Alan J. Pakula

Quatro filmes sobre a política nos tempos de Nixon e o Watergate

Um período pouco glorioso da história americana é resgatado na breve lista abaixo, todos com questões políticas e jornalísticas ao centro. Obras feitas com sombras abundantes, salas fechadas, doses de paranoia e a tentativa de encontrar a desacreditada verdade. Abaixo, quatro filmes expõem o momento com um olhar de fora para dentro, o que explica a ausência de Nixon, de Oliver Stone.

The Post: A Guerra Secreta, de Steven Spielberg

Spielberg narra a história da publicação dos “papéis do Pentágono” na imprensa americana, sob a ótica dos profissionais do jornal Washington Post, sobretudo de sua publisher e de seu editor. Os documentos provavam que o governo americano sabia da enrascada da guerra na Indochina e ainda assim seguiu em frente.

Mark Felt – O Homem que Derrubou a Casa Branca, de Peter Landesman

A história do Garganta Profunda, um dos mais famosos delatores da história e cuja identidade demorou para ser revelada. Seu protagonista, Mark Felt, é quem leva algumas informações preciosas a um dos jornalistas do mesmo Washington Post, sobre o caso Watergate, que mais tarde resultaria na renúncia de Nixon.

Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula

Nesse belo filme feito no período da Nova Hollywood, os jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, do mesmo Washington Post, unem-se para descobrir o que há por trás da invasão à sede do Partido Democrata, justamente o prédio Watergate. Para desencavar os fatos, Woodward contará com a ajuda do Garganta Profunda.

Frost/Nixon, de Ron Howard

A renúncia de Richard Nixon ficou presa à mente do apresentador britânico David Frost, que se moveu para entrevistar o líder americano. A série de entrevistas ficou famosa e o filme de Howard apresenta os momentos que antecedem esse encontro de homens diferentes, em um embate cuja força se faz pelas palavras.

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Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula

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Klute, O Passado Condena, de Alan J. Pakula

O que atrai Bree Daniels à prostituição é a possibilidade de interpretar e assim mostrar força. Nesse jogo, pensa ela, talvez com razão, não vence quem paga, o cliente, mas quem convence ter desejo e faz do corpo o produto perfeito, das palavras a arma que os homens talvez não encontrem, na vida comum, com tanta facilidade.

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A moça que não leva o nome ao título do filme poderia ocupá-lo facilmente. Klute, O Passado Condena é mais dela, menos da personagem-título, o investigador interpretado por Donald Sutherland (alguém que entrega sempre o oposto, a não interpretação). Bree vive sob a máscara da grande cidade; tenta ser atriz e só consegue sê-la como prostituta.

O beco em que se encontra ultrapassa a trama de assassinato que percorre o filme de Alan J. Pakula: é sobre prostituição, sobre a arte de viver para interpretar nesse ofício, não sobre um assassino em série que mata garotas de programa. É também sobre o espírito liberal de seu tempo, um filme nitidamente da Nova Hollywood, sujo, despojado, sempre a perder o controle sobre as personagens e deixar pontas soltas, a escapar da suposta trama.

É aqui que a prostituta chega ao divã. Não se sabe se é o primeiro filme em que uma prostituta procura uma psicóloga para se compreender melhor. E a resposta da outra, sendo então a figura paga para ouvir, colocando Bree como contratante, não a contratada, é a mais sincera possível: não há poção mágica para resolver problemas psicológicos.

O problema de Bree é explicado nessa mesma sessão de psicoterapia: mesmo com o empoderamento de sua interpretação, ela tem reservas em relação ao corpo. Ao oferecimento do objeto. Ainda assim, confessa que passou a gostar “porque não me fez sentir sozinha”. A aparição do investigador Klute muda tudo: Bree não poderá comprá-lo com o corpo. Sua interpretação terá de ser ainda mais convincente.

Klute chega a Bree enquanto procura por um homem desaparecido. A prostituta teria recebido algumas cartas obscenas do procurado. A investigação leva a crer na existência de outro homem, um assassino, também responsável por matar outras duas garotas de programa. Não é difícil concluir que Bree é a próxima da lista.

Pakula mantém o tom seco a cada nova cena. Em alguns momentos, enquadra as personagens do alto, como se estivessem sob vigia. Os créditos de abertura remetem à ideia de vigilância, com o gravador e as vozes, com as confissões – na verdade, interpretações – da protagonista, ao telefone. “As inibições são boas, pois é tão bom superá-las”, declara.

Das inibições sofre Bree ao se apaixonar por Klute. O filme não chega à confissão desse amor. Sua heroína nega-se até o fim. Na investigação que auxilia, com o investigador, ela sente-se correta demais, do lado limpo da história. Confessará, no plano final, em narração, que sua fuga poderá durar pouco. Poderá retornar a Nova York rapidamente. Não se escapa de seu meio natural quando se é autêntica.

Em seu meio, precisa se sentir suja. Pakula entrega a Jane Fonda uma de suas grandes cenas, talvez a maior de sua carreira, o momento em que, perdida, caminha entre pessoas, em uma festa, na qual beija um homem qualquer – com prazer, ou interpretando, não se sabe -, para depois, entre música alta, terminar ao lado de seu cafetão (Roy Scheider).

Não se pode negar a própria natureza. O assassino teria negado a sua. O homem engravatado, o poderoso sob a luz da janela de vidro, a ver e agarrar a cidade grande do alto do prédio, precisa se esconder. Vive outro tipo de interpretação. Nega a própria natureza e se destrói, ou destrói as mulheres que o fazem ver seu pior lado.

