Alberto Moravia

O Conformista, de Bernardo Bertolucci

A negação do desejo dá espaço ao autoritarismo. Em todo o decorrer, é com Marcello Clerici que se vive essa confusão: nem fascista nem libertário, homem que se deixa levar pela posição cômoda, conformista que aceita matar o próprio professor e, ao fim, sai às ruas, à noite, para ver “a queda de uma ditadura”, como ele mesmo diz.

Homem entre a luz e a escuridão, inclinado a ver a segunda como muitos, ou todos, que capitularam ao regime de Benito Mussolini. O diretor Bernardo Bertolucci, ao lado do diretor de fotografia Vittorio Storaro, constrói sequências que colocam o homem nessa intermitência, troca de cores, o que representa seu estado d’alma confuso.

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Não se deseja amaciá-lo ou desculpar seus atos: enquanto no jogo, na guerra, aceitando a missão dada, um fascista dos pés à cabeça. Mas, como homem que é, ainda que difícil enxergar, Clerici tem seus conflitos. Como no Mito da Caverna, compra as sombras projetadas na parede como verdade, abraça a mentira como conveniência.

Isso é o fascismo, diz Bertolucci, a partir do livro de Alberto Moravia: o homem entre luzes e sombras, em tempos estranhos, em busca de algo para lhe dar alguma “normalidade” à contramão de “desejos estranhos”; homem que adere ao autoritarismo como resposta à forma reprimida como cresceu, marcado pela experiência homossexual com o chofer, ainda criança, alguém que o seduziu e acreditava ter matado.

O fascismo como tentativa de ser alguém normal, ainda que isso, segundo Moravia, ou Bertolucci, seja apenas um delírio de ditaduras em busca de limpeza; esses homens – representados, sobretudo, pelos camisas pretas que emergem da floresta, entre luzes que ainda ultrapassam as árvores ao fim – estão com as mãos sujas de sangue.

Luzes e sombras alternam-se na abertura. Após o vermelho e o preto, a claridade do dia deixa ver todas as cores. Mais tarde, no encontro com o comparsa no corredor de um restaurante em Paris, cidade que serve à lua de mel e à morte de seu professor, o protagonista outra vez está sob o efeito da alternância, do lustre que balança de um lado para outro.

Ainda depois, perto do fim, momento em que seu corpo está distante do de sua mulher (Stefania Sandrelli), a luz é interrompida e, por segundos, a tela escurece. É quando Clerici deixa sua casa para ver o que sobrou de sua terra, quando assiste à cabeça de metal de Mussolini sendo arrastada pela rua, quando reencontra seu amigo cego que usa sapatos de cores diferentes (alternância). Mais de uma vez, seu país é representado pelos “cegos” que venderam suas almas ao Duce.

Nunca um filme chegou tão longe ao tratar do fascismo ou de qualquer regime autoritário. O desejo é o que torna a vida de Clerici tão difícil: aquele que viveu no passado, reprimido, e que o faz parecer um homossexual preso ao armário; e aquele que passará a viver ao encontrar Anna (Dominique Sanda), a libertária companheira do professor.

O outro sexo confronta-o. Anna convida sua mulher – típica burguesinha fútil e submissa – a dançar. Toca a outra como se todos estivessem sujeitos à libertação de seus corpos, ou como se o ato nada mais fosse que diversão. O aspecto libertino dessas pessoas deixa Clerici sem caminho, atordoado, à redoma de corpos que a certa altura o envolve.

Viu, em outros dois momentos, mulheres que podem ser Anna. Certamente as desejou. Uma delas, ainda no início, no covil fascista no qual recebeu sua missão; a outra, em outro espaço ocupado por fascistas, no qual recebeu sua arma. Talvez essas mulheres desejadas nada mais sejam que a imagem de sua mulher ideal, a ser encontrada: Anna.

O amigo cego (José Quaglio) repara nas inclinações de Clerici ao espírito daquele momento, parecendo mesmo um soldadinho pronto a qualquer ordem: “Todos gostariam de ser diferentes, mas você, ao contrário, quer ser igual a todo mundo”, declara. Observa, depois, que são amigos porque “são diferentes dos outros”, como se reconhecesse – logo ele, um “cego” – a terra arrasada, a caverna banhada às sombras em que pisam.

