Alfred Hitchcock

20 grandes filmes sobre a (difícil) vida em comunidade

Cidades, povoados, bairros. Em todos os filmes abaixo, surgem diferentes grupos e relações. O contato entre seres nem sempre é fácil. Ou quase nunca o é. Os filmes são de tempos distintos, distantes em visual e estilo de direção. Dão, contudo, uma boa amostra da difícil relação entre pessoas na tela do cinema. Abaixo, 20 filmes que merecem atenção.

M, o Vampiro de Düsseldorf, de Fritz Lang

Os criminosos precisam tomar a dianteira quando um serial killer coloca em risco seus negócios. O criminoso ataca crianças e, mais tarde, é colocado em um tribunal improvisado. O filme antecipa o nazismo.

A Mulher do Padeiro, de Marcel Pagnol

Padeiro perde a mulher, deixa de fazer seus pães e a cidade desespera-se para reencontrá-la. O padre não quer seu retorno, o marido aceita se rebaixar. Entre o cômico e o trágico, um belo filme sobre a província.

Sombra do Pavor, de Henri-Georges Clouzot

Moradores de uma cidade aparentemente pacata começam a receber cartas com estranhas mensagens. Pouco a pouco, o espectador descobre mais sobre as personagens. À época, o filme foi incompreendido.

Janela Indiscreta, de Alfred Hitchcock

A vida em comunidade pelo ponto de vista do homem imobilizado, que do aparente equilíbrio dos seres à frente, pela sua lente, passa a assistir ao horror. Um de seus vizinhos pode ter matado a mulher.

Vampiros de Almas, de Don Siegel

O médico à frente da história desconfia que diferentes pessoas, em sua tranquila cidade, foram substituídas por alienígenas. Clássico feito em pleno período de paranoia, na Guerra Fria, pelo talentoso Siegel.

O Grande Momento, de Roberto Santos

O filme acompanha um rapaz no dia de seu casamento, com alguns problemas: lidar com os convidados, pagar as dívidas, aguentar a família da amada e a própria. Em meio a tudo isso, precisa vender a bicicleta.

Bom Dia, de Yasujiro Ozu

Crianças fazem greve de silêncio porque não possuem uma televisão. Os pais recusam-se a aderir à nova tecnologia. Enquanto isso, de casa em casa corre o boato de que uma mulher teria roubado dinheiro.

A Última Sessão de Cinema, de Peter Bogdanovich

Os jovens ouvem velhas histórias perdidas no tempo, assistem aos clássicos no cinema antes que o espaço feche as portas. O sexo é uma fuga. Há desespero por todos os cantos nesse filme apaixonante.

Amarcord, de Federico Fellini

As memórias do diretor na cidade em que cresceu. Por ali, belas mulheres desfilam entre homens, carros cruzam ruelas em alta velocidade, meninos são atraídos pelas curvas femininas e descobrem o sexo.

A Árvore dos Tamancos, de Ermanno Olmi

Ganhador da Palma de Ouro, retrata a vida humilde dos trabalhadores do campo, no dia a dia difícil. O elenco é feito por atores amadores. O resultado é uma obra-prima chamada por muitos de neorrealista.

A Despedida, de Elem Klimov

Outro sobre o cotidiano de pessoas simples em local isolado. A vida de todos se transforma quando o governo faz a retirada dos moradores para a construção de uma barragem, o que causará a inundação do vilarejo.

Underground – Mentiras de Guerra, de Emir Kusturica

Entre a Segunda Guerra Mundial e a Guerra da Bósnia, Kusturica revela a transformação de um grupo de pessoas, por décadas, da Iugoslávia dos dias gloriosos de Tito à dissolução do bloco comunista.

O Show de Truman, de Peter Weir

A vida como maquiagem, no espaço (um estúdio de tevê) em que todos interpretam para o protagonista, Truman, o único que não sabe da farsa. Pouco a pouco ele segue rumo à verdade. E toda a sociedade cai.