Klute é um grande filme sobre esconderijos. O gravador, na abertura e ao longo do filme, vem a confirmar a necessidade de expor esses esconderijos. Confissões, gravadas ou não, aos amantes de ocasião (clientes) e à psicóloga. “Por uma hora, sou a melhor atriz do mundo, a melhor trepada do mundo”, afirma Bree, a atriz, à sua ouvinte, na sessão de psicoterapia.

(Klute, Alan J. Pakula, 1971)

Nota: ★★★★☆

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Todos os Homens do Presidente, de Alan J. Pakula

O jornalista Hunter S. Thompson descreveu com intensidade e ironia a juventude nixoniana durante a cobertura da convenção republicana de 1972, da qual Nixon saiu candidato à reeleição.

Em uma passagem rápida de Todos os Homens do Presidente, a televisão revela essa face jovem, aos gritos pelo presidente. A câmera aproxima-se do rapaz – louro, jovem, eufórico – enquanto balões caem sobre todos, enquanto o homem mais poderoso do mundo é encaminhado ao novo mandato e aos episódios que levariam a sua renúncia.

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Apesar de se tratar de um filme (também) sobre o jornalismo impresso, vale evocar a televisão. Todos os Homens do Presidente contrapõe o jornal – ou o trabalho de dois jovens jornalistas – aos efeitos e imagens da caixa recheada de fios e luzes. A televisão exalta – com seu retrato da juventude nixoniana – uma imagem desejada, o ufanismo típico ao momento em que se coroa o líder máximo da nação.

Boa parte de Todos os Homens do Presidente leva à escuridão. Um filme sobre jornalismo, sobre gente afogada em becos com fontes obscuras, em pântanos nem sempre visíveis. Há passagens paranoicas, claro, pois é uma obra de Alan J. Pakula, feita nos anos 1970, quando grampos e tudo o que incluía certa parafernália estavam na moda – tempos de A Conversação, de Coppola.

O primeiro jornalista em foco, o protagonista, é Bob Woodward (Robert Redford). Sua apresentação leva a alguém inexperiente mas curioso. Convence como jornalista. Fosse este um filme passado na época atual, o som da tecla do computador não poderia conferir efeito semelhante ao clima observado aqui, com as batidas à máquina.

As reportagens do Washington Post assinadas por Woodward e Carl Bernstein (vivido por Dustin Hoffman) são apenas uma parte de todo o lixo que veio à tona sobre os métodos de espionagem republicanos. O filme trata essas descobertas com vazio e isolamento: há apenas os jovens repórteres, algumas ligações, invasões às casas de supostas fontes e entrevistados, mas nada muito sólido sobre o vilão.

Os repórteres são obstinados. Gente que não para de trabalhar, que dorme de tão cansada – porque trabalhou muito – e sai em corrida, noite adentro, para não perder o encontro com uma fonte.

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De 1976, o filme reproduz uma perseguição às vezes a lugar algum – e, frequentemente, com um gigante ao fundo, a imagem da Casa Branca às sombras, com poucas luzes em seu recheio. O inimigo está ali e não está. Para fora da redação do Post não é possível confiar em ninguém. A redação é iluminada. Para fora sobra escuridão. Washington torna-se ameaçadora com a fotografia de Gordon Willis.

O filme é real? Provavelmente não. Trata-se de uma aproximação, equilíbrio que não exclui heróis. Ao mesmo tempo, pessoas nada distantes da realidade. Tem-se, com Pakula, a ficção em grande forma, elegante, emocionante sem um único tiro, um único confronto físico, ou um rastro de perseguição que teria existido.

É tão verdadeiro quanto A Conversação. E orquestrado em cores frias como outros filmes da época, a exaltar a podridão silenciosa de um país ainda tomado pela imagem do jovem louro, na televisão, feliz e com um pedido óbvio: mais quatro anos para Richard Nixon. Ironia. Os quatro anos não chegariam ao fim.

(All the President’s Men, Alan J. Pakula, 1976)

Nota: ★★★★☆

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Os dez melhores filmes com Meryl Streep

São raras as edições do Oscar em que Meryl Streep não aparece entre as indicadas. Vencedora do prêmio três vezes, em 2015 ela concorre a melhor coadjuvante por Caminhos da Floresta, dessa vez como uma bruxa. Nada melhor que lembrar, por isso, essa carreira incrível, de filmes variados e papéis desafiadores.

Ainda que suas personagens guardem diferenças óbvias, principalmente quando vive a bruxa de um universo de fantasia, é possível encontrar os traços de Meryl em quase todas. O principal talvez seja a comum fragilidade levada aos dramas, em grandes papéis como em A Escolha de Sofia, As Horas, ou mesmo quando sai do esperado em Silkwood.

“Meryl não se cansa. Ela é durona nos ensaios e em tudo mais. Ela pode até fazer graça, mas nada é brincadeira para Meryl”, disse o produtor Joseph Papp, em entrevista à revista Rolling Stone, em um perfil da atriz publicado em 1981.

A lista abaixo não traz necessariamente as melhores interpretações da atriz, mas os melhores filmes, segundo este blog, com os quais ela esteve envolvida.

10) Silkwood – O Retrato de uma Coragem, de Mike Nichols

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9) Adaptação, de Spike Jonze

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8) A Mulher do Tenente Francês, de Karel Reisz

a mulher do tenente francês

7) As Horas, de Stephen Daldry

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6) As Pontes de Madison, de Clint Eastwood

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5) Kramer vs. Kramer, de Robert Benton

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4) A Escolha de Sofia, de Alan J. Pakula

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3) Manhattan, de Woody Allen

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2) O Franco Atirador, de Michael Cimino

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1) Entre Dois Amores, de Sydney Pollack

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