Em vida de conveniências, Clerici decidiu construir sua normalidade e abafar desejos. Descobre, no avanço ao passado ou à desejável Anna, ou ainda no sorriso permissivo do professor que gosta de ver a mulher nos braços de outra, uma normalidade ilusória. Interpretado na medida por Jean-Louis Trintignant, o protagonista é, antes, um desalmado, moralista pequeno, ser ignóbil como retrato de sua época.

(Il conformista, Bernardo Bertolucci, 1970)

Nota: ★★★★★

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Bastidores: O Conformista

Se a beleza nunca é vazia, isso se dá porque é veículo de uma preocupação pungente, que Moravia transmite a Bertolucci e pode ser resumida a uma pergunta: como pode o homem comum italiano transformar-se em celerado sob determinadas condições históricas, como sob o domínio de Mussolini? Esta é a pergunta pela natureza e pela condição de possibilidade do fascismo, questão que atravessa a história italiana ao longo do século 20 e, como todos sabem, ressurge viva e premente no século 21.

Luiz Zanin Oricchio, crítico de cinema, em seu blog no jornal O Estado de S. Paulo (leia a crítica completa aqui). Abaixo, o diretor Bertolucci e seu diretor de fotografia, Vittorio Storaro; na imagem seguinte, a atriz Stefania Sandrelli é vista atrás do cineasta.

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Entrevista: Luiz Zanin Oricchio

O crítico Luiz Zanin Oricchio estudou psicologia e filosofia na USP, fez pós-graduação em psicanálise, clinicou, estudou fora do país e descobriu no cinema seu exercício diário. Como explica ele, são de dez a 15 filmes por semana. E tudo começou quando escrevia um livro de ficção. Mergulhou em Bertolucci e seu O Conformista. Sem querer, viu-se fazendo crítica de cinema.

É o que ele conta, entre uma pergunta e outra, na entrevista. Fala sobre a reação de um leitor a uma análise de Não Matarás, sua opinião sobre o investimento estatal e faz declarações esclarecedoras. “O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana.” Zanin foi editor do Suplemento Cultura do Estadão por nove anos. Atualmente é repórter especial, colunista e crítico de cinema do jornal. É também presidente da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema).

Em uma análise recente de O Artista, você termina seu texto questionando. Diz “e daí?”, o que dá a impressão de que filmes como este parecem mera diversão ou nostalgia. Você se deixa levar pelo coração quando analisa um filme?

Com o “e daí” quis dizer que o filme, apesar de muito legal, não deixava mais nenhum lastro em meu imaginário. Não tinha maiores consequências. O coração está sempre presente, enquanto bater. Mas não pretendo jamais fazer crítica unicamente “com a emoção”, isto é, descerebrada. Estilo meu, o que fazer?

O trabalho do crítico inclui, além de informação, a opinião. Você recebe muitas críticas por causa das coisas que escreve? Lembra-se de algum caso que lhe chamou a atenção, de algum filme que criticou ou mesmo elogiou e que não foi bem recebido pelos leitores?

Lembro de dezenas de casos assim. Num deles, escrevi um texto longo, falando de Não Matarás, do Kieslowski, e classificando-o como obra-prima. Alguns dias depois recebi uma carta (era tempo da carta, não havia e-mail) de um juiz de direito dizendo que eu lhe havia proporcionado uma das piores noites da vida dele. Respondi dizendo que sentia muito, etc, mas o grande cinema era assim. Podia desagradar. Mesmo porque (isso eu não disse) o filme questionava a própria profissão do meu leitor.

Quando começou a trabalhar no Estadão, acha que já tinha um conhecimento de cinema suficiente para tal cargo? Você se cobra muito?

Já tinha uma informação relativamente boa, e com o tempo a gente vai melhorando um pouco. Mas sempre acho muito insuficiente. Não sei se algum dia vou me satisfazer com meu trabalho. Mas se esse dia chegar, será a hora de parar.