Beleza Americana, de Sam Mendes

Os vizinhos observam-se pelas janelas. Um deles recorre à câmera de vídeo. Por ali, um casal homossexual tenta se aproximar, um ex-militar não facilita o contato e o protagonista deseja voltar à juventude.

Dogville, de Lars von Trier

O cineasta conhecido por seu radicalismo retira as paredes e, em contraponto ao visual falso, leva a situações duras do cotidiano, na pequena cidade à qual a protagonista vê-se alienada e escravizada.

A Fita Branca, de Michael Haneke

Diretor famoso por filmes frios e sem concessões, Haneke aborda o grupo, a pequena cidade em que ocorrem crimes estranhos. O ambientação chega ao terror. A época ajuda: estão à beira da Primeira Guerra.

A Caça, de Thomas Vinterberg

Mais do que sobre um homem perseguido, acusado de pedofilia, a obra de Vinterberg aborda a intolerância daqueles que o rodeiam. Perto do fim, o mesmo homem vai à igreja para encarar os outros.

O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho

Retrato da difícil relação entre pessoas em um bairro rico de Recife, no qual os extremos tocam-se com alguma dificuldade. O diretor constrói o mal a conta-gotas, até virar algo insuportável.

Timbuktu, de Abderrahmane Sissako

O filme leva o nome de uma cidade, no Mali, no período em que se vê dominada por extremistas islâmicos. A presença do grupo transforma o cotidiano local. As pessoas passam a ser vigiadas e sofrem abusos.

Três Anúncios Para um Crime, de Martin McDonagh

O belo roteiro de McDonagh aproxima o drama da comédia. Ora ou outra a violência explode na pequena cidade em que uma garota é assassinada e sua mãe, por meio de outdoors na estrada, protesta e cobra a polícia local.

Veja também:
Os oito principais erros cometidos pela crítica de cinema

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

100 grandes vilões do cinema

O que define um vilão? Em termos gerais, a capacidade de fazer o mal e colocar barreiras ao avanço do protagonista ou herói da história. Por outro lado, nem sempre se conta com o protagonista esperado e, por isso, há casos em que reinam os vilões, em que o espectador está sozinho com eles – ou quase. É o caso de obras desafiadoras como Laranja Mecânica ou Taxi Driver, nas quais seus protagonistas são também os vilões e, por consequência, representam o espaço e sintetizam a sociedade ao redor.

A lista abaixo traz vilões conhecidos e outros pouco lembrados. O apanhado tenta fazer justiça a muitos coadjuvantes que roubam a cena. Trata-se de um mergulho no espaço da maldade que o cinema não cansa de reinventar. Nele, não se pode negar a atração, o choque, os efeitos causados por grandes antagonistas. À lista.

100) Michael Myers (Tony Moran) em Halloween – A Noite do Terror

99) Edwin Epps (Michael Fassbender) em 12 Anos de Escravidão

98) Margot Shelby (Jean Gillie) em A Mulher Dillinger

97) Regan/ O Diabo (Linda Blair) em O Exorcista

96) John Fitzgerald (Tom Hardy) em O Regresso

95) General Paul Mireau (George Macready) em Glória Feita de Sangue

94) Iago (Micheál MacLiammóir) em Otelo

93) O Comandante (Idris Elba) em Beasts of No Nation

92) Sargento Barnes (Tom Berenger) em Platoon

91) Senhora Sebastian (Leopoldine Konstantin) em Interlúdio

90) Joe Cooper (Matthew McConaughey) em Killer Joe – Matador de Aluguel

89) Amy Dunne (Rosamund Pike) em Garota Exemplar

88) Jack Wilson (Jack Palance) em Os Brutos Também Amam

87) Assassino mascarado (Cameron Mitchell) em Seis Mulheres para o Assassino

86) Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) em O Abutre

85) John Claggart (Robert Ryan) em Billy Budd

84) Capitão Munsey (Hume Cronyn) em Brutalidade

83) Isabelle de Merteuil (Glenn Close) em Ligações Perigosas

82) Jeanne (Isabelle Huppert) e Sophie (Sandrine Bonnaire) em Mulheres Diabólicas

81) Alonzo Harris (Denzel Washington) em Dia de Treinamento

80) Vince Stone (Lee Marvin) em Os Corruptos

79) Annie Wilkes (Kathy Bates) em Louca Obsessão

78) Bill Cutting (Daniel Day-Lewis) em Gangues de Nova York

77) Verbal Kint (Kevin Spacey) em Os Suspeitos

76) Edoardo Nottola (Rod Steiger) em As Mãos Sobre a Cidade

75) Dobbs (Humphrey Bogart) em O Tesouro de Sierra Madre

74) Antonio Salieri (F. Murray Abraham) em Amadeus

73) Louis Cyphre (Robert De Niro) em Coração Satânico

72) O tenente (Anselmo Duarte) em O Caso dos Irmãos Naves

71) Amon Goeth (Ralph Fiennes) em A Lista de Schindler

70) O senhor Brown (Richard Conte) em Império do Crime

69) Matty Walker (Kathleen Turner) em Corpos Ardentes

68) Tommy DeVito (Joe Pesci) em Os Bons Companheiros

67) Vera (Ann Savage) em Curva do Destino

66) Alex Forrest (Glenn Close) em Atração Fatal

65) Harry Lime (Orson Welles) em O Terceiro Homem

64) Enfermeira Ratched (Louise Fletcher) em Um Estranho no Ninho

63) Asami (Eihi Shiina) em Audição

62) C.A. Rotwang (Rudolf Klein-Rogge) em Metrópolis

61) Drácula (Bela Lugosi) em Drácula

60) Senhora Danvers (Judith Anderson) em Rebecca, a Mulher Inesquecível

59) Johnny Rocco (Edward G. Robinson) em Paixões em Fúria

58) Johnny Friendly (Lee J. Cobb) em Sindicato de Ladrões

57) Ricardo III (Laurence Olivier) em Ricardo III

56) Henry (Michael Rooker) em Henry: Retrato de um Assassino

55) John Doe (Kevin Spacey) em Seven: Os Sete Pecados Capitais

54) Zé Pequeno (Leandro Firmino) em Cidade de Deus

53) Margaret White (Piper Laurie) em Carrie, a Estranha

52) Eve (Anne Baxter) em A Malvada

51) Vidal (Sergi López) em O Labirinto do Fauno

50) Barrett (Dirk Bogarde) em O Criado

49) Daniel Plainview (Daniel Day-Lewis) em Sangue Negro

48) Tony Montana (Al Pacino) em Scarface (1983)

47) Mark Lewis (Karlheinz Böhm) em A Tortura do Medo

46) Duke Mantee (Humphrey Bogart) em A Floresta Petrificada

45) Chuck Tatum (Kirk Douglas) em A Montanha dos Sete Abutres

44) Hans Landa (Christoph Waltz) em Bastardos Inglórios

43) Dr. Caligari (Werner Krauss) em O Gabinete do Dr. Caligari

42) Inspetor (Gian Maria Volonté) em A Investigação Sobre Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita

41) Senhor Potter (Lionel Barrymore) em A Felicidade Não se Compra

40) Raymond Lemorne (Bernard-Pierre Donnadieu) em O Silêncio do Lago

39) Szell (Laurence Olivier) em Maratona da Morte

38) HAL 9000 (voz de Douglas Rain) em 2001: Uma Odisseia no Espaço

37) Paul (Arno Frisch) e Peter (Frank Giering) em Funny Games

36) Príncipe Próspero (Vincent Price) em A Orgia da Morte

35) Travis Bickle (Robert De Niro) em Taxi Driver

34) Rico (Edward G. Robinson) em Alma no Lodo

33) Baby Jane Hudson (Bette Davis) em O que Teria Acontecido com Baby Jane?

