luta com (e contra) seus próprios sentimentos, isolada, que é o que é, de necessidades salientes mesmo sob a menor expressão, contra os fatos históricos, as ações políticas. Chega a ser nobre toda a cegueira de sua bela Alida Valli, mulher que, de tanto amar, só pode mesmo enlouquecer.

(Senso, Luchino Visconti, 1954)

Nota: ★★★★★

Veja também:
O teatro do amor e da morte em duas obras de Marcel Carné