Quantos filmes assiste por semana? Resta tempo para ficar com a família?

Os filhos, enteados no caso, estão crescidos. Minha mulher (Maria do Rosário Caetano) é jornalista e crítica de cinema também, o que resolve bastante as coisas. Fazemos muita coisa juntos, inclusive viagens de trabalho. Acho que, entre filmes no cinema e DVD, dá entre dez e 15 por semana. Em época de festival é muito mais. Chega a quatro ou cinco por dia. Mas não gosto dessas maratonas. Faço porque sou obrigado.

As grandes capitais do país representam, de certo modo, muita diferença em relação a outras cidades (muitas delas sem um único cinema e espaços para exibição). Acha que investimento estatal em salas de espetáculos em geral é uma saída para preencher esse vazio?

Acho que o Estado deveria investir em salas populares. É a única saída para o déficit que ainda temos em termos de cinema. O nosso circuito não chega a 2,7 mil salas. É muito pouco.

Com tanto enlatado chegando aos cinemas semanalmente, ainda é possível acreditar no cinema americano de estúdios?

Chega muito enlatado e chega também cinema de estúdio. Na verdade, eles dominam a máquina, em nível mundial.

Não acha que falta um pouco de ousadia aos cineastas da atualidade em relação aos temas abordados ou mesmo às formas utilizadas? Nos últimos anos vimos, tenho a impressão, poucas propostas e novos olhares para causar alguma mudança (lembro-me do movimento Dogma, do cinema iraniano, mas isso ainda nos anos 1990). Essa carência tem explicação?

Sempre há alguma ousadia, se você olhar e pesquisar bem. Mas são casos isolados. O cinema, de maneira geral, está muito conformista, muito voltado ao mercado. O público, também de maneira geral, anda muito acomodado, sem vontade de experimentar novas abordagens, novas linguagens, etc. Não é um problema só do cinema. É a nossa época.

Em uma análise recente de números da Ancine, você fez alguns apontamentos sobre obras brasileiras que fizeram grande bilheteria. Em geral, comédias sem muito cérebro. A televisão e a dita “estética da Rede Globo” têm culpa nessa procura do público?

O cinema de mercado não deve ser culpabilizado. Ele não esconde o que quer: grana. O problema, acho, é financiar esse tipo de cinema com recurso público. Acho um contra-senso.

Você escreve muito também sobre futebol. Por que acha que é tão difícil fazer um bom filme sobre futebol?

Se você quiser encenar um jogo, vai parecer falso. O jeito é ir atrás da história humana que existe por trás do jogo. Isso, o Ugo Giorgetti percebeu e realizou muito bem em seus dois Boleiros. Mas o futebol, como recurso narrativo, aparece em vários outros filmes, como Linha de Passe, por exemplo. Não é sobre futebol, mas o futebol está dentro. Acho que, pelo que representa em termos do nosso imaginário social, o futebol é ainda um filão a ser mais (e melhor) explorado. Mas há o mito de que filme de futebol não dá bilheteria…

Como aquele gol que o torcedor não esquece, existe a cena que o cinéfilo sempre resgata em mente. Qual é a sua?

Várias. Para ficar com uma, a corrida de Geraldo Del Rey em direção à praia no final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, ao som da música de Sérgio Ricardo.

Se tivesse que de citar um filme que fez a “lâmpada” acender em sua cabeça, para que se tornasse crítico, qual citaria? Alguma história por trás dessa relação com a obra?

Antes de me tornar jornalista nunca pensei (nem a sério e nem de leve) em ser crítico de cinema. Era só cinéfilo e isso me bastava. Mas eu estava escrevendo um livro de ficção e percebi que um dos personagens tinha uma relação profunda com um filme que eu havia visto, na época fazia pouco tempo, e me deixara impressionado. Era O Conformista, de Bernardo Bertolucci, baseado no romance de Alberto Moravia. Sem querer, fazendo ficção, eu havia escrito uma crítica. Pode ser que a coisa tenha nascido aí.

Leia aqui uma das críticas que Zanin escreveu sobre O Conformista.

Rafael Amaral (29/02/2012)