32) Noah Cross (John Huston) em Chinatown

31) Tony (Paul Muni) em Scarface – A Vergonha de uma Nação

30) O Coringa (Heath Ledger) em Batman – O Cavaleiro das Trevas

29) Hank Quinlan (Orson Welles) em A Marca da Maldade

28) Anton Chigurh (Javier Bardem) em Onde os Fracos Não Têm Vez

27) J.J. Hunsecker (Burt Lancaster) em A Embriaguez do Sucesso

26) Ryunosuke (Tatsuya Nakadai) em A Espada da Maldição

25) Capitão Bligh (Charles Laughton) em O Grande Motim

24) Zé do Caixão (José Mojica Marins) em À Meia-Noite Levarei Sua Alma

23) Jack Torrance (Jack Nicholson) em O Iluminado

22) Conde Orlok (Max Schreck) em Nosferatu

21) Lady Kaede (Mieko Harada) em Ran

20) Alex DeLarge (Malcolm McDowell) em Laranja Mecânica

19) A Bruxa Má do Oeste (Margaret Hamilton) em O Mágico de Oz

18) Pinkie Brown (Richard Attenborough) em O Pior dos Pecados

17) Tom Powers (James Cagney) em O Inimigo Público

16) Eleanor Shaw Iselin (Angela Lansbury) em Sob o Domínio do Mal

15) Regina Giddens (Bette Davis) em Pérfida

14) Tio Charlie (Joseph Cotten) em A Sombra de uma Dúvida

13) Ellen Berent Harland (Gene Tierney) em Amar Foi Minha Ruína

12) Harold Shand (Bob Hoskins) em Caçada na Noite

11) Darth Vader em Guerra nas Estrelas e O Império Contra-Ataca

10) Cody Jarrett (James Cagney) em Fúria Sanguinária

Cagney é pura maldade. Um demônio que não esquece a mãe e que, ao fim, chega ao “topo do mundo” para gritar por ela.

9) Don Lope de Aguirre (Klaus Kinski) em Aguirre, A Cólera dos Deuses

O homem levado pelo rio, e que leva todos seus companheiros à desgraça. Alguém do qual pouco se sabe e retém todo o mal dessa expedição.

8) Harry Powell (Robert Mitchum) em O Mensageiro do Diabo

Pode ser até mesmo cômico em alguns momentos. Com os dedos marcados, torna a vida de duas crianças um inferno.

7) Mabuse (Rudolf Klein-Rogge) em Dr. Mabuse – O Jogador

Fritz Lang fez de Mabuse a síntese do mal que recairia sobre a Alemanha anos mais tarde – e voltaria a ele em outros filmes fantásticos.

6) Frank Booth (Dennis Hopper) em Veludo Azul

É assustador até mesmo quando ajoelha à mulher que aprisiona e interpreta uma criança em busca do seio da mãe.

5) Norman Bates (Anthony Perkins) em Psicose

Duas personalidades duelam nessa figura atormentada, assexuada, que observa a nova vítima com alguma curiosidade antes de atacá-la.

4) Frank (Henry Fonda) em Era Uma Vez no Oeste

Mais lembrado por heróis e figuras honestas, Fonda está assustador como esse pistoleiro que mata adultos e crianças.

3) Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) em O Silêncio dos Inocentes

Ninguém esquece o momento em que ele conta como matou e, em seguida, comeu o fígado da vítima com favas e “um bom Chianti”.

2) Phyllis Dietrichson (Barbara Stanwyck) em Pacto de Sangue

A falsa loura mobiliza um homem aos seus pés para matar o marido e, claro, ficar com o dinheiro do falecido ao fim.

1) Michael Corleone (Al Pacino) em O Poderoso Chefão – Parte 2

Transformado em líder na primeira parte, de rapaz assustado à chefe mafioso vingativo, Michael forma-se vilão na segunda parte. É capaz de matar o próprio irmão quando é traído. Seus movimentos são calculados, sua frieza é extrema. Assusta justamente porque é real e palpável.

Atores presentes em dois filmes: Al Pacino, Bette Davis, Daniel Day-Lewis, Edward G. Robinson, Glenn Close, Humphrey Bogart, James Cagney, Kevin Spacey, Laurence Olivier, Orson Welles, Robert De Niro e Rudolf Klein-Rogge.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Veja também:
Os 250 melhores filmes de todos os tempos

A Felicidade Não se Compra, de Frank Capra

Chegar ao Natal é inevitável. O caminho natural à data mais celebrada, momento em que os americanos – e outros povos do mundo, aqui assistidos do alto, por Deus e anjos súditos – mostram corações abertos. Momento crucial, por sua vez, em que o cinema precisava recorrer à data após uma guerra mundial. Servia de remédio para o cinismo.

À época, entre insinuações de sexo, damas fatais, câmera na rua, algo como A Felicidade Não se Compra só podia clamar pelo passado: é a ele que os anjos olham para descobrir o protagonista, a história de um amável George Bailey – ou, antes, de um James Stewart em transformação, prestes a embarcar nas obras de Hitchcock e Anthony Mann.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O diretor Frank Capra havia, como seu astro, retornado da Segunda Guerra. O gosto do público havia mudado. Sua obra, em pleno diálogo com a década anterior, era estranha demais – tão cedo – àquele espectador suscetível à melancolia, ao sofrimento, de ressaca, o que se refletia no também clássico Os Melhores Anos de Nossas Vidas.

Mais que uma disputa pelo Oscar une esses dois filmes. O de William Wyler, que ficou com a estatueta dourada, é sobre retornar para casa, sobre a América transformada, sobre novos tempos, produto do conflito; o de Capra, ao contrário, é sobre um homem que não consegue deixar sua casa. Tenta e fica, tragado como está ao passado.

Pois Capra, em movimento reverso, à época ousado sem deixar perceber, não teria outro sucesso de bilheteria: é provável que pouca gente tenha enxergado ali mais que “um filme de Natal”, e o próprio cineasta não concordava totalmente com o rótulo. Seu protagonista – assistido por anjos, galáxias, ou deuses – tem a oportunidade de ver a vida de sua cidade sem sua existência. Percebe assim um tesouro: sua própria constituição.

Chega a esse pequeno filme da própria vida quando está sobre uma ponte, à neve, para se suicidar. É então abordado por um anjo, mas não qualquer um: em cena, Henry Travers está em busca de suas asas. O velhinho perfeito a essa figura amável, talhado à maneira do cinema dos anos 30, como Lionel Barrymore ou Thomas Mitchell.

A essa altura, Bailey tem tudo. Não consegue enxergar. Tem a mulher dos sonhos, os filhos dos sonhos, vive em uma daquelas cidades que ele – talvez sem saber – gostaria de construir, como diz no início. Essa é a história de um sonhador que não precisou ir longe para construir “sua cidade”; apenas ficou ali, emperrado, para marcar sua história.

No dia em que estava pronto para ir embora, após a morte do pai, viu-se obrigado a desfazer a mala. História de destino, obviamente para não se levar a sério em seus pequenos percursos, mas para se penetrar em sua totalidade, na inegável mágica à qual Capra lança o público em sua sede por corações puros, necessidade que, de tempos em tempos, retorna.

Filme que questiona o cinismo, e que não escapa (não poderia) à forma das obras anteriores do cineasta, com idealistas que cantarolam ao menor sinal de alegria, que confrontam um grupo de senadores corruptos, com toda uma população que se une em prol do herói das massas para avançar contra poderosos corruptos, a exemplo do banqueiro interpretado por Barrymore, posto em seu trono, cercado por estátuas.

Capra era americano em excesso justamente ao apontar as maçãs podres de sua nação: políticos, banqueiros, homens ricos e avarentos, aos quais alguém como George Bailey não passaria de um pobre apaixonado destinado à pequena família, à cidade perdida no mapa, a ser cortejado por uma bela garota (Gloria Grahame), talvez desesperada para tomar um ônibus e fugir desse espaço em que todos se conhecem.

O momento em que o herói corre pela rua, feliz em redescobrir a vida, faz de Bailey alguém a ser sepultado pelos “novos tempos”. Sua sobrevida pode ser explicada pelo Natal, nesse rótulo ao qual o filme viu-se pregado: o homem em questão – tão amável, tão familiar – vive em um mundo de anjos na terra, da família à beira da árvore enfeitada.

(It’s a Wonderful Life, Frank Capra, 1946)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Capra, instituição americana

Prelúdio para Matar, de Dario Argento

O herói desorientado, em busca de respostas, é outra vez a personagem de Dario Argento. Homem que escava paredes, que invade escolas no meio da noite, impedido de parar: à medida que se aproxima da resposta – mesmo enquanto ilude o espectador de que é capaz de fugir –, torna-se a próxima vítima do assassino oculto.

Do mal saltam mãos com luvas de couro em Prelúdio para Matar, outro giallo exemplar de Argento. Mais ainda, o olhar, as frestas nas quais o assassino embrenha-se para observar suas vítimas, a aproximação aos objetos – bonecos enforcados, pequenos diabos, punhais – que compõem o espaço escuro.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

Argento, de novo, volta-se à obsessão do olhar, portanto à câmera subjetiva. Primeiro, ao olhar do assassino (escondido) e depois ao olhar do investigador (em cena) para revelar o quanto há de enganador nessa relação. Se por um lado deixa ver todos seus atos de crueldade, o assassino nunca aparece; se por um lado se deixa ver, incluindo suas fraquezas, o herói sempre expõe enigmas em relação ao mundo que observa.

Para Argento, não há saída possível: Prelúdio para Matar é – como sua Trilogia dos Bichos – um filme sobre ironias e esconderijos, sobre pessoas curiosas que cavam buracos para sentir – pelo prazer que não assumem – o cheiro ruim que vem à tona.

Havia, em O Gato de Nove Caudas, uma clara homenagem a Blow-Up, de Antonioni: o crime escondido na fotografia, a do homem lançado em frente ao trem. É necessário que um cego ajude o jornalista e seu fotógrafo a descobrirem esse crime, a observarem essa imagem com mais cuidado. Em Prelúdio para Matar, Argento saca o próprio ator de Blow-Up, David Hemmings, mais humano, menos enérgico.

Interpreta Marcus Daly, pianista solitário, acostumado a templos para ensinar música, cercado por pilares e luzes calculadas, por gente colocada em cena de forma tão artificial que não raras vezes – pela inegável beleza – faz pensar em um filme de Visconti. O luxo contrapõe os crimes, como ocorreria em Suspiria.

Desde os créditos, Argento deixa claro que interrupções são possíveis: entre um crédito e outro dos profissionais envolvidos com o filme, vê-se a cena de um assassinato, da qual uma criança é testemunha. É o sinal da ligação entre a morte e a infância, com a música infantil que retorna em outros momentos da obra.

É, antes, um problema de criança, um trauma, a relação entre pessoas do mesmo sangue. O vermelho da abertura, no interior do teatro, é essa celebração: mistura de paixão e morte, ao mesmo tempo o cenário envelhecido, luxuoso, o mundo limpo e distinto sobre o qual Argento debruça-se para retirar novas interrupções, revelar violência.

O teatro recebe a palestra de uma telepata. Durante a demonstração de seus poderes (ler a mente das pessoas sem prever o futuro), ela vê-se “cortada” pelos pensamentos do assassino, talvez pela interrupção (de novo) de uma lembrança. Interpretada por Macha Méril (uma das musas de Godard), a telepata é a primeira vítima do criminoso, morta ao ter o pescoço cortado pelo vidro da janela, momento presenciado por Marcus.

O vermelho lança o público a outro universo, recobre a personagem central em um labirinto da qual não mais escapa: como James Stewart em Um Corpo que Cai, ele segue à morte sem se explicar, como se o próprio impulso do cinema – a obsessão pelo olhar, por descobrir o que há atrás das paredes – fosse suficiente.

Talvez essa seja a grande lição de Hitchcock a Argento: mesmo que a trama e alguma situação pareçam inverossímeis, o clima delirante sussurra ao público que se trata de sonho, de loucura, algo incontrolável. O que talvez explique as reservas do próprio Hitchcock em relação a alguns momentos de Um Corpo que Cai.

Em Prelúdio para Matar, o pianista é acompanhado por uma jornalista forte e curiosa (Daria Nicolodi) que existe para fazer perguntas, para oferecer caminhos e, sobretudo, para desviar a atenção do espectador. Ela deixa claro, mais de uma vez, seu desejo pelo pianista ocupado demais com a teia de mortes, com a investigação que o levará à identidade do assassino, à infância de canções delicadas e bonecos partidos.

(Profondo rosso, Dario Argento, 1975)

Nota: ★★★★★

Veja também:
Trilogia dos Bichos, de Dario Argento

Clash, de Mohamed Diab

Cabem, em um mesmo camburão militar, tipos diferentes em um Egito em ebulição: de membros da Irmandade Muçulmana a manifestantes a favor dos militares, de radicais a jornalistas, de homens adultos a mulheres e crianças. Todos estão presos em um dia de protestos, a observar a luta a partir das janelas do veículo, a tentar sobreviver.

A direção de Mohamed Diab é dinâmica e não deixa perder o interesse em momento algum. A ideia, contudo, já foi explorada outras vezes: reunir em espaço exíguo pessoas de inclinações políticas distintas e de lados diferentes. Ao ver Clash, vem à mente Um Barco e Nove Destinos, de Alfred Hitchcock, ambientado na Segunda Guerra Mundial.

Curta o Palavras de Cinema no Facebook

O filme egípcio começa com o camburão vazio. Vê-se sua estrutura metálica enquanto se ouve o trânsito, o som das ruas, a buzina dos veículos. Ainda que o som remeta à realidade, a imagem que se impõe é quase irreal, espaço inabitável e inatingível, uma pintura como representação do cárcere.

Pois será também real e ganhará movimento, proximidade. A exploração do espaço é fundamental. E se às vezes o que há dentro mais parece irreal e absurdo, um teatro de faces conhecidas, de demarcações, discursos políticos, o que há fora carrega o horror da realidade: tudo o que explode a partir da janela é filmado com extremo realismo.

Nessa divisão – entre o espaço do texto, da concentração das faces, das luzes calculadas e, do outro lado, o que mais parece documentário, correndo do lado de fora –, vê-se a força que o filme exerce. E que torna seu desfecho tão difícil. A partir de uma guerra de interpretações, de pessoas que pedem aproximação cada vez maior, é difícil crer em um término que leve a outro estado senão o da liberdade.

O sentido do confinamento tem a ver com a cegueira política. No pequeno espaço, todos se convertem em humanos, e a certa altura todos precisam se ajudar. Nesse camburão, os confinados estão sob o poder de uma força totalitária, sob a evocação da humanidade ou da selvageria, ou uma ou outra, ao passo que fora tudo é conflito.

A intenção, claro, é colocar o espectador como prisioneiro. Não apenas do espaço, mas das pessoas. Em uma batalha interna encampada por gente de lados opostos, resta crer na possibilidade de que essas mesmas pessoas sejam parecidas. Em meio a tantos solavancos, é difícil diferenciar uma ou outra.

Mesmo um grupo favorável à intervenção militar no Egito termina no camburão. Ao atirar pedras contra os jornalistas que já estavam ali, acusados de atuarem a favor da Irmandade Muçulmana, esse grupo é preso no camburão. Islâmicos favoráveis ao regime deposto também são detidos em seguida. O confronto é então inevitável.

Os confinados são colocados à margem: aos militares assistidos pelos vãos da janela ou da porta, não significam nada porque não fazem mais parte da guerra do lado de fora. E quando um soldado revolta-se e resolve ajudá-los, termina preso no camburão. É um sinal de humanismo raro entre o confronto que toma as ruas.

A clausura imposta por Diab é, primeiro, metafórica: de um lado ou de outro dos conflitos, as personagens são reduzidas a quase nada. São expostas à brutalidade dos militares, depois à da própria turba revoltada que toma as ruas. De um lado para outro no veículo apertado, elas não têm mais ninguém a recorrer, ou em quem acreditar.

(Eshtebak, Mohamed Diab, 2016)

Nota: ★★★☆☆

Veja também:
Argo, de Ben Affleck
Seis filmes recentes sobre a mulher no Oriente